Our History
22 Amarilidáceas
Notas iniciais
Enquanto subia a ladeira do trabalho de Rachel, a cesta de vime repleta de cupcakes de coberturas variadas batia em meu quadril. Eu não podia saber como aquele encontro transcorreria ou o que ela faria com a oferta de paz que eu acabara de pegar na confeitaria. Melhor cenário: ela aceitaria meu pedido de desculpas e poderíamos deixar aquele assunto para trás. Pior cenário: eu acabaria com uma cesta de muffins atirada na minha cabeça.
O sino acima da porta da imobiliária tilintou, anunciando a minha chegada. Os três homens ergueram a cabeça, tirando os olhos da tela de seus computadores, e olharam para mim. Um deles se levantou, sorrindo calorosamente.
— Blaine. Que bom ver você. Como vai?
— Bem, obrigada, Finn – respondi ao chefe de Rachel, um tanto distraída e discretamente buscando ver, além da barreira formada por seu corpo, a mesa de minha amiga.
— Ela não veio hoje – informou, dando um passo para trás com agilidade, como se eu precisasse da confirmação visual de sua ausência. – Presumo que você tenha vindo falar com Rachel, não comprar uma casa…
Rachel sempre mencionava as tentativas de seu chefe de ser engraçado, de forma que dei um meio sorriso e tentei ignorar o tímido alarme que misteriosamente começara a soar, a distância, após as palavras dele. Também mencionara o quanto Quinn não gosta dele, e já pediu que Rachel mudasse de imobiliária, já que Finn já dera em cima de Rachel inúmeras vezes.
— Ela está doente. Telefonou hoje de manhã – completou ele.
E este acréscimo fez o sino em minha cabeça retinir um pouco mais alto.
— Ela disse qual era o problema? – perguntei, cravando nele o meu olhar.
Finn pareceu um pouco perturbado com o tom de intensidade da minha pergunta, e o sorriso foi aos poucos desaparecendo de seus lábios.
— Hã, não, ela não disse. Presumi que fossem, você sabe… problemas femininos.
— Entendo…
Descansei a pesada cesta na borda da mesa do corretor júnior. Notei seu olhar ávido para os bolinhos e discretamente deslizei a cesta para longe de seu alcance. Ele sorriu, bem-humorado. Voltei-me para Finn.
— Ela disse se viria amanhã?
— Desculpe, não perguntei. Eu estava com alguns clientes, então não pude conversar.
— Tudo bem, não tem problema. Quando chegar à livraria, vou ligar para ela e ver como está – falei, apanhando a cesta e me virando para sair.
— Ela não está atendendo – avisou-me o terceiro colega de trabalho de Rachel.
O alarme já badalava sensivelmente mais alto em minha cabeça quando me virei para o homem de quem eu nunca conseguia me lembrar o nome e que procurava explicar:
— Tentei ligar para ela várias vezes nesta manhã, para tratar de uma venda que ela estava fechando. Mas ninguém atendeu ao telefone.
Foi real e tangível o ímpeto que senti: de puxar um dos telefones deles e discar o número de Rachel. Apertei os dedos contra a palma da mão, em uma tentativa de impedi-los de me constranger ainda mais diante dos colegas da minha amiga. Eles já estavam me olhando com franca curiosidade. Acho que não tivera tanto êxito em manter o pânico longe do meu rosto quanto imaginara que teria.
Não esperei chegar à livraria. Na caminhada de cinco minutos da imobiliária até lá, tentei oito ligações para cada um dos números de Rachel, o do telefone de casa e o do celular. O cara sem nome tinha razão: ela não estava atendendo.
Durante toda a manhã, minha preocupação continuou a ferver lentamente. Se Rachel não tivesse se recuperado até a hora do almoço, eu pediria a April que me deixasse ir até sua casa, para ver como ela estava. Conhecia os hábitos de minha amiga quase tão bem quanto os meus. O celular costumava ficar ao lado da cama, e havia um telefone fixo na mesa de cabeceira de Quinn. Se ela estivesse em casa, doente, não teria como ignorar o dueto tocando em seus ouvidos.
Uma da tarde chegou e se foi, e as vinte ligações no telefone de Rachel ainda não tinham produzido nenhuma resposta. Já bastava. Não descansaria enquanto não tivesse certeza de que ela estava bem. Deixei o balcão e fui até o fundo da loja avisar April de minha saída. Ao chegar lá, porém, deparei com minha chefe abotoando o casaco e enroscando uma longa echarpe de seda no pescoço.
