Our Lives
7 Certeza
Notas iniciais
(P.O.V Shawn Mendes)
Não conseguia mais ficar nesse quarto. Estava me sentindo incomodado, sabia que tinha alguém me vigiando e isso me deixava inquieto. Logo que voltei da consulta com o Dr. Collin hoje de manhã, tive um pequeno surto, me sentia sufocado.
Recebi meu almoço no quarto e uma enfermeira me deu uma dura por ter saído desacompanhado pelos corredores, mas eu não ligo. Não sei quanto tempo ficarei aqui, mas sei de uma coisa: nada vai mudar eu estando nessa clínica ou em casa. Eu sou tratado do mesmo jeito aqui como era lá.
A tarde passou tranquila, já que eu estava sozinho com alguém do outro lado dessa parede. Até que ouço um grito vindo do corredor, mas como não há nenhuma abertura na porta e a mesma fica fechada, não consigo ver nada. Depois do grito vem passos, como se alguém estivesse correndo.
— Peguem ela! — Alguém ordena.
Logo o barulho cessa e percebo que não estão mais no meu corredor, a pessoa deve ter escapado. Mas por quê alguém tentaria fugir?
Tomo dois medicamentos por dia, isso faz com que eu fique cansado e com muito sono, por isso nem percebo quando já estou com os olhos fechados.
Acordo sentindo alguma coisa se movimentar do meu lado, abro os olhos e vejo que uma moça arruma meus travesseiros e está com um pano em mãos. Imediatamente sinto meu corpo molhado e meu rosto ferver.
— Que bom que acordou. — Ela diz com um sorriso mínimo.
— O que aconteceu? — Pergunto passando a mão em minha testa. Estava com muito calor.
— Nada muito preocupante, são só os efeitos do remédio. — Não falo nada. — Está com calor?
— Sim, muito.
— Normal. — Passa o pano pela minha nuca. — Você estava sonhando. — Me conta.
— Como você sabe? Falei alguma coisa? — Me sento melhor na cama.
— Sim, falava sobre uma menina. — Seus olhos desviaram dos meus. — Emma.
— Ah, sim. Ela é minha melhor amiga. — A moça não aparentava aceitar essa resposta e me olhou como se soubesse de alguma coisa. — O que foi?
— Ela não parecia ser apenas sua melhor amiga. — Fico vermelho. — Você gosta dela. — Afirmou.
— Talvez. — Fico desconfortável e decido mudar de assunto. — Como é o seu nome? Nunca te vi aqui.
— Sarah. — Dá um sorriso. — E você não me viu aqui porque eu sou voluntária, não venho todos os dias. — Coloca o pano em um balde do lado da cama e se senta em uma cadeira, fazendo com que fiquemos na mesma altura.
— Voluntária? — Ela assente. — Por que você gostaria de ficar em um lugar onde só tem gente doida? — Não entendia.
— Não são pessoas doidas, Shawn. — Disse meu nome com tranquilidade. — São pessoas que precisam de ajuda. — Me olha séria.
— Certo, precisamos de ajuda. — Digo ironicamente. — Faz alguns anos que eu tenho isso, ninguém nunca me ajudou e eu estou vivo. Não acho que apenas uns remédios, consultas e o isolamento irão me ajudar agora. — Falo mal-humorado e ela me olha estranho.
— Isolamento? — Assinto. — Você não tem permissão para sair? — Nego. — Faz quantos dias que está aqui? — Pergunta.
— Não sei, uns três, acho. — Ela me analisa.
— Daqui mais uns dias eles te deixam sair, agora estão apenas vendo o grau no qual você está. — Concordei.
— Então. — Comecei. — Como voluntária, o que você faz?
— Apenas fico de olho no pessoal, e às vezes surge umas coisas para fazer.
— Tipo o que? — Pergunto.
— Tipo agora. Quando entrei você estava suando e resmungando algumas coisas. — Fala com os olhos preocupados.
— Falando nisso, será que eu posso trocar de roupa? Essa aqui está molhada. — Ela olha para o meu corpo e não me responde. — Sarah? — Falo um pouco mais alto e ela dá um pulinho na cadeira.
