Out Of Focus
1 Capítulo Único
Notas iniciais
: Sabrine achava maluco o jeito que eu lidava com a literatura. "Mas nem um pouquinho de mágica? Aventuras, fadas, fantasia??" Não. Nunca soube ter imaginação pra esse tipo de coisa e, digo sempre que "invejo" quem sabe fazer isso. Os loucos usam dessa pra poder fugir dessa vida medíocre que quase todos levamos digo, nós, jovens viciados e conformados que assistem o ócio nos corroer até os ossos. Já os revoltados, como eu, injetam realidade pura nas veias e expelem ácido da pior qualidade. No final das contas, tudo dói, tudo machuca, tudo tem um propósito e quase tudo é uma merda. "Dottie, você exagera demais!" Pode ser, exagero é uma característica realmente gritante desde o dia em que comecei a pensar. Não me gabo por ser esse bicho meio azedo, hostil e acostumado com a dor, mas confesso que sinto lá no fundo, uma pequena saudade dos meus tempos acéfalos.
-Como assim? Você falou na cara dele que gostava de apanhar? — Sabrine não podia acreditar em tamanha atrocidade.
-Que mal tem nisso? Apesar da vergonha de assumir, pareceu até cena de filme: eu soltando a fumaça do cigarro, olhando pra ele com os olhos semiserrados e conscentindo com a cabeça. Eu ri de nervoso.
-Você é louca... Ele deve ter gostado, não?
-Que nada... Ele não é esse tipo de cara meio troglodita, totalmente ao contrário. É um romântico em todas as formas possíveis, apesar de tudo que passou, ou está passando.
-Parece que você gosta ou atrai gente sofrida pra perto de você.
-Talvez... Gosto de ter amizades assim, já te disse o porquê. Vocês sempre trazem histórias novas, desafios pra que eu possa ajudá-los e, problemas quase sempre piores que os meus. Isso me mostra o quanto eu devia parar de reclamar.
-Parar de reclamar? Você? — Sabrine riu e eu mostrei a língua á ela.
Sabrine não era minha única melhor amiga a toa. Além de não me dar nada bem com nenhuma mulher, que não fosse para fins conjugais, ela era a única excessão. Eu a respeitava como uma filha, apesar dela ser mais velha. Tínhamos angústias em comum, dúvidas em comum, e reuníamos pra nos ajudar. Na verdade era um como um contrato estudantil, onde você consegue pagar a faculdade dando aulas daquilo que você aprende. E era exatamente isso: eu apanhava todos os dias e mostrava a ela como ser forte, como construir escudos, como reverter situações e sentimentos, tomando muito cuidado pra que eu a não fizesse perder aquela doçura que aparentemente só eu enxergava nela. Eu jamais me perdoaria se ela se tornasse a mesma figura amarga e ressentida que me tornei.
Era difícil mudar essa minha imagem. Acho que quando as pessoas batem os olhos em mim, levam um susto. Aí então elas conversam uma primeira vez comigo... Essa voz de criança não me ajuda em muita coisa, piorou se eu estiver bêbada: não controlo palavrões (nem mesmo sóbria), não controlo opniões e faço qualquer coisa que tiver vontade de fazer. E então alguns se arriscam a chegar mais perto e conviver um pouco mais comigo. Já rezei muito por todos eles há um tempo atrás, hoje penso: corajosos não? Devem ter algo pra me ensinar e, Sabrine era a principal dessas, e também o cara a qual estávamos conversando sobre, alguns minutos atrás.
-Também deixei bem claro: Não quero mais nada com ele.
-Já tava querendo coisa com o menino, Dottie?!
-Ah, ele é legal, muito legal. — E sorri, amarelo. — Ok, eu sou muito atirada. Eu devia parar. Mas ele é legal, sério.
-Talvez ele não tenha te entendido.
-Não, nem é por isso... Eu não sou o tipo dele. E acho que nós como amigos nos dariamos bem melhor do que qualquer outra coisa. Ele dividiu muita coisa comigo em pouco tempo e me sinto na obrigação de ajudá-lo em qualquer coisa, mas na verdade, eu é quem sempre trago algo pra casa depois que o vejo.
