Our Hands Tied - Brittana
4 The One Thereabout 2.340 Days Before
Notas iniciais
Há mais ou menos seis anos, Brittany botou os pés pela segunda vez na Califórnia. Isso, é claro, depois de aguentar avião, dois ônibus e mais alguns bons metros de caminhada até o seu destino final, em Pasadena. Onde está você, Quinn? Tratava-se de um Spring Break (aquela pequena pausa nas aulas, verdadeiramente gloriosa, durante a primavera) e por esse motivo, a estudante estava tão longe de casa, justamente para visitar sua prima – a qual cursava o primeiro ano de Design de Interiores, a propósito; na cidade, ao contrário dela, ainda terminando o ensino médio há milhas e milhas de distância.
Tão bacana a experiência de poder conhecer, finalmente, a faculdade de que a outra tanto falava sobre.
Seu legado, sua estrutura. Sua infraestrutura.
Pessoas, cursos. ArtsKinley, tudo que ela sempre quis.
As duas se encontraram no meio do trajeto, como combinado. Ou, quase isso. E, mataram a saudade crescente com um abraço-laço. Uma rápida conversa. Um rápido sorriso. Satisfação. Felicidade.
Em poucos minutos, Quinn e Brittany davam saltinhos – nada discretos; pela calçada, a caminho do campus onde a Fabray se hospedava, enquanto ouviam Secret Agent Man nos fones de ouvido do velho walkman da dos olhos azuis. Adoravam o instrumental contagiante da música, era impossível não pular aos acordes animados, e a voz de Johnny Rivers então? Nem se fala. Passaram em frente a uma lanchonete e saíram de lá com milk-shakes em mãos, e tudo ia maravilhosamente bem, até uma bicicleta quase as atropelar surgindo dos quintos dos... Quer dizer, de uma esquina. Maldita esquina.
Reflexo ligeiro, corpo recuando.
Bicicleta passando.
Fones soltando.
— Cuidado! — Brittany pôs o braço esquerdo na frente de Quinn e a empurrou para trás com sua mão, quando notou que a outra não tinha intenção alguma de parar a caminhada. O que, resumidamente, ocasionou na infeliz caída de sorvete por toda a roupa da universitária, que tinha mania de tomar milk-shake sem o canudinho e a tampa protetora do copo. — Caramba...
Os olhos da adolescente seguiram aquela bicicleta que mais parecia um vulto, perplexos. O susto fora grande. Seu coração que o dissesse.
— Mas, que merda... — Lucy reclamou fitando a roupa, depois o ciclista. — Olha por onde anda!
— Olha você, desligada da porra! — O homem respondeu-a, grosseiramente, sem deixar de pedalar. — Huh, é cada uma.
— Ah, seu... Seu... — Ele sumiu de vista em outra esquina e ela suspirou, nada contente. Baita azar esse, baita azar. — Desgraça.
— Ei... Já passou. Deixa pra lá. — A Pierce encaixou a mão no ombro dela, estudando seu humor. Fora tudo muito rápido e, embora tivessem se assustado, não valia a pena esquentar mais a cabeça com aquilo. — Tudo bem, Q?
Lucy assentiu, meio mal-humorada. Brittany não tinha se tocado.
— Tá, né. Tô bem.
— Que bom...
— Valeu, Britt.
A estudante meramente sorriu para a futura interior designer, e em seguida, percebeu o acidentezinho com o milk-shake no modelito dela. Cômico, e... Trágico. Como a vida.
— Nossa, sua roupa... — Brittany segurou um riso, não querendo aborrecê-la. Guardou seus fones de ouvido, disfarçadamente — Sinto muito.
A dos olhos verdes deu de ombros.
— Já estamos chegando. Só ignora.
— Ok... Falando nisso, você quer o meu? — Brittany ofereceu seu milk-shake, a fim de animá-la.
— Awn, obrigada! — Quinn tomou-o para si, no mesmo instante. Encaixou um copo dentro do outro. — É por isso que te amo, você sempre sabe o que fazer nesses momentos...
A Pierce riu. Parecia mais que sua prima dialogava com o sorvete, e não com ela.
— Bom, é o mínimo que você merece depois de tudo. Né?
— É, concordo... Mas, vamos apertar o passo que não dá pra eu ficar lambuzada assim por muito tempo, não! — Ela começou a andar mais rápido, atravessando a rua decididamente. — Vem!
— Ás suas ordens, capitã! — Brittany brincou, marchando até a ponta da calçada paralela. Bateu continência. — Cheguei.
