Our Demise
8 Capítulo 6
Notas iniciais
Havia algo que deixara o ar subitamente tenso. Silver ouviu o guinchar da porta ao abrir-se e o arrastar das cadeiras que haviam sido colocadas à frente da mesma para reforçar a segurança.
Nervosamente, a rapariga apertou o cabo do machado entre as mãos enquanto o seu olhar se dirigia à porta.
– P-Pessoas – alguém dentro do posto gaguejou.
Pessoas, de facto. No total eram seis – pelo menos apenas seis haviam entrado – e levavam umas quantas pessoas a mais com eles.
A respiração de todos os adolescentes pareceu ficar presa nas suas gargantas quando três dos seus colegas foram jogados contra o chão de mármore sob a mira de armas.
– Ora, ora. Vejam o que encontrámos. – um homem começou a falar. Ele era extremamente alto, com uma pele bronzeada e um ligeiro sotaque. – Nunca pensei que o grupo fosse tão grande.
A seguinte a falar foi uma mulher. Falava no mesmo sotaque que o homem anterior, e tinha cabelos escuros e densos da mesma cor. As suas botas fizeram som à medida que ela andou em frente.
– E agora, Jay? Pretendes matar todos estes miúdos?
– M-Matar? – a voz familiar de Elsa foi ouvida, embora a adulta estivesse assustada. — Por favor tenham calma. Nós não queremos derramamento de sangue aqui.
– Quem és tu? – um outro homem perguntou. A sua pele era escura e não havia qualquer cabelo na sua cabeça redonda. A sua arma subiu e foi segurada firmemente na direcção da professora.
– O-O meu n-nome é Elsa – disse. – Por favor… baixem as armas.
Um senhor de cabelos grisalhos aproximou-se e pousou uma mão um pouco enrugada no braço do outro homem, humedecendo os lábios antes de falar:
– Rodney, ouviste-a. Não há necessidade de sermos violentos.
– Cala a boca, Gary – a mulher fitou-o seriamente com os seus olhos escuros. – Estás a tentar fazer o quê? Simpatizar com eles?
O velhote suspirou, mas antes que pudesse falar o outro membro do grupo interrompeu.
Era outra pessoa do sexo masculino, com cabelos ruivos e uma barba da mesma cor.
– Indo directos ao assunto – começou – nós estamos aqui pela comida e abrigo. E é óbvio que não planeamos partilhar nada com vocês, pelo que se podem pôr a andar.
– Tsk.
Silver desviou-se de uns quantos colegas para se colocar mais à frente, olhando directamente nos olhos esverdeados do homem que acabara de falar.
– Óbvio que nós não planeamos simplesmente ceder às vossas condições – retorquiu, olhando para os seus três amigos. Os olhos castanhos de Teddy encontraram-se com os dela. – E seria extremamente simpático da vossa parte se começassem por libertar os meus amigos.
– E quem é esta? – o ruivo perguntou, os cantos do bigode espesso subindo quando ele riu. Tinha uma barba farta, mas menos cabelo na cabeça.
– Oiçam miúdos – o homem chamado Jay finalmente abriu a boca para falar. A sua voz era rouca e meio profunda. – Nós também não queremos arranjar confusões. Peguem nos vossos amigos e saiam daqui. Não é algo assim tão difícil de fazer.
– Nós temos bastante comida – a voz de Kevin ressoou algures na divisão, e o moreno depressa apareceu mais próximo do grupo de estranhos. – Podemos partilhá-la com vocês, mas não vamos simplesmente entregar-vos tudo o que temos.
O homem de aparência estrangeira e com o sotaque na fala riu-se para a mulher que era tão parecia com ele:
– Já viste isto, Liz? Estes chicos acham-se muito espertos.
– Nós temos vantagem sobre vocês, crianças – rematou a elegante jovem, suspirando. – Temos mais armas, mais munição e estes três idiotas que pertencem ao vosso grupo.
O punho livre de Silver fechou-se. Por mais que ela já odiasse esta gente, eles tinham a dita vantagem. Desafiar as ordens deles podia resultar numa luta que eles muito provavelmente perderiam.
Já para não falar de que as vidas de Teddy, Taylor e Crystal estavam em jogo. Embora por momentos ambos os lados se tivessem esquecido da sua presença, eles ainda lá estavam, ajoelhados no chão com os canos de espingardas encostados nas nucas. Um premir de gatilho e teriam os miolos espalhados pelo chão, pelo que os adolescentes não se poderiam dar ao luxo de ser imprudentes com estas pessoas.
– Vamos embora então.
A rapariga virou a cabeça na direcção da voz, e os seus olhos encontraram os de Tyler.
– Deixem os nossos amigos ir e nós sairemos – disse, fitando atentamente o homem que parecia ser o líder daquele grupo. O seu olhar vacilava entre Jay e o moreno que se encontrava ajoelhado a seu lado, Teddy. – Podem ficar com tudo.