— Você vai sair?
— Isso não é óbvio? Você não lembra que tenho um compromisso marcado com aquele vendedor novo? Vou deixar que ele me pague um almoço caro e pense que esta pobre francesa aqui não compreende as complexidades de administrar uma livraria. Vou esperar até depois de termos tomado o conhaque, para só então deixar claro que a proposta que ele está fazendo é inerente.
— Indecente – corrigi-a.
— Eu sei disso, Blaine – disse April com uma piscadela.
É claro que ela sabia.
A ausência de April me deixou com a responsabilidade de tomar conta da loja; portanto, seria impossível sair para ver Rachel, como eu esperava. Fora essa expectativa a única coisa capaz de conter o meu pânico durante toda a manhã. Minha preocupação era como um tigre inquieto andando de um lado para outro na jaula. Não tinha para onde ir e, quanto mais tempo ficasse preso, mais desesperado e perigoso seria.
Eu não queria incomodar Quinn no trabalho, mas, como não tinha o número do seu celular, não me ocorria outra maneira de descobrir se Rachel estava bem. Se ela estava em casa doente, ela certamente teria entrado em contato com Quinn e então eu poderia ao menos me tranquilizar. Levou uma vida até que eu fosse transferido para seu departamento, e quando por fim consegui ser atendido, disseram-me que ela estava indisponível.
— Preciso falar com ela com urgência – expliquei, esperando que eu estivesse exagerando, mas temendo não estar. – Quando ela estará livre?
— Lamento, mas ela ficará fora do escritório por dois dias, em uma conferência. Se for mesmo urgente, posso tentar enviar uma mensagem.
Considerei a possibilidade por um momento.
— Não, está tudo bem. Talvez o assunto possa esperar. Peço desculpas por tê-lo incomodado – retruquei, tentando conter minha ansiedade.
— Tem certeza?
— Sim, obrigada. Tenho certeza.
Só que não tinha. Nem um pouco.
—-----
Mantive o celular ao meu lado no balcão. No intervalo entre um cliente e outro, continuava tentando os números de Rachel, sem conseguir resposta. Onde ela estava? E por que não atendia? Qual era a gravidade de seu estado? Será que ela desmaiara em casa, que rolara da escada e estava caída, incapaz de alcançar o telefone e pedir ajuda? Desde o acidente, minha imaginação tinha o hábito de correr desenfreada.
No meio da tarde eu já considerava seriamente a opção de interromper a reunião de negócios de April e pedir a ela que retornasse à livraria. Eu sabia que grande parte da minha ansiedade se devia à culpa: eu virara as costas para Rachel e, de forma infantil, direcionara a minha raiva a quem não a merecia. Eu a havia atacado, e o fizera pela simples razão de que a amiga de quem eu estava com raiva de verdade, a amiga que me traíra, não estava mais aqui para que eu pudesse culpá-la.
Quando o telefone enfim tocou, quase o derrubei do balcão, na pressa de atender à chamada. Olhei para o visor esperando ver o nome de Rachel e fiquei furioso ao ver o de Kurt. Pressionei o botão para recusar a ligação. Trinta segundos depois, o aparelho tocou de novo. Será que ele não podia simplesmente esquecer? Olhei o relógio e vi que passava das quatro, então ele já devia estar em casa. Eu me perguntei o que seria preciso para fazê-lo entender. Parecia não fazer diferença a quantidade de vezes que eu dizia a ele que não entrasse em contato comigo: ele simplesmente não escutava.
Kurt ligou mais três vezes antes de recorrer às mensagens de texto. Atenda. Considerei enviar uma mensagem dizendo apenas Não como resposta, mas eu não queria iniciar nenhum tipo de comunicação com ele. Sua segunda mensagem foi mais imperativa: PRECISO FALAR COM VOCÊ. É URGENTE. Franzi a testa para a tela e me perguntei se o uso de maiúsculas teria sido deliberado. Era como se ele estivesse gritando comigo.
Empurrei o telefone um pouco mais para longe. A terceira mensagem foi a fórmula mágica. Foi a que me fez pegar o telefone e ligar de volta. Se ele a tivesse enviado desde a primeira vez, teria nos poupado dez minutos. Me ligue. Rachel está com problemas.
