Our Fury

2 O Fantasma de Renly


A dama no espelho se parecia com uma verdadeira senhora.

Megara tocou seus os fios de seu cabelo escuro que estavam bem penteados, trançados em parte e com uma grande parte solta caindo em cascata por suas costas. O vestido nas cores azul com detalhes dourados lhe caia bem, com seu corpete apertado que lhe acentuava as curvas e elevava os seios, as mangas longas e soltas lhe davam elegância.

O reflexo no espelho era exatamente o que se esperava de uma dama, mas não era bem o que ela gostava de ser.

Ela não se importava de estar bela, nem mesmo de arrancar olhares dos homens por onde passasse. Na verdade, ela queria mesmo era correr dos olhares alheios. Se não chamasse atenção, talvez Cersei não conseguiria casá-la. As palavras da leoa ainda lhe assombravam durante a noite, mas não daria essa felicidade a ela, saber que tinha conseguido assustá-la.

– Você não pode me obrigar a casar, Cersei. – Ela lhe disse, com o ar mais teimoso que pode. – Você não tem poder nenhum sobre mim.

– Engano seu, minha querida. – respondeu a Lannister, calmamente. – Eu sou a viúva de seu irmão, por isso, sua única responsável, é mais do que meu dever lhe arranjar um marido para cuidar de você, principalmente quando você já tem vinte e um anos.

Maldita leoa Lannister. Megara tinha nojo daquela mulher que se casara com seu irmão. Desde a primeira vez que a havia visto, no casamento de Robert, ela nunca havia gostado de Cersei Lannister. Teve vontade de dizer isso no dia em que foram apresentadas, mas um beliscão de Stannis em seu braço a impediu que o fizesse.

Robert fez questão que Megara fosse morar com eles na Fortaleza Vermelha, mesmo que ela implorasse para ir para viver ao lado de Stannis, mas isso Robert nunca aceitou.

– Eu poderia viver com Renly.

– Ele é solteiro, nem cuida de si mesmo, quanto mais cuidar de você.

– Eu não sou nenhuma criança. – retorquiu-lhe. – Também poderia morar com Stannis e sua esposa...

– Você insiste em me rejeitar por causa de Stannis? – Robert respondia-lhe com uma voz grossa, mas, sem agredi-la, então ela não tinha como continuar com seus argumentos sem magoá-lo. – É minha irmã, seu lugar é aqui comigo.

Na verdade, o que ele queria dizer era: Preciso de você aqui comigo, irmã, não posso suportar isso sozinho. Ela sabia que a coroa e o reino eram um fardo para Robert. Tudo para ele era tão vazio desde a morte de sua antiga noiva, Lyanna Stark.

Suportar Cersei era parte de sua punição, talvez uma para os dois irmãos Baratheon. As duas jamais se entenderam, nem Megara fez questão disso. Em algum momento, sempre acabavam batendo de frente. Ela odiava Cersei, também não suportava o irmão gêmeo dela, Jaime. Esse fazia questão de irritá-la sempre que podia, com sua língua afiada, aquele ar superior. Esperava de todo coração que estivesse morto e sua cabeça estivesse apodrecendo nas terras fluviais.

Só havia um Lannister que ela gostava de estar perto, esse era Tyrion Lannister.

Os dois compartilhavam a raiva por Cersei, o gosto por livros e o raciocínio rápido. Megara desenvolveu uma afeição por Tyrion, mesmo que ela não deixasse que ele percebesse isso. Ela sentiu certa mágoa por ele ter defendido a cidade contra o ataque de Stannis ou por não tê-la entregado para ele quando veio, por isso, fazia tempo que vinha o tratando com frieza.

Aquele era o dia do casamento dele com Sansa Stark.

O simples pensamento já servia para lhe deixar o coração inquieto dentro do peito, fazendo com voltasse a se sentir uma completa inútil. Lorde Stark também lhe fora um homem querido tanto por ela como por Robert. Ela se lembrava de Ned desde que era criança, como ela gentil com ela. Megara nunca aceitou bem a idéia de quer Lorde Stark era um traidor, nunca lhe pareceu verdade.

Prometeu a si mesma que cuidaria de Sansa Stark após a morte do pai dela, já que não conseguira fazer Joffrey mudar de idéia com seus berros naquele fatídico dia no Septo de Baelor. Ela prometeu a si mesma que protegeria Sansa, mas pelo visto, estava falhando. Mesmo que não tivesse a mesma afinidade que teve com a menina Arya, não tinha raiva de Sansa.

Só desejou poder protegê-la, fez o que pode contra Joffrey, durante a revolta nas ruas de Porto Real, ela ficou o mais perto da garota Stark do que pode, cuidando para que ninguém as afastasse, até o Cão de Caça chegar.

A porta foi aberta por sua aia.

– Nós precisamos ir, senhora. – Moira chamou.

