Our memories
3 Pedido
Notas iniciais
Winry e Edward estavam deitados na cama de casal que dividiam desde que haviam se casado. Cada um virado para um lado, com os olhos abertos e as mentes teimosamente acordadas e alertas.
O ex alquimista federal virou de frente para Win e envolveu sua cintura com os braços, enterrando o rosto nos longos cabelos loiros da mulher, que estavam soltos. Depositou um beijo na nuca dela, que estremeceu com o contato repentino. Tentou virar-se de frente para o marido, porém este a segurou com firmeza pela cintura impedindo-a de se mover.
—Ed, o que... — e foi interrompida por ele.
— Win, você se lembra de quando eu te pedi em casamento? Digo, sem ser aquela história do trem e da troca equivalente.- o tom de voz de Ed era suave e terno, fazendo com que Winry sentisse que seu corpo derretia. Podia sentir a respiração quente de Ed batendo na parte de trás do seu pescoço, o calor do corpo dele irradiava para o dela, aquecendo-a enquanto ele mantinha os corpos colados. Queria virar-se para encará-lo, porém o aperto das mãos do rapaz em sua cintura ainda a prendia.
— Claro que me lembro, mas por que lembrou disso agora? — Com um movimento rápido, ele a girou e ela pôde, finalmente, ficar de frente para Edward, que a encarava como se estivesse tentando decorar cada pequeno detalhe de seu rosto. Isso a fez corar ligeiramente fazendo-o sorrir e depositar um beijo cálido em sua testa.
— Não sei. — admitiu. — Acho que ouvir você contando aquela história para as crianças me despertou algumas lembranças. — Ele riu, e seu rosto pareceu se iluminar ainda mais. Os olhos dourados transbordavam carinho e felicidade. Ele levou a mão até o rosto da garota e colocou uma mecha do cabelo dela para trás da orelha e em seguida acariciou sua bochecha com a ponta do dedo. Winry ainda não conseguira se acostumar a esse Edward carinhoso e atencioso.
— E do que você se lembrou exatamente? Aposto que não das vezes em que você implicava comigo ou com a minha avó. — Comentou com um brilho no olhar e a voz maliciosa.
— Em minha defesa, sua avó é que implicava comigo. — Ambos riram e mergulharam nas próprias lembranças de uma época que parecia estar em um passado muito distante. Os anos que se seguiram à guerra contra os homunculos pareciam pertencer à uma vida passada.
Não parecia que tinha sido há menos de dez anos que Edward estivera andando de um lado a outro em seu quarto, praticando mentalmente o que dizer à Winry para pedi-la, oficialmente, em casamento. Sentira que devia isto à ela.
Na época, o garoto ficara extremamente nervoso, mesmo seu irmão insistindo que aquilo era bobagem. Estavam no quarto que dividiam na época e Ed andava nervosamente pelo quarto, resmungando. Al estava sentado na cama, observando-o.
— Irmão, por que você continua ansioso com isso? — Alphonse dizia enquanto devorava um pedaço de torta de maçã que Winry fizera naquela manhã. — Vocês já se beijaram então é claro que ela vai aceitar.
—Ah!! — Ed gritara, tapando os ouvidos. — Dá pra você parar de ficar repetindo isso, Al?
— O que? Que vocês já se beijaram? — Al inclinou a cabeça para o lado, fingindo inocência. — E tecnicamente você já a pediu em casamento, não se lembra? Na estação de trem. Por que quer pedir...?
Ed gritou mais uma vez,interrompendo o irmão, e começou a se descabelar. Começou a recitar os nomes de diversos compostos orgânicos para tentar se acalmar, fazendo seu irmão rir.
— Ed, Al, está tudo bem por aqui? Ouvi gritos. — Disse Winry enquanto abria uma fresta da porta e espiava para dentro do quarto.
— Estamos bem, foi o meu irmão que gritou. — Al apontou para o Ed, que estava de costas para a garota, o rosto completamente rubro. — Ele quer te falar uma coisa...
O ex alquimista praguejou e xingou o irmão mentalmente antes de se virar para Winry, coçando a cabeça ao falar:
— Win... Eu queria dizer... É que eu... Digo... Você poderia dar uma olhada na minha prótese, acho que ela pode estar precisando de uma ajustada.
Ed reparou na cara de reprovação que Alphonse lhe lançava, e também a cara decepcionada de Winry, que certamente esperava outra coisa.
