Outra carta no escuro
1 A você.
Notas iniciais
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Olá, meu caro amigo.
Como vai você? Já faz um tempo que não lhe mando alguma carta, mas disso o senhor sabe muito bem o motivo. Como você diria mesmo…? Ah, sim. A culpa é da vida cotidiana.
Falando nela, a minha tem sido um pouco entediante. Na verdade, essa descrição funciona mais como um eufemismo. Todos os dias eu acordo com uma tremenda sensação de déja-vú e um pressentimento de que já sei como tudo vai terminar. E não, eu não aprendi a prever o futuro e nem mesmo tenho o hábito de consultar horóscopos. Você sabe que não. Isso é uma das poucas coisas que nós dois temos em comum.
Eu apenas sei disso, pois ultimamente meus dias tem sido todos iguais. Uma constante procura por objetivos e metas, mas nenhuma satisfação duradoura. Sinto-me como um produto obsoleto, uma velharia numa prateleira que perdeu sua função e que ninguém quis.
Parece que eu desaprendi a ser otimista e a confiar no consolo das manhãs e do Sol que sempre volta no horizonte. Ando preferindo as madrugadas e noites. Elas são perfeitas para murmúrios e lamentações. Há meses não consigo mais dormir.
Você se lembra de quando éramos crianças e eu lhe disse que viajaríamos pelo mundo todo? Que navegaria nas gôndolas de Veneza, passearia pelas paisagens da Macedônia e pelas ruas de Paris? Que se você estivesse disposto, eu te levaria comigo numa aventura pelos templos do Japão e você poderia me guiar pelas vielas de Roma? Eu me lembro que você riu de mim e me disse para parar com absurdos, pois não tínhamos dinheiro nem mesmo para comprar o lanche no recreio da escola.
Mas, eu olhei para seu rosto com toda a determinação que uma criança de 8 anos pode ter e lhe disse: “Pois bem, então depois não me venha chorar pedindo pra te levar comigo”.
O irônico é que agora sou eu quem gostaria que você levasse junto.
O tempo passou.
Agora, quando penso nestes dias infantis, fico me perguntando quando foi que tudo mudou. Parece uma lembrança vivida por uma outra pessoa. Quando foi que me tornei tão desapegado dos meus próprios sonhos? Quando foi que tudo perdeu a cor e se tornou preto e cinza?
Você provavelmente me diria que isso é normal, uma vez que eu nunca tracei nenhum tipo de plano para minha vida.
Por outro lado, eu nunca pensei que fosse precisar de um. Aliás, em questão de montar esquemas e planejamentos, eu nunca fui muito bom. Você, sim.
Quando combinávamos de assistir a um filme na sua casa, era você quem sempre calculava o preço das locadoras, da pipoca e do nosso suco (artificial) de limão. Você sempre contava nossas moedas e trocados e calculava com precisão quantos biscoitos e sorvetes poderíamos comprar juntos. Seus cadernos eram sempre cheios de datas e lembretes, e não me lembro de um único dia onde você não fez a lição de casa. Quando nos perguntaram o que queríamos ser quando crescermos, você respondia sem hesitar qual faculdade e tipo de trabalho faria (até hoje, eu ainda não tenho certeza dos meus). As suas decisões sempre foram implacáveis e precisas. Sempre. Até o fim.
Confesso que no fundo, nutria uma grande inveja dessa tua convicção. E um grande ódio também. De que outra forma eu poderia justificar minhas amarguras? Por favor, não me odeie por isso. Você deveria entender meus sentimentos muito bem. Mais do que qualquer outra pessoa.
Ah, eu quase posso ouvir sua voz de censura, me dizendo para deixar de ser egoísta. Mas só desta vez, não vou atender o seu pedido. Hoje, não.
Só hoje, eu me darei o direito de ser o centro do universo. É um pouco reconfortante pensar que somos a coisa mais importante de todas. E um pouco deprimente também.
Se eu for o centro de tudo, o ponto de partida para todas as retas paralelas; o protagonista e o centro das tramas da história, eu poderei ignorar tudo ao meu redor e afundar no meu colchão sem sentir remorsos. Assim, poderei me livrar da responsabilidade de minha conduta, justificar meus erros e vazios. Assim, eu vou conseguir dormir em paz.
Assim eu posso sentir raiva de você o quanto quiser sem sentir nenhuma culpa. De certa forma, essa é a maior vantagem de todas.
Ah, não pense que eu me esqueci do que você fez. É claro que eu ainda não te perdoei. Não sei se algum dia vou conseguir.
No entanto, eu ainda sinto essa vontade insana de te escrever cartas. Sabe, eu me sinto um tanto patético por isso. Depois de tudo, você continua sendo o único amigo que eu já tive. Imagino se alguma vez você pensou o mesmo sobre mim.
Tenho quase certeza de que não. Se tivesse, não teria me deixado sozinho. Bem, me diga se eu estiver errado.
Caramba, isso é uma droga. Eu devo estar mesmo ficando louco.
Ah, que se dane.
Não é como se fizesse alguma diferença agora. Mas eu gostaria que sim.
Você costumava dizer que eu vivia com a cabeça fora da realidade. O pior é que acho que isso é verdade. Acho que uma parte de mim nunca vai aceitar as coisas como são. Acho que ainda não consigo aceitar o que aconteceu com você.
Seu idiota. Quem é o egoísta lunático agora, hein? Você.
Sim, você mesmo!
Droga!
Por que você fez aquilo?! Por que não falou comigo? No que você estava pensando?
Cara, eu nunca vou te perdoar.
E ainda deixou todo mundo para trás, fez tudo milimetricamente planejado, com esse seu jeito maníaco por controle.
Eu te odeio, seu imbecil neurótico e hipocondríaco! Seu filho da mãe! Seu cretino miserável, seu…
Caramba. Droga…
Ei… Onde você está agora? Por favor, me conte. Você sabe que eu sei guardar segredo. Não direi a ninguém, prometo.
Eu já não sei mais onde te procurar. Fui no seu apartamento ontem, mas tudo já foi desocupado. Não sobrou nada de você naquele lugar. Não sobrou nada de você em lugar nenhum. Tudo desapareceu. Até mesmo as nossas locadoras favoritas foram fechadas. Cacei você no pátio da nossa antiga escola, mas não consegui te ver lá também. Vou no parque todo dia à tarde, mas você nunca apareceu. A verdade é que você sumiu do mundo e eu não consigo assimilar isso.
Por quê…?
Por que você decidiu ir embora pra sempre?
Eu sinto sua falta, seu desgraçado.
E já estou ficando cansado de escrever cartas sem endereços, sabendo que você nunca vai me responder.
Bem, eu espero que pelo menos você esteja lendo isso, de algum modo, seja lá onde você estiver. Pois eu vou continuar te escrevendo sempre que me bater essa raiva. Pode me chamar de louco, de idiota, eu não ligo. Pode rir e me chamar de qualquer coisa, se quiser.
E agora eu acho que está na hora de terminar isso aqui. O texto está ficando longo e eu já estou escrevendo as letras todas borradas. O sol já está nascendo aqui na minha janela, o meu café já esfriou e daqui a pouco eu vou ter que ir pro trabalho.
Bem… até mais. Sei lá. Eu acho.
Ah, que se dane.
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