— O que aconteceu? Onde ela está? – perguntei direto, já que não era o momento para “alôs” ou amenidades.
Sua voz soou distante e vazia, e atrás de sua resposta sucinta eu podia ouvir que um vento uivava.
— Estou no cemitério, no túmulo de Tina. Rachel também está aqui. Ela está péssima. Não consigo fazer com que ela me ouça. Preciso que você venha para cá. Rápido.
—-----
Estou mesmo correndo o risco de ser eleito o Pior Funcionário do Ano, pensei enquanto virava a placa na porta de Aberto para Fechado e corria pela livraria apagando as luzes e acionando o sistema de alarme. Rabisquei um bilhete quase ilegível para April, explicando minha saída, e o deixei em sua mesa. Eu deveria ter ligado para ela, mas não queria perder nem um segundo.
Parecia que todos os sinais de trânsito estavam emperrados no vermelho e que em cada carro à minha frente havia um motorista aprendiz tendo sua primeira aula. Quando por fim entrei no estacionamento do cemitério, meu nível de ansiedade havia disparado. Estacionei meio torto na vaga ao lado do carro de Kurt e disparei na direção da área de sepultamento, vestindo o casaco enquanto corria.
Eu lembrava aonde devia ir, embora não tivesse colocado o pé ali desde o dia, quase um mês atrás, em que me agarrara ao braço de Kurt, em busca de apoio enquanto via o caixão de Tina ser baixado para dentro da terra. Nas primeiras semanas, a ideia de ir ao cemitério havia parecido dolorosa demais, e então, depois de eu saber o que acontecera entre ela e Kurt... bem, continuava dolorosa demais.
Eu não tinha visto a lápide de Tina, e na verdade ainda não podia vê-la propriamente, porque Rachel estava ajoelhada diante dela, com a testa apoiada no mármore branco e os braços caídos sobre as bordas, como se abraçasse a amiga que jazia ali. Só aquilo já era preocupante. Porém, mais inquietante ainda era o som gutural e cavernoso de seus soluços, como se ela estivesse chorando por muitas horas.
Kurt estava um pouco mais atrás. Ele observava Rachel com verdadeiro desespero, andando de um lado para o outro, e suas mãos entravam e saíam dos bolsos, sem descanso. Quando ouviu que eu me aproximava correndo, fez meia-volta, e em todos os nossos anos de convívio, não creio que em qualquer outro momento ele tenha ficado tão aliviado de me ver. Parei abruptamente, tentando dar um sentido à cena. Kurt correu na minha direção, como se estivesse ávido por passar aquela responsabilidade. Por um instante quis me virar e correr no sentido contrário, de volta para o carro, e então para o mais distante que pudesse daquele lugar terrível. Mas claro que não fiz isso.
— Graças a Deus, você veio! – falou, com um fervor genuíno na voz.
Ignorei sua mão estendida e caminhei com cuidado sobre a grama esponjosa, escolhendo um caminho entre pequenas pilhas de terra revolvida, uma pazinha lamacenta e uma série de bulbos de plantas. Aproximei-me de Rachel por trás e delicadamente pousei a mão em seu ombro. O estremecimento causado por seus soluços se propagou pelo meu braço.
— Rachel. Sou eu, Blaine. Vim para levá-la para casa, querida. Venha.
Ela não parou de chorar nem se virou. Não sei ao certo nem mesmo se me ouviu, tampouco se estava ciente do meu toque. Aquilo lembrava horrivelmente a noite em que ela se ajoelhara ao lado de Tina na estrada, enquanto esperávamos a ambulância.
— Há quanto tempo ela está assim? – perguntei, movendo meu olhar preocupado de Rachel para Kurt, que havia recomeçado a andar de um lado para o outro.
— Eu não sei. Não tenho certeza.
— Bem, como ela estava quando você a trouxe para cá?
— Eu não a trouxe. Eu vim sozinho, esperando que o lugar estivesse vazio, e a encontrei aqui... assim.
Havia muita coisa implícita naquela frase. Eu me obriguei a empurrar para segundo plano o fato de Kurt ter ido visitar o túmulo de Tina e tentei me concentrar na pessoa que mais precisava de mim.
— Não tenho a menor ideia de há quanto tempo ela está aqui nem de como chegou. Não vi o carro novo no estacionamento...