— Claro, Ed. Se quiser posso dar uma olhada agora, espere só dois minutos para eu poder arrumar um espaço no sofá da oficina. — E com isso ela saiu do quarto, murmurando algo que Ed não conseguiu escutar.
— Irmão, não era isso que você ia falar. — Ele havia terminado de comer a torta. Deixou o prato em cima de uma cômoda e caminhou até onde Ed estava. — Você tem que falar logo com ela, isso já está ficando ridículo.
— O que está ficando ridículo? — Ouviram uma voz vinda do corredor. Quando olharam, encontraram a velha Pinako escorada no batente da porta. Ela fumava seu cachimbo e encarava os garotos com os olhos semicerrados cheios de suspeitas. — O que você fez desta vez, anão de jardim?
— Do que você me chamou, velha nanica?
— De anão de jardim, sua miniatura de gente. — Rebateu a senhora.
— Olha quem fala, pulga de circo aposentada. E saiba que eu não fiz nada!
— E este é o problema. — Al interrompeu o que seria uma guerra interminável de apelidos pejorativos. — O Ed ainda não conseguiu...
Edward correu para tampar a boca do seu irmão mais novo antes que ele falasse alguma coisa para a vovó Pinako.
— Ainda está tentando pedir a minha neta em casamento? O que está esperando, tampinha? Ou você está com medinho?- Ed encarou-a com um olhar perplexo e surpreso. — O que foi? Não sou uma velha gagá e burra, e nem sou cega, se é o que pensa de mim, nanico.
Ele não respondeu, apenas destampou a boca do irmão.
— Viu, irmão. Até a vovó Pinako concorda. Ela já aceitou aquele seu pedido estranho na estação de trem. Não tem como ela recusar agora.
— Isto é uma espécie de complô contra mim? O que falta agora? O Roy e a Riza aparecerem aqui para me darem dicas sobre romance? — Quando ninguém respondeu, ele prosseguiu. — Certo, vocês venceram. — Ed jogou as mãos para o alto em sinal de rendição. Pegou uma pequena caixinha de veludo azul e saiu do quarto, indo em direção à oficina.
Pôde ouvir os últimos comentários de Al e Pinako antes de chegar até a escada.
— Já não era sem tempo, não acha? — Dizia a velha e Alphonse concordava, rindo.
Winry estava esperando o ex alquimista aparecer enquanto pensava no pedido repentino do garoto. Estivera óbvio que aquilo havia sido apenas uma desculpa esfarrapada e que não era o que o garoto realmente quisera falar, porém quem era ela para pressioná-lo? Se ele quisesse lhe dizer algo, cedo ou tarde acabaria dizendo.
Para falar a verdade, desde que haviam se beijado — cerca de cinco dias atrás. — Ele mal conseguira olhá-la nos olhos. Sempre que estavam juntos ele corava violentamente e desviava o olhar pra qualquer lado, mantendo-a longe de seu campo de visão.
Suspirou ao pensar nisso. Queria tanto conversar com ele novamente, beijá-lo e se aninhar em seu colo. Por que havia se apaixonado por um garoto tão complicado feito o Ed?
Ouviu o barulho de passos descendo as escadas e se ajeitou no sofá, dando uma leve arrumara no cabelo. Podia parecer besteira, porém nesses últimos cinco dias, Winry pegara a mania de reparar na própria aparência sempre que o loiro estava por perto. Notando as pequenas imperfeições em seu visual, como manchas de graxa em sua roupa ou no rosto, o cabelo despenteado, as unhas sujas e a falta de maquiagem.
— Olá. — Ele se aproximou dela e sentou-se no sofá. — Desculpa te pedir pra olhar minha prótese assim tão de repente...
— Tudo bem, Ed. Afinal, eu sou sua mecânica. — Ela sorriu pra ele, que estranhou a calma da garota. "Isso não pode ser um bom sinal", pensou o Ex-alquimista federal.
— Mas Winry, você não é só a minha mecânica! — Ela olhou-o espantada e ele começou a se embaralhar com as palavras. — Digo... Você é... Sabe... e você está sempre ocupada, e sempre fala que eu tenho que ligar antes de aparecer e você sabe, eu poderia ter pedido pra vovó Pinako e você é sempre tão... Está sempre tão... E nó dois...
— Edward, você está morando na mesma casa que eu, acha mesmo que precisa ligar pra marcar uma revisão? E eu sei que sou mais do que sua mecânica, digo... Bem, você sabe do que eu estou falando. — Winry foi ficando vermelha conforme ia se embaralhando com as palavras.
Edward começou a rir. Uma gargalhada espontânea e leve, como ela não via desde a estação de trem, um ano antes.
