Our last hope
2 Estaladores
Notas iniciais
–Tentem chegar o mais rápido possível a Washington. É de extrema importância que Carlie seja entregue a Ben. Ele está na central dos Vagalumes que se situa numa pequena cidade chamada Forks. Não será difícil de achar. – a líder dos Vagalumes estava carregando a pickup Chevrolet 1980 com uma mochila cheia de munições e comida.
Aquilo seria bastante útil, até porque seria uma longa viagem. 1600km não seria algo fácil de se fazer. Talvez há alguns anos conseguiríamos fazer este caminho em menos de 24 horas. Mas agora… Agora isso era simplesmente impossível. Não apenas pelos infectados que deambulavam por todo o lado tentando nos devorar, mas pela destruição. Não havia qualquer tipo de manutenção nas estradas há mais de 12 anos. As estradas estavam destruídas muitas vezes obstruídas por árvores caídas no meio da estrada… Para não falar nos carros abandonados a meio da estrada. E mais… O nosso campo de refugiados não era o único.
Nem todo mundo podia se dar ao luxo de estar em um campo de refugiados por não cumprir os critérios do protocolo… O ser humano é capaz de tudo quando se deixa ser dominado pelos instintos de sobrevivência.
–Pode ficar descansada. Se eu e Edward não conseguirmos cumprir esta missão, mais ninguém conseguirá. – Kate jogou sua mochila para dentro da pickup e revirei os olhos me concentrando no motor do carro. Há quantos anos eu não mexia no motor de um carro? Verifiquei o óleo e a pickup estava pronta para a viagem.
A tal Rosalie se afastou com a fedelha e parecia lhe segredar algumas coisas. Aquilo estava me incomodando. Não fazia sentido nenhum pagar tanto para transportar uma criança. O que raio os Vagalumes queriam com aquela pirralha? Será que ela era filha de alguém importante?
–Espero bem que sim. – Rosalie guiou a criança para dentro da pickup e se despediu. Fechei o capô do carro e limpei minhas mãos ainda sujas de óleo. Fui até ao lugar de motorista e me senti quase normal estando sentado à frente do volante de um carro.
Desisti de tentar perguntar a Kate e à tal de Rosalie como elas haviam conseguido a bateria para o carro. Desisti de perguntar como elas haviam conseguido que saíssemos do campo de refugiados sem que os soldados tentassem nos deter.
–Rose? Você vai ficar bem? – Carlie puxou a mão da líder dos Vagalumes que sorriu suavemente para ela.
–Eu fico sempre bem. O importante é você chegar sã e salva. – Carlie assentiu e colocou o cinto de segurança. Assim que Rosalie se afastou do carro liguei o motor da pickup me deliciando com o som do motor e comecei a dirigir ao longo da estrada. Aquilo seria uma longa viagem.
O silêncio no carro era absoluto. Kate sabia perfeitamente que o ambiente que se havia criado entre nós iria manter-se e que o melhor seria ela nem tentar falar nada.
Não sei quanto tempo passou, mas Kate já estava ressonando com a testa encostada à janela da pickup.
–Você não está cansado? – a criança tentou falar com aquele seu tom arrogante e desafiador. Me limitei a manter o silêncio.
–Olha Edward. Eu sei que não começámos do melhor jeito. Mas vamos ter de nos dar bem. – franzi o cenho me concentrando na estrada.
–Você não fala muito pois não? – ignorei de novo a pirralha. Talvez ela acabasse por se cansar eventualmente.
–Você é um fodido idiota. – a peste bufou aquilo e suspirei cansado.
–Você não vai se calar? E que idade você tem afinal? Isso lá é jeito de se falar comigo? Eu exijo respeito criança! – a criança sorriu petulante.
–O meu nome é Carlie e eu tenho 13 anos. E se você continuar me chamando de criança vou chamar você de velho. – rangi os dentes sem paciência.
–Ok, Carlie então. Me diga porque você vale 2000 cupons? – a pirralha cruzou os braços.
–Nem pense. É a minha vez de fazer uma pergunta. Eu respondi à sua. Agora você tem de responder a uma minha. – aquilo não me agradou em nada. Mas era só uma criança, não iria fazer perguntas muito complicadas.
–Ok.
–Então, Edward Kate é sua namorada? – contive a vontade de rir.
–Claro que não! Agora me diga porque você vale 2000 cupons. – Carlie não me respondeu parecendo tensa. A olhei pelo canto do olho mas logo minha atenção se voltou para a estrada e tiver de frear bruscamente. Kate acordou meio sobressaltada e logo desliguei o motor do carro. Baixei o vidro da janela da pickup e apontei a minha Glock para o infectado que estava no meio da estrada. Dei um tiro certeiro no meio da testa do Zombie e logo fechei o vidro. Liguei o motor e passei por cima do corpo morto prosseguindo a viajem. Kate me olhou intrigada.
