Our Lives
2 Youth
Notas iniciais
(P.O.V Olivia Gardner)
Domingo. Não poderia existir um dia melhor, é um dia em que não é preciso olhar e nem falar com ninguém, aproveito apenas a minha companhia e o som de uma boa música. Conviver com tantas pessoas todos os dias acaba nos estressando e a única coisa que queremos é paz.
Mas não há nenhuma, mesmo sendo Domingo.
Mesmo que eu queira não consigo me sentir em paz. Não depois de tudo que aconteceu.
Estou nesse exato momento em uma delegacia, esperando que a pessoa que me fez sentir tão humilhada pague por tudo que me causou. Estou aqui para falar exatamente o que aconteceu, mas isso é o que mais me machuca, tenho que lembrar de tudo novamente. Viver tudo de novo.
Aqui estou eu, preso nesse sofá
Percorrendo minhas anotações
Meu coração foi quebrado
Ainda não está se recuperando, não
— Olivia Gardner? — Me chama um oficial e me levanto – Pode me acompanhar. — Começo a segui-lo e entramos em uma sala com uma mesa bem no centro e duas cadeiras – Fique à vontade. – Sai da sala me deixando sozinha.
Sento na cadeia e fico batucando meus dedos na mesa esperando que alguém abra a porta para que acabemos com tudo isso de uma vez. Aguardo por aproximadamente uns dez minutos e uma policial entra e tranca a porta logo em seguida.
— Olivia? — Pergunta, mas só por educação.
— Isso. – Concordo
— Meu nome é Rosie, é para mim que você vai contar tudo que aconteceu. — Balanço a cabeça em concordância — Sei que pode ser um pouco complicado, mas tenho que saber todos os detalhes, exatamente como ocorreu. Já me deram uma prévia sobre o fato e devido às circunstâncias, pode demorar o tempo que precisar, não precisa se sentir pressionada. — Termina com um sorriso fraco e uma voz calma.
— Tudo bem, obrigado. – Devolvo sorriso, mas sei que não chegou aos meus olhos.
Ela se senta na minha frente, pega o bloco de anotações que estava em cima da mesa, leva as mãos ao bolso da frente de sua calça puxando uma caneta e me olha.
— Pode começar se quiser. – Me encorajou.
Dou um suspiro, esfrego minhas mãos que só percebi agora que estavam muito suadas e frias, levanto meu olhar até o dela e começo a falar com uma voz fraca:
— Tudo começou na escola. Eu nunca fui uma criança extrovertida, sempre fiquei mais na minha, mas não chego a ser antissocial. – Paro um pouco, dou uma leve respirada e continuo. — Era muito ingênua e isso fazia com que as pessoas acabassem me usando para fazer alguma tarefa e até para colarem nas provas. – A policial me olha com um olhar reprovador e me adianto para explicar. – Nunca passei cola, mas eles faziam de tudo para conseguirem dar uma olhada nas minhas provas. Eu gostava de um menino, seu nome é Noah, e um dia ele veio falar comigo como se fossemos amigos. No começo achei um pouco estranho, mas eu gostava tanto dele que deixei ele se aproximar e eu fiz o mesmo. Depois de um tempo em que apenas nos falávamos nos corredores da escola, ele me chamou para sair e eu aceitei, claro. – Paro mais uma vez, meus olhos se enchem de lágrimas e mais uma vez vejo onde errei, não devia ter ido naquele encontro.
