Outono Cinza
1 Outono Cinza
Notas iniciais
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Recostado em um container abandonado no meio de um ferro velho, faço rabiscos no chão com meu indicador e me recordo dos momentos que vivemos aqui. Eu e você. Juntos. Não nos preocupavamos com o futuro porque ele jamais existiu naquela época. Não havia chegado em nós ainda. Tudo que queríamos era apenas aproveitar cada segundo de nossas vidas juntos. Mas é uma pena que tudo passou muito rápido. Rápido até demais....
Um pingo d'água me rouba da presilha dos meus pensamentos e me adentro na container para escapar da chuva. Ah! a chuva de março que tanto esperei!
Ei!? Você ainda lembra, não lembra? Do nosso primeiro beijo em um dia como esse. A chuva nos abençoava com seu manto molhado. Queria tanto que aqueles tempos retornassem... Que você retornasse... Onde está? Disseram que se erguesse minha cabeça para o céu te encontraria, mas onde?
A chuva evita cessar. Meu telefone repleto de ligações, mas de quem não importa. A ligação que tanto espero não vem de forma alguma. A vontade de me adentrar na chuva é imensa, e não me resisto. Ando pela rua escura, luzes negras dos semáforos, um vento frio que me traz agonia e a solidão, minha mais nova companheira. Me pergunto se você não se lembra ou escolheu esquecer de tudo que vivemos. Daqueles dias de verão na piscina do clube em que a pele de nossos dedos se enrrugavam de tanto que ficávamos nela. Seu sorriso era ainda mais quente no verão. Suas mechas eram ainda mais loiras no verão.
A chuva traz minhas melancolias a tona. Caminhando sem rumo, seria melhor que me levassem até você hoje. Um carro ou um assalto. De método que não seja falho. De forma que seja rápido e indolor. Que esta chuva se tornasse uma correnteza que me arrastasse até você.
Não queria estar pensando assim. Não deveria desistir de você. Vejo tantos casais felizes a minha volta e você? encontrou outro casal? Ao chegar em casa, retiro meus sapatos e corro até meu quarto predestinado. Quero lhe escrever uma carta. Quero expressar o que não pude para você.
Eu sinto seu doce perfume em todo lugar que estou. Parece que o vento faz questão de trazê-lo até a mim. Pare vento, por favor. Eu quero tentar esquecer. Quero seguir meu caminho. Apesar de ainda te amar tanto, sei que você escolheu outra estrada para percorrer. E eu preciso entender para meu próprio bem. Da carta surgem apenas lágrimas e melancolia. Não consigo pôr o que sinto em um papel. Vasculho meu celular a procura de uma foto sua e lhe admiro. Tão linda! Como consegue ser tão linda!?
Sinto que não foi a melhor escolha voltar para casa. Meus pais estão brigando na sala agora. Saio pelos fundos para que não me vejam, apesar de estarem muito entretidos na discussão. Como um andarilho que me tornei, continuo uma saga sem rumo. Tudo no mundo me lembra você. Você era o sol deste mundo. As estrelas sentem inveja do seu brilho. A Lua lhe pedira em namoro, mas você jamais aceitava. Porque? Será que você me amava a ponto de rejeitar a lua? Não entendo...
Me acomodo em um banco de uma praça, apoio o papel na madeira e tento prosseguir com minha carta. Por sorte, a chuva havia cessado e o banco não estava muito molhado. Escrevo tudo que me vem à mente. Não permito esquecer de um único detalhe. Enfim, acho que consegui terminar de escrever para você. Os versos me trazem vergonha de reproduzir em voz alta, por isso guardarei com cuidado. Nessa hora não havia nenhum correio aberto, mas não é dessa forma que pretendo lhe entregar esta carta. Pretendo entregar pessoalmente, mesmo não sabendo onde você se encontra agora.
Penso então em ir até sua casa. Você lembra da primeira vez que fui nela? Você estava com o cabelo todo bagunçado e havia acabado de acordar. Sonolenta, permitiu que eu entrasse. Faz um bom tempo que não vou lá. Será que está da mesma forma desde a última vez em que estive lá? Enfim chego à sua casa. Pelo visto pintaram a sacada e os cachorros se multiplicaram. Aperto o interfone e ouço uma voz rouca e cansada. Após a apresentação, me permite entrar.
A senhora me oferece um chá e diz para que eu me acomode no sofá da sala. Não vou demorar muito. Posso sentir que você ainda mora nesta casa. Ainda sinto o cheiro do seu perfume rondando este lugar. Enquanto a senhora despeja lembranças sobre você, eu caminho até uma fotografia sua que estava na estante. Em uma estante enfeitada com ramos de flores. Sentei-me e observava fixamente sua imagem. Tão linda! Afasto-me após longos minutos observando sua foto. Curvo-me e me despeço da senhora. Ao sair da casa a chuva voltou a cair.
Continuo caminhando até aquela floricultura. Aquela em que lhe comprei as mais belas tulipas. De uma ponta a outra não encontro uma mais bela que você. É impossível. Nem o girassol, nem a rosa. Nenhuma delas. Sua beleza é única e inesquecível. Queria você aqui comigo. Queria sentir o calor reconfortante do seu belo sorriso. O sorriso que conquistava todos que o viam. Atreva-se a descobrir um ser humano que não se apaixonasse por você. Tão bela e tão única.
Sinto tanto a sua falta.
Mas agora encontrei meu caminho! Seguirei em frente e estou decidido a fazê-lo! Você se foi junto as folhas mortas de outono. Sim, mortas. Se foi com elas. Eu morri junto quando me deixou. Onde você está? O céu está nublado e não consigo te ver nele. Seu brilho foi ofuscado pelas nuvens negras e pesadas. Desde então o Sol nunca mais surgiu. Nem mesmo no verão. Só tivemos chuva nos últimos meses. Um céu medonho e frio. O céu ainda é dos namorados, mas não é o mesmo sem você. O mundo se tornou cinza sem você aqui. As noites se tornaram mais longas e os dias viraram noite.
Sem o Sol não há vida. Sem você não há o Sol.
Prometo que tentarei seguir em frente, mesmo que leve anos para isso. Mas não me permitirei lhe esquecer. Nunca. Jamais. Não sou capaz de esquecer a estrela mais brilhante do céu. Desejo que essa chuva pare, para que eu possa ver o seu brilho mais um vez.
Ei? Você lembra disso? Você adorava brincar na chuva, mas sempre ficava resfriada. Era eu que tinha que cuidar de você. Você lembra? Ei? Porque não me responde? Onde você está? Até quando meu mundo permanecerá cinza? Por favor, volte e traga a luz para meu mundo. Isso é injusto. Não quero ficar sozinho aqui e você sabe que tenho medo.
Será que você irá voltar junto com a Primavera? Estarei esperando...
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