Our Demise
11 Capítulo 9
Notas iniciais
Quando retomaram a estrada na manhã seguinte depois de comerem mais um pouco, a viagem pareceu ainda mais lenta do que havia sido no dia anterior.
Parece que dormir no chão da floresta não dera a muitos uma boa noite de descanso e caminhar com estômagos meio vazios não ajudava na falta de energia dos alunos ou de Elsa. Ainda assim, todos caminhavam na estrada sem objecções – talvez estivessem cansados demais até para fazer isso.
O grupo fez duas pausas ao longo do dia e uma delas revelou-se útil quando Steve se afastara demasiado do grupo e encontrara amoreiras.
Embora fossem apenas bagas, eram melhor que nada, por isso todos ajudaram a recolhê-las e depois de comerem a maioria, guardaram o que sobrou.
Quando o sol se pôs e já se tornara demasiado escuro para prosseguir sem problemas, a turma usou o mesmo método da noite anterior para arranjar um sítio onde descansar.
Demoraram três dias, sendo que ao fim do terceiro já ninguém tinha uma migalha ou água nos seus estômagos, mas por fim conseguiram chegar à maldita cidade de Bridgeport. Ao longo dos dias o tempo não havia melhorado e quando pararam no inicío de uma rampa da estrada para olhar a cidade, o vento bofeteou-lhes a cara.
Era enorme, pelo menos comparada a Lake City. Os prédios tocavam as nuvens cinzentas, mas havia menos que poucos carros na cidade — as pessoas que nela viveram provavelmente tinham sido rápidas a fugir. Mesmo assim, era possível ver os mortos que andavam nas ruas e não parecia um número nada pequeno, pelo que Bridgeport devia ter sido densamente populada antes de tudo isto acontecer.
– Nós chegamos – Crystal tinha um sorriso de orelha a orelha.
– Graças a Deus – alguém acrescentou.
Elsa virou costas aos arranha-céus para fitar os seus alunos seriamente, embora estivesse tão aliviada quanto eles:
– Vamos ter muito cuidado, okay guys? O objectivo é encontrarmos algum lugar seguro o suficiente para ficar e depois procurarmos por comida.
– Comida… — Samantha tinha estado rabugenta durante os últimos dias devido à falta de alimento e não podia esperar por ter algo na barriga.
Enquanto quem se encontrava desarmado se juntou no meio, quem tivesse uma arma branca ou de fogo colocou-se em volta do grupo, sabendo que iriam haver zombies nesta cidade – provavelmente mais do que eles haviam encontrado até agora.
A descida da rampa foi fácil e rápida, e logo de seguida puseram-se a debater-se por onde ir.
– Vamos achar uma casa onde ficar – sugeriu Doug, ao que John fez um esgar.
– Para puderes ter uma cama para ti e a tua namoradinha? – empurrou os óculos para cima com um dedo. – Pois, não me parece. Eu digo que aquele hospital é onde devíamos ficar.
– Ninguém está ferido – retorquiu Amber com um olhar venenoso na direcção do rapaz.
– Nunca se sabe quando vamos precisar dos medicamentos – observou a professora, olhando incerta para o edifício que se erguia uns quarteirões em frente. – Até pode haver comida na cantina, mas…
Silver terminou-lhe a frase:
– Estaríamos muito expostos. Aquele sítio é enorme, nunca conseguiríamos guardar todas as saídas e entradas.
– Bom, eu não vejo ninguém a dar ideias – John declarou com um tom baixo de voz, como se não tivesse a certeza de que deveria abrir a boca para falar.
– Malta? – uma voz feminina chamou e todos olharam para Naomi, cuja mão apertava fortemente o braço de Peter e que tinha os olhos fixados num ponto qualquer à sua direita. – Zombie.
Havia na verdade, um zombie. Dois, três, quatro; havia uma carrada deles e todos pareciam ter notado o grupo de humanos estancados no meio da estrada. A primeira ideia que lhes veio foi matá-los para que, mais tarde, não lhes trouxessem problemas, mas foi aí que outra voz os chamou à atenção.
– Deste lado também – Kevin apontou para o lado esquerdo da estrada e reparou que haviam dois zombies extremamente perto. Chegou-se à frente com Sam para matarem aqueles dois, mas foi aí que mais viraram a esquina.