–Você sabe que precisamos de poupar munições. – a ignorei continuando a dirigir. A crian… ham. Carlie estava calada demais e fiquei na duvida se estava assutada ou apenas fugindo à pergunta que eu havia feito.
–Sabe, eu acho que você devia me dar uma arma. – franzi o cenho.
–Claro que não.
–Mas…
–Já disse que não. Agora durma. – Carlie cruzou os braços mas se recostou tentando dormir. Me concentrei na estrada me perdendo em meus pensamentos. Carlie era apenas uma criança, e eu acabei de matar um infectado bem na frente dela… Isso nem sequer a incomodou. Ela nem piscou…
#Flashback on
–Mas eu não posso comer ele. Ele tinha uma mamãe e um papai. Não posso comer o peixinho papai.
–Mas você precisa para ficar grande que nem eu.
–Mas e se o peixinho tem alguém procurando por ele? Não lembra do papai do Nemo? Ele procurou por ele por todo o oceano. Não posso comer ele papai. Oh não… Você matou o peixinho!
–Não matei não amor. Eu comprei ele já assim…Então o que você vai comer amor?
–Oba posso comer só maçã e erva que nem a vó Liz. Assim não precisa de matar. Matar é errado papai.
#Flashback off
Senti minha garganta secar e logo tratei de afastar aquelas memórias. Não podia pensar naquilo. Não podia…
–Você sabe que apesar das circunstâncias ela é apenas uma criança certo? – olhei para Kate pelo canto do olho e assenti.
–Eu sei. Mas ela não conhece outra realidade para além desta. Ela tem 13 anos. Não sabe como o mundo era antes disto. Acho que ela sabe viver com o facto de que temos de matar infectados. Você sabe tão bem quanto eu que depois de ser mordido e se transformar em um zombie você deixa de ser a pessoa que é. É como se já estivesse morta. – Kate apenas assentiu e retirou um pouco de carne seca da mochila. Não sei como ela conseguia comer aquela coisa horrível. Estávamos ficando sem combustível e precisava de achar urgentemente um lugar que tivesse um pouco de combustível ou então teríamos de seguir a pé e aquilo não era propriamente bom.
Parámos junto de um posto de gasolina e rezei internamente para que houvesse algum combustível. Kate e Carlie saíram da pickup e entraram na pequena loja de conveniência tentando achar alguma coisa útil. Senti um alivio enorme assim que percebi que o posto tinha combustível e logo peguei uma lata de 4 litros e enchi de gasolina. Escutei dois tiros e me assustei tirando a minha Glock e correndo para dentro da loja de conveniência. Me deparei com o corpo de dois infectados. Kate se preparou para atirar em mais um infectado quando fiz sinal para que ela ficasse quieta. Soquei o infectado com força e logo cravei minha faca em seu pescoço. Kate percebeu o motivo de eu ter feito aquilo e logo caminhou silenciosamente até Carlie fazendo sinal para que ela não fizesse barulho. Havia um Estalador nas traseiras da loja. A janela estava partida e ele estava tentando entrar. Uma coisa era lidar com um infectado Corredor, outra completamente diferente era lidar com um Estalador. Com o passar dos anos aprendi muitas coisas sobre o vírus que chamaram Cordyceps. Um recém infectado é chamado de corredor. Os corredores representam o primeiro estágio da atuação do fungo Cordyceps nos humanos, eles apresentam um tom de pele pálido e é possível perceber que estão sangrando pelos olhos e nariz. Eles são muito fáceis de matar. Pelo contrário, os Estaladores apresentam um avançado estágio do fungo, significa que o humano já está infectado há pelo menos 3 meses… Eles tem a parte superior do rosto completamente dilacerada e dominada pelo Cordyceps a única forma de descrever estes zombies… É como se eles estivessem se transformando em um enorme fungo. Os Estaladores são cegos e é essa a única vantagem que podemos ter em relação a eles. Os Estaladores são muito mais resistentes o que os torna muito mais difíceis de matar.
Peguei uma garrafa de cerveja vazia e a joguei pela janela. Assim que a garrafa se quebrou no chão o Estalador começou a correr na direção do som. Saí pela janela e me aproximei a passos lentos tentando não fazer barulho. Meu coração estava a mil e senti minhas mãos suadas pela adrenalina que estava sentindo. Segurei a faca com força e assim que estava perto o suficiente a cravei na cabeça do Estalador que ainda se contorceu mas logo caiu morto no chão. Olhei ao redor e percebi que havia ali pelo menos mais 3 Estaladores. Merda. Caminhei silenciosamente de volta para a loja de conveniência e fiz sinal para que Kate e Carlie voltassem para o carro. O melhor seria fugir dali. Caminhamos silenciosamente até à Pickup mas logo escutei tiros e os grunhidos dos Estaladores. A minha reação foi segurar a minha Glock em punho tentando perceber de onde vinham os disparos mas não tive tempo para pensar. Senti uma forte pancada na nuca e caí no chão.
