Outra Dimensão
76 Ariel
Notas iniciais
A menina estava encolhida em um canto, tentando não pensar nos rumos que sua vida estava tomando. Como tudo podia mudar de uma para a outra...
Ela abraçou os próprios joelhos, procurando extravasar suas emoções ali onde ninguém podia vê-la desabar. Sua mente vivia e revivia cada uma das vezes que sofrera bullying ao longo do período em que estivera treinando com seu pai.
As crianças em geral tinham medo, então nunca se manifestavam perto do seu pai ou de sua mãe, mas as coisas mudavam de figura quando ela estava sozinha. Havia aqueles que procuravam uma vítima de suas brincadeiras para se sentirem maiores do que realmente eram; outros, que simplesmente repetiam o que os mais velhos diziam pelos cantos e riam como hienas por se sentirem corajosos o suficiente para fazer algo que eles mesmos não tinham coragem de fazer. Nessas horas ela se refugiava em sua mente em busca de isolamento e solidão.
Como ela precisava desesperadamente naquele momento...
De repente, ela sentiu uma mão pousar em seus ombros e ergueu os olhos. Não ficou surpresa com o rosto com o qual se deparou.
— Eu prefiro ficar sozinha...
— Bem, não vejo ninguém aqui além de nós — disse, olhando ao redor com o ar risonho que lhe era tão característico. — Não tem problema tirarmos alguns momentos para divagar...
O rapaz jogou-se ao seu lado, reclinando a cabeça para trás. Os dois passaram alguns momentos nessa posição apenas em silêncio.
— O que quer, Boruto?
— Não tivemos nenhum momento para conversar sobre o que aconteceu e tenho a ligeira impressão de que lá fora seus pais e os meus não nos deixariam por tempo o suficiente para uma conversa decente.
A garota o olhou pelo canto do olho, sabendo de antemão que ele não a deixaria em paz se não o deixasse falar.
— Como eu disse enquanto estávamos lá, aquele não era necessariamente nosso futuro. Tudo depende das nossas escolhas...
— Essa é uma resposta que eu esperaria do tio Shikamaru... Eu quero saber o que você sentiu e o que realmente pensa.
Ela suspirou alto, procurando uma resposta.
— Foi chocante, não é? — perguntou ele, subitamente sério.
— Para se dizer o mínimo!
Os dois riram absolutamente sem humor.
— Acho que o destino achou uma forma bem interessante de me dar uma tremenda lição sobre responsabilidade.
— Boruto, Boruto... O seu problema nunca foi sua falta de responsabilidade, mas a falta de controle sobre seus impulsos. O que invariavelmente mete você e todos os outros em grandes problemas.
O rapaz balançou a cabeça se lembrando das várias vezes em que seus amigos se meteram em problemas apenas por acompanhá-lo em suas peripécias. Era um líder nato, mas isso somado a sua irresponsabilidade invariavelmente os metia em sérias encrencas.
— Por que você tem que ser sempre a responsável?
— Dizem que as mulheres amadurecem mais cedo do que os homens — respondeu, inclinando-se para trás com um ar superior. — E eu certamente sou muito mais madura que você e os outros pestes que te acompanham.
O rapaz sorriu tendo de admitir a verdade nessas palavras.
— Não diga isso ao Daisuke! Tive de cortar um dobrado para fugir da marcação cerrada dele essa noite. Seu irmão é osso duro de roer.
Ela sorriu lembrando-se das várias ocasiões que pensou que adoraria ser filha única para ter um pouco de paz. Ter um irmão vinte e quatro horas por dia em seu pé podia ser exaustivo e entediante.
— Acho que como o meu pai e meu tio ele se esqueceu de passar pela infância.
Boruto ficou em silencio por algum tempo antes de declarar:
— Não vou te forçar a nada que você não queira. Tudo ao seu tempo! Mesmo porque, somos ainda muito jovens para pensar em algo tão definitivo como um casamento e quatro filhos.
— Nem me lembre disso — disse ela, passando as mãos pelos cabelos. Só de lembrar as várias dores de cabeça que sua mãe tivera com apenas dois já a fazia pensar se quatro era realmente uma boa ideia.
Mas o que se via era um sorriso bobo em seus lábios.
— Uma hora teremos de enfrentar toda essa situação, mas não vai ser hoje e nem em um futuro próximo.
— Nisso eu tenho de concordar!