– Merda – Silver não conseguia conta-los a todos num só lado, quanto mais nos dois. Mesmo com as armas que o grupo tinha, enfrentar aquele número de zombies seria suicídio. – Vamos. Depressa. — quando ninguém se moveu, ela repetiu: — Depressa.
Elsa engoliu o nó na sua garganta e gesticulou com as mãos para que todos andassem em frente:
– Isso, nós temos de ir.
Apressando o passo para uma corrida, algumas pessoas começaram a ficar assustadas quando o som de gemidos e grunhidos começou a ficar mais alto.
– Onde é que nós vamos? – uma voz sem corpo questionou.
A mulher de cabelos negros olhou nervosamente para todos os lados, enfiando-se numa estreita viela onde o grupo teve de se descomprimir para caber. Viraram para norte, onde acabaram por chegar a outro encruzamento.
– E agora? – John estava a ficar impaciente, vendo que ao fundo daquela rua haviam mortos-vivos a olhar para eles.
– Vamos para—
A voz de Elsa foi interrompida por um grito histérico, que pertencia a Tori. A rapariga loira correu para se esconder entre os colegas quando um homem sem braço esquerdo se atirou de uma montra de vidro para a agarrar.
O barulho despertou a atenção de dois zombies dentro da loja e, enquanto Matthew se chegou à frente para lhe enterrar a lâmina da faca no crânio, Silver e Kevin entraram para matar de vez as duas mulheres.
Uma delas tinha um olho pendurado pelos nervos e grande parte do seu estômago estava à mostra. A outra tinha perdido quase todo o cabelo, que era de uma cor loira e baça, e ambas as suas pernas estavam torcidas em ângulos estranhos como se ela as tivesse partido.
– Ali – a adulta apontou para uma loja do outro lado da estrada, que tinha um gradeamento meio levantado. O sinal por cima da porta lia ‘’Gun’s Rack’’ pelo que Elsa assumiu que seria uma loja de armas, o que não seria totalmente inútil.
Todos correram o mais rápido que podiam. Como se já não houvessem mortos suficientes a andar nas ruas, os gritos e o barulho do vidro a partir-se tinha servido para atrair ainda mais. Eles saíam das lojas, dos prédios, alguns atiravam-se contra as montras para parti-las e chegar aos humanos, enquanto outros se jogavam de janelas para os alcançar no chão.
A maioria dos que saltavam das janelas morriam ao chegarem ao chão, estilhaçando o crânio no pavimento, mas haviam outros que ainda se erguiam para ir ter com eles, se não tivessem partido as pernas.
A primeira a entrar foi Samantha, que imediatamente foi atirada para o chão por um zombie que estava demasiado podre e desfigurado para ao menos perceber se em tempos fora homem ou mulher. Teddy foi quem o matou e ajudou a rapariga a levantar-se.
Quando todos entraram, Tyler e Matthew empurraram barraram a porta com uma larga estante.
Elsa e Silver verificaram a loja. As paredes eram de um verde escuro e não parecia haver outras saídas para além da porta por onde haviam entrado. Haviam duas janelas, mas ambas tinham gradeamento pelo que os cadáveres pútridos nas ruas não conseguiriam entrar por aí.
Havia a entrada, uma sala para a esquerda e outra no fundo da loja. Quase todos permaneceram na entrada, onde nada mais havia que estantes vazias e um balcão com alguma munição na parte de trás. A faca-de-mato que ainda estava numa das paredes foi tirada por Tisha, que decidiu mantê-la.
Na sala da esquerda as coisas também estavam remexidas embora não tanto. Existia sangue seco na parede, mas não havia sinais de corpos. Matthew pegou numa AK-47, examinando-a.
– Podíamos levá-la – disse. – Há alguma munição no balcão.
– Quanta? – quis saber Silver, enquanto abria todas as gavetas que encontrava.
– Mesmo que seja pouca, vale a pena – Steve afirmou e olhou para uma espécie de espada na parede. Era longa, com um punho branco e vermelho.
– Uma katana – notou a rapariga de óculos.
– Eu quero! – Amber exclamou da porta, apressando-se a ir para junto do rapaz e tirando a lâmina da bainha. Ela não contava com o peso da arma e acabou por golpeá-la pelo ar até que a espetou no chão.
Se Steve não se tivesse baixado, seria uma cabeça mais curto.