Outra vez, quem se intrometeu foi o homem de idade:
– Vá lá, Jay, nós precisamos mesmo de tanta comida assim? Deixa-os levar alguma coisa.
O homem ponderou durante algum tempo, esfregando a cara com um longo suspiro. Olhou as pessoas da sala por uns segundos e depois encolheu os ombros:
– Duas malas. Duas apenas! – exclamou, apontando para um par de mochilas junto da secretária. – Encham-nas com o que quiserem e saiam daqui.
– Obrigada – Elsa e o homem idoso agradeceram quase ao mesmo tempo.
Enquanto Samantha e Amber foram buscar as mochilas e levaram um pequeno grupo de pessoas para o sítio onde haviam guardado a comida, Silver limitou-se a observar enquanto os três reféns eram levantados e empurrados para junto dos outros.
Crystal distanciou-se o mais depressa possível daquelas pessoas, colocando-se junto da professora com Taylor.
Por sua vez, Teddy tropeçou quando foi empurrado e não teve muito tempo para se afastar pois um par de braços, longos e fortes, abraçaram-no com força.
– T-Tyler – arfou, sentido o calor nas suas bochechas.
Depois de os dois se separarem, uma mão despenteou ligeiramente os cabelos do moreno e ele olhou para cima, sorrindo para Silver.
O rapaz abraçou-a e a rapariga fez o mesmo, separando-se dele para olhar friamente as pessoas que nem há cinco minutos haviam estado em posse de três das vidas dos seus amigos.
– Espero que se aguentem aqui – falou com indiferença. – Durmam com um olho aberto, nunca se sabe quando um zombie pode entrar e querer banquetear-se com os vossos cérebros – fez uma breve pausa antes de esboçar um pequeno sorriso. – O que é que eu estou para aqui a dizer? A pobre criatura ia passar fome.
Enquanto se virava pôde sentir o olhar fulminante que estava fixado nas suas costas, mas Silver simplesmente continuou a andar.
As malas estavam cheias e extremamente pesadas, mas depois de uma rápida verificação notaram que não era tanta comida quanto eles iriam precisar. Teriam de achar um novo sítio e procurar por mais mantimentos.
Saíram pela porta de entrada, sob o olhar atento daqueles seis pares de olhos.
Matthew trouxe uma das malas para o autocarro, enquanto Peter se encarregou da outra. Colocaram-nas na entrada e o rapaz de cabelos negros olhou para o resto do grupo:
– Então e agora? Para onde vamos?
– Acham que o supermercado seria seguro? – Taylor inquiriu, embora não estivesse muito esperançosa quanto a isso.
– Duvido – suspirou Silver. – Aquilo não tem segurança nenhuma, já para não falar de que partimos uma das portas, pelo que qualquer zombie, ou pessoa, pode entrar por ali.
Samantha passou uma mão pelos cabelos e encostou-se contra o veículo de dois andares:
– Talvez devêssemos tentar as casas. Lembro-me de o Matt as ter sugerido no início, mas não foi uma opção porque a polícia era mais seguro – os seus olhos castanhos olharam para a professora. – Se calhar devia ser uma opção agora.
– Isso ou sairmos desta cidade – John falou, puxando os óculos para cima com um dedo.
– E como esperas fazer isso, génio? – uma das raparigas retorquiu. Era Tori, com o braço entrelaçado ao de Naomi. – Já nem devemos ter gasolina!
Antes que o rapaz pudesse responder, Elsa deu um passo em frente e cruzou os braços:
– Nisso ela tem razão. Ter gasolina suficiente para vir para aqui foi pura sorte e não me parece que encontraremos mais por aqui.
– Podemos tentar – Teddy afirmou, apertando o casaco azul contra o corpo. O ar fresco da tarde começava a tornar-se demasiado frio. – Está a ficar mais frio e daqui a umas horas vai anoitecer, mas se nos espalhássemos talvez encontrássemos algo.
– A cidade não é grande e há poucos carros – alertou Amber.
Doug acenou com a cabeça, olhando em volta:
– Sim, mas vale a pena tentar.
– E caso não haja nada? – Kevin questionou, inseguro. As nuvens começavam a rolar por cima das suas cabeças, e dentro em breve eles teriam de se abrigar a menos que quisessem ser surpreendidos por zombies durante a noite. – Como saímos daqui?
– Por agora podemos focar-nos noutra coisa: onde é que iremos passar a noite – disse Silver, olhando para lá do autocarro. Não muito à frente havia um pequeno bairro de casas brancas e altas. – A menos que queiram ficar fechados no autocarro de novo, devíamos dirigir-nos àquelas casas como já foi sugerido. Entretanto podemos mandar alguém vasculhar os carros da zona, até mesmo as garagens, para encontrarmos alguma gasolina.