-Isso é ótimo! Apesar das piadinhas que ele faz com você.
-Poxa vida, eu devia me acostumar com isso. Eu não tenho mais senso de humor, pique pra brincadeiras. Sabe, na filosofia, aprendemos a não levar tudo ao pé da letra, com exemplos muito simples e que chegam até serem tolos de tão simples... Como metáforas ou parábolas que dizem tal coisa como "dar o coração do inimigo ao sol". Na verdade eu nem lembro mais o que isso significa mas, não é arrancar o coração propriamente dito e erguê-lo em direção aos céus.
-Certamente... — Afirmou ela, levantando uma sobrancelha.
-Então! Mas quanto mais eu reconheço essas coisa, mais me torno quadrada em relação ás pessoas. Eu se quer reconheço um tom de ironia, ou a encheção de saco proposital que ele mesmo faz comigo por diversão. Quando vou me tocar, ele já está frustrado com a minha irritação.
-Nunca se veem e quando isso acontece, sai briga.
-Não, não brigamos. Só eu quem bato nele.
-Que maldade.
-Normal. Se eu pudesse eu espancava meio mundo. Estou num estado de nervos justificatório.
-Ah, nem me fala. Acho que nem essa fúria igual a sua, eu não consigo ter. Por mim, passaria dias e dias dormindo. Eu não tenho reação, nem sei se quero reagir.
-Eu te entendo. Mas eu já te disse como as coisas funcionam... — E nossa sessão de terapia começara.
Como eu não tinha muito tempo pra visitar amigos, tampouco amigos pra visitar, eu e Sabrine conversávamos por mensagens na internet. Pessoalmente, se nos vimos quatro vezes ou menos, ainda foi muito. Conclui também que as melhores pessoas deviam continuar longe de mim e claro, numa linha muito tênue de limites de "saber tal coisa sobre você". Tive uma péssima experiência que me custou a amizade de um casal que, infelizmente tentei separar. Esse negócio de achar o que é bom pros outros é furada na maioria das vezes. O jeito é dar a vara, a linha e a rede pra que você possa pescar, mas o barco, a isca e os próprios peixes, quem se vira pra conseguir isso é você.
Eu tomava muito cuidado com as palavras que usava com Sabrine. Graças a Deus, ela sempre me pedia pra explicar uma ou duas vezes mais (o uso excessivo de metáforas me atrapalhava e, incrível que elas só surgiam nessa hora!) o que eu tentava mostrar á ela. Também deixava sempre claro pra que ela não se apoiasse ou dependesse de mim e nem de ninguém, pra nada, nunca. E era até melhor que nós não nos víssemos com tanta frequência... Isso desgasta, se ver todo dia e conversar todo dia, pois não é todo mundo que tem carta branca na sua vida, ou seja, que você tenha saco pra aturar.
Nos despedimos e ela recomendou que me cuidasse e, que parasse de fumar. Ela sabia que eu nem ia me preocupar em parar, mas eu nem maço tinha. Andava com um isqueiro por precaução na mochila, mas confesso que a caixa de fósforos foi o ato desesperado de acender os cigarros soltos de setenta e cinco centavos que eu interava na padaria, junto com o cafézinho santo de cada dia. No quesito saúde, eu achava que iria de mal a pior. Não me alimentava, nem bem nem mal, simplesmente não comia. Nunca gostei de beber água, passava fins de semana em bares, virando noites, dormindo pouco, não revisava matéria, tinha saudade de certas pessoas, me preocupava com outras poucas, mas maioria que pouco se fodia pro que eu pensava delas, andava cada vez mais quieta, escrevia cada vez mais, cantava cada vez menos. Sim, tudo isso era cruscial á minha saúde.
Eu já pensava em formas de morrer. Eu tinha medo de falar disso com alguém e, quando encontrava alguém pra falar de morte sem tabú, me sentia mais tranquila. Hoje, todo mundo repreende suas não-vontades. E daí? Hoje eu não quero sair cama, me deixa aqui. Não quero vez a luz do sol, não quero olhar pra cara das pessoas e nem ouvir a voz amaldiçoada das massas na rua. Não quero me sentar perto de alguém nos coletivos, nem pedir licença enquanto me desvio de corpos perambulantes que competem comigo no status zumbi. Eu vivo por teimosia, por tédio, um pouco de esperança e com certeza por ódio. Não é novidade que sou egoísta, mas tento reduzir esse meu defeito, ajudando pessoas, seja dando conselhos, somente escutando-as, ou dando comida pra quem me pede. Isso não é coisa pra ficar batendo no peito e dizendo por ai, só que me redimir.