— O que? — Olho para a minha roupa e novamente para ela, a voluntária parece entender. — Ah, claro. Vou pegar um novo conjunto para você, já volto. — Ela fala vermelha e sai voando pela porta. Dou um meio sorriso.
Enquanto ela não volta, tiro minha roupa e fico apenas com a cueca, vou até o banheiro e espero ela voltar. Senti que Sarah era diferente dos outros funcionários, era esforçada e não me tratava de forma diferente. Emma era assim.
— Shawn? — Ouço a voz de Sarah me chamando.
— No banheiro. — Aviso.
— Vou deixar sua roupa em cima da cama, tudo bem?
— Tudo bem, obrigado Sarah. — Agradeço.
— Sem problemas. — A porta é fechada e logo vou me trocar.
Sento na poltrona ao lado da cama e penso no que aconteceu mais cedo, os gritos. Pelo que parecia alguém estava querendo fugir, provavelmente era um paciente, mas porque alguém iria tentar sair daqui? Tudo bem que eu não gosto muito desse lugar, mas sei que tenho chances de melhorar se continuar na clínica, independente do jeito que me tratam. Nunca me passou pela cabeça eu estar preso nesse lugar e acho que esse não é o caso, se eu quiser sair eles têm que deixar. Certo?
Meus pensamentos são encaminhados até Elliot e me sinto um pouco culpado com tudo que aconteceu, mas não mudaria minhas atitudes. Quem sabe ele voltará aqui e me contará sobre o campeonato que não vou mais participar. Lembro dele falando sobre Emma e aquela pontada de ciúmes surge.
Nem quero saber sobre meus pais, minha mãe não apareceu aqui nem uma vez e meu pai só veio para me ameaçar. Devem estar pensando em ter novos filhos e me deixar aqui sem ao menos uma visita. Quando sair daqui vou procurar algum lugar para morar e finalmente sair daquela casa que nunca foi meu lar.
— Sr. Mendes — A porta é aberta e um enfermeiro entra. Desvio minha atenção para ele. — Hoje o senhor vai jantar junto com os outros pacientes, mas tem que se comportar, caso contrário não terá outra chance para se socializar. — Me olha sério.
— Não sou um animal, sei ser educado. — Falo com uma voz firme. — Não precisa me tratar como um, acho que você que precisa rever seu comportamento. — Lanço um olhar desafiador em sua direção e ele me encara com um sorriso debochado.
— Tanto faz, espero que tenha entendido o recado. — Caminha até a porta e se vira para mim. — Se continuar com essa doçura, ninguém irá com a sua cara. — Se encosta no batente e espera minha resposta.
— Não se preocupe, apenas falo assim quando sou tratado do mesmo jeito. — Ele não se intimida. — Agora se me der licença, prefiro ficar sozinho até a hora do jantar. — Termino. Ele se desencosta e sai batendo a porta. O que tem de errado com essas pessoas?
Fico pensando em tudo e mais um pouco até alguém vir me chamar, confesso que estava nervoso em conhecer novas pessoas, não sei se sou sociável o suficiente para manter uma boa conversa com alguém durante alguns minutos. Eles podem me achar infantil demais, velho demais, careta demais. Podem não ir com a minha cara.
— Shawn? — Ouço uma voz conhecida e me viro em sua direção, ela estava com as mãos na maçaneta da porta. — Está pronto? — Assinto. — Então vamos, deve estar com fome.
— Estou mesmo. — Solto uma risada e caminho até a porta. Esfrego minhas mãos uma na outra em um claro sinal de nervosismo e Sarah percebe.
— Fique tranquilo, você consegue. — Olho para ela com um meio sorriso agradecido. — Você é forte.
Forte, claro.
(P.O.V Olivia Gardner)
Seria muita coincidência ou loucura esse Shawn ser o mesmo menino que é amigo de Elliot? Claro que sim. Não sei o sobrenome do garoto que Elliot me falou, mas não é só o nome dele que me deixou surpresa, e sim as poucas coisas que ouvi meu colega dizer sobre ele. Ele tinha "problemas”. Odeio essa definição.
