Our Hands Tied - Brittana

2 The One Where Brittany Moves Out (pt. 1)


Notas iniciais
*Aquele em que Brittany se muda (1ª parte);

Seus olhos estão completamente fechados, mas por detrás deles, Brittany enxerga um extenso campo, num verde sem igual. Com flores. Borboletas, dispersas árvores. O céu tão azul quanto sua íris. O horizonte tão distante quanto sua... Ex. No sonho, seus pés acham-se descalços. Simultaneamente, seu corpo trajado em branco. Agora, ela está deslizando pelo gramado, sem nem mesmo sentir ou pensar sobre, ao passo que seu coração é o próprio silêncio do solo em que pisa... O físico leve como pluma. Os dedos dos pés, as raízes das plantas e, a respiração, simplório ritmo dos ventos.

Para onde vaga?

Não sabe, mas vai... Como um imã. Todavia, há um barulho crescente chegando. Um barulho estrondoso.

Cada vez mais alto.

Puxando-a para fora daquela fantasia.

Puxando-a para algum lugar de incertezas.

Suas pálpebras se comprimem com força e num último piscar de olhos, a jovem suspira. Está de volta à realidade. Nada de paz, natureza, ou bem estar. Demora a entender de onde vem o som. Em seguida, rola pela cama, esticando-se. Por entre a pequena fresta da janela, o sol mal aparece no céu e já invade boa parte do quarto da loira. Meio escuro, meio iluminado. A primeira coisa que passa pela sua mente está longe de ser a mudança. Longe.

Olhos azuis analisam o quarto. Teto. Paredes, chão. Progressivamente, Brittany percebe o vazio dali. O vazio tão recente. O vazio tão incomum. E quanto ao som repentino? Bem, esse seria o toque de seu celular. Deu-se conta, agora. Precisa encontrá-lo depressa. Até porque o som é de ligação, não alarme.

Por que tão irritante?

Por quê?

Ela empurra o lençol, se bota sentada na cama e coça os olhos. A música não para. Ecoa e ecoa mais. Por esse, e outros motivos, deixa suas músicas favoritas longe do celular. Bem longe mesmo. Na verdade, nunca nem sequer ousara baixar canções no aparelho. Seus toques e alarmes sempre seriam as variações de chatices “dançantes” já inclusas no telefone que fosse. Caso contrário, sua vida ouvindo músicas acabaria. Estaria arruinada. Não haveria mais amor, tem plena certeza disso.

Brittany fica de pé e começa a caçar pelo Chorão. Nem sinal do mesmo debaixo do travesseiro, ou cama, em meio aos lençóis, dentro das gavetas, armário, nada. Nada, mesmo. Ela fica estagnada quando o toque cessa e pergunta-se o momento em que ele voltará a berrar, porque só assim para achá-lo. E, ele finalmente volta.

Muito bem.

Janela. Ele está em cima do apoio da janela.

A mulher o alcança em passos rápidos, e verifica o visor. É Quinn. Sem mais delongas, ela atende.

— Quinnie, oi! Foi mal, tava dormindo.

— [Deus! Até que enfim hein, Britt! Caralho...]

A dos olhos azuis solta uma risadinha, mexendo nos cabelos. Quinn é um verdadeiro poço de fofura quando irritada, desde... Sempre, basicamente.

— Doce assim, logo pela manhã? Olha... Tô com sorte. Depois dessa, morro feliz.

— [Ah, cala essa boca!] — Sua prima diz, sem paciência.

— Bom dia pra você também, meu amor!

[Ô, Brittany! Você, POR ACASO, já deixou tudo certo para quando o caminhão de mudança passar aí? Ou tá brisando?]

— Érr... Eu... — Brittany abre a porta do quarto e averigua a sala, com algumas (MUITAS) caixas ainda vazias ao longo do espaço. — Deixei sim, claro.

Fabray suspira, notando a mentira. Só lhe faltava essa.

— [Você deixou tudo pra última hora de novo, né?]

— Não, imagina... Eu só, bem... Sabe...

— [Não é hora pra desculpas! Corre, menina! Vai!]

— Tô indo!

— [E não perde a hora do voo, pelo amor de Deus!]

— Não vou perder.

— [E trate de não esquecer o celular pra trás também, faz o favor...]

— Ok... Obrigada por lembrar, Quinnie. Vou manter ele por perto.

— [O que tá fazendo aí parada ainda?!]

— T-tchau. — Brittany desliga a chamada. — Nossa...

Ela respira fundo. Será que quer mesmo se mudar? Quem sabe... Quem sabe.