— Ela ainda não está dirigindo – contei, incisivo.
Kurt pareceu alarmado com a notícia, mas achei que era a coisa menos importante com que nos preocuparmos naquele momento.
— Fiquei dizendo a ela para se afastar do... do túmulo, mas ela não solta a lápide, e quando tentei erguê-la, ela começou a chorar tão alto que pensei que alguém fosse chamar a polícia e mandar me prender por agressão.
Pude ver nos olhos de Kurt que a lembrança o fizera reviver o pânico e quase tive um momento de simpatia por ele.
— Tentei ligar para Quinn, mas ela não atende – falou.
— Ela está fora, em uma conferência.
— Então, o que fazemos agora? – perguntou, parecendo impotente.
Corri a mão pelo braço de Rachel, sentindo a fria umidade que se infiltrara no tecido de seu casaco. Devia haver mesmo muito tempo que ela estava ali.
— Você não precisa fazer nada. Pode ir. Eu cuido disso. Vou levá-la para casa.
Foi uma sensação boa, a de dispensá-lo, mas quando ergui os olhos vi que ele não fizera nenhum movimento para ir embora. Eu não tinha energia para insistir, então simplesmente o ignorei e passei o braço pela cintura de Rachel, tentando fazer com que ela se levantasse.
— Vamos, Rachel, levante-se, vamos para casa agora.
Senti que seu corpo enrijecia e os braços apertavam ainda mais a lápide de Tina. Então ouvi Kurt emitir um breve ruído que se traduzia como Eu disse.
— Rachel, não podemos ficar aqui – argumentei. – Logo, logo vai escurecer, e você está gelada. Vamos para a sua casa. Vamos tomar um chá e conversar. Venha.
Ela sacudiu a cabeça enfaticamente, mas ao menos desviou o rosto do túmulo de Tina e olhou para mim. Ainda não era possível ver toda a epígrafe, mas duas palavras gravadas em letras douradas pareceram saltar do mármore para cima de mim: “Amiga leal.” Enrijeci.
— Não posso ir. Ainda não – disse ela, com a voz alquebrada. – Não até que estejam todos na terra.
Olhei para a esquerda e para a direita e não vi nada além de lápides. Todo mundo já está na terra, Rachel, pensei. Então baixei os olhos para o incongruente equipamento de jardinagem descartado ao lado do túmulo de Tina. Rachel estendeu a mão e pegou um grande bulbo marrom que me pareceu uma cebola.
— Quando acordei, hoje, vi que os narcisos haviam começado a brotar em nosso jardim, e de repente me dei conta de que Tina não tinha nenhuma flor crescendo ao lado dela. Todas as flores aqui são cortadas... e mortas. Queria que ela tivesse algumas vivas. Tina amava flores.
Sim, amava, lembrei. Embora as flores que ela mais amasse fossem, em geral, as do tipo “de floriculturas caras”, que são entregues em grandes arranjos.
— Por isso, fui até o mercado das flores e comprei todas estas – continuou Rachel, descrevendo com a mão um arco abrangente que indicava as dezenas de bulbos colocados sobre a grama, ao lado de vários sacos estufados e ainda fechados, que guardavam outros mais. – Só que não consigo me lembrar de quais flores ela mais gostava: eram narcisos, açafrões ou tulipas?
Eu sabia a resposta: Tina não dava a mínima, mas eu não podia dizer aquilo a Rachel. Não quando ela me olhava com os olhos transbordantes de lágrimas e os lábios trementes como os de uma criança inconsolável.
— Amarilidáceas – respondi, decidido. – Tina amava amarilidáceas.
Será? Talvez. Quem saberia? De qualquer forma, aquilo não era por Tina. Era por Rachel.
— Vamos plantá-los, então – continuei, ajoelhando-me ao lado dela.
O solo produziu um ruído desagradável sob meus joelhos quando me estiquei para pegar a pazinha, e senti que a lama se infiltrava no jeans, mas aquele era um preço pequeno a pagar para dar a Rachel algum conforto. Meu coração doía ao ver o sofrimento dela e perceber como eu devia tê-lo aumentado ao atribuir-lhe uma culpa que nem mesmo era dela.
Estiquei a mão para trás, tentando alcançar um dos sacos repletos de bulbos, mas alguém o alcançou primeiro. Kurt já rasgava o saco, ajoelhando-se no chão lamacento.