A aia lysena também se vestia de uma forma elegante, embora ela não fosse para o Septo junto a Megara, mas com certeza estaria no banquete. Moira era uma belíssima jovem, um ou dois anos mais jovem que ela. Era alta e esbelta, com um corpo mais desejável que o de Megara e tinha longos cabelos dourados e brilhantes.

– Não se culpe, Senhora Megara – ela lhe disse enquanto andavam.– Você não poderia fazer nada pela garota Stark.

– Eu deveria tê-la protegido.

– Você o fez, muitas vezes, mas não podia fazer nada contra isso.

– Não foi o bastante.

– E o que você iria fazer? Gritar com Tywin Lannister? – Moira retrucou. – É Tywin Lannister, não é como o Rei Joffrey que é seu sobrinho.

Antes que ela se afastasse, a loira lhe chamou para dizer algo.

– Mande meus cumprimentos para Lorde Tyrion.

– Ah, claro, ele irá adorar. – Megara respondeu-lhe irônica.

No septo, ela ficou feliz em não encontrar nenhum Tyrell presente, quase aliviada. Ela guardava certa raiva de todos eles, de alguma maneira, ela os culpava pela morte de Renly. Se eles não tivessem apoiado aquela loucura, talvez ele pudesse ter desistido, então ainda estaria vivo.

Sua raiva se concentrava principalmente no Cavaleiro de Flores. Talvez não fosse uma raiva, apenas o ciúme de sua proximidade com Renly, enquanto ele a deixou de lado para ficar perto dele, mas sabia que o odiava por todas as vezes em que acusava Stannis pela morte de Renly. Ela nunca aceitou que ele fosse o responsável, deveria haver outra pessoa. Megara se apegava com desespero á essa esperança, sua última.

– Casamento mais infeliz que esse, difícil de encontrar. — murmurou ao entrar no Septo.

– Obrigado, senhora. – A voz de Tyrion soou ao seu lado. – Agradeço os votos de felicidade. – respondeu com um sarcasmo.

– Não agradeça.

– Seu amado Cavaleiro das Flores não está aqui, Maggie. – disse-lhe o anão. – Eu sinto muito.

– Não há o que sentir, já o suporto todos os dias nos corredores. – ela lhe respondeu, dura. – Aquela rosinha insuportável.

Tyrion soltou um suspiro.

– Maggie, eu não posso lhe pedir perdão, se não souber porque está tão furiosa comigo.

– Não estou furiosa.

– Tem razão, não está, mas está fria como a Muralha. – retorquiu. – Talvez seu amado Loras Tyrell tivesse uma resposta mais calorosa.

– Ele não é meu amado Loras Tyrell, me poupe de seu sarcasmo, anão.

– Ah, claro, ele era o amado de Renly. – corrigiu. – Perdão, senhora, eu acho que errei o gêmeo, afinal vocês eram tão parecidos.

Megara recebeu aquela resposta como um soco em seu estômago. A menção de Renly fez seus olhos se encherem de lágrimas e fez com que um nó surgisse em sua garganta. Aqueles boatos sobre seu irmão não a envergonhavam, mas se lembrar dele ainda era doloroso.

– Respeite a memória do meu irmão, duende.

– Megara...

Ela não lhe respondeu e saiu de perto dele, indo para o lado do eunuco, Varys.

– Está tudo bem, senhora? – ele lhe perguntou, solicito.

– Sim, Lord Varys.

Megara ignorou a cerimônia e tudo que foi pedido para que fizessem. Ela demorou seus olhos em Sansa que as vezes retribuiu seu olhar, percebeu que a garota Stark chorava. Ela sentiu seu coração diminuir de tamanho com aquele olhar.

Na hora dos mantos, Joffrey foi retirar o manto de donzela dos ombros de Sansa, poucos notaram o quanto ele demorou e deixou que uma das mãos se demorasse em um seio. Megara fez menção com um passo para frente, mas sentiu uma mão segurar seu pulso a impedindo. Lord Varys não a olhou, mas ela viu sua mão segurando o pulso dela, com gentileza.

Sentia sua mágoa de Tyrion diminuir quando ele foi exposto a vergonha quando não podia alcançar os ombros de Sansa para lhe colocar o manto. Ela não abaixou-se para ele, fazendo com que os presentes rissem, com exceção apenas deles três, porém ela depois caiu em si e se abaixou para que ele pudesse lhe colocar o manto.

O banquete não fora mais alegre do que a cerimônia. Megara ficou sentada, comeu pouca coisa, pois estava sem muita fome. Moira permaneceu ao seu lado, tentando fazer com que se animasse, mas a menção de Renly servira para lhe tirar completamente o ânimo. Quando os Tyrell entraram, ela não se dispôs a ir até eles para cumprimentar.

