Levantou o olhar para a garota sentada a sua frente. Ela estava amarrada em uma cadeira, exatamente do mesmo jeito que ele. Os longos cabelos dela que estavam manchados de sangue, caiam por seu rosto, e não o permitiam ver sua face. Seu estado não devia estar diferente, esse era seu pensamento.

Olhou ao redor. Estavam em um quarto gélido, com o teto alto e mal iluminado. Os únicos móveis presentes no lugar eram uma mesa e três cadeiras. Uma estava desocupada.

-Karina – chamou-a.

-Nicolas – murmurou a garota e levantou a cabeça, afastando os cabelos do rosto.

-Você está bem? – ele perguntou, tentando puxar a cadeira para mais perto dela.

-Estou um pouco tonta – murmurou enquanto balançava a cabeça – O que aconteceu? Não consigo lembrar de muita coisa...

-Eu também não...

Ficaram em silêncio durante alguns segundos, enquanto analisavam o ambiente.

-Ele não vai demorar a voltar – comentou o garoto, enquanto forçava as amarras que prendiam seus pulsos pela milésima vez naquele dia – ou noite.

-Consegui me soltar – disse Karina um pouco assustada, enquanto levantava as mãos machucadas e dormentes com cuidado em frente ao rosto.

-Como? – perguntou Nicolas com os olhos arregalados.

-Apenas se soltaram – disse ela, enquanto soltava seus pés e caminhava hesitante na direção do irmão.

Ajoelhou-se ao seu lado e começou a puxar as cordas e a solta-lo. Depois de alguns minutos, dirigiram-se à porta, que empurraram com cuidado, mas que, estranhamente, estava apenas encostada.

-Não pode ser tão fácil... – comentou Karina baixinho enquanto espiava por uma fresta e logo em seguida abria hesitante a porta.

Chegaram em um longo corredor. O papel de parede estava mofado e estava descascando, e era iluminado apenas pela luz de alguns tocos de velas que haviam nos candelabros presos na parede. O chão rangia a cada passo que davam.

Andaram para o lado esquerdo, e chegaram em uma parede. Bufaram incomodados, mas deram meia volta e se dirigiram ao outro lado. Os passos que andaram pareciam vários quilômetros, pois suas pernas pesavam e eles mal conseguiam manter os olhos abertos.

Logo o ar começou a ficar pesado, assim como a respiração de ambos. Ao chegarem em uma escada, optaram em descer. Logo chegaram em um patamar completamente diferente do anterior. Era mais claro e mais limpo. As paredes eram pintadas em um tom amarelo claro, e pequenos vasos de flores enfeitavam pequenas cômodas encostadas junto as paredes.

-Onde estamos? – perguntou Karina assombrada, abraçando a si mesma.

-Não sei, mas temos que sair daqui – murmurou o garoto enquanto a puxava pelo corredor.

Algumas vozes puderam ser ouvidas a distância, e eles pararam apenas para começaram a caminhar mais lentamente até o andar inferior. Assim que o atingiram, foram interceptados por um pequeno pássaro negro que passou voando por ele.

-Vamos, precisamos ir... Agora – ela sussurrou enquanto arrastava o irmão por uma sala de paredes vermelho sangue e repletas de quadros sobre morte.

Quando colocaram as mãos na porta, congelaram, pois ouviram um risinho agudo as suas costas. Se viraram depressa, e Nicolas protegeu a irmã atrás de si. Uma criatura estranha estava diante deles.

Era um homem alto, extremamente pálido e magro. Os olhos eram fundos e escuros, e os lábios eram da mesma cor das paredes.

-Vocês foram corajosos – sibilou enquanto se aproximava deles – Mas foram corajosos demais.

A próxima coisa que os irmãos viram foi várias pessoas parecidas com ele entrarem no cômodo. Homens e mulheres. Todos pálidos e magros, com a mesma expressão no rosto.

Fome.

FIM!

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