Notas iniciais
Boa leitura ❤
História dedicada à meus loucos que estão sempre ao meu lado ❤

Era a primeira manhã de inverno do ano, dava para perceber pela neblina que cobria as ruas e a grande queda de temperatura comparada com o resto do mês que passava em um piscar de olhos. Graças a Deus essa era a última semana antes das férias.
Estávamos tendo mais uma entediante aula de Português, aprendendo mais regras que pareciam não quererem entrar dentro de nossa cabeça. Tudo permanecia normal, até uma longa e barulhenta sirene tocar pelos cantos da escola, um pouco diferente do sinal do recreio. Ninguém sabia o que era, talvez este fosse apenas um teste para testar um novo sinal ou uma sirene divina que veio nos dizer que o fim do mundo estava próximo. Prefiro acreditar na primeira opção mesmo.
A professora saiu da sala para verificar o que estava acontecendo, porém desta vez ninguém ficou nos vigiando como de costume, isso fez com que a sala ficasse mais inquieta do que já era. A porta estava fechada, porém ninguém se atreveu a abri-la.
A tal sirene misteriosa voltou a tocar, finalmente tomei a iniciativa de abrir esta porta problemática. O bando de curiosos vieram olhar junto comigo, a paisagem surpreendia a todos.

As chamas alaranjadas surpreendiam a todos. Fogo. Era um incêndio dentro da escola, da nossa escola. Ficamos observando perplexos, sendo que continuaríamos olhando se não houvesse uma explosão das lâmpadas fluorescentes por causa do calor, e isso acabou nos jogando um pouco para trás.

— Fujam! — Gritaram.

Enquanto eles saíam correndo, desesperados​, eu tentei manter a calma, mesmo que não fosse fácil. Arrumei meu material e coloquei a mochila nas costas. Eu já estava pronta para sair, mas olhei para trás antes, faltava certas pessoas para me acompanhar.

— O que está acontecendo? — Eduarda perguntou após todos nós, cinco pessoas problemáticas, nos reunirmos.

— Incêndio. — Respondemos em sincronia. — Verde!

Sempre tivemos essa mania, toda vez que disséssemos qualquer coisa juntos, quem tocasse em algo de coloração esverdeada primeiro teria mais sorte. Desta vez, o trevo de quatro folhas foi para mim com um toque no quadro negro.

— Sério? Fogo?!

— Não, água. — Mharessa retrucou.

— Claro. Com certeza. — Respondeu com ironia.

— Sim, é fogo. — Conclui.

— Você não percebeu? — Anne ficou boquiaberta com a desatenção da amiga.

— Desculpa, sou lerda.

Era possível ouvir muitos gritos vindos de fora. Só havia restado a gente na sala, literalmente. Com pessoas como estas, não parecia que o mundo estava “acabando”.

— Vamos sair logo daqui, não quero virar churrasquinho. — Nick empurrou a gente para o outro lado da parede. Realmente lembrava mesmo um forno, com bastante fumaça e bem quente. Nestas horas, os bombeiros não aparecem, mesmo que a base deles seja na outra rua aqui do lado. Que coisa, não?

— Só sobrou nós aqui? — Questionei.

— Parece que sim. — Anne me respondeu com uma pitada de dúvida, porém esta já foi resolvida. Ouvimos mais gritos indo na direção da luz, ou seja, da entrada do prédio. Provavelmente esse era o sinal perfeito para o final de nossa fuga.

— Pela porta da frente! “Bora”! — Dei a ordem, eles sempre me consideraram como a líder do grupo, talvez por causa de eu ser a mais responsável e organizada.

Saímos correndo em direção ao lugar que determinei, parecia o fim de mais uma aventura maluca.

Apenas parecia. Quando faltava mais ou menos seis metros para chegarmos na rua, Dudinha caiu praticamente na metade do corredor e não levantou mais. Parei minha correria e voltei para dar auxílio, em seguida eles também vieram.

— Você está bem? — Perguntei, ajudando-a levantar.

— Sim. — Pude perceber que isso é uma mentira, são muitos anos de convivência. Seus olhos lacrimejavam, existia forma de não desconfiar?

— Tem certeza?

— Eu já disse, estou bem. — Saiu andando com dificuldade. — Minha perna só está dolorida.

— Se você diz. — Não deixei que andasse mais que dois passos, coloquei seu braço direito sobre meu ombro para que apoiasse. Nick fez o mesmo com o braço esquerdo.

— Não precisa de tanto exagero.

— Precisa sim, para de ser teimosa. — Anne a repreendeu.