Era uma da manhã e eu, no quarto breu escuro, comecei a me preocupar. Era um alarde, eu precisava dormir e não conseguia. Virava pra lá e pra cá, no silêncio opaco que se quebrava com os rangeres da cama conforme eu me mexia. Frustração. Que merda de insônia... O que porra você tem pra não dormir? — E eu fechava os olhos, e era difícil descrever tudo o que vinha em imagem e também em peso pro meu peito.
Certa música era tão maravilhosa mas começara me incomodar, pois não podia me distrair que logo já compreendia cada palavra e todo sentimento alheio vinha a tona. Confesso, não são as mesmas pessoas, nem os mesmos sentimentos. Decidi dormir em silêncio mas dormir não era o plano. Sentei com uma perna recolhida e bufei. Esfreguei as mãos nos cabelos e cocei os olhos. Nem um bocejo, nenhum peso nos olhos, somente aquela tensão constante, de músculos abaixo do pescoço e acima no ante-braço super duros e quase trêmulos, esperando um ataque, pronta para revidar.
Tinha vezes que eu queria escrever uma tese sobre a insônia ou sobre o sono em si. Acho que assim, dando atenção integral á ela, ela me deixaria em paz. Era um inferno, todas as noites, fazer compreender na pele que "a noite trás o que o dia escondeu". Falando nisso, é necessário explicar a minha rotina á vocês? Talvez explicaria meu estresse constante, meu mal humor, minha revolta? Não quero, vocês não precisam saber e eu já tô de saco cheio de ficar explicando. Eu tenho meus motivos... Como hoje mesmo, meu pai me dando conselhos (pelo menos tentando) sobre como encarar a vida, de como ter um foco, e essa conversa rendeu um pequeno ping pong. Sim, eu tenho um foco de vida, eu tenho coragem, se não, não estaria indo contra a vontade dele e do resto, não fazendo uma faculdade de gente normal e; não, não mesmo, jamais ouso deixar alguém me dizer que sou fraca. Aí ele meteu Jesus Cristo na conversa... Pois é. Pessoas precisam perder entes queridos pra balançar a fé, mas perdem ela de vez quando adquirem mais de cinco cânceres. Sim, eu conheço gente assim. Minha mãe perguntou se eu era ateu e eu respondi que sou á toa. Sei lá, cansei de recorrer á todo mundo do plano superior, pra tudo e a toda hora.
Ainda estão se perguntando o porque que eu sou assim? Assim como todos se perguntam porquê que ela tem esse jeito estranho e bla bla bla...? Pensem o que quiserem, antes de morrer, ainda escrevo um ensaio sobre a filosofia contra-humana e mando todo mundo ir á merda. Começa a ficar sem sentido, entende? Não teria mais graça se eu explicasse tudo. Assim como é a vida... A graça está nessas coisas que a gente não entende. E quando a gente começa a entender, começa a se estragar quando não sabe usar esse tipo de conhecimento ao seu favor. Se eu disser todos, exatamente todos os motivos das minhas frustrações, vocês não vão mais querer ler nada e ainda vão pensar "ah, Dottie, vai se foder". Até acho que mereço, mais do que já me fodo, ou acho que me fodo.