A rapariga morena desculpou-se e voltou a por a espada no lugar, embora fosse levá-la consigo na mesma mais tarde.
Entretanto, Silver deixou-os para ir inspeccionar melhor a sala dos fundos. Haviam várias caixas e armários de ferro, dois com fechaduras enquanto o outro estava arrombado.
Três embalagens de carne seca estavam na prateleira mais alta do armário que havia sido arrombado – quem quer que o tivesse aberto não reparara nestes pacotes.
– Professora? – chamou, pondo-se em bicos de pés para agarrar nas embalagens.
– Está tudo bem aqui? – Elsa apareceu à entrada quase de imediato, percorrendo a sala com os olhos pequenos e escuros.
– Sim, não se preocupe – assegurou a rapariga, atirando-lhe uma embalagem. A professora deixou-a a cair, mas ao apanhá-la ficou surpresa. – Havia comida neste armário. Estes dois ainda não foram abertos, mas devem ter o mesmo, certo?
– Como é que os vamos abrir?
Silver pôs uma mão no bolso de trás das calças, de onde tirou dois ganchos pretos para o cabelo. Desdobrou-os ligeiramente e ajoelhou-se no chão para tentar arrombar a fechadura.
– Consegues fazer isso? – perguntou a adulta.
– Posso tentar, mas não sei quanto tempo vou demorar – explicou-lhe a rapariga.
A professora compreendeu e deixou-a sozinha, trazendo as embalagens para a entrada onde chamou a atenção dos seus alunos e lhes pediu que sossegassem antes de começar a falar.
– Meninos, encontrámos alguma comida – de imediato houve algumas exclamações contentes pela sala. – Não sabemos se há mais ou não, mas por agora é isto que temos.
Cada pacote continha dez fatias de carne seca e haviam cerca de vinte alunos dentro da loja de caça, pelo que ela se pôs a abrir o plástico com os dentes e a distribuir a comida por todos, incluindo ela mesma e Silver, na outra sala.
– Não façam barulho e não se aproximem da porta ou da janela – ao final da refeição, voltou a pedir silêncio. – Há imensos zombies lá fora e nós não queremos chamar a atenção, okay? Hoje o Kevin e o Peter ficam de vigia.
– Quando tempo vamos ter de ficar aqui? – perguntou Tiana, que se havia sentado num canto com as suas amigas.
– O tempo que for preciso – Elsa não sabia o que lhe responder para além de uma frase vaga.
Entretanto, Samantha segurava numa lanterna, apontando-a à fechadura que Silver tentava arrombar. A primeira havia demorado, mas o maldito armário fora aberto e lá dentro encontraram mais embalagens de carne seca e garrafas de água de meio litro, bem como pacotes de mistura de cereais e frutos secos.
A rapariga de cabelos escuros estava cansada de segurar a fonte de luz, mas ela continuava a relembrar-se que se fizesse isto eles teriam mais comida e isso era suficiente para a aguentar durante mais uns minutos.
Silver soltou um barulho de frustração e sentou-se no chão:
– Não consigo, Sam.
– Consegues sim – ela insistiu. – Conseguiste ao bocado.
As palavras da amiga não a ajudaram muito, mas ela voltou a acocorar-se e a trabalhar na fechadura. Ela não conseguia ouvir o clique desejado, mas ouviu o som de alguém a entrar na sala.
– Hey, Matthew, já que estás aqui… seguras nisto por mim? – Samantha riu nervosamente, caminhando para a porta. – Okay, adeus.
– Okay? – o rapaz já tinha a lanterna em mãos, por isso recusar deixara de ser uma opção. Ele aproximou-se da rapariga que passara a tarde a arrombar fechaduras. – Como é que isso vai?
– Mal – rematou. – Não consigo abrir esta merda.
– Queres que tente? – ele baixou-se de modo a ficar ao mesmo nível que ela e estendeu a mão livre para os ganchos que ela tinha nas mãos.
Silver deu-lhos quase imediatamente, segurando a lanterna na mão esquerda e sentando-se contra o armário enquanto a apontava para a fechadura que o rapaz tentava agora arrombar.
– Devias ir dormir – ele falou após alguns momentos de confortável silêncio, olhando para ela brevemente. – Quase toda a gente já adormeceu.
– Não estou cansada – a rapariga encolheu os ombros.
– Certeza?
