Outono
2 Nevoeiro
Olhei de um lado para o outro tentando assimilar, Pedro fitou diretamente ao meu olho, segurou meus ombros me empurrando e disse:
— Não há mais nada que possamos fazer... Ele se foi
E saiu em direção há recepção para mexer nas papeladas de óbito, e eu fiquei lá pasmando, enquanto a mulher gritava, mas é claro que a culpa foi minha, Meu Deus sim, a culpa foi minha, eu poderia ter sido mais rápida, deveria ter achado mais rápido, porque essas coisas sempre acontecem comigo, eu preciso ser mais ágil se eu quiser ajudar meu irmão...
Pelo resto dia passei na emergência e aquela cena não saiu da minha mente e talvez nunca vá, me sinto culpada. No final da tarde fui me trocar, tirei a roupa de hospital e vesti a mesmo blusa de lã laranja que ganhei de uma tia, verifiquei meu celular; uma mensagem da minha mãe e outra do Matheus, abri:
Mãe: Fui ao shopping com o seu irmão, talvez volte tarde, pois pegamos a ultima sessão, um beijo.
Eu: Ok!
Em seguida abri a conversa do Matheus:
Amor: Vai ficar comigo esse final de semana?
Eu: Tenho trabalho sobre cardiograma, mas posso tentar se você não se importar de eu fazer na sua casa.
Bloqueei o telefone, terminei de me arrumar e sentei, comecei a chorar lembrando-se de toda aquela cena perturbadora, de um bebe mortas e mãe desconsolada e pensar que eu fui à causa disso, eu quem poderia ter ido mais rápido... Pedro entrou, sentou do meu lado, pegou minha mão, apesar de a mão dele ser 3x maior que a minha e falou:
— Aquilo não foi culpa sua — como ele saberia que eu tava assim por causa disso?
— han? Aquilo o que? Para estou bem. — disse com a cabeça ainda baixa
— Vamos Lorena, todo mundo percebeu como você ficou, só quero que entenda que não foi culpa sua, nem de ninguém, o bebe já estava com a pulsação quase irreconhecível. — ele tirou uma mecha de cabelo do meu rosto, ergui minha cabeça com a cara toda escorrida de maquiagem e disse:
— Não, eu poderia ter sido mais rápida. — disse olhando em seus olhos azuis
— Vamos esquecer isso, eu te pago uma coxinha antes de a gente entrar pra aula
Eu ri, ele me puxou pela mão para eu levantar, entrei em meu carro e vi-oele piscar o farol pelo retrovisor piscou o meu e dei partida. Chegando a faculdade, estacionei meu carro e esperei Pedro me encontrar. Pedro entrou na faculdade junto comigo e desde então temos uma amizade ótima, e agora ele esta no estagio no hospital junto comigo, me sinto mais segura. Geralmente o ajudo com as varias mulheres que ele leva pra casa de “como-dar-um-fora-e-não-magoar” ou “como-se-mostrar-um-homem-interessado-mas-não-tanto-assim”, enfim e vários outros conjuntes relacionados às mulheres (talvez isso seja um pecado contra as próprias mulheres e algumas me chamariam de pró-machismo). Enfim, as vezes ele tem alguns problemas familiares também e eu procuro conversar da melhor forma...
Ele veio até mim e disse: ”VAMOS?” quase gritando, eu ri e fomos entrando na sala o Profº Robson começou a explicar o trabalho desse final de semana; cardiograma. Ok, esse trabalho é bem importante para a área oncologia que é a que eu vou seguir a aula ao todo foi bem divertida, eu gosto do professor Robson, a aula dele se torna seria e ao mesmo tempo distraída, o que me ajudou nessa sexta-feira conturbada. Pedro me chamou para um barzinho mas dei uma desculpa e ele saiu com os amigos, dirigi até minha casa e estava tudo apagado estranhei mas me lembrei que minha mãe saiu. Entrei, acendi as luzes e fui preparar umas lingüiças para comer, reesquentei o arroz do almoço e logo em seguida minha mãe chegou e colocou as coisas no sofá, ainda fritando as lingüiças eu disse:
— Oi mãe, estou fritando lingüiças pra gente! Como foi lá?
Estranhei pois ela não respondeu, virei-me e ela estava parada olhando pra mim, franzi a sobrancelha e disse:
— O que foi?
—Lucas, você pode subir um pouco? Preciso conversar com a sua irmã — E Lucas correu pelas escadas a cima
— O que aconteceu? O que foi? Fala logo!! —Comecei a me preocupar enquanto varias hipóteses rondavam minha cabeça
— Filha, eu sai com o seu irmão e vi uma coisa que você não vai gostar...
— Pelo amor de Deus! Fala!! — disse arregalando os olhos
— Eu vi o Matheus com outra mulher no barzinho, se beijando.
No momento em que ela falou isso, franzi minha sobrancelha e gritei:
— Voce ta louca! ELE NUNCA FARIA ISSO COMIGO, ELE ME AMA! Para de tentar estragar a minha vida, deve estar bêbada denovo!
E antes que ela pudesse dizer outra coisa subi as escadas enquanto sentia o cheiro de queimado das lingüiças, mas nem alertei. Aonde já se viu, o Matheus me traindo, ele nunca faria isso, eu confio nele! Ele me ama, nunca faria isso. Mas por algum motivo aquilo ficou na minha cabeça alguns minutos, tentei ligar para Matheus mas caia direto na Caixa Postal... Então dormi um pouco, amanha converso com ele...
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