(...)

Por entre a límpida lente de uma Polaroid 635 CL, é onde, agora, olhos azuis enquadram com cuidado caixas e mais caixas desorganizadas ao longo de todo o velho e minúsculo apartamento arejado. Faz calor em Oakland. E não, esse ar seco FDP disfarçado de brisa não colabora nem um pouco. Certos dias de Agosto são, no mínimo, infernais. Por sorte, Brittany não tem o chão forrado com carpete! Embora, sempre fosse algo a se pensar. Ela adora perambular de meias casa afora, de preferência sem as encardir, é claro. Aqui, infelizmente, não é possível. Ficam pretas.

Morar numa cidade quente como essa?

Não, nunca estivera em seus planos. Nunca mesmo.

Mal chovia, o sol sempre ardente. Bom, no fim, não é surpresa alguma que já está mais que na hora de deixá-la para trás.

Adeus, Oakland.

Até logo, Califórnia.

Foi muito bom, enquanto durou.

As paredes da sala de estar (e companhia) são coloridamente... Desbotadas. Os móveis nem tanto. E da janela para fora do apartamento, uma rua cinzenta —de muito pouco movimento- dá um toque final ao ambiente familiar... De longe, seus objetos pessoais guardadinhos eram as melhores coisas que se podiam encontrar lá.

— E lá vamos nós...

O click da câmera nas mãos da loira se faz presente. A foto revela-se.

Tempo é preciso para tomar vida, cor, luz.

Mas...

Talvez, precise tirar outra depois. Não quer arriscar.

Em minutos, um labirinto de papelões empoeirados se forma nas costas da jovem mulher. Tons de bege e caramelo contrastam contra o piso cerâmico da sala, à medida que o ocupa. É uma tarefa complicada se locomover decentemente, mas, a fotógrafa —ainda sim- consegue tirar uma sequência de boas fotos. Nada demais, pois se trata meramente da forma que encontrou de despedida. Algo descontraído, nada profissional. Algo que ela ama.

Uma;

Duas;

Três fotos.

Não há nomes em suas caixas de mudança, apenas coisas por dentro e lacres por fora. Aquela “organização” que deixa muito a desejar. Ao menos, as simples bagagens de mão estão prontas desde ontem. A Pierce, também, já tem ideia com que roupa pegará o voo mais tarde. Comer, agora, não é prioridade, apesar do ronco desesperado de seu estômago.

Não falta muita coisa a empacotar, é visível.

O grande problema é que, segundo consta o relógio-vinil no topo da parede roxa, o caminhão de mudanças chega em uns vinte e cinco minutos. Talvez, menos. Brittany tem plena consciência de sua procrastinação. Uhum, tem sim. Sempre tivera. Procrastinar é um de seus maiores defeitos. Se não, o coroado maior. Não fora preciso que ninguém a alertasse, para ela se dar conta disso. Ainda que, insistissem em fazê-lo sempre. Como se adiantasse alguma coisa. Isso já é um traço tão velho seu que, quando a Pierce pensa em mudar, pisca os olhos e lá está ela, no mesmo labirinto de novo.

E de novo.

E de novo.

São vinte e quatro anos, de pura procrastinação. E preguiça.

Ela teve horas. Dias. Semanas... Até meses. Meses! Porém, começou a separar as coisas para a mudança acerca de, mais ou menos, catorze horas antes do previsto para o caminhão brotar à sua porta. Depois de arrumar uma parte, parou e foi dormir. Simples assim. Não parecia real, até chegar o hoje. Até Quinn ligar, dando-a mais duas horas. Até seu coração se desesperar.

Mudança!

Não tem culpa. Nunca imaginou ter tanta coisa assim. Muita delas, mal se lembrava direito. Detalhe que, ela e sua (agora) ex-colega de quarto, Sugar M-m... Alguma-coisa, sempre mantiveram suas coisas bem afastadas uma das outras. Estranho.

Era como desenterrar uma cápsula do tempo.

Bem, a procrastinação tem sim um lado bom. Esse.

Seu trabalho em empacotar as coisas é frenético, sem pausas... E, além de tudo, extremamente, nostálgico. Principalmente porque muitas coisas a lembram da ex. Muitas mesmo. Como seus discos, câmeras... Chaveiros, bottons. A caixinha de madeira onde ela guardou quase todos os ingressos dos filmes que as duas assistiram juntas e nunca teve coragem de jogar fora... Ou, sequer abri-la de novo.

Engraçado.

Pensar nisso, desencadeia uma série de pensamentos na Pierce.