— Sua calça... – comecei, já tarde demais, pois suas roupas de trabalho impecáveis tinham acabado de ter o mesmo destino que o meu jeans, tão logo seus joelhos afundaram na terra macia.
— Não tem importância – garantiu, e começou a cavar com as mãos.
Olhei sua cabeça curvada enquanto ele colocava cuidadosamente o bulbo no solo. Alguma coisa dentro de mim se revirou, e essa sensação permaneceu comigo enquanto eu enfiava a pá no chão e me punha a trabalhar.
Como trabalhamos juntos, não demorou muito e, quando o último dos bulbos foi plantado, Rachel finalmente concordou em se levantar. Sem nem perceber, ela limpou as mãos sujas no casaco creme, antes de tocar delicadamente o nome de Tina na lápide.
— Eu sinto tanto, Tina. Por favor, me perdoe – sussurrou, e as lágrimas que haviam temporariamente cessado enquanto trabalhávamos recomeçaram a cair.
— De que ela está se desculpando? – perguntei a Kurt em voz baixa, esquecendo-me de que eu não deveria falar com ele.
Ele aproximou a cabeça da minha e senti de leve a fragrância de seu perfume, uma marca cara que eu lhe dera de presente no último aniversário.
— Não é óbvio? – replicou, com voz triste e pesarosa. – Ela pede desculpas por... por...
— Por o quê? – insisti, sussurrando, ansioso por aumentar a distância entre o meu rosto e o de Kurt.
— Por ter matado Tina – explicou, e suas palavras garantiram toda a distância que eu poderia ter desejado, pois o choque fez que eu jogasse a minha cabeça para trás.
Abracei Rachel. Ela parecia frágil, e de repente senti um medo desesperado de que alguma coisa ruim pudesse acontecer a ela. Um medo terrível de que, se não fizesse nada para ajudar minha amiga, eu pudesse perdê-la também. Talvez não física, mas sem dúvida emocionalmente. A culpa nascida da vergonha e da negligência fez com que eu a mantivesse abraçada a mim: embalei-a por vários longos minutos, enquanto Kurt apenas observava, tendo os olhos igualmente aterrorizados.
—----
Foi uma caminhada lenta de volta ao estacionamento. Kurt levava o equipamento de jardinagem e as sacolas com os bulbos não plantados, e eu guiava Rachel. Ela se apoiava em mim, com as pernas rígidas e frias, provavelmente por causa de muitas horas sentada na grama molhada, antes que a encontrássemos. Quando nos afastamos do túmulo, ela voltou a chorar.
— Odeio deixá-la aqui assim, sozinha. Prometa que vai voltar comigo para visitá-la outra vez, Blaine – pediu, com um tom de voz tão diferente do costumeiro que me doeu o coração e me deu a sensação de estar falando com uma estranha.
Rezei para que a mudança fosse temporária; eu não podia enfrentar a perda de outra pessoa que amava – de novo, não. Ela repetiu o pedido, e seus olhos buscavam nos meus uma promessa que eu relutava em fazer. Mas a última coisa que eu queria era decepcioná-la mais uma vez.
Eu podia sentir que Kurt, do outro lado de Rachel, me estudava. Foi ele quem quebrou o silêncio que começava a ficar desconfortável.
— Eu trago você, Rachel – prometeu, enquanto apontava para seu carro com as chaves que acabara de pegar no bolso da calça. – Sempre que quiser vir, eu trago você.
Era claro que sim.
—----
Por mais que eu tivesse relutado em aceitar a oferta de Kurt, acabei concordando com que ele nos levasse para casa.
— Posso trazê-lo aqui de novo, mais tarde, para que pegue o seu carro – oferecera Kurt quando entrei no carro ao lado de Rachel, que estava visivelmente nervosa e só soltou meu braço por tempo suficiente para agarrar o cinto de segurança e prendê-lo com firmeza. – Não me custa nada.
— Não é preciso. Pego um táxi – eu tinha respondido, querendo que ele compreendesse que aquilo de jeito nenhum significava que algo havia mudado entre nós.
Seus lábios se contraíram. Ele tinha entendido.
Quando chegamos, conduzi Rachel pela escada direto até o banheiro, e decidi temporariamente ignorar o fato de que Kurt não havia apenas nos deixado lá, como eu esperava, mas nos seguira casa adentro.
