Out Of Myself
5 Capítulo 4
Já estava anoitecendo quando Garcia caminhava lentamente. Andava de cabeça baixa sem ver aonde os seus pés o levavam. Pensava em tudo que estava ocorrendo. Nos monstros, no seu irmão lhe deixando pistas, nos seus pais. O whiskey que havia tomado não havia amenizado o ódio que fervia pela sua mãe. Tinha quase certeza agora que fora ela que deixara aquela mensagem na secretária eletrônica.
Não sabia aonde estava, a cidade parecia lhe levar por um caminho específico, aonde Garcia era somente o passageiro e ela o motorista. Seu celular não dava estática, nenhum monstro apareceu de surpresa, nada aconteceu, Garcia somente andava.
Já havia anoitecido por completo. As estrelas brilhavam no céu. Suas pernas já se cansavam de andar e sua mente já se cansava de pensar, foi quando aconteceu.
Tudo parecia estar sendo redecorado por ferrugem e sangue. As paredes das casas e dos prédios, os postes, a grama secara.
Seu celular fazia estática e Garcia viu 3 vultos humanos a sua frente, de costas para ele. Eram seus pais e seu irmão.
- Pai? Mãe? Henrique?
Os três se viraram e Garcia levou um susto.
Estavam feridos, profundamente. Seu irmão tinha cortes por todo o peito enquanto sua mãe estava com o seu braço sangrando. Seu pai parecia ter sido atingido na cara por algo pesado.
- O que houve com vocês? – perguntou Garcia, ainda sem se aproximar.
- Fomos atacados – disse seu irmão, sua voz tinha um tom de desespero – Esses malditos monstros por todo o lado.
- Tudo bem – disse Garcia – Vamos embora agora – e deu um passo em direção a eles.
Porém, ao dar o passo, algo ocorreu. As roupas deles começaram a se deteriorar. A pele começou a se esticar e ficar em um tom mais branco. O braço direito de seu pai começou a virar em forma de um chicote. A mão de sua mãe se tornou uma garra e seu irmão começou a crescer.
- Porque você retornou – dizia sua mãe. A voz era igual a que ele tinha ouvido na secretária – Ninguém te quer aqui. Você não tem família aqui.
- Está na hora de aprender boas maneiras – disse seu pai, em uma voz distorcida.
- O menos amado, o menos cuidado e o mais perturbado – disse seu irmão, numa voz grave e assustadora.
Garcia não sabia o que fazia. Não sabia se atirava ou não.
- Atire – disse uma voz ao seu lado. Vincent estava ali – Atire, eles não são sua família, são monstros.
Seu irmão começava a se aproximar. Garcia tremia, sua mãe gargalhava.
- ATIRE AGORA.
Boom, Boom, Boom. Três tiros, um para cada um.
O mundo começou a voltar ao normal quando os três corpos caíram no chão.
Garcia fechou os olhos e se ajoelhou.
”Eles não eram minha família, eram monstros, foi mais um truque dessa cidade. Henrique e meus pais já devem ter saído daqui”
- Abra os olhos, brilho-do-sol – disse Vincent debochadamente
Garcia abriu os olhos. Não eram mais três criaturas que estavam mortas no chão, mas sim Henrique e seus pais. O cérebro de Garcia pareceu cair. O ar lhe fugiu dos pulmões.
- NÃO, NÃO — berrou ele – EU MATEI MONSTROS, NÃO ELES. ELES HAVIAM SE TRANSFORMADO EM MONSTROS. NÃO NÃO NÃO.
- Talvez você não deva confiar em tudo que vê, meu bom amigo – falou Vincent, irônico.
Garcia se aproximou dos corpos. Todos estavam de bruços. Ele virou o corpo de seu irmão. Seu rosto estava coberto do próprio sangue. Garcia limpou. O olhar de seu irmão na hora da morte parecia uma mescla de surpresa com desespero.
Toda a culpa caiu sobre Garcia. Ele deitou sua cabeça sobre o peito do irmão e começou a chorar. Percebeu que por mais que tivesse odiado seu irmão, ali, no fim, Garcia o amava, assim como amava seus pais.
As lágrimas de Garcia lavavam o peito sujo de sangue de seu irmão.
”EU os matei, matei minha família inteira. Oh Meu Deus, me perdoe, me perdoe”
- Que momento emocionante não – começou Vincent – Na hora da morte, morte causada por você mesmo, todo o seu amor e arrependimento flora em seu coração, não é lindo?
Com fúria, Garcia se levanta rapidamente e atira com sua doze em Vincent, as balas atravessam o corpo do homem pálido sem causar-lhe dano algum. Vincent riu.
- Você é um fantasma? – perguntou Garcia.
- Uma lembrança.
- Lembrança? De quem?
- Dessa cidade.
- Cidades não têm lembranças.
- Essa cidade tem, e aqui vai a que a sua mente alterou.
Um dor de cabeça horrível começou em Garcia e uma lembrança veio a sua mente.
Ele estava parado no mesmo lugar. Seu irmão e seus pais estavam ao seu lado, em pé, e ele viu a si mesmo chegando com a doze na mão, na rua oposta:
- Pai? Mãe? Henrique?
Os três se viraram.
Diferente do que Garcia havia visto antes, eles não estavam feridos.
- O que houve com vocês? – perguntou Garcia, ainda sem se aproximar.
- Garcia, graças a Deus que nos encontrou – disse seu irmão.
- Tudo bem – disse Garcia – Vamos embora agora – e deu um passo em direção a eles.
Porém, agora, Henrique e seus pais não viraram monstros, continuavam normais.
- Garcia, está tudo bem com você? – perguntou sua mãe.
- Está tudo bem filho. – disse seu pai.
- Vamos lá, bro – disse seu irmão.
Garcia viu a si mesmo, a rua oposta, apontar a arma pra Henrique e começar a tremer. Sua mãe começou a chorar.
- Garcia... – disse Henrique, dando um passo a frente.
Boom. Boom. Boom. Os três corpos caíram no chão, mortos.
A dor de cabeça passou e Garcia abriu os olhos.
- Então... – começou Garcia — ... foi isso que aconteceu e minha mente imaginou tudo aquilo?
- Com a ajuda da cidade.
Garcia se levantou lentamente. Olhou para os corpos novamente. Então apontou a doze verticalmente para o seu maxilar.
Vincent começou a gargalhar.
- Pelo amor de Deus, Garcia, você sabe que não é capaz disso.
E realmente não era capaz, sua mão tremia em puxar o gatilho. Decidiu abaixar a doze.
- Bom, tenho negócios a tratar, adeus meu caro amigo – disse Vincent, e desapareceu no ar.
Garcia não sabia o que fazer agora. Apenas uma palavra veio a sua cabeça, “Casa”.
”O que farei lá? Apenas me torturar lá”
Garcia procurou alguma placa para ver aonde estava. Localizou uma placa que dizia “Toluca Ave.”
”O que mais mereço nesse momento? A liberdade de tentar sair dessa cidade ou a tortura em minha casa?”
Pensando nisso, Garcia começou a andar em direção a sua casa.
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