Um, em particular, sempre a faz rir que nem boba.

A primeira vez que elas foram ao cinema juntas, estavam em seu (podia-se dizer) “segundo” encontro. O filme assistido? Ruby Sparks: A Namorada Perfeita. O que não era lá um grande filme e passava longe de ser um dos preferidos de ambas as mulheres, mas que hoje em dia talvez dissesse muito mais a elas do que na época em que o viram.

A questão é que, no dia, depois de ignorarem metade da obra preocupadas não com o filme, mas com seus dedos roçando no escuro – por sobre o braço em comum das cadeiras; e etc e tal, elas caminharam lado a lado de volta para o campus. Os mindinhos dados, os passos controlados. Não havia pressa. No entanto, momentos antes de se separarem, Santana chamou Brittany para subir até seu quarto com ela e as coisas começaram a acelerar, outra vez.

A química era de outro mundo, tinham que admitir.

Conversa vai, conversa vem, lá estavam as jovens na cama da morena, dando uns pegas mais ousados do que estavam acostumadas a dar entre si. E é aí, que chega a parte engraçada da história. Brittany soltou um “Ah, como eu te amo...” baixinho (mas, extremamente perceptível) no meio de mãos e braços e bocas para toda parte, e as duas se separaram devagar em choque e ficaram se olhando com as maiores caras de bunda, o que logo se transformou numa sequência de risos. Parte desespero, parte euforia. Que situação, não é mesmo? Que situação.

Wow! Não sabia que era precose assim, Pierce. Medo.

— Desculpa... — Ela riu junto a outra, meio nervosa. Super mega blaster vermelha, na realidade. Suas mãos suando. — Nunca aconteceu antes. Palavra de escoteira.

— Sei... — Santana continuou gargalhando, depois deu um selinho na loira, a fim de quebrar qualquer climão que porventura pudesse surgir ali, puxando-a para um abraço apertado em seguida. Ela sabia mesmo como fazer isso. — Relaxa, tá tudo bem.

Em silêncio, a dos olhos azuis balançou a cabeça no ombro dela. Maturidade e naturalidade para para lidar com ocasiões assim não era pra qualquer um, quantas vezes mais Santana iria surpreendê-la? Ela estava, inegavelmente, totalmente besta naquela relação.

A latina afastou-se um tempinho depois, sorridente.

— Então quer dizer que você foi escoteira, huh?

Quando passa fita adesiva lacrando a última caixa visível a seus olhos, Brittany se sente uma tremenda de uma vencedora. Mas, será a última mesmo? Ela pondera e olha para os lados, a fim de se certificar de não estar comemorando antes da hora. É isso.

Ufa!

Acabou, definitivamente.

We are the champions, my friends!

Ainda tem uns cinco minutos para sentar e tentar relaxar, antes do caminhão aparecer. É... Parece uma boa. Brittany alcança o chão em pernas de índio e suspira, um tanto inquieta. Só lhe resta esperar. O tic-tac do relógio é o único som presente na sala. Logo, logo, estará em outra cidade. Longe do calor, longe das coisas estressantes que viveu em Oakland e principalmente, longe da colega de quarto mais peculiar que já conheceu.

Ah, está começando a ficar entediada.

A mulher levanta-se do chão e se direciona a janela, olhando o movimento do outro lado do vidro. Vê um táxi passando na rua, depois um ciclista. Num canto, alguns homens conversam e uma mulher se aproxima, entrando no prédio. Não, nem sinal do caminhão. Ela se vira e sai desviando de caixas, enquanto se alonga desajeitadamente.

No corpo, veste uma camisa branca estampada com os rostos dos integrantes dos The Beatles, um short preto moletom e os pés se acham nus. Pele direto no solo. Como no sonho, embora não tão bom quanto – obviamente. Seus longos cabelos loiros estão presos em um coque bagunçado, o que a alivia um pouco do calor infernal.

Já que tem tempo, vai comer.

É isso.

Brittany pode jurar não ter acabado com o restinho de cereal de outro dia, a caixa dele ainda deve estar em algum lugar no armário da cozinha. Ainda que Sugar coma a mesma marca que ela, a doidinha nunca teve mania de botar a mão em suas compras. A não ser que estivesse bêbada, daí virava uma assaltante de geladeira/armários sem fronteiras. Só lhe resta ver se não foi o caso da noite anterior, a Pierce cruza os dedos.

Abre as portas dos armários.

Nada. Nada e... Nada.

É, foi o caso. Que decepção.

Parece que só vai poder comer após o caminhão chegar.

Notas finais
Até ♥