— Vou colocar a chaleira no fogo enquanto você cuida dela – disse ele, já rumando para a cozinha. Balancei a cabeça, irritado, mas não disse nada. Coloquei as roupas sujas de Rachel no cesto e fiquei por perto tempo suficiente para me certificar de que ela tivesse tudo de que precisava para o banho, mas, afora montar guarda diante do boxe, eu de fato não tinha nenhuma desculpa para não descer. Estava aliviado, pois Rachel melhorara visivelmente assim que entramos em casa.
Havia três canecas fumegantes na bancada da cozinha. Peguei uma e fiquei agradecido pela bebida quente e revigorante. Mantive os olhos fixos no chá como se, ao evitar olhar para Kurt, eu pudesse fingir que ele não estava ali. Infelizmente, ele não aceitaria assim tão fácil.
— Quinn mencionou que Rachel não estava muito bem durante a última semana, mais ou menos, mas eu não sabia que ela estava tão mal – começou ele.
Tomei um grande gole de chá, uma golada desconfortável, que queimou o céu da minha boca enquanto eu tentava engolir a bebida junto com a minha culpa.
— Você sabia? – perguntou ele, pondo o dedo tão fundo na ferida que pareceu ter feito de propósito.
— Não. Não sabia. Tivemos uma pequena desavença, e não nos falamos muito nos últimos dias.
— É mesmo? – Sua voz continha toda a surpresa de alguém que conhecia a mim e a meus hábitos muitíssimo bem. – Sobre o quê?
— É particular – respondi.
— Bem, esse é um momento ruim para que vocês dois fiquem brigados. Certamente vocês precisam do apoio um do outro agora.
— Houve motivos.
Ele me olhou do outro lado da cozinha limpa e arrumada de Rachel.
— Blaine...
— Você não precisa mesmo continuar aqui. Vou ficar um pouco, talvez até durma, já que Quinn está fora. Portanto, agradeço o fato de você ter me avisado sobre Rachel, mas...
— Não faça isso de novo – pediu, com amargura.
— É por aí.
Ele balançou a cabeça, e havia em seus olhos uma tristeza pela qual eu me recusava a me sentir responsável. Kurt esperou até que Rachel, usando um grosso roupão, se juntasse a nós na cozinha. Ele a abraçou e a beijou afetuosamente no rosto antes de ir embora. Da porta da cozinha, ele me dirigiu um último olhar, e então, em vez de “até logo”, disse simplesmente meu nome.
— Blaine.
— Kurt – devolvi, perguntando-me como, em um período de tempo tão curto tínhamos conseguido nos afastar tanto, que até mesmo “olás” e “até logos” estavam agora muito além do nosso alcance.
—----
Aceitei de bom grado o banho que Rachel me ofereceu. Enquanto estava sob o jato de água quente, desejei que todas as manchas do dia pudessem ser limpas tão facilmente quanto aquela lama que o sabonete e a água eliminavam do meu corpo. O comentário de Kurt sobre o sentimento de Rachel, sobre ela acreditar que havia “matado Tina”, tinha me deixado chocado e dominado pelo tipo de culpa que se infiltra nos ossos e corre pela medula como um câncer agressivo. Eu não tinha ideia de que Rachel se sentisse daquela forma. Nenhuma. Nem sequer imaginava que ela estivesse carregando sobre seus ombros o peso esmagador da responsabilidade pela morte de nossa amiga.
Talvez, se você não tivesse sido tão insensível e lhe virado as costas, teria percebido isso, entoava uma voz de censura em minha mente. Mergulhei a cabeça sob o jato forte.
Rachel me emprestara um pijama cinza folgado e, quando me vesti e desci, minhas roupas enlameadas já estavam na máquina de lavar. Soltei um pequeno suspiro de alívio. Era bom saber que a deusa do lar estava de volta. Ela me esperava na sala, enroscada no sofá. Desabei sobre a almofada macia ao seu lado e, quando nos olhamos, nossos semblantes traduziam de forma quase idêntica um pedido de desculpas.
— Desculpe...
— Desculpe...
