Our Song
6 Sanduíche ou Buquê de Flores ?
Notas iniciais
Assim que cheguei em casa fiquei assistindo alguns filmes água com açúcar, que eu costumava fazer quando não tinha... nada para fazer. Levei um susto quando meu celular tocou com o toque da Selena Gomez, come and get it. As vezes esquecia como o silêncio era grande aqui em casa. Atendi o celular sem olhar quem era.
_ Alô ?
_ Oi amor!
_ Ah, oi DC.
Não sei porque, mas nunca gostei desses apelidos melosos que os namorados se dão. É claro que eu nunca comentei nada com o Do Contra, já que faz 1 ano que escuto esse nome.
_ Eu só liguei pra falar que eu vou viajar.
_ Como assim ? Mas você acabou de chegar. -- eu disse em um tom frustrante--
_ Eu sei.
Um silêncio se formou na linha e minha raiva apareceu. Eu sempre odiei quando ele me dava respostas curtas e não falava mais nada. Odiava o silêncio entre nós.
_ Que bom que sabe. -- eu disse em um tom cortante--
_ Acontece que vou ter que fazer outro filme.
_ Quanto tempo ?
Ele ficou em silêncio de novo e depois suspirou.
_ Dois meses.
_ Tudo bem. Pode ir. Não me importo.
_ Mônica...
_ Boa viagem.
Desliguei o celular e não atendi as suas ligações seguintes. Que no total foram 20. Eu queria poder perdoá-lo mas não conseguia! Eu sei que ele não fez nada, mas me sentia brava com o fato de ele nunca estar presente quando preciso. Talvez eu também não esteja. Mas não sei. Eu não quero pensar no Do Contra agora. Me levantei e olhei o horário. Eram 18:00. Fiquei pensando se o Cebola iria se arrumar às 18:30 já que ele não gostava das horas exatas. Tudo bem, o que isso me interessa ? E daí se ele se arruma 18:00, 18:30, 18:45 ? Isso não é da minha conta, certo ? Fui tomar um banho depois do longo dia de trabalho que tive. Realmente estava exausta! Talvez para quem só ouve uma música e vê um clipe prontinho acha que não dá trabalho. Eu também pensava assim. Bem, até hoje. Qualquer imperfeição você tem que começar tudo de novo e isso é exaustivo. Me arrumei colocando uma blusa de cetim rosa e um short jeans rasgado nas partes em baixo dos bolsos da frente. E por fim uma sapatilha branca. Talvez não estivesse muito chique mas não me importava. Não queria impressionar ninguém mesmo. Assim que passei meu gloss rosa a campainha tocou.
Abri a porta e vi o Cebola com uma camisa azul escura de manga até metade dos braços e uma calça jeans.
_ Oi. -- ele disse sorrindo-- Você está linda.
_ Primeiramente, quero que saiba que isso não é um encontro. Segundo, eu tenho namorado. Terceiro, eu te dou uma surra se tentar alguma coisa.
Quando parei para olhar pra ele, ele olhava para o teto de uma forma tediosa — que me irritou — e por fim bocejou.
_ Acabou ? -- ele perguntou --
Fiquei irritada e cerrei os punhos.
_ Não... -- eu disse sorrindo--
Antes dele perceber, eu dei um tapa na cara dele. É, talvez eu seja louca. Mas não posso evitar o prazer que isso me deu. Sorri e passei por ele na porta enquanto ele ficava com cara de bobo olhando pra mim.
_ Vamos! -- eu disse sorrindo--
Chegamos no carro e ele resolveu finalmente se queixar do tapa.
_ Você é louca! Por que me deu um tapa ?
Desci o espelho do carro e dei um retoque no meu batom enquanto o respondia.
_ Você mereceu.
Indignado, Cebola desceu o espelho do lado dele também e começou a choramingar vendo que havia ficado as marcas dos meus dedos na bochecha direita dele.
_ Olha... Olha o que você fez! Você acabou com o meu rosto perfeito!
Revirei os olhos e segurei um riso com a sua modéstia.
_ Você vai sobreviver.
_ O que as pessoas vão pensar quando verem ?