—Ed! Eu estou falando sério aqui, não é pra você rir! — A garota deu um soco na cabeça do garoto, que se curvara para a frente, rindo com as mãos na barriga. Ele resmungou de dor e esfregou o local atingido.
— Desculpa, Win, não foi minha intenção. Mas você sempre me surpreende e eu adoro isso. — Ele a puxou para um abraço e a garota não pôde evitar uma sensação de dejá-vú.
— Ed, o que você queria realmente falar comigo? Sei que essa história de prótese foi só uma desculpa esfarrapada.
Eles se afastaram um pouco para encararem um ao outro por um tempo.
— Winry, eu queria fazer as coisas corretamente dessa vez. Deixar as coisas claras. Não quero que nossa relação seja difusa como uma mistura de...
— Ed, sem química, por favor... — Ela o interrompeu antes que ele fizesse outra analogia nerd.
— O que eu quero dizer é que. — Ele olhou ao redor, para a bagunça que era a oficina. As ferramentas e peças espalhadas pelas mesas e bancadas, o sofá praticamente desaparecendo embaixo de uma pilha de sacolas e caixas. — Esse não é exatamente o lugar onde eu gostaria de falar sobre isso.
— Bem, pra começar, você que nos fez vir pra cá com a sua desculpinha barata. — Ela sorriu, provocando-o.
Ele pegou-a pelo braço e levou-a até o jardim, onde Den estava deitada na grama tirando um cochilo sob o sol da tarde.
— Winry, o que eu queria te dizer é que. — Ele tirou a caixinha de dentro do bolso e jogou para ela. — Eu sei que já pedi antes, e que talvez você ache que isso não seja necessário, mas eu gostaria de te pedir em casamento formalmente, da maneira que você merece. Sem alquimia.
Por um momento, a loira ficou sem reação, apenas olhando do garoto para o embrulho, e de novo para o garoto.
— Ed, eu nem sei o que dizer... — Ela abriu a caixinha e examinou a aliança que havia ali dentro. Um anel duplo de prata, com um pequeno desenho do lado — É lindo, não esperava isso vindo de você. A minha resposta você já sabe, suponho.
Ed sorriu e beijou-a ali mesmo. Sabia que Alphonse poderia estar na janela observando os dois, mas no momento isso não importava. Porém, o beijo foi rápido, e logo ele se afastou, rindo.
— Bom, então você já pode oficialmente parar de me chamar de maníaco por alquimia. Agora só precisamos curar o seu vício por Automails. — Disse de forma bem humorada, usando um falso tom de superioridade.
— Boa sorte com isso, tampinha. — Ela sorriu de volta e ambos voltaram para o interior da casa. Andando de mãos dadas.
Alphonse correu para recebê-los na porta, dando-lhes as parabenizações oficiais. Pinako esperava-os ao pé da escada e também parabenizou o casal. Naquela noite, houve um jantar especial para comemorar o noivado.
Ed se lembrava claramente da correria que se seguiu. Nunca tinha imaginado que um casamento poderia ser tão trabalhoso e exaustivo. Mas o pior momento foi quando chegou o momento de... Contar a novidade para Roy Mustang.
— Ed, por quanto tempo pretende enrolar? — Dissera Win, que esperava Edward ligar para o amigo, convidando-o para a cerimônia.
— Por quanto tempo eu puder. — O garoto realmente não estava preparado para as piadas que Roy faria, e muito menos para os conselhos que daria.
— Edward Elric, deixe disso e ligue pra ele. — Winry colocou o telefone na mão do ex-alquimista federal e se afastou em direção à cozinha. — E acho bom você já ter ligado quando eu voltar!
O Elric mais velho suspirou e ficou encarando o aparelho em suas mãos antes de finalmente efetuar a ligação.
— Roy?
— Fala, baixinho, a que devo a honra da sua ligação? Está em apuros e precisa desesperadamente da ajuda de um adulto? Ai, Riza, foi só uma brincadeira.
Ed não gostava de lembrar do resto da conversa. Mas, por mais perturbador que tivesse sido o diálogo dos dois ao telefone -com algumas interrupções dos colegas de Roy — nada se comparava à visão de Roy e Riza na porta de sua casa, cerca de três dias depois da ligação.
— O que diabos vocês estão fazendo aqui?
— Surpresa! — Dissera o militar.
Agora, anos depois, Edward voltou a sentir um calafrio ao lembrar daquela desastrosa visita.
— Win, você se lembra?
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