Abri a janela: ainda escuro. Andei um pouco no quarto, apesar de não ter pra onde andar, em cima das roupas jogadas, da mochila, da cama, das mesas, armário, sofá, parede, o teto. Deitei de novo e, já esperava contentamente. Eu acordaria com preguiça das seis horas, então dormiria até ás sete, pra sair ás oito e chegar lá ás nove e andar até ás dez. Os cálculos monocromáticos davam super certo, mas até meu corpo sair da cama se gastavam brincando, meia hora. Banho, escova de dentes, calcinha, meias, meu tênis sujo, a roupa amassada e cabelo impecável. Óculos escuro é obrigação, café da manhã é luxo. Desce a avenida, vira a esquina, senta no banco, atrás da fila, anda um pouco e entra no ônibus. Janela, mato, árvore, rua, carro, pessoas, carros, pessoas, indústrias, pessoas, carros, via expressa, onde me vejo rasgando o asfalto com a minha moto, nos meus sonhos, até vir o cobrador me pedindo o cartão. Desce do ônibus, caminha, pessoas, pessoas, calçada, pessoas, (acabei de sentir um arrepio), entra na estação, compra o bilhete, sobe a escada, gira a catraca, vai pro fundo do vagão, empurra e é empurrada, "vai no mosh". Pessoas e mais pessoas... Puta que pariu. depois de dez sinais, desce na estação, sobe escada, vira á direita e gira a catraca, caminha pra rua, vento gelado, semáforo, restaurantes lotados logo de manhã, café, carne estragada e, pessoas. Viaduto, Mc Donalds, Maestro Cardim, lojas, carros, pessoas, bares, fumaça de cigarro, uma pequena elevação no asfalto e muitos buracos. Arthur Prado, seguranças, casas de alto padrão, "ah meu Deus, é uma geladeira!". Brigadeiro, pousada, não posso fumar naquela calçada, a vendinha de um real e minha padaria favorita. Um café e dois cigarros soltos, por favor. — Meu sorriso é simpático e verdadeiro, os atendentes são gentis e sempre prestam atenção nas minhas conversas. Desce a rua, entra no prédio, beijo um bando de rapazes, fazemos a maioria das aulas juntos e ás vezes sobra tempo pra encher o saco daquele que eu conversava sobre com a Sabrine. Pega um cigarro dele na saída ou no intervalo, compartilha mais alguma novidade, banda ou tragédia, e lá vem ele me dar lição. Ok... Ele pode.
Sai do prédio, agora leia o ultimo parágrafo de trás para frente. Volto a mesma estação e durante dois dias intercalados, pego uma carona para a cidade vizinha. Conversa vai e conversa vem com a moça que lê minhas coisas ou com a cobradora: seu pagamento são meus ouvidos e minha atenção. Tchau. Desce, vai andar. Vai comer, dá um jeito de gastar pelo menos uma hora das duas e meia que eu tenho livre pra bocejar. Entra no prédio, sobe escada, sobe de novo, senta na mesa e vai tentar escrever, porquê estudar é fora de questão. Lê, escreve, celular, celular, sem merda nenhuma mas ainda ali nas mãos. Oi! Tá bem? — Pergunta meu professor por educação, como todo mundo que pergunta e não é pra realmente saber se você está bem. Arrastam-se as horas e eu entro na sala, lição, fácil demais, chata demais, boba demais... Monótomo demais. Tchau.
Ponto de ônibus, se não antes passar na lojinha de um real (sim, outra... Nas minhas condições é necessário conhecer sempre uma perto de você) pra repor a bala halls da mochila. O cobrador vem berrando o nome do meu bairro, um robô orgulhoso do matagal. Empurra e é empurrada, sem lógica alguma... Entra e senta. Janela, luzes, calçada, tá de noite, vê que eu nem citei mais as pessoas? A noite me excita! Falo pra todo mundo que se eu pudesse, dormiria o dia todo e faria tudo a partir das quatro da tarde. Alguns pensamentos rondam, ás vezes choro, ás vezes rio, fico estática. Pareço uma narcótica num filme nacional. Me pego pensando sempre "pra quê tanta pressa? você tem algo mais útil pra fazer em casa? você sempre volta pro nada". E isso ressoa. Voltar pro nada. Pra que a pressa? Você tem algo mais útil pra fazer em casa?
Lava a louça, acende o gás, esquenta uma ou duas panelas, liga a grelha, faz isso e aquilo, Isaura. Pra depois fazer um prato singelamente cheio, e devorá-lo enquanto assiste um programa de humor sem graça e outro que você já conhece as piadas mas ainda ri. Antes de dormir, toma um banho, ou de manhã mesmo, prepara a cafeteira, põe pó, café, liga na tomada, xícara, colher, açúcar, aproveita e dá na boca do seu pai. Otária.