Sentiu os olhares curiosos da jovem Margeary Tyrell sobre si, ao lado de sua avó Olenna, a Rainha dos Espinhos e de suas primas. A jovem rosa cochichou algo com a avó que a notou no salão. Megara as ignorou, fingiu prestar alguma atenção em Tyrion.

– Você não vai dançar? – Moira perguntou.

– Eu não sei dançar.

– Claro que sabe, você mesma disse que seu irmão fez questão de lhe ensinar a dançar.

– Desculpe, me expressei mal. – corrigiu Megara. – Eu não quero dançar, Moira. – Sua voz saiu grosseira demais, assustando a lysena.

A loira encolheu os ombros e voltou a observar o salão.

– Tia Maggie!

Tommen pulou no pescoço dela antes que pudesse responder. O abraço do sobrinho a deixou com uma sensação de esperança no coração. Ao contrário do desprezo que tinha por Joffrey, o pequeno Tommen e a jovem Myrcella tinham seu carinho.

Mesmo que ele não tivesse muito dela e dos Baratheon, o menino tinha toda sua atenção sempre que queria, ela se sentia feliz em lhe dar alguma alegria. Era um menino um tanto solitário, tanto quanto ela, mas muito doce.

– A senhora não vai dançar, tia Maggie? Pode dançar comigo!

– Ah, que galante, esse pequeno príncipe me chamando para dançar! – Ela brincou com ele. – Desculpe, querido, hoje não.

– Por que não? Eu vou dançar direitinho, eu prometo.

Megara sorriu com aquilo.

– Eu não quero, querido. – respondeu-lhe. – Estou um pouco indisposta, porque não convida uma das primas de Margeary para dançar? Será uma dançarina melhor, eu lhe garanto.

– Por quê?

– Eu provavelmente pisaria nos seus pequenos pés! – Ela o deu um beijo na sua bochecha e ele sorriu. – Prometo que no casamento do Joffrey, eu danço só com você e com ninguém mais.

O pequeno príncipe pareceu satisfeito com aquilo e a deixou, não sem antes lhe dar mais um abraço apertado antes de correr para onde os casais dançavam. Sua alegria pela presença de Tommen se esvaiu assim que notou uma garota Tyrell se aproximando dela.

– Senhora Megara, talvez não me conheça, sou Megga Tyrell. – Ela fez uma reverência trêmula diante dela. – Lady Olenna deseja conversar com a senhora, se assim lhe aprouver.

– Tudo bem. – respondeu, sem ânimo e então se levantou indo com a garota até o local onde se encontravam.

Olenna Tyrell era uma velhinha muito pequena, com seus cabelos brancos e sua pele enrugada, mas encarava Megara de frente com um ar sagaz. Ao lado dela, estava um rapaz jovem que deveria ser algum neto. Ele lhe lembra Loras Tyrell de alguma forma, embora fosse mais velho e tivesse barba no rosto.

– Olá, criança.

– Lady Olenna. – Megara fez uma reverência medida, sem muita cortesia.

– Deuses, você é mesmo gêmea de Renly, parece que estou olhando para ele só que em versão feminina. – Ela avaliou-lhe. – Você é linda e encantadora, talvez mais do que ele.

– É muito gentil, senhora.

– Minha irmã ficou assombrada com sua semelhança com Renly, senhora. – O rapaz lhe disse. – Eu mesmo estou surpreso, embora devo dizer que sua beleza é mais encantadora aos meus olhos, com todo respeito.

Ela iria responder o elogio, mas a Rainha dos Espinhos interrompeu.

– Chega de cortesias, diga logo a ele o que quer dizer, Garlan.

Megara arqueou uma sobrancelha.

– Senhora Megara, deve saber que nossa família guarda um carinho especial pela memória de seu irmão. – ele sussurrou. – Durante a batalha, eu vesti a armadura de seu falecido irmão para lutar contra o assassino dele, Stannis.

– Algo que daria grandes canções, sor. – respondeu. – O fantasma de Renly não é?

Garlan se limitou a um sorriso singelo.

– Eu sinto muito pela sua dor, então gostaria de lhe oferecer um presente em memória de seu irmão. – Garlan lhe disse com doçura, talvez fosse sincero. – Quero lhe oferecer a armadura que era dele.

– A armadura de Renly? Megara fingiu pensar por alguns minutos. — Diga-me, fantasma de Renly. – ela sussurrou. – A armadura por um acaso virá com meu irmão dentro? Pode trazê-lo de volta? Se esse for o caso, aceito de bom grado ter o meu irmão aqui comigo. – Um sorriso sem humor surgiu em seu rosto. — Sua cortesia e seu luto de mentira não vão fazer a perda de Renly ser menor e menos dolorosa para mim. E da próxima vez, traga um prova concreta que Stannis matou Renly antes de acusar o meu irmão na minha frente.

Megara deu as costas aos dois, recolheu as saias e a dignidade como uma senhora deveria fazer, então se retirou do salão.

Notas finais
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