Outra Dimensão
70 Por que não é mais parecido com sua mãe?
Notas iniciais
Lilith não entrou em muitos detalhes do que teria acontecido por justamente não querer que começassem a apontar os dedos uns para os outros. Afinal, o que deixou de acontecer não tinha qualquer relevância para os atuais eventos.
No entanto, era difícil dizer o quanto tais eventos poderiam dizer sobre quem eram seus atuais inimigos. Mas o futuro era como um filme inacabado esperando pelo roteirista que o terminasse. Então, era impossível saber como ele terminaria, pois tinha uma infinidade de possibilidades.
Dias após os eventos do Exame Chunin, já com os resultados finais, os jovens voltaram a sua rotina de missões, mas a proteção em torno dos gêmeos e de Boruto aumentou. Os três haviam sido promovidos a Chunin, então não podiam voltar as velhas missões dentro da Vila.
E logo ficou claro que estavam a ser extensamente vigiados mesmo durante as missões. O que começou a deixá-los incomodados como se estivessem lhes escondendo algo importante.
Certa tarde, eles tinham acabado o treinamento e voltavam em silencio para as suas residências, mas Boruto não parava de pensar no estranho de tudo aquilo.
— O que eles não estão nos contando? — questionou, mas para ninguém em particular.
Sarada suspirou, cruzando os braços.
— Vocês já pararam para pensar que, de uma forma estranha, eles podem estar tentando nos proteger? — questionou Daisuke, olhando de um para o outro.
— Do quê? Sarada, me diz, você também não gostaria de saber?
A menina suspirou.
— Por um lado, eu concordo com o meu irmão, mas você não deixa de ter razão, Boruto. Deveríamos ter o direito de decidir o que é melhor para nós.
Daisuke balançou a cabeça, suspirando.
— Meu Kami... Não se metam em mais problemas. Já não basta o que já aconteceu? Não aprecem as coisas, por favor!
Boruto se deteve em um beco, piscando várias vezes. Ele estreitou os olhos e, em um piscar de olhos, desapareceu do campo de visão deles.
Seus companheiros não se surpreenderam. Sabiam bem para onde ele ia e Daisuke o seguiu enquanto a irmã balançava a cabeça em desalento. Como ele podia ser tão cabeça-dura e impulsivo? Mas ela os seguiu.
Naruto estava no topo da Torre Hokage olhando para o horizonte buscando por respostas. A última reunião só trouxera ainda mais questões a serem respondidas, mas respondera a outra série de perguntas que surgira desde da descoberta que os Entes não eram lendas. Só não tinha bem certeza de que realmente apreciara as respostas.
Ele suspirou ao sentir chakras familiares se aproximarem rapidamente de sua posição.
— Não deveriam estar em casa jantando?
— Vocês estão mentindo para nós — afirmou Boruto, sério.
— Nós não estamos mentindo...
— Tá bom, omissão que é basicamente a mesma coisa.
O Hokage riu. Não custava que o garoto tivesse herdado um tantinho da personalidade da mãe?
— Quando eu tinha a idade de vocês, eu tinha os mesmos questionamentos. O que não estão me contando? Por que tenho de treinar noite e dia, passar por tantas avaliações, por que as pessoas me odeiam se nunca fiz nada a elas? Mas ninguém nunca me disse nada.
— E você não gostaria de ter sabido?
Naruto ainda passou algum tempo sem nada dizer.
— Muitos anos atrás, quando meus pais ainda eram bebês, estávamos as voltas com a Terceira Guerra ninja quando o Sandaime Hokage recebeu uma visita no mínimo estranha. Se tratava das versões alternativas de você, meu filho, de você, Sarada, do Mitsuki e do Sasuke.
Os três jovens ficaram em choque.
— Mais tarde, você, Daisuke, também apareceu por alguns momentos antes de se desintegrar. Vocês apareceram, os primeiros viajantes do tempo, atrás de criminosos que queriam alterar o curso da história. Esse incidente, somado aos poucos fatos que eles revelaram, formaram os alicerces da atual realidade... impedindo que muitas situações desastrosas ocorressem.
— E o que tudo isso tem a ver conosco?
O Hokage os olhou por um longo momento antes de dizer:
— Depois dessa primeira aparição, eles nunca mais voltaram e a última vez que nos deparamos com viajantes foram nossos netos porque tanto eu quanto Sasuke havíamos falecido. Treinados por vocês para serem os guardiões dos portais do tempo.
— E os portais são a porta de entrada favorito para inimigos — completou Sarada, mostrando claramente que havia herdado boa parte da inteligência da mãe. — Mas, espera, se eles vem e voltam do futuro quer dizer que possivelmente não os conhecemos, certo?
— Na verdade, eles nem nasceram ainda — confirmou o Hokage, cruzando os braços. — Vai demorar mais alguns anos para que isso ocorra.
Daisuke ouvia a tudo sem emitir opinião, ouvindo toda a conversa. Por que tinha a sensação de que o Hokage não estava lhes contando tudo?
Mas parecia que ele era o único que achava aquilo. Após alguns momentos, sua irmã e seu melhor amigo se deram por satisfeitos, pelo menos por hora, e se foram lembrando-se de que suas mães os esperavam para jantar. Somente Daisuke permaneceu ali olhando o sol se por no horizonte.