— Besta...
Ela relaxou, gargalhando. Deu um empurrãozinho na outra loira.
— Não se esqueça do seu amor por mim, hein.
— Amor? — Quinn fez uma careta, encenando confusão. — O que é isso, B?
— Oh, não! Tarde demais...
Elas riram.
(...)
Quinn puxou Brittany consigo para dentro da residência – pertencente à fraternidade Kappa XYZ, da qual ela era membro; correndo, e passou a subir as escadas daquele casarão mais rápido ainda, largando a outra para trás. Precisava, urgentemente, de um bom banho. E, de uma mudança e lavagem de roupas, antes que fosse devorada por formigas. Parou no meio da escada depois de avisar que ia demorar no banho, e acrescentou:
— Ah, e sinta-se à vontade! Não tem nenhuma alma viva nessa casa agora, Britt. Metade da galera tá viajando e, os que sobraram, estão lá fora no meio de uma corrida rotineira que eu, aliás, só furei pra poder te buscar. A gente sabe o porquê.
— Oh, me desculpa por isso. Sabe que não tive a intenção, Quinnie.
— Vou pensar no seu caso... — A loira riu. — Sorte sua que não tava tão a fim de correr dezoito quilômetros hoje.
— Bom, quem sabe mais pra frente eu não compre um celular com GPS e tudo, né? Aí, não te aborrecerei mais... Se isso for humanamente possível.
— Aah, já vou avisando que se não comprar mesmo, eu compro por você. Garota irritante, Jesus amado...
— Eu nasci assim, me dê um desconto.
— O caralho que você nasceu assim! Vive no mundo da lua porque quer, vê se...
— “Let it be, let it beee...” — (Deixe estar/ser); Brittany cantarolou, petrificando a fala de Fabray. Os Beatles eram os donos das respostas desta vez. — Na verdade, tenho quase certeza de que vivo num submarino amarelo.
— Ah, não... — Ela botou a mão na testa, lamentante. — Eu desisto de você. Oficialmente.
Risos se fizeram de ambos os lados e Lucy sumiu, em seguida. Desse modo, a Pierce andou, andou e andou um pouco mais, e, acabou por indo parar em meio ao quintal do domicílio. Vidrada e um tanto curiosa sobre o que havia enxergado na janela antes de chegar ali, continuou. Era bem mais interessante que o resto do sobrado.
Repousou sua mochila na grama e arregalou os olhos azuis, apaixonada, quando viu aquela incrivelmente bela, belíssima árvore de folhas roxas (Jacarandá). Tão, tão linda. E alta. E forte. Pescou sua Polaroid de dentro da bolsa, e mirou no que via. Balançou a foto recém-revelada, deixou-a em cima da mochila até se fazer foto. Depois, olhou para o céu e se livrou de seus calçados, pisando na terra e chegando à árvore.
Passou os dedos pela madeira do tronco.
Sentiu vontade de abraçá-la e assim o fez. A energia era revigorante.
(...)
Santana parou sua corrida em frente à fraternidade, com as feições completamente fechadas, sisudas, o headphone sobre os cabelos, Part Of Me nos ouvidos, uma sede tremenda na boca e os músculos em chamas. Entrou na casa, direcionando-se a cozinha e, em segundos, encheu um copo inteiro com água mineral, deu um gole refrescante se apoiando na bancada, e, observando através das enormes janelas no decorrer, achou algo muito, muito bizarro. Quem era aquela fulana no quintal? Suas sobrancelhas se franziram com a esquisitice, e a Lopez largou o copo para trás, cerrando os olhos a fim de enxergar melhor.
Desceu e repousou o headphone cinza-escuro no pescoço ao passo que saia do lugar e aproximou-se enfim da lunática de olhos fechados, enlaçada a árvore. Não fez barulho algum. Devagar chegou e só observou, assim.
Afinal de contas, existiam mesmo abraçadores de árvores.
Era engraçado.
Ela pôs as mãos na cintura, deixando uma risada escapar por entre lábios carnudos em razão do que assistia, e a outra se deu conta de sua presença a partir de aí. Abriu os olhos azuis. Não estava mais sozinha. Então, olhou um pouco mais para o lado e viu a Lopez pela primeira vez. Que situação. Corou, à medida que se distanciava da Jacarandá sem jeito e tomou certa postura, dando passos para trás.
— Oi... — Brittany disse e acenou brevemente que nem boba, admirada com a pessoa linda que via.