_ Que você apanha das garotas. -- eu disse dando de ombros--
Ele fechou o espelho com raiva e começou a dirigir. Ficamos o caminho inteiro em silêncio apenas ouvindo uma música que parecia ser clássica. Não disse nada porque vi que era um CD. Odeio música clássica. Até que chegamos em um restaurante pequeno e casual. Confesso que gostei do lugar. Descemos do carro e o Cebola se lembrou do seu tapa e preocupado ele me perguntou:
_ Ainda dá pra ver ?
É, acho que exagerei na força.
_ Não. -- menti--
_Certeza ?
_ Claro!-- menti de novo--
Sentamos em qualquer mesa e pegamos o cardápio. Decidimos o que íamos tomar apenas e chamamos o garçom. O homem era gordo e careca, apenas com cabelo nos lados, que eram pretos. A barba era mal feita e seu uniforme não ajudava na sua forma física. Seus olhos pretos pareciam curiosos quando olharam para o Cebola.
_ O que vai pedir ? -- o garçom perguntou--
_ Eu vou querer uma Coca e ela um suco de morango.
_ Certo.
O garçom anotou nossos pedidos e se aproximou do ouvido do Cebola e sussurrou talvez não tão baixo quanto deveria ter sido.
_ A noite ontem foi difícil né ? Mas você se acostuma. Já levei tapas piores.
Depois desse comentário ele saiu. O Cebola ficou com cara de quem havia acabado de levar outro tapa e eu não pude evitar de rir.
_ Você disse que não dava mais pra ver! -- ele disse irritado--
_ Desculpa se o garçom tem uma visão ultra laser! -- eu disse rindo--
_ Eu te odeio. -- ele declarou--
Escolhemos o que comer. Eu iria pedir uma salada e ele um sanduíche hiper calórico, mas ele não deixou.
_ Não, não! Você não vai sair daqui até experimentar o melhor sanduíche da cidade! -- ele disse tirando o cardápio da minha mão--
_ Eu não posso Cebola!
_ Larga de ser fresca! Você não é feliz e não tem vida enquanto não comer isso. Garçom, traz dois sanduíches Mega.
O olhei me rendendo, talvez um dia não tenha tanto problema.
_ E então... Por que quis me chamar para sair ?
_ Agora que a gente está trabalhando juntos, achei que seria uma ótima ideia nos conhecermos melhor. Me fale um pouco sobre você.
_ Não sei o que dizer. -- eu disse dando de ombros--
_ Hã... Pode começar me contando por que você não gosta de pêras. Sou curioso desde o dia em que te conheci.
Fiquei indecisa se devia falar ou não mas resolvi que já que era hora de nos conhecermos, por que não ?
_ Teve uma vez que... Bem... Eu estava com o meu primeiro namorado. Eu tinha 14 anos e estava empolgada de mais com essa ideia. Então ele me chamou para lanchar na casa dele. Daí ele me ofereceu uma pêra e eu inocentemente aceitei. Acontece que seria a primeira vez que eu iria conhecer os pais dele. E todos estavam na mesa. Eu comecei a engasgar com a fruta porque mordi um pedaço muito grande e o pai do meu namorado resolveu me ajudar. Ele me agarrou por trás enquanto eu tossia descontroladamente. Ele fez pressão no meu estômago e eu cuspi a pêra. Só que... Ela foi parar no prato da minha sogra. E eu tinha ficado muito tempo sem respirar, então depois eu vomitei no colo do meu namorado. Desde então não como pêras.
Quando levantei o olhar para ver o Cebola, ele não conseguia parar de rir. Comecei a rir de leve também, porém envergonhada.
_ Para. Não é tão engraçado...
_ É sim! -- ele disse gargalhando-- Meu Deus. Não come pêra faz...
_Dois anos. -- eu completei --
_ Que loucura!
_ Pois é. -- eu disse rindo--
Paramos de rir e ficamos calados olhando para o vazio. Ele estava me encarando e pela primeira vez não tive medo de olhar. Ele parecia querer me perguntar alguma coisa.
_ Achei que seu primeiro namorado tivesse sido o DC. Há quanto tempo se conhecem ?
Fiquei mais séria do que estava antes e me contorci com o assunto. Estava irritada com o Do Contra e não queria nem saber dele no momento. Tocar no assunto sobre isso não era a melhor hora.
_ Um ano.