Ficamos apenas nos fitando, olhos transbordantes das lágrimas que ainda não tinham sido derramadas. Por um longo momento, nenhum de nós se moveu. Então deixei escapar um som que era parte risada parte soluço, enquanto nos jogávamos nos abraços um do outro, perdidos em uma avalanche de alívio e pedidos de desculpas. Houve frases embaralhadas, interrompidas por negações ininteligíveis e muitas lágrimas – algumas de felicidade, mas a maior parte delas por recuperarmos algo extremamente precioso que poderia ter se perdido.
O telefone de Rachel tocou um pouco depois e, pelo sorriso ao apanhá-lo, soube que era Quinn. Fui até a cozinha para lhe dar alguma privacidade, mas ainda assim pude ouvir parte da conversa.
— Fiquei um pouco mal hoje...
Bufei ligeiramente ao ouvir o eufemismo de minha amiga. Ela devia me conhecer bem o bastante para saber que, se ela não contasse a Quinn, eu mesmo o faria, e relataria tudo tão logo ela estivesse de volta. O incidente no cemitério havia mostrado de forma muito clara que Rachel ainda sofria em consequência do trauma de nosso acidente. Suas feridas eram do tipo que precisava de muito mais que apenas suturas e antibióticos.
Pedimos pizzas de um restaurante local (nada típico de Rachel) e surpreendentemente conseguimos encontrar parte de nosso apetite – tanto que quase demos conta dela inteira (muito pouco típico de nós duas).
— Então, Srta. Berry... – comecei, depois que as embalagens de pizza tinham sido jogadas fora e estávamos de volta à sala, com sua iluminação aconchegante –... hoje Kurt disse algo que me deixou muito perturbado...
— Vocês finalmente voltaram a se falar? – perguntou ela, com indisfarçado prazer.
— Não. Não voltamos. Não mesmo – respondi, determinado a não deixar que ela me desviasse do que eu queria dizer.
Fingi não ver seu desapontamento. Como eu deveria abordar aquele assunto? Sacudi a cabeça. Não havia maneira fácil, então prossegui:
— Rachel, você não matou Tina.
Ela arquejou.
— Uau! Os corpos diplomáticos estão clamando por pessoas como você, sabia?
— Estou falando muito sério, Rachel. A morte de Tina não foi culpa sua. De forma nenhuma.
— Eu estava dirigindo o carro.
— E era a minha despedida de solteiro – contrapus. – Isso faz com que seja minha culpa também?
— É claro que não – refutou.
Peguei sua mão e a segurei com firmeza.
— Ela havia acabado de tirar o cinto de segurança, e você fez tudo o que pôde para evitar o acidente – falei, sabendo que as lembranças que a minha amiga guardara dos momentos que antecederam o impacto eram imprecisas. – E depois, se não fosse por você ter corajosamente escalado os destroços do carro e encontrado Tina na estrada, bem, Sam jamais teria sabido que estávamos lá, não teria parado e bem... tudo teria sido diferente. – Tudo mesmo, mais do que eu posso lhe contar agora.
Eu podia ver uma ruga familiar vincando sua testa. Era a que ela costumava exibir quando se via diante de um problema muito difícil de resolver. Insisti em meu ponto.
— Pode ter sido Sam quem me tirou dos destroços, mas você me salvou tanto quanto ele, Rachel. Você precisa acreditar nisso. Eu devo minha vida a você.
Rachel começou negar com a cabeça, mas eu não aceitaria que ela fizesse aquilo.
— Você estava em estado de choque, tínhamos acabado de passar pela situação mais aterrorizante de nossa vida, e ainda assim você fez o que precisava ser feito, por mim e por Tina. Você conseguiu sair de lá por nós e ficou ao lado de Tina até que o socorro chegasse. Você foi forte e corajosa, sempre foi.
Fechei os olhos e me lembrei das inúmeras vezes que ela estivera ao meu lado, defendendo e apoiando. Quando o valentão da escola, dois anos mais velho e cerca de 60 centímetros mais alto que nós dois me escolheu como seu próximo alvo, foi Rachel quem o enfrentou. Quando terminei com Kurt, depois da universidade, foi para Rachel que eu liguei, choroso, à meia-noite, inseguro sobre se tinha feito a coisa certa. Foi ela que me ouviu por horas e que me disse que tudo ficaria bem. Ela estava sempre do meu lado, mesmo quando achava que eu estava errada. Não foi só na noite do acidente que ela me salvou: Rachel me salvava por anos.
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