– Da última vez que—
– Da última vez que mandámos alguém foram apanhados, sim, eu sei – Silver interrompeu a fala de John. – Mas não acho que estes tipos queiram algo connosco agora.
– Então vamos para as casas, suponho – a adulta disse, embora não estivesse completamente segura da sua decisão. – Entramos, barricamo-nos lá e encarregamos algumas pessoas de procurarem por combustível. Ao anoitecer, regressam à casa e podemos passar lá a noite.
– E se, mesmo assim, não encontramos nada? – Samantha inquiriu, arqueando uma sobrancelha. – Não vamos poder ficar naquela casa para sempre, certo?
– Certo… — Elsa murmurou, mais para si do que para os seus alunos. – Suponho que tenhamos de ir a pé, se e quando formos para algum lugar.
– Devem haver sinais – notou Teddy. – Talvez não aqui, mas mais à frente, na estrada. Podemos ver onde eles vão dar e a partir daí decidimos para onde iremos.
Todo o grupo pareceu chegar a um acordo unânime, acenando as cabeças e preparando-se para ir em direcção das casas.
O bairro tinha cerca de doze edifícios, variando entre pequenas casas que tinham apenas um andar, e outras que chegavam a ter três (graças ao sótão). Havia cercas brancas em todos os jardins e a relva parecia muito bem tratada.
No entanto, havia também muito lixo espalhado – principalmente pela estrada – e algumas portas estavam claramente arrombadas.
– Devíamos ir para aquela – John apontou uma casa de cor azul clara com um telhado em tijolo escuro. – É alta e espaçosa. Nós somos várias pessoas, então deveríamos ficar lá.
Elsa assentiu e o grupo parou diante do alpendre de madeira.
A tinta das paredes estava a lascar e havia um vidro partido na relva. A adulta abriu a porta e espreitou para dentro.
A primeira divisão que viu foi a sala. Era realmente espaçosa e também ricamente decorada. À direita havia um grande televisor por cima de um móvel de madeira faia com largos gavetões.
Havia uma grande estante de livros da mesma madeira ao lado, embora alguns estivessem espalhados pelo chão ou simplesmente remexidos.
Os sofás eram roxos e longos, com dois cadeirões de cada lado e uma mesa de café em vidro à sua frente.
– Vê alguma coisa, stora? – perguntou Kevin, espreitando também lá para dentro.
– Se há zombies aqui dentro, não estão à vista – disse.
Depois de baterem em vários pontos da casa e esperarem, apenas um morto saiu de lá a coxear.
Tinha um dos pés torcido numa maneira que, para um humano, teria sido incrivelmente dolorosa. Mas esta coisa não parecia nem querer saber, à medida que andava em direcção do grupo de pessoas.
Silver pegou no machado e cortou-lhe fora metade da cabeça, matando o zombie instantaneamente. Chutou o corpo para fora do alpendre e depois olhou para os colegas:
– Não há mais? – eles fizeram que não com a cabeça. – Então vamos mas é entrar.
Todos entraram e a porta foi imediatamente fechada. As raparigas dispersaram para os sofás, sentando-se e conversando entre elas. Kevin entrou dentro de uma divisão e trouxe uma cadeira, prendendo-a no puxador da porta.
– E agora, quem é que vai lá fora? – perguntou John com uma mão na cintura.
– Eu posso ir – Silver levantou o braço, encostada à parede.
– Também eu – as duas raparigas de cabelos escuros, Taylor e Samantha, ofereceram-se ao mesmo tempo.
– Quantas pessoas devem ir? – Elsa perguntou, andando para trás e para a frente lentamente.
– Talvez seis – Teddy sugeriu. – Eu posso ir também.
– Eu vou então – Matthew ofereceu-se e Kevin não demorou a fazer o mesmo.
Silver ergueu o olhar e fitou os amigos por um momento e deu um passo em frente com um breve suspiro:
– Muito bem… Que tal se vocês as duas forem juntas, eu vou com o Teddy e o Kevin e o Matthew ficam juntos?
– Mas porquê dois-a-dois? – o moreno a seu lado perguntou.
– Porque com números menores de pessoas em cada grupo, podemos ter mais grupos e cobrir uma área maior, Teddy – explicou-se a rapariga, ajeitando os óculos azuis escuros.
O rapaz assentiu com a cabeça e olhou para os outros:
– De que é que estamos à espera? Vamos logo!
Os seis adolescentes saíram pela porta da frente, deixando para trás Elsa, Tyler e Markus com armas para guardar a casa em caso de ataque.
Ao pisarem o cimento da estrada, separaram-se, cada grupo indo para seu lado, combinando encontrar-se ali mesmo antes do anoitecer.
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