Rosie faz menção de falar alguma coisa, mas não deixo e a interrompo:
— Esse "encontro" para o qual ele me chamou não passava de uma brincadeira de muito mal gosto. Os amigos dele estavam nos vigiando o tempo inteiro e quando íamos nos beijar senti um flash no meu rosto e quando viro vejo que eles estavam bem próximos de nós. Noah não sabia o que falar, estava tão surpreso quanto eu, mas como eu estava tão nervosa e com vergonha do que tinha acabado de acontecer acabei dizendo coisas que com certeza o magoaram e fizeram com que ele ficasse com raiva de mim. – Nessa hora eu já soluçava — Duas semanas depois, enquanto eu entro na escola vejo que todos me encaravam com rostos de pena, não sabia o que estava acontecendo. Fui até meu armário e me deparei com ele todo pichado, estavam escritos xingamentos e ameaças, não precisei de muito para saber quem que estava por trás disso, então fui até Noah e exigi saber o que aquilo significava. Ele apenas deu de ombros, falou que não sabia do que eu estava falando, virou as costas e foi embora, simples assim. Nesse dia eu não consegui passar um segundo sem ser questionada por todos sobre o porquê de terem escrito aquelas coisas no meu armário, eu estava me sentindo tão exposta que não conseguia falar com ninguém, então as pessoas começaram a tomar suas próprias conclusões e passaram a acreditar no que estava escrito pelas paredes da escola. — Parei um pouco para pensar como contar o resto da minha história, mas a policial me perguntou:
Acordo com manchetes e
Sou preenchido de devastação novamente
Meu coração está quebrado
Mas eu continuo seguindo
— Só isso? — Só isso? Como ela pode me dizer uma coisa dessas? Estou aqui me esforçando para contar exatamente tudo e ela joga isso em cima de mim?— Não aconteceu mais nada? Porque com tudo que eu ouvi até agora não dá para acusar ninguém, muito menos punir alguém. Me disseram que você havia sido agredida, mas pelo o que estou vendo o que aconteceu não passa de uma briga de colégio. — Por que ela tem que ser tão insensível? Não podia me esperar contar a história toda pelo menos?
Olho bem para os seus olhos, levanto e vou em direção da porta.
— Espera! Onde você está indo? — Rosie pergunta não entendendo o que eu estava fazendo.
— Indo embora. – Falo como se fosse óbvio.
— Por que? Ainda não acabamos. – Tenta mostrar alguma autoridade, mas não tenho medo, já estou farta de tudo isso.
— Sim, nós acabamos – Falei com um tom de voz mais alto e ela me olhou estranhando meu comportamento. — No momento em que falou que tudo não passa de uma 'briga de colégio' você acabou com a nossa conversa, no momento que você falou isso acabou com as minhas esperanças de ter justiça e fazer com que alguém que me fez tão mal sofra as consequências. — Ela me olha com um olhar arrependido. — Mas talvez você tenha razão, tudo isso pode ser apenas uma briga inútil de escola entre adolescentes que não sabem de nada. — Abri a porta e a fechei em um rompante, andei apressadamente até as portas da delegacia e saí.
Dor, mas não vou deixar que se transforme em ódio
Não, eu não vou deixar isso me mudar
Nunca perderei de vista quem eu sou por dentro
Agora eu sei disso
Sim, eu sei
Corri até em casa, não aguentava mais, se nem a própria lei pode me ajudar, ninguém vai. Entrei em casa como se nada tivesse acontecido e percebi que meus pais não estavam, ótimo. Preparei um lanche, a raiva borbulhava em mim, subi até meu quarto e me tranquei lá.
Quando me acalmei um pouco comecei a chorar e percebi que tudo tinha sido em vão, não conseguimos nada tendo um rosto amigável e sendo educada, quando enfrentei aquela policial, coisa que só agora percebi que não deveria ter feito, foi que ela me olhou como se realmente eu estivesse ali e me respeitou, não adianta ser aquela que só fala o necessário e ainda filtra suas palavras para não ferir ninguém. Adormeci cansada de tanto chorar.
Fui acordada com um barulho enorme vindo do andar de baixo, calcei meus chinelos e desci correndo as escadas, todas as luzes estavam apagadas e apenas a da garagem estava acesa, andei devagar e com medo até lá, prendi minha respiração quando vi um homem de costas para mim usando um casaco de chuva preto com capuz, quando vou gritar ele se vira e todo o ar que estava prendendo é solto. Não acredito. É só meu pai.