Deita na cama. Espera, eu nem saí daqui ainda... Já são sete e meia. Eu bem disse que gastava meia hora brincando.
* * *
-Vai ter uma festa, eu te mando o endereço.
-Ah. — Respondi, deixando transparecer a minha inebriável animação.
-Porra, Dottie, você vai né?
-Vou.
-Se anima!!! Festa, cara!
-Hm.
-Depois você vê lá que horas, nos encontramos e vamos todos juntos.
-Tá.
A ligação caiu. Ou não, desligaram mesmo na minha cara. Não interessa quem é, não é uma amiga. Aliás, vira amiga nessas ocasiões em que me vê uma vez na vida e outra na morte, me abraça forte mas eu não consigo sentir nada além de um vazio, e arruma como mágica, assuntos pertinentes pra falar com você. Até eu beber, porquê bêbada, pra maioria deles, eu não sou tão atraente como antes.
Isso aconteceu num final de agosto, não muito distante. Depois que tudo aconteceu, Sabrine, que me fitou de longe e só dançou comigo por dois minutos, veio me falar de coisas que no momento que li, me vi conversando comigo mesma.
Chorar numa balada parece cômico. Você logo imagina a amiguinha bêbada, chorando ao som de Lady Gaga sob o neon rosa pink porque "é a música do garoto do Nebraska", que no caso é seu ex. Não. Nem eu e nem Sabrine choramos por um cara. Outra situação em que me vi preta e branca num quadro colorido, foi num aniversário. A noiva da minha ex, que me adora (a noiva, e não a ex), me convidou pra interar os parceiros de bar, mais um pra poder trazer presente e bebida. Feito isso, fiquei como um poste de 1,61 tomando cerveja e ouvindo as conversas que eu, não saberia nem se quisesse, me inturmar. Meu Deus, que merda é essa? Tanta futilidade, superficialidade, não interesssa a roda em que você entre... Não, não quero que eles comecem a discutir Nietzsche ou a comentar Bukowski, é pedir absurdamente demais. Me vi preta e branca num quadro colorido.
Meses mais tarde, imaginem que mais um das rodinhas tenha feito aniversário e então, eu fora convidada por um convidado. Isso não existe, pra mim é inviável. Na hora, pensei "quem convidou essa puta?" — Era o que 95% das pessoas presentes se perguntariam, quando eu chegasse na companhia do cara que me convidou. Não queiram saber do "puta", é uma longa história que me rendeu o segundo troféu "fama de vadia do bairro".
Como de costume, o dia vinte é o dia do dinheiro, logo, dia vinte e três já não há se quer sombra do mesmo. "Como você consegue gastar duzentos reais, Dottie?" Caralho, você mexe com dinheiro e ainda quer que eu responda? Me poupe. E ainda vou pegar mais porque sim.
Ficar dando satisfação de dinheiro era como sorrir pra não ter ninguém falando "nossa, você tá com uma cara péssima... Tem certeza que tá tudo bem?" Nossa, nem deus fazia ideia de quanto isso me deixava irritada. Havia algo contraditório em minhas atitudes e isso me incomodava. Uma delas era detestar quem aparentemente queria tentar me ajudar a ficar "bem" e, ser esse tipo de pessoa com todos os colegas e amigos. Lembra do que eu falei sobre "eles estão pouco se fodendo pro quê você está achando deles"? Não sei se foram com essas palavras mas eu quis dizer isso. Eu não deixo me tocarem a ferida, mas quero tirar a farpa de madeira dos dedos de todo mundo. Enquanto isso eu vou sorrindo, pegando dinheiro, levando a vida como se fosse uma mula para um passeio, frequentando festas onde só começo a ficar animada depois da terceira latinha de cerveja e quanto não bebo, fecho mesmo a cara. Já não tenho mais pique pra sorrir de mentira, acho que nem mentir direito eu não sei mais. E assim, desgraçadamente sigo.
* * *
-...Você não acha que já bebeu demais, menina? Pára um pouquinho ou pelo menos come alguma coisa. — Sabrine observava o meu levantamento de canecas.