Apertou os dedos dos pés na grama. Sentiu-se sem fôlego.
Meu Deus do céu... Que olhos. Que covinhas.
Que mulher.
A morena usava um par de tênis de corrida de marca, legging preta, top vermelho (com detalhes em cinza) envolvendo o busto, uma blusa amarrada na cintura... A barriga magra, definitivamente, nua e os fios negros brilhosos performando um alto rabo de cavalo, incrível, no topo de sua cabeça. Dos cantos da testa morena escorriam algumas gotinhas de suor... Pelo jeito, era a típica integrante da Kappa XYZ. O modelo perfeito.
A loira, por sua vez, trajava uma camiseta larga e estampada – enfiada por de dentro de seu short jeans azul-clarinho de cintura alta; camisa xadrez (com suas mangas compridas, como faixas, contornando o quadril esbelto), gargantilha preta no pescoço, chapéu-Fedora na cabeça e o cabelo bagunçado em tons dourados de loirice... E, bom, estava descalça para “completar” todo o resto.
— Oi... Então, quem é você mesmo? — Santana quis saber, estudando a menina com aquele lookzinho hipster. — E o que tá fazendo aqui?
— Desculpa... — A loira piscou diversas vezes, um pouco perdida. Tinha viajado legal com a primeira imagem que teve do grande amor de sua vida, claramente. Bem, ela tinha vários amores à primeira vista nessa época. — O quê? O que você falou?
— Wanky. — Santana gargalhou, e a outra continuou sem entender nada. O que tornava tudo ainda mais hilário. — Perguntei quem é você.
— Aah, tá.
— Então?
— Ahn, Brittany... — Sua voz desafinou, nada discreta. Água seria uma ótima, estava um pouco nervosa, e a garganta secando em decorrência. Imediatamente, se sentiu na obrigação de repetir. — Meu nome é Brittany. Mas, pode me chamar de Britt também, ou Pierce. Ou do que vier ao seu coração, por mim tá de boa.
Santana logo se deu conta. Estava óbvio, para além do nome – que já havia sido citado por Lucy; quem era o ser humano à sua frente.
— Aah, você é a tal prima da Fabray...
— Isso! A propósito, ela tá no chuveiro agora. Tomou um banho de milk-shake a caminho daqui, e ficou daquele jeito.
— Ah, sim. — As covinhas tornaram-se bem marcadas à medida que ela riu, e Brittany teve os olhos grudados a elas. — E tá tudo ok com você, Brittany?
— Uhum, claro. Tudo. — Não demorou muito para que a garota ficasse extremamente sem graça, tudo culpa (é claro) da expressão absurdamente penetrante da outra. Olhou para árvore, para a dona dos olhos castanhos, para árvore, para ela e tentou se explicar. — Ah, sobre isso? Eu só estava, bem, ahn...
— Abraçando uma árvore. É, eu vi. — Ela riu. — Mas, por quê?
— Eu só... Senti que ela queria ser abraçada. Sei lá.
— Ah, tá... Entendi. Supernormal.
Santana prendeu o lábio inferior entre os dentes – de forma provocativa e julgadora; de modo que Brittany fingiu seriedade, timidez sai pra lá. Sorriu afrontosa também. Muito interessante o clima que rolava no ar.
— Você já tentou, por acaso? Abraçar uma árvore.
— Não. — Santana esticou os braços para cima, alongando-se. O rosto despreocupado. — Nunca nem passou pela minha cabeça fazer isso, pra ser sincera.
— Pois, deveria tentar então, ao invés de ficar aí me julgando. Só acho.
A estudante de gastronomia espreitou os olhos, desconfiada. Fazer papel de lunática? Não rolava hoje, Brittany que a desculpasse... Árvores são lindas, fazem bem a saúde e etc, mas, em contrapartida, são verdadeiras mansões de insetos. Urgh! Um calafrio de agonia passou pelo corpo da atleta, só de imaginar... Árvores não são abraçáveis.
— Não, não... Eu passo mesmo, Pierce. Tô bem assim.
— Poxa, tão linda... — Brittany teve os olhos voltados para a árvore, de novo. Respirou fundo, tocando-lhe a madeira. — Na boa, você podia dá-la uma chance. Pobre Violeta, vai se chatear. Triste.
— Dios mio! — A latina riu, descontroladamente. A outra tinha dado um nome a árvore, mesmo? — Você é bem estranha, sabia?
