Outra vez
11 Capítulo 11
I.
Algo dentro dele se rompera. Aquele verão, cuidadosamente planejado, começava a afligi-lo. Agora percebia que pela primeira vez na vida experimentara o egoísmo e que nele não se reconhecia. Sempre estivera disposto a partilhar, a agir em prol dos outros, do coletivo. Todas as vezes em que deixara o seu desejo individual prevalecer sobre a sua consciência, acabara se sentindo incomodado. Agora era pior, sentia que não era ele mesmo, sentia que soava falso. Percebia que, no fundo, Sansa tinha razão. E ainda que sua relação com Daenerys fosse forte, aquele momento foi exatamente o princípio da deterioração. Eles iriam até o fim do desejo, mas uma vez saciado, o destino daquela relação era acabar em cinza fria. Mas purgar o desejo é uma coisa muito difícil.
Jon aguardava um corvo anunciando a chegada do navio ou mesmo ao destino final, Winterfell. Nada chegou para ele. Nem Sor Davos lhe escrevera. Quem recebeu um corvo foi Sam. Disse que era mensagem de Gilly, que regressara da Campina, onde estivera com Lady Tarly. Jon imediatamente resolveu aconpanhá-lo e regressar bem antes do previsto. Notou que Sam ficou um pouco desconcertado com a sua decisão repentina. Gendry Waters também resolveu se incluir na viagem por causa de Arya. Estava preocupado com ela. Achava estranha a falta de notícias. Notara que ela estava muito contrariada ao partir.
Daenerys não tocou mais no assunto do casamento e nem nos nomes das ladies Stark. No íntimo, temia o que ela avaliava como uma infuência de Arya sobre Jon. Sabia que Arya era um dos elos mais fortes de Jon com o Norte. A segunda ameaça, a mais perigosa porque aparentemente descartada, era Sansa. A sua aparente fragilidade, seu orgulho, sua teimosia, sua humanidade, principalmente, mereciam um alerta. Sansa Stark não tinha nenhum poder especial. Não sabia lutar, não comandava exércitos, navios ou dragões. Daenerys acreditava que ela era tão tímida que não conseguiria nem falar em público. Mas era absurdamente humana, tinha uma enorme força agregadora. Tyrion a tinha em alta consideração, aquela Brienne de Tarth, tão altiva e cheia de pudícia, a servia e por ela daria a vida. Jon entrara em notória desvantagem numa batalha porque ela dissera que era preciso recuperar Winterfell. E quando o proclamaram Rei do Norte, ele provavelmente só sentira a concretude daquele gesto porque ela estava a seu lado. Aquela beldade de cabelos vermelhos. Sem nenhum dom que a distinguisse a não ser aquela força absurda, oculta pela aparente calma. Elas partiram e a paz de espírito de Jon regressara ao Norte com elas. Não chegara uma satisfação, uma queixa, um pedido. Elas eram muito boas, aquelas duas. Talvez fossem tão boas porque não faziam de propósito. Era o gelo do Norte em suas almas.
II.
Gendry observava Sam durante a viagem de navio. Não o conhecia direito, mas ele parecia preocupado. Ficava trancado na cabina lendo livros sobre doenças e tratamentos. O rei também parecia agoniado para chegar. Quando conversavam sobre Arya, o rosto de Jon se iluminava. Mas o nome de Sansa não era mencionado, o que para Gendry era prova de que ele pensava nela constantemente.
Aquela manhã fria em Castle Black onde ela se lançara em seus braços. Os dois, lado a lado, enfrentando as provocações de Ramsay Bolton. Ela ao lado dele, em Winterfell. Lembrava como ficara feliz, quando ela viera para ele. Ela não tinha nascido assim, ela se aperfeiçoara. Amá-lo era parte desse aperfeiçoamento. Como pudera tratá-la de forma tão distante? Como pudera achar que ela não tinha dons? Que ela não era notável. Olhar pelos outros podia não ser algo grandioso, podia não provocar o grande brilho do reconhecimento, mas era algo que eles tinham em comum. O senso do dever. Por isso ele trouxera o Povo Livre, por isso ele fora apunhalado pelos seus pares, por isso ele aceitara ser o Rei do Norte. E por isso ele a escolhera para ser sua rainha. Pois mesmo fascinado por outra, sabia que Sansa protegeria o Norte até o fim, seria uma grande mãe para os seus filhos e o amaria e honraria até o fim de seus dias. Isso era alguma coisa. Na verdade, muita coisa. Talvez aquela frieza, aquele distanciamento tivesse sido a sua maneira de se defender, pois como viver envolvido com duas mulheres tão diferentes?
Precisava rever Sansa e pedir perdão por não ter conseguido ser um homem melhor.
III.
Chegaram a Winterfell ao entardecer. Estavam muito cansados. Sor Davos veio recebê-los. Olhou de Sam Tarly para Jon, com um expressão esquisita. Depois chegaram Tormund e Brienne. Ambos estavam com uma cara péssima. Brienne estava com os olhos vermelhos.
—O que houve?- perguntou Jon com um mau pressentimento.
—É melhor ir vê-la, Tarly.-disse Sor Davos.
Sam foi com Brienne. Jon sentiu um aperto no coração.
—Quem está doente?
—Lady Sansa, Majestade.
Uma pancada, um mal estar, Jon sentiu um desespero genuíno invadi-lo. Saiu andando atrás dos outros. Sabia que era algo grave. A cara deles era a cara de quem estava vendo a morte. No corredor, viu Arya do lado de fora do quarto.
—Sansa... eu preciso vê-la...
Arya o conteve suavemente. Depois abraçou-o com a ternura dos velhos tempos. A ira do último encontro havia se desvanecido totalmente. Ali estava o seu irmão amado. Ele percebeu que ela estava soluçando baixinho em seu peito.
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