Cebola pareceu perceber que não gostei de ter tocado no assunto então nada mais foi falado. Esperamos o prato chegar e eu juro que o sanduíche devia ter uns 10 cm de altura e mais 10 cm de largura. Pense em um sanduíche recheado com tudo que você imaginar. Era esse sanduíche.
_ Você está afim de me ver gorda. -- eu disse olhando pro sanduíche e depois para ele-- É isso! O seu plano era me trazer aqui para acabar com a minha carreira.
_ Cala a boca e come.
Peguei o monstro com cuidado e dei uma mordida... MEU DEUS ERA MUITO BOM!! Por que eu quis ser modelo mesmo ?
_ Isso é muito bom! -- eu disse dando outra mordida--
_ Eu sei! Estou te mostrando o lado bom da vida! Hã... Tá... Tá sujo aqui. -- ele disse apontando para o espaço entre meus lábios e meu nariz--
Sim, eu estava humilhantemente com um bigode de molho e bacon. Ele riu enquanto eu me sentia envergonhada. Isso sempre aconteceu comigo! Podia ter milhares de pessoas comendo esse sanduíche, eu seria a única a sujar a cara. Já sujei a testa enquanto tomava um sorvete. Não me pergunte como. De repente ele pegou o guardanapo e limpou pra mim. Eu fiquei com muita vergonha e ele também se envergonhou. Terminamos o nosso sanduíche e voltamos a conversar.
_ Quanto anos tem ? -- perguntei --
_ 18. -- ele respondeu--
_ Hum... Achei que aquele dia na balada você estava bebendo sem poder.
_ Nunca bebi antes dos 18. -- ele disse sério-- Acho errado.
De repente a imagem da Magali na noite passada veio na minha cabeça e confesso que uma pontada de preocupação me atingiu. Ela não havia me ligado. Eu sabia que eu não iria fazer isso porque eu ainda estava com raiva por ela ter feito aquilo comigo.
_ Concordo. -- eu disse séria--
Continuamos a falar sobre o tempo e o nosso trabalho, coisas sem graça. Mas na verdade eu só quis entrar nesses assuntos porque eu não queria entrar muito no lado pessoal. Eu odeio me abrir para as pessoas de primeira. Sou difícil de contar as coisas. Apesar de ter deixado escapar a história da pêra. Pagamos a conta e fomos embora. Minha barriga estava até estufada e a noite tinha sido divertida. E por um segundo, eu não estava me lembrando dos meus problemas. E isso me fez ficar mais feliz ainda.
_ Bom, tchau. -- eu disse sem graça --
_ Tchau... -- ele disse com as mãos nos bolsos--
Ficamos um de frente para o outro nos encarando sem graça até que eu saí sorrindo até o meu apartamento. Sua cara estava confusa e eu queria fazer o mesmo que ele fez comigo naquele dia em que eu estava no carro. Até que ele riu e gritou:
_ Não vai funcionar hein ?
Não disse nada, apenas entrei no apartamento. Fui até a cozinha tomar um copo d'água e me deparei com um buquê de rosas vermelhas e um cartão no meio. Abri o cartão curiosa.
" Eu sei que não vai atender nenhuma ligação minha. Só me escuta... Desculpa se não venho sendo o namorado perfeito e presente que você sonha, mas eu me esforço. E farei de tudo para te ver feliz. Então, amanhã, às 8:00 hrs se não estiver no aeroporto, eu vou saber que não quer mais nada comigo. Só lembre dessas palavras: Eu te amo. Do Contra. "
Respirei fundo o perfume das rosas e apertei o cartão contra o meu peito. Sim, eu vou me lembrar dessas palavras. E sim, eu sei o que devo fazer para ser feliz. Tirei minha roupa e coloquei meu pijama confortável nenhum pouco bonito e deitei na cama. O Do Contra havia sido bem claro com as suas palavras e eu sabia que o que eu decidisse não teria volta. Minha cabeça começou a doer então levantei e tomei um remédio. A imagem do meu jantar com o Cebola me veio à mentes. E o sanduíche também. Credo! Acho que vou explodir!
Voltei para a cama e me deitei de novo. Já sei o que vou fazer amanhã. E tenho certeza de que é o melhor a fazer.
Fale com o autor