— Nossa, obrigado. — Revirou os olhos.

— É obrigada! — Desta vez foi eu que a repreendi.

— Ah! Tanto faz! — Revoltou-se.

— Gente, vamos sair daqui logo? Esse cheiro de queimado já está irritando meu nariz. — Mharessa reclamou.

Concordamos com a cabeça, as duas saíram correndo na frente, a gente foi indo com calma. Porém, no momento em que elas iriam passar pela porta, o teto da recepção simplesmente desabou, interrompendo a passagem e liberando muita poeira em nossos olhos.

— Estamos presos! — Nick se manifestou.

— Deve ter outra saída. — Comecei a tossir enquanto dizia.

— Onde? — Nossa querida revoltadinha fez esta pergunta, sua perna já havia voltado para a sã consciência.

— Ei, podemos tentar abrir aquela portinha da arquibancada que dá no nada. Lá na quadra, o fogo demoraria mais para chegar até nós por causa dos ferros das grades. — O garoto sugeriu uma ideia maluca, que na verdade fazia muito sentido.

— Não custa tentar. — Anne declarou sua opinião.

Novamente iniciamos nossa clássica correria, que mais uma vez resultou em desastre. O fogo do pátio estava muito forte e se espalhava cada vez mais. Se tentássemos atravessar, poderíamos acabar ganhando queimaduras profundas.

— Fim da linha. — Suspirei.

— Não, não pode ser… Tem que ter uma saída. — Nick se mostrava perplexo, parecia tudo tão estranho para ser real.

O que mais era temido aconteceu, perdemos tempo parados ali, isso fez com que aqueles gigantes alaranjados nos cercassem, agora não tinha mais jeito.

— Acabou. — Mharessa encostou a cabeça em meu ombro.

Meu coração se partiu ao meio, era muita coisa para digerir.

— Existe uma coisa boa em tudo isso. — Todos me encararam surpresos. — Pelo menos encerraremos nossa jornada de vida junto de pessoas que gostamos e admiramos. Veremos a vida passar diante de nossos olhos, e eu poderei conhecer vocês mais uma vez. — Ri, sem graça. — E se alguém ainda sobreviver, este sortudo vai nos representar em um futuro próximo, fazer tudo o que queríamos fazer e… — Percebi muitas lágrimas correndo pelos olhares ali, principalmente dos meus. — E nunca, nunca mesmo, vai esquecer da gente, pois agora nosso nome vai estar registrado na história mundial, como a maior amizade já vista na Via Láctea. Mas na verdade não é apenas uma simples amizade, somos uma Ohana. Ohana quer dizer família, e família quer dizer nunca abandonar ou esquecer.

Quando encerrei, fui abraçada pelos meus melhores amigos nesse mundo. Eu não aguentava mais chorar. Eu não gosto de chorar.

Evitamos despedidas, sabíamos que iria ser mais doloroso ainda.

Fechei meus olhos definitivamente, pude ver as estrelas vindo em minha direção e cada uma delas trazia um momento de minha trajetória, até mesmo junto das pessoas anteriores, cada risada, lágrima, sorriso. Todo aquele “espetáculo” que fizemos não foi nada, foi apenas nossa loucura exposta para o mundo, um pedacinho dela, pois o resto será levado ao céu, que irá emocionar cada indivíduo que olhar para ele e se reparar com o arco-íris​ mais perfeito do mundo, nosso vínculo de amizade.

Acordei em um susto, tudo passara de um detalhado pesadelo, ou melhor, um sonho. Desci correndo da cama, o chão gelado tocando meus pés trouxe uma sensação de conforto psicologicamente. Estava escuro, deveria ser no comecinho da madrugada ainda, porém a luz da rua atravessando a janela permitia que houvesse pontos de luz em meu quarto. Olhei para meu reflexo no espelho de minha penteadeira, meus olhos estavam inchados e a lembrança dessa história fantástica fazia com que eles voltassem a lacrimejar. No meu celular, fiquei passando nossas fotos juntos, até que abracei o aparelho de vez.

Não acredito que tudo foi apenas um sonho maluco, não acredito em sonhos. Para mim, estas visões são ações reais que aconteceram em uma outra Terra a partir da teoria dos Multiversos, pois assim quer dizer que valeu à pena ser feliz perto de pessoas como as que me rodeavam. Porém, nada poderá calar nossa loucura, nem um incêndio ou um apocalipse, pois nada pode nos parar, nem aqui, nem em universo nenhum. Somos loucos. Somos imortais.

Notas finais
Obrigada pela leitura :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!