Você está acordada, certo?

Eu imagino que você esteja cansada de tudo isso. Imagino que seu coração esteja batendo tão depressa que você mal está conseguindo respirar. Imagino que esteja fazendo um enorme esforço para rastejar para fora dos lençóis. A vida não parece tão terrível nos sonhos, certo?

Eu sei, daqui de onde estou, você caiu novamente naquela armadilha, não foi? Preciso mesmo dizer o nome? Acho que você já sabe que estou falando daquela coisa chamada amor. De fato, nós, ou melhor — eu — uma vez que eu nada mais sou que você mesma dentro de alguns meses, não nascemos para o amor. Não nascermos para sermos amadas, nem para amar. Não sem sofrer, como eu sei que você está sofrendo agora.

Mas o verdadeiro veneno não se chama amor — visto que, pelo menos ao meu ver, você não o ama de verdade, apenas acredita que não suportará o peso da rejeição, embora eu esteja aqui para provar o contrário. Mas como dizia, o verdadeiro veneno não é o amor, mas sim, a esperança. Essa maldita esperança que você tem de que tudo vai voltar a ser como antes.

Você, no fundo já sabe, que esse "relacionamento" não vai a lugar nenhum, certo? Eu sei, eu sei... você não está pronta para admitir isso. Seu orgulho é gordo demais e se alimenta, nesse exato momento dessa esperança que te envenena, lenta, cruel e dolorosamente, dia após dia, como um ácido.

Bem, eu prefiro, então, pular a parte em que digo para você que tudo ficará bem — mais uma vez — e ir direto para aquela outra parte que fará você me odiar tanto quanto, mas eu realmente preciso dizer que tudo, até mesmo esse pé na bunda homérico que você levou (embora se recuse a admitir) também tem um lado muito bom. Não me leve a mal, eu sei que todos odiamos ouvir isso quando estamos sofrendo, como você está. Mas me ouça apenas um pouco mais.

Você está exausta, certo? De todo esse esforço que está fazendo para se tornar o que você chamou de "a melhor versão" de si mesma? Você só queria se sentar em frente ao seu computador e jogar durante um dia inteiro, mas em vez disso você acorda cedo para fazer um milhão de coisas sem sentido, na intenção de se tornar alguém que você não é.

Eu sei que você, secretamente pensa no quão delicioso seria não ter que se preocupar com nada disso, embora esses pensamentos a aterrorizem, eu sei que eles a aterrorizam menos do que a mera ideia de vê-lo novamente. Você NÃO quer vê-lo novamente. Acho que você consegue admitir isso.

Mas o lado bom — eu disse que havia um — é que, quando tudo isso acabar, quando você, finalmente, se cansar de tudo isso — eu não vou te iludir ainda mais que você já vem se iludindo — vai doer como o inferno.

Esse é o primeiro passo, o segundo — daqui para a frente só melhora — vai ser vomitar toda essa esperança com a qual você vem se embriagando através das suas lágrimas. Você vai chorar muito, acredite em mim. Mas será reconfortante.

Depois virá o ódio. Você passará a odiá-lo (ou se dará conta de que já o odiava há muito mais tempo do que levou para se dar conta). Você se sentirá estúpida e passará os próximos meses sendo estuprada pelo pior sentimento de vergonha de toda sua vida (eu admito que ainda não a superei), mas junto com o ódio — essa é a melhor parte — irá experimentar um sentimento de liberdade além dos seus sonhos. Algo que você nunca conheceu.

Você vai pensar: passei a minha vida inteira tentando me adequar ao que os outros esperavam de mim, ser normal (seja lá o que signifique ser normal), e no entanto, a pessoa que eu mais queria me rejeitou. Não ganhei absolutamente NADA com meu esforço — e só os céus sabem quanto esforço. Jamais me senti mais exausta. Depois vai pensar: a opinião dele sobre mim era a única que ainda importava, mas agora nada mais importa. E então, com esse pensamento, você vai sentir que um enorme peso sai de cima de você. De repente as pessoas te acharem estranha já não importa mais, e você vai se sentir a vontade em ser quem verdadeiramente é pela primeira vez na vida.

Portanto, se eu pudesse te dar um conselho, não diria para você desistir de toda essa merda agora, eu sei que você ainda não está pronta. Tudo ocorrerá no tempo certo. Mas o conselho que eu teria para te dar seria, simplesmente tente encarar isso como um rito de passagem — um doloroso rito de passagem. Uma vez que tiver atravessado, você estará mais forte e mais livre do que nunca (ainda mais do que estava quando escreveu UMA CARTA AO PASSADO para o seu EU de 2015).

E repetindo as palavras que uma vez você disse: nos encontramos daqui alguns meses, até lá, apenas viva...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!