— Não é só isso, não é? O que não quer que eles saibam?
Naruto suspirou. Em alguns momentos, o menino conseguia ser tão cabeça-dura e perceptivo quanto o pai.
— Pergunte ao Ryordan...
E em segundos o Hokage se desfez em fumaça, fazendo o menino suspirar. Era mais um de seus clones!
Ele se sentou em posição de lótus e logo esvaziava a mente.
Os dois outros jovens andavam em silêncio pelo cidade pensando que o Hokage não contara-lhes a história toda. E nem esperavam que ele realmente o fizesse.
— Quem será que eles vão ser? — questionou Boruto, como sempre curioso. — E por que os treinamos e não aos nossos filhos?
— Nem sempre um Mestre deseja passar o conhecimento aos seus herdeiros... ou tem a oportunidade de fazê-lo — comentou Sarada, olhando para o céu estrelado do alto de um dos prédios da cidade.
— Tem essa também — disse o rapaz, suspirando exasperado. — Mas eu ainda tenho a sensação de que o meu pai está escondendo algo importante sobre esse assunto.
— Não se precipite, Boruto! — disse a menina, fazendo com que ele a fitasse com o canto dos olhos. — Pode pensar o que quiser sobre o seu pai, mas tem de admitir que ele faz tudo pela sua mãe e por vocês. Eu acho que ele está tentando poupá-lo por considerá-lo jovem demais para toda essa responsabilidade.
— Em outras palavras ele acha que eu sou uma criança.
— Eu não disse isso!
Ele suspirou sem deixá-la terminar. De forma estranha, ela era sua melhor amiga, sua mãe costumava dizer que ela era a única que ele ouvia. Só não admitia isso nem sobre tortura.
— Não posso me atrasar, minha mãe me mata — resmungou ele, se preparando para se despedir da amiga.
— Boruto, só não se precipite, ok? Pense que talvez seu pai queira apenas protegê-lo até que seja absolutamente necessário.
— Você sabe de alguma coisa? Me diria, não é?
— Claro que sim! — disse ela, com firmeza, mas, após ele ter desaparecido de sua linha de visão, seus olhos acenderam prateados.
— Vocês ainda não estão prontos...
— E quando estaremos para saber toda a verdade?
— Em breve! Não coloque o carro na frente dos bois, criança, aproveite enquanto ainda pode sua juventude.
Sem aviso prévio, a presença se desfez deixando a garota pensativa.
Boruto chegou em casa e não ficou surpreso ao não sentir a presença de seu pai na residência. Sua irmã assistia televisão deitada no tapete enquanto sua mãe estava na cozinha fazendo o jantar. Depois de cumprimentá-las, subiu e tomou um banho ainda pensando na conversa que tivera com seu pai ainda a pouco. Sua curiosidade e sua imaginação o faziam tecer inúmeras teorias e possibilidades, mas foi apenas quando já se preparava para descer quando uma possibilidade passou por sua mente.
Ele segurou a maçaneta quando lhe veio a lembrança de uma das frases de Sarada...
Nem sempre um Mestre deseja passar o conhecimento aos seus herdeiros... ou tem a oportunidade de fazê-lo.
E se fossem seus herdeiros os discípulos?
O corredor estava silencioso, os guardas andando de um lado para o outro, mas não perceberam o menino se esgueirando nas sombras. Ele sabia que a punição seria bem pior do que um sermão, mas não podia continuar com aquela dúvida.
Chegou a porta em questão e entrou sem dificuldade. E ficou imediatamente perdido. Havia muitos pergaminhos aninhados entre várias prateleiras e um cheiro de mofo impregnava o ar.
Ele começou a se esgueirar por entre as prateleiras até ouvir um barulho e se voltar assustado.
— O que faz aqui? — perguntou Sarada, com um lamparina nas mãos.
— Eu não aguentava mais, precisava encontrar respostas.
— E invadir a Torre de madrugada é a solução? Você pode acabar preso por isso.
— Você vai continuar falando ou vai me ajudar?
A menina suspirou, exasperada. Odiava admitir que também estava curiosa e isso era irresistível na sua idade, mas só de pensar no castigo que sua mãe lhe daria fazia sua empolgação murchar.
— Essas prateleiras são todas etiquetadas, se não se lembra — disse ela, decidindo-se por fim. — É só procurar no lugar correto.
Mas era muito mais fácil falar do que fazer.
A bibliotecária que organizara aquela sala tinha problemas, só podia. Não havia um padrão, as etiquetas da mesma prateleira podiam ser sobre os mais variados assuntos não necessariamente ligados. Era literalmente como procurar uma agulha em um palheiro.
Já ia alta madrugada quando finalmente encontraram a prateleira sobre “viajantes do tempo”, mas todos eles estavam selados. Em um único havia um ponto quase invisível.
— Satisfeito? Tanto trabalho para nada.
O rapaz também não estava nada satisfeito e, frustrado, bateu a mão direita no pergaminho. Quase imediatamente, um feixe de luz invadiu o espaço e envolveu os dois.
Os guardas imediatamente invadiram a sala, mas nada encontraram. Apenas o pergaminho aberto no chão ainda brilhante.
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