Hoje mesmo perguntarei sobre esse Shawn, não diretamente para Elliot, mas para Emily.
Já estava pronta para ir à escola, fui até a cozinha e encontrei minha mãe encostada do balcão bebendo água.
— Mãe? — Ela me olha. — Ainda está aqui?
— Sim, tirei o dia de folga. — A olhei espantada. — Não precisa se assustar, não vou te incomodar à tarde. — Dá uma risada e eu ainda não consigo assimilar.
— Como assim, tipo férias? — Pergunto confusa.
— Não, que me dera. — Coloca o copo em cima da pia e se vira para mim. — Será só hoje mesmo, meu chefe está viajando. — Desvia o olhar. — Falando nisso, seu pai saiu mais cedo hoje, teve algum problema no aeroporto. — Conta.
— Entendi, Já vou indo então. — Despeço-me e vou em direção à porta.
— Quer que eu te busque? — Minha mãe fala mais alto.
— Não precisa, gosto de caminhar. — Dou um sorriso e saio.
[...]
Chego na escola e vou até o ginásio de Hóquei, hoje os meninos vão iniciar os treinos para o campeonato e nós somos permitidos a assistir. Entro pela porta do ginásio e me deparo com alguns garotos já praticando e alguns alunos na arquibancada.
Não encontro Emily em lugar nenhum, mas vejo Elliot mais distante e vou em sua direção.
— Elliot? — Ele levanta o olhar para mim. — Tudo bem? — Pergunto preocupada.
— Não muito, mas nada grave. — Força um sorriso, mas consegue apenas uma careta.
— Não quer falar sobre o que está acontecendo? — Ele me olha surpreso.
— Na verdade, não. Acho que eu tenho que engolir tudo que está ocorrendo ultimamente. — Fala com o olhar perdido no gelo.
— Quando você quiser pode me procurar, sei que eu posso parecer meio chata, mas não sou tanto. — Dou uma piscada e um sorriso, ele me olha e dá um sorriso.
— Eu sei. – Ri pelo nariz. — Mas não precisa se preocupar, são só problemas de família. — Me tranquiliza. — Você está diferente. — Me analisa.
— Diferente como? — Pergunto confusa e me olho.
— Não fisicamente. — Me olha procurando alguma coisa. — Apenas está diferente, acho que é porque nunca tivemos esse tipo de conversa. — Dá um sorriso. — Eu só achei diferente, desculpa se te deixei confusa. — Dá uma leve risada.
— Ah, entendi. — Me tranquilizo. -Mas não se acostume, não é todo dia que estou assim. — Olho para ele fingindo uma cara de superioridade.
— Já estou um pouco acostumado com esse seu comportamento agressivo, acho que consigo lidar com isso. — Entra na brincadeira e rimos. Ainda não era a hora certa de perguntar sobre o garoto que vi na clínica.
— Então, que horas vocês vão começar o treino? — Mudo de assunto.
— Daqui a pouco, algumas pessoas ainda não chegaram. — Fala olhando ao redor.
— Quem falta?
— Alguns meninos que acho que você não conhece. — Continua procurando alguém. — E Shawn, mas ele saiu do time.
— Por quê? — Pergunto curiosa.
— Não queria jogar, vai entender. — Força uma risada e abaixa o olhar logo em seguida.
— Entendi. — Finjo não perceber sua mudança de humor. — Era ele que você ia me apresentar, né? — Pergunto já sabendo a resposta.
— Sim, mas ele faltou no dia. — Fala rapidamente.
— Quando vou poder conhece-lo? — Insisto.
— Por quê? Já está interessada? — Pergunta em um tom brincalhão, mas consigo sentir que está tentando mudar o foco da conversa e sinto sua voz um pouco mais alta.
— Nada a ver. — Nego com a cabeça. — Apenas estou curiosa em saber quem é ele.
— Sei. — Me olha desconfiado.
— Então. — Chamo sua atenção e ele me olha confuso. — Quando? — Continua me encarando. — Quando vou poder conhecer ele? — Rolo os olhos com a sua lerdeza.
— Ah, então..- Passa a mão nos fios loiros do seu cabelo. — Não sei..