-Me deixa, mulher. Eu sei o que eu tô fazendo. Você é quem devia beber.
-Se eu bebesse no mesmo intuito que o seu, eu já teria virado alcolatra ou teria entrado sem ter saído de um coma proveniente disso.
-Eu nunca fiquei em coma alcoólico. Isso não existe, é só pra quem é burro.
-Beber é coisa de gente inteligente por acaso?
Parei o movimento do braço direito e olhei pra ela com um olhar cansado e uma pequena tensão na testa, fechando a cara suavemente: — Beber é pra otários desesperados como eu que não conseguem se divertir.
-Dottie... Você já é divertida, eu gosto de você assim.
-Mas eu me odeio sobria, me suporto bêbada e me amo dormindo. Não tenho escolha.
Sabrine suspirou pois não havia mais nada pra falar ou me rebater. Ela não era desse tipo infeliz que tentava meter a força uma idéia de que tal coisa me fazia mal. Todo mundo faz isso, "pára de beber, pára de fumar, pára de foder sem camisinha, pára de respirar a fumaça dos outros", mas ninguém quer que você fique bem. É por questão ética-moral-hipócrita, sempre. Já não acreditava mais num tom amistoso dessas restrições. Acho que nunca gostei de nenhum amigo me restringindo de nada... Se você quer me ver bem, não me encha o saco. Se quiser me chamar atenção, que seja por algo que te ofendeu e que diz respeito á eu e você, puramente. Não me chegue dizendo nenhum daqueles itens acima, porquê não me interessa á quantos anos nos conhecemos, eu mando você ir se foder.
Matei a caneca. Sabrine queria falar, conversar, mas sentia-se vazia, e só eu enxergava isso. Queria preenchê-la de alguma coisa, mas se nem seu amor conseguiria fazê-lo, seus pais, os outros amigos, imagine essa jovem bêbada e frustrada, super concentrada na música alta que tocava no salão e abafava conversas fúteis á mesa.
-Quero fumar. — Pensei alto demais.
Sabrine se assustou, não comigo, mas com aquela amiga que havia me ligado e comunicado sobre a festa.
-AHHHH NÃO, DOTTIE! TOMA VERGONHA NA SUA CARA, VOCÊ TÁ NA FACULDADE DE MÚSICA, COMO É QUE AINDA PODE PENSAR EM FUMAR? NOSSA, VOCÊ NÃO TEM MESMO UM PINGO DE RESPONSABILIDADE...
E suas palavras sumiram num fade, conforme eu a fitava com desprezo. Olhava pra ela, pensando em como as canecas quebrariam divinamente em sua cabeça, de como o sangue escorreria pelas têmporas, de como eu era idiota por aceitar um convite de gente que eu não gosto, por chamar de amigo esse tipo de pessoa que não gostava de mim ou não sabia como demonstrar isso e assim eu ia desgostando cada vez mais dessa.
-... MAS VOCÊ NÃO ME ESCUTA NÉ? QUER SABER? VAI FUMAR, SE MATA, E JOGA TODO SEU TALENTO NO LIXO.
-Talento? — E gargalhei incessavelmente.
Sabrine não sabia se ria do meu ato ridículo ou se ficava tensa com a cara da amiga louca.
-Ah, Dottie, desisto. — E a louca deu as costas e se agarrou em seu namorado. Olhei com ódio.
Imagine que eu tinha esse tipo de pensamento ávido toda vez que via um casal, não importando ou não se eu o conhecia. "Até essas merdas conseguem ser feliz e eu aqui, trouxa, sozinha e estragada". Pois é, loucura. Ainda mais quando eu fixava o olhar por trás dos óculos escuros e me imaginava com um taco de beisebol, partindo pra cima dos pombinhos alegres, dando a primeira paulada nas mãos dadas e já subindo pra meter a próxima na cabeça do infeliz. Quem era infeliz, era eu.
-Tá bem? — Sabrine perguntou-me, e nela eu acreditava.
-De boa... — E ri, balançando a cabeça pros lados como se dissesse "não ligue pra essa doida, isso é normal".