— Pai! — Falei em um tom acusatório — Não me assuste desse jeito, caramba!
— O que? — Pergunta fingindo inocência, mas vê minha cara emburrada e se desculpa – Desculpa Liv, eu deixei cair umas caixas de ferramentas quando fui fechar o carro. – Deu uma risada e percebi só agora que tinha várias ferramentas espalhadas pelo chão — Sua mãe já chegou? — Perguntou.
— Ainda não, deve ter ficado presa na estrada de novo. – Era sempre assim, ela demorava horas para chegar em casa e dava a primeira desculpa que encontrava, meu pai pode até aceitar, mas acho ridículo.
— Ah, entendi. – Fala um pouco chateado. – Vou preparar algo para nós comermos. – Concordo com a cabeça e ele passa por mim indo direto para a cozinha.
Vou até a sala, pego meu celular que estava em cima da mesinha de centro e resolvo mandar uma mensagem para minha mãe.
"Mãe, onde você tá?"
" O pai já chegou, você vai chegar
a tempo para o jantar?"
"Espero que sim"
" Liv"
A mensagem nem chegou para ela, eu já estava acostumada, nem sei porque ainda insistia. Porque ela é sua mãe. Às vezes tenho dúvidas disso.
Você não pode levar minha juventude embora
Essa minha alma nunca vai se quebrar
Enquanto eu acordar para um novo dia
Você não pode levar minha juventude embora
— Olivia, vem jantar! — Ouço meu pai me chamar da cozinha
— Tô indo!
Vou até meu quarto, guardo o celular e troco de roupa. Desço até a cozinha e vejo meu pai sentado na mesa pronto para comer.
— Conseguiu falar com ela? — Perguntou.
— Como você sabia que eu estava tentando falar com ela?
— Porque acabou de chegar a notificação. — Balança o celular, que reconheço como sendo da minha mãe, em suas mãos.
— Não acredito, como ela deixa o celular em casa? E se acontece alguma coisa? — Fico preocupada.
— Ela deve ter esquecido, só isso. – Meu pai fala calmo e tenho raiva, raiva dela.
— Não sei como você consegue fazer isso. – Falo apenas.
— Fazer o que? — Pergunta, claramente confuso. Decido abrir o jogo e ser direta.
— Acreditar nela. – Digo apenas.
— Como pode dizer isso, Olivia? Não tem respeito? — Fala se alterando.
Você me atingiu com palavras
Que eu nunca ouvi sair da sua boca
Para ser honesto
Eu não quero isso, não
— Respeito eu tenho, não tenho é paciência para lidar com ela. — Fiquei irritada – Todo dia é a mesma coisa: você chega antes dela, eu mando uma mensagem para ver se ela já está vindo e nunca sou respondida. — Jogo tudo isso e ele me olha com os olhos curiosos e ao mesmo tempo parece envergonhado.
— Sua mãe deve ter razões para fazer isso. – Fala, defendendo ela.
— Ela sempre tem, a única diferença é que você acredita nela, eu não. — Não deveria ter falado isso, ele me olha com fogo nos olhos e me encara durante um bom tempo.
— Vá para o seu quarto, pode deixar que eu arrumo aqui. – Fala aborrecido e decido obedecer, de algum jeito eu devo ter o magoado.
Tomei um banho e deitei. Estava quase dormindo quando lembro que amanhã é segunda, não consigo dormir mais, um ódio toma conta do meu corpo e já sei exatamente como devo agir:
Não vou mais ser aquela garota que não chama atenção por onde passa. Nunca mais, eu juro.
É difícil dormir à noite
Sabendo o que está lá fora
Sentindo-me sem esperança
Eu preciso de foco
Dor, mas não vou deixar que se transforme em ódio
Não, eu não vou deixar isso me mudar
Você não pode levar minha juventude embora
Essa minha alma nunca vai se quebrar
Enquanto eu acordar para um novo dia
Você não pode levar minha juventude embora
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