— Meninos! — Grita o técnico e interrompe Elliot. — Todos aqui dentro, vamos começar! — Vejo Elliot suspirar e ele parece aliviado.
— Tenho que ir. — Me dá uma piscada e vira-se indo em direção ao treinador.
— Olivia! — Chamam meu nome e procuro de onde está vindo a voz. — Aqui em cima! — Olho para a arquibancada e vejo Emily no último degrau, lá em cima. — Vem aqui! — Me chama.
Subo rapidamente e quando alcanço onde ela está já estou cansada.
— O que você está fazendo aqui sozinha? — Pergunto.
— Esperando por você, vi que estava falando com Elliot e não quis atrapalhar. — Me olha diferente e entendo o que ela quis dizer.
— Não está acontecendo nada entre nós. — Me defendo.
— Eu não falei nada sobre isso. — Me olha como se eu tivesse a ofendido. — Mas se você está dizendo, quem sou eu para falar o contrário. — Finge não se importar.
— Quando acaba o treino? — Mudo de assunto.
— Não faço a menor ideia. — Dá de ombros.
— O que exatamente nós temos que fazer aqui?
— Nada. — Responde apenas. — Nós deveríamos estar estudando ou algo assim, mas ver os meninos é muito mais interessante. — Dá um sorriso nada inocente.
— Você mesma falou que não achava os meninos daqui atraentes. — Acuso.
— Sim, eu falei. — Concorda. — Mas são meninos do mesmo jeito. — Dá risada e eu acompanho.
— Tem razão. — Concordo e começamos a prestar atenção ao treino. — O que você ia me falar esses dias, mas o professor nos interrompeu? Esqueci de perguntar na sorveteria. — Quebro os pequenos segundos de silêncio.
— Ah. — Pensa um pouco. — Não era nada. — Dá um sorriso amarelo.
— Certeza? — Desconfio.
— Absoluta. — Assente com a cabeça. Uma hora ela me contaria.
[...]
Os meninos não eram ruins...nem bons. Vai ser bem difícil esse campeonato, já que o único que parece saber exatamente o que está fazendo é Elliot, os outros até que levam jeito, mas dá para perceber que não têm muita prática. Depois de uma hora o treinador encerra o treinamento.
Elliot é o primeiro que sai e vem em nossa direção pisando duro.
— Isso não vai dar certo! — Bufa e passa a mão em sua testa suada.
— Por que não? — Emily é mais rápida que eu.
— Esses caras não sabem quase nada! — Senta na nossa frente. — Nunca que vamos conseguir vencer um jogo! — Coloca as mãos em seu rosto e apoia seus cotovelos no joelho, como uma criança birrenta.
— Não foi tão ruim.. — Tento melhorar a situação.
— Claro que foi! – Aumenta a voz. — Precisamos do Shawn. — Sussura e seus olhos se perdem por um momento.
— Conversa com ele, peça para ele jogar. — Emily fala o óbvio. — Pelo que eu me lembro ele se inscreveu, não é? — Pergunta confusa.
— Ele não quer mais jogar. — Respondo no lugar de Elliot.
— Mesmo assim, vamos ir até a casa dele e fazer ele mudar de ideia. — Insiste.
— Ele não está em casa. — Fala baixo.
— Não tem problema, quando ele chegar nós vamos até lá. — Falo.
— Ele não vai voltar para casa. — Quase não consigo ouvir sua voz.
— Como assim? — Emily pergunta confusa.
— Ele está morando sozinho? — Pergunto.
— Quase isso. — Pega suas coisas e ameaça ir embora.
— Onde você está indo? — Eu e Emily falamos juntas.
— Para o vestiário. — Vira-se de costas e começa a descer a escada.
— Não vai nos falar o que está acontecendo com Shawn? — Emily cobra.
— Não está acontecendo nada. — Elliot dá de ombros. — E se estivesse, você sabe como Shawn Mendes consegue lidar com as coisas sozinho, não é mesmo? — Aponta para Emily e a mesma dá de ombros. Demorei uns segundos para relacionar o nome que tinha acabado de escutar. Shawn Mendes.
Por que Elliot não queria que nós soubéssemos?
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