Ela se levantou, mas, de súbito, uma figura se materializou bem onde estavam assustando os dois. Começou com pequenas luzinhas girando ao redor deles até juntarem para formar uma figura estranha. Era um tigre de enormes proporções, de pelo dourado e listras negras com estranhos padrões circulares, mas seu olhar era o que mais amedrontava. Olhos de um verde esmeralda profundo e sobrenatural, como se ali residisse um imenso poder que precisasse de apenas uma provocação.
— Quem é você? — questionou Sarada, levantando-se de um salto. — O que faz na minha mente?
— Assim você me ofende, querida! — ironizou a figura, revirando os olhos. — Acho que nessa realidade nós ainda não fomos formalmente apresentadas. Prazer, sou Ariel, princesa-herdeira dos Guardiões.
— Guardiões? — perguntou a menina, em dúvida. Então, de repente se lembrou e fitou a figura. — Como os meus pais?
— Eles nunca contaram, não é? Minha mãe é assustadoramente parecida com a sua, acha que a ignorância é a melhor forma de proteção... mas de qualquer forma serve para que fiquemos vigiando vocês.
Era estranho ver um tigre sorrir, mas era o que parecia estar acontecendo naquele momento. O que aquela besta de várias toneladas de puro músculo estava achando de tão engraçado naquela situação?
— Finalmente, conhecemos algum Guardião — disse Boruto, levantando-se também e encarando o tigre.
— E você continua o mesmo chato que achava que tinha o Rei na barriga. Eu não tenho sorte mesmo em tudo isso!
— Por que eu acho que vocês são iguaizinhas?
A Besta balançou a enorme cabeça como se fosse absolutamente irônico o que via naquele momento.
— Seus pais só souberam que eram Elos quando era estritamente necessário para que as coisas corressem conforme o planejado, mas você... Minha mãe acha que cedo demais para que seu Mangekiou fosse despertado, mas nem tudo está saindo conforme o script. Não precisa de uma bola de cristal para saber que as coisas estão indo rápido demais.
— Meu irmão também vai ter um Mangekiou?
— Em algumas versões sim, em outras não. Difícil dizer ao certo com tantas versões diferentes da mesma história, mas o seu irmão precisará de sua ajuda quando a hora chegar.
— Como assim?
— Só posso contar até aí — disse, claramente não querendo se alongar nos fatos. — É por isso que estou aqui, para treiná-la para quando a hora chegar. Tora vai precisar de ajuda de alguém daqui de fora e seus pais não serão capazes de tomar as decisões necessárias daqui para frente.
— Isso não me parece nada bom!
— E não é, jovem Boruto! Algum dia, você terá de decidir o que seu irmão quereria e isso determinará o caminho que trilhará a partir dali.
De repente, a Besta se desfez da mesma forma que surgiu.
O casal chegou em casa em silêncio sabendo que teriam uma árdua batalha dali por diante. Nunca pensaram que chegariam aquele ponto da situação, mas ainda bem que estavam vivos para proteger sua filha. Ao contrário dos pais do Naruto.
Assim que abriram a porta, Daisuke deu um salto do sofá onde cochilava já com a adaga em mãos, mas imediatamente relaxou quando viu seus pais.
— E Sarada? — perguntou o pai, olhando ao redor.
— Dormindo no quarto. Acho que ela precisava de um momento sozinha em sua própria mente.
Sakura suspirou enquanto retirava o agasalho que vestia. Odiava quando a filha escolhia se recolher para dentro de sua própria mente ao invés de compartilhar o que estava sentindo, mas tinha de admitir que ela precisava reorganizar seus pensamentos com tudo o que tinha acontecido.
— Os Anciões concordaram em nos ajudar, mas deixamos bastante claro que eles não terão acesso total e irrestrito. Terão de seguir a nossa cartilha e não o que bem entenderem — disse a mãe, cruzando os braços. O rapaz assentiu, entendendo bem o que a mãe queria dizer. — E contamos com sua ajuda para isso...
— Não precisam nem pedir!
Os dois assentiram e subiram as escadas indo verificar como estava a filha.
A cortina do quarto ainda balançava quando a mãe foi examinar a menina e o pai fechou a janela, mas ainda olhou desconfiado para a noite escura. Ele, no entanto, como nada viu, se afastou sem ver o vulto sobre o prédio perto dali olhando para o céu noturno.
O que será que o futuro lhes reservava? Por que Ariel parecia tão preocupada com Daisuke?
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