–DE JOELHOS E BRAÇOS ATRÁS DA CABEÇA. – um militar estava gritando aos meus ouvidos, arrancando a minha Glock de minhas mãos. Tentei me focar no que estava acontecendo, mas estava confuso com os tiros que continuava escutando. Obedeci ao soldado olhando pelo canto do olho Kate e Carlie que também estavam de joelhos. Pense rápido Edward.
–Stan! Já exterminaram todos os Estaladores? – o soldado continuava apontando a arma à minha cabeça.
–Todos abatidos senhor.
–Ótimo. Quero estes fugitivos scanneados. – percebi uma movimentação ao meu redor e logo escutei o tão conhecido bip do scâner que indicava que eu não estava infectado pelo vírus Cordyceps. O soldado se moveu para trás de Kate e a scanneou também Kate. Assim que se colocou atrás de Carlie a fedelha olhou para mim e percebi que segurava uma faca. Merda sua pirralha. Carlie cravou a faca na perna do soldado que caiu no chão com o scanner na mão. Peguei minha faca e matei o segundo soldado enquanto Kate disparou três tiros no soldado que estava no chão. Recuperei minha Glock da jaqueta do soldado e me mantive alerta tentando perceber se havia mais algum soldado por ali.
–A costa está livre. – Kate baixou a arma e eu caminhei até perto da fedelha a agarrando pelo braço.
–VOCÊ PERDEU COMPLETAMENTE O JUIZO? –Carlie me olhou desafiadora tentando se soltar do meu aperto.
–Eu acabei de nos salvar! – Carlie me olhou desafiadora e senti meu sangue ferver de raiva.
–TIVEMOS SORTE! E PORQUE VOCÊ TEM UMA FACA?! – a sacudi um pouco tentando conter a minha raiva e não a machucar.
–Edward…
–Eu falei que precisava de uma arma! Será que é difícil de perceber que não posso andar desarmada por aí? – Carlie arrancou seu braço de meu aperto me cuspindo aquelas palavras.
–Edward… -
–VOCÊ É UMA CRIANÇA! NÃO QUERO VOCÊ ARMADA! – eu estava tremendo de raiva e o olhar desafiador de Carlie não estava me ajudando a acalmar.
–EDWARD! –olhei para Kate que continuava tentando chamar a minha atenção.
–O QUE FOI PORRA! – Kate segurava o scanner na mão e virou o ecrã para mim que tinha o aviso vermelho “Infactado” indicado na tela. Engoli em seco sentindo todo o meu corpo gelar. Olhei para Carlie e de imediato lhe apontei a minha arma.
–Você está… Você está infectada! – Carlie ficou pálida e recuou alguns passos.
–Eu… Calma… Eu posso explicar… — destravei a minha Glock pronto para disparar. Me doía o coração por ter de fazer aquilo.
–Eu lamento. Mas não há nada para explicar. – Carlie levantou a manga da sua camiseta mostrando seu braço onde se podia ver a marca de uma mordida.
–Eu fui mordida há 3 meses.
–Isso é impossível. – eu queria acreditar na pirralha. Não queria ter de matar uma criança. Mas por muito que eu quisesse acreditar aquilo parecia simplesmente impossível.
–Não é. Olhe bem para o meu braço. Já está cicatrizado… — Kate se colocou à frente da minha mira e analisou o braço de Carlie.
–É verdade Edward. Esta mordida não é recente e já está cicatrizada… — não. Aquilo era impossível. Nunca ninguém achou uma cura ou uma vacina para o Cordyceps.
–Você sabe tão bem quanto eu que isso é impossível Kate. – Carlie se afastou de Kate se colocando à minha frente.
–Edward, eu sei que é difícil de acreditar… Mas você lembra quando me perguntou porque eu valia 2000 cupons? Bom, aqui tem a sua resposta. Eu sou imune ao Cordyceps. Rosalie falou que eu sou a resposta para a cura.
–Se isso for mesmo verdade, porque ela não levou você com ela? – não baixei a minha Glock a apontando para Carlie que me fitava com seus olhos cor de caramelo.
–Existem protocolos… Os soldados da paz tem de scannear todo mundo antes de embarcarem no avião… E como já deu para perceber apesar de ser imune ao vírus eu o transporto. Eles assim que percebessem que eu estou infectada enfiariam uma bala na minha cabeça sem pestanejar. – aquilo fazia sentido… Mas minha cabeça só conseguia se focar na minha regra número 2. “Não confiar em estranhos”. Carlie apesar de ser uma criança era uma estranha…
–Edward seja racional. Qual seria o interesse da líder dos vagalumes de nos fazer transportar a menina? – mantive meus olhos fixos nos de Carlie. Eu estava tendo uma luta dentro de mim. Olhei novamente para o braço de Carlie e suspirei baixando a arma.
–Temos um longo caminho pela frente. – peguei as armas dos soldados que estavam mortos e caminhei de volta para a pickup.
Só esperava não me arrepender.
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