Olhos azuis acharam a Lopez. Um sorriso de orelha a orelha se fez nos lábios rosados, gostava do riso da desconhecida, mesmo que “tirando onda” com a cara dela. Era algo real, sinfônico. E sua voz em espanhol era adorável. Tipo, quem não se apaixonaria por essa mulher?
— Obrigada... É bom ser estranha. — A loira retrucou de bom humor e sentiu vontade de chegar mais perto de Santana, chegando. E ela, continuou ali, sem recuar. O que era ótimo. — Mas, me diz, qual seu nome?
— Santana.
— Santana...? — Ela repetiu, em um tom faminto pelo resto.
— Lopez.
— Santana Lopez, hum... É um nome bem bonito.
A cozinheira olhou para os pés da Pierce, outra vez. Não deu muita importância ao elogio.
— Por que está descalça, afinal?
— Porque eu gosto de ficar descalça, Santana Lopez. É bom...
— Oh, claro, Dona Estranha. — Ela voltou aos olhos azuis. — Eu devia ter imaginado. Falha minha... Por falar nisso, adorei sua camiseta. Você é de Oregon?
— Ah, não... — Brittany olhou para a própria roupa e riu. Amava o tecido azul e preto daquela camiseta, e a estampa de Portland cobrindo boa parte do pano. — Queria muito, mas não. Venho da Colúmbia Britânica, na verdade.
— Oi?! — Santana parecia ter escutado errado, se surpreendeu. — Você é Canadense?
— Sim. Eu sou. Diretamente de Vancouver, prazer.
— Huh, a Lucy nunca mencionou esse detalhe... Ou melhor, ela disse algo sobre Vancouver sim, mas achei que fosse Vancouver de Washington, não Vancouver-Vancouver.
— Sempre acontece a confusão. — Ela riu; Vancouver (WA) e Portland (OR) são vizinhas. — Mas, ainda não botei meus pés tão perto de Portland... O que é quase um crime, porque eu curto demais a estrutura e filosofia da cidade.
Visivelmente.
— Legal. Eu também gosto bastante da cidade.
— Que coincidência, não? Agora, temos algo em comum... Além da Quinnie, quero dizer. — Brittany sorriu, charmosa. — Um dia eu ainda moro por lá. Certeza.
— Me deixe saber quando.
— Pode deixar. — Elas trocaram sorrisos, genuinamente, bonitos. Isso era desconcertante. — Ahn, enfim, o que você cursa aqui, Santana Lopez?
— Gastronomia.
— Wow, que demais.
— Ah, você acha?
— Claro. Uma das coisas que eu mais amo nesta vida é comer, o que torna cozinheiros, praticamente, minhas almas gêmeas. Fora que eu era meio que viciada no MasterChef UK, eu confesso. Culpada.
Santana riu.
— Por essa eu não esperava.
— Imaginei, Srta. Normal. Você tirou conclusões precipitadas com a nossa amiga árvore... E os meus pés aqui. Não te culpo.
— Realmente... — A Lopez se divertiu, a outra era uma palhaça mesmo. Quinn dizia sério. — Ai, ai.
Brittany sorriu e apoiou-se no tronco da árvore vulgo Violeta.
— Me conta como é o curso e nós esquecemos isso, que tal?
(...)
— Aí, ele ficou buzinando um quilo de chatice no meu ouvido e eu decidi que era melhor voltar por outro caminho, sozinha, antes que mandasse ele e os outros à merda.
— Você fez bem...
— Talvez, quem sabe. — A morena ponderou em voz alta, dando de ombros. — Eu tento de verdade botar em prática o que eles dizem nesses livros de autoajuda, mas é cansativo demais, Brittany. Não importa quanto eu tente, acabo sempre parando num meio termo entre mim e as dicas “infalíveis” de vida que me vendem. Sempre.
— H-hum? Mas, que problema há nisso? Você zerou o negócio, Santana! Quer melhor resolução que essa? Esses livros só estão aí pra te ajudar, não te apagar.
A universitária riu com a resposta da Pierce, ela tinha razão. Já fazia alguns bons minutos que ambas possuíam as costas coladas na grama, e os olhos na árvore avante. A brisa que lá batia, era realmente boa. O céu, azul. O tempo, o agora. A conversa, rolando solta. Não era todo dia que se via uma Santana Lopez deitada na grama, daquele jeito.
De repente, passos fizeram-se presentes.
— Aah, tô vendo que as senhoritas já se conheceram. — A imagem de Quinn surgiu acima da visão das garotas deitadas ao chão, e, ali de cima, ela sorriu para elas. — Atrapalho?
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