Levantei-me e anunciei que compraria um maço de cigarro. Sabrine fez bico mas sorriu tipo "Dottie, você não tem jeito mesmo". — Posso ir com você?
-Não, eu já volto. Relaxa.
Sabrine deu os ombros e eu saí da mesa, me afastei de todo mundo e fui desviando das pessoas bonitas e materialmente ricas. Quem sabe até eram ricas de qualquer outra coisa que não fosse pose, dinheiro, cabelos lisos e roupas de marca... Mas eu não tinha interesse o suficiente pra poder testá-las.
Desci as escadas, trocando a carteira das mãos pra poder me apoiar no corrimão e poder descer sem tropeçar nos meus próprios pés. Ao chegar na rua, olhei ambos os lados. Só haviam bares e mais bares, pessoas e mais pessoas, sorrisos, copos, bebidas caras, perfumes doces e hálitos frescos pelas balas de menta. O que eu tava fazendo ali? Boa pergunta. Eu já não sabia mais o que eu queria. Toda podridão de bar de esquina com nome estranho, copos americanos transborados de pinga ou algum licorzinho sem vergonha, trash metal rasgado e incompreensível... Eu deveria estar lá, no meio disso. Mas eu não tinha amigos, nem aqui e nem lá. Ah, Sabrine... Que Deus te ajude pois eu não vou viver muito tempo, acredito. Quero que você seja muito, infinitamente feliz e forte. Que além do que você merece, que tenha tudo o que você queira, em plena consciência. Minha cara amiga... Talvez a única que possa chamar de irmã... Obrigada e me desculpe por alguma coisa.
E muitos minutos passaram, uma hora, mais meia.
-Cadê a Dottie? — Sabrine se perguntava, inquieta. Virou-se á seu namorado e perguntou de mim. Em vão. Nem ele, nem a amiga louca, nem o namorado dela sabiam onde eu estava. E descendo as escadas quase frenéticamente (ela tinha que tomar cuidado com os saltos...), saiu na calçada e buscou pela silhueta redonda. Nada. Caminhou pelos bares na mesma rua, nada. Sentiu um leve desespero. Ah, Sabrine, fique tranquila.
As ruas eram tenebrosamente encantadoras. Caminhava olhando pra cima, em como os postes não queimavam minhas vistas e o vento, pra vocês arrebatador, pra mim, aconchegante, libertador, até. Estava tão dentro de mim, estava confortável, enfim sozinha. Ora, já estou sozinha há muito tempo... Mas pra mim era cada solidão, diferente. Peguei o celular e virei a tela para o chão e o chutei. Gargalhei, corri atrás dele e o atirei o mais longe que consegui. Comemorei em vê-lo despedaçar: enfim, todos me deixariam em paz.
Abri a carteira e destrui meu documento, quebrei meus cartões, que não eram meus... E ainda melhor, rasguei as duas notas de vinte que restavam na carteira. Eu já havia pago as várias canecas, não havia mais com o que se preocupar. Joguei o passe escolar de um lado e sua capa, no outro. Peguei a carteirinha da faculdade e balancei a cabeça como um "não".
-Talento... Talento. — Debochei de mim mesma e joguei-o pra trás porquê não queria vê-lo cair.
Deixei a carteira cair e passei por cima dela como um trator. Desfilei no meio fio e fui pro meio da rua, aparentemente deserta. Eu não sabia mais o raio de onde eu estava, mas sabia que estava calma, numa paz indescritível.
Entrei num túnel e sorri. Caminhando mais um pouco, senti o silêncio distânte, se quebrar. O escuro se tornava claro, devagar: um carro vinha em velocidade considerável. Não hesitei. Sorri o mais largo que pude e abri os braços. Os faróis cresceram e eu fechei os olhos, rindo. Eu ria de tudo... Pelo menos tentava. Sabrine deixara o copo de refrigerante cair e arregalou os olhos. "O que foi? Está sentindo alguma coisa?" — Perguntaram á ela. Ela ficou em silêncio. Não queria acreditar no que estava sentindo e não queria pensar que algo estivesse acontecendo. Agora já era, Sabrine. Já estava feito e, eu juro pra vocês, eu não sabia pra onde eu tinha ido.
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