Numy levantou abruptamente após ouvir um grito, ela sabia que o dia seria longo visto que o castelo estava sendo preparado para a comemoração anual da Aliança. Essa seria a primeira vez que participaria de forma efetiva da reunião, como princesa de Axen, ela recepcionaria uma das famílias reais, assim como sua irmã Manã fazia desde que completou dezesseis anos. Ela entendia a importância dessa celebração, afinal, a união dos reinos era consideravelmente recente. Seu bisavô conseguiu a unificação há quase noventa anos, então era necessário que os povos fossem lembrados desse feito para que a guerra não voltasse. Numy não era a personificação da alegria naquele momento, mesmo feliz em poder finalmente fazer parte disso, ela odiava ser acordada. Ela olhou em volta tentando achar quem a havia acordado. Para seu espanto, mas não surpresa, era seu irmão mais velho, Kenue.

— Diga-me que existe uma boa razão para você me acordar. — ela disse se cobrindo novamente.

— Você sabe o quanto o dia de hoje é importante. — Kenue jogou uma almofada de camurça vermelha nela — Então a mamãe me mandou aqui me certificar que você não vai estragar tudo.

— Ela me ama tanto. — Numy se levantou para que Kenue a visse revirar os olhos.

— Você sabe que tudo precisa ser perfeito, finalmente consolidamos o poder.

— Minhas mais sinceras felicitações à vocês, mas eu não vou fazer parte do circo hoje.

— Numy. — a voz dele era assertiva, mas ela sabia que ele concordava com sua forma de pensar.

— Eu sei que você acha que estão me tacando aos lobos, eu também pensei isso. Mas olhe pelo lado bom, eu estou prestes a casar com a mulher dos meus sonhos.

— Pois então volte a realidade. Você a ama, meus parabéns, mas ela não ama você. — ela respirou fundo — Me desculpe Kenue, eu sei que o amor é algo a ser construído, vocês apenas precisam de tempo para tal.

— Eu sei que ela vai me amar. — ele deu de ombros — Afinal, todas me amam.

— Eu desejo do fundo do coração que isso aconteça.

— Então que tal levantar e finalizar os preparativos?

— Não é assim que um futuro rei fala. — ela deitou novamente.

— Numy Demetria Afoni, levante dessa cama. É uma ordem.

— Não vou mesmo. Sem contar que eu não tenho nada para fazer até os Ducons chegarem às três. Eu acertei todos os detalhes ontem à noite.

— Não brinque comigo mocinha.

— Eu fui dormir às quatro da manhã para me certificar que tudo estivesse resolvido, me deixe ter meu sono de beleza.

— Você tem até meio-dia ou a rainha em pessoa virá te tirar dessa cama.

— Não fale isso nem de brincadeira.

— Eu estou indo. Meio-dia, nem um minuto a mais. — ele parou brevemente na porta e a bateu com força.

“Às vezes eu realmente odeio a minha vida” ela pensou virando para o lado e cobrindo a cabeça.

Do outro lado do castelo as preparações estavam a todo vapor, cortinas de cetim prata estavam sendo postas para cobrir as portas e janelas, para que a luz externa não atrapalhasse. Uma enorme mesa que foi ornamentada com flores e pedras preciosas apoiava as centenas de taças de cristal, como se elas repousassem lá até a hora em que mãos frenéticas as embalassem pela noite. No canto do salão um grande palco foi montado, a orquestra composta por cinco violinos, dois cellos, duas flautas e um oboé já estava passando as partituras, ao lado da orquestra um lindo piano de cauda com os pés talhados foi posto para que em algum momento durante a festa Manã tocasse algumas músicas. O cheiro dos bolos e doces já preenchiam o salão antes mesmo da primeira fornada sair. Manã que havia acabado de entrar no salão olhava maravilhada para cada detalhe da decoração, ela sempre gostou de festas, era encantador a forma com que os funcionários do castelo conseguiam transformar qualquer canto de lá em um lugar de contos de fadas. Ela foi surpreendida com uma forte rajada de vento que abriu as portas do salão fazendo com que um estrondo ecoasse. Ela sentiu que se encolheu quando o vento tocou sua pele. Aquilo lhe deu medo, quando mais nova sua avó costumava contar que ventos fortes eram mal presságio e que sempre ocorriam antes que algo acontecesse a alguém na família, Manã achava aquilo engraçado, pensava que a avó queria assustá-la com essa história, porém antes do seu avô ficar doente, ela sentiu esse mesmo vento. Desde então, ela torcia para que isso nunca mais acontecesse.

O vento também abriu as janelas de Numy, que já sabendo como a irmã se sentia sobre esse tipo de sinal correu para vestir algo e ir ao seu encontro. Ela não precisou ir muito longe, assim que terminou de descer as escadas esbarrou em Manã.

— O vento… — começou Manã, mas não se atreveu a terminar.

— Não se preocupa Manã — Numy a abraçou — Não vai acontecer nada… e se acontecer, vamos dar um jeito.

— Como você pode ser tão otimista Numy? Nós duas sabemos o que isso significa.

— Significa que será uma noite fria, só isso. Não vamos nos preocupar com o que não podemos prever.

— E se acontecer algo hoje?

— Eu resolvo. Agora aquiete esse coração e suba, Você precisa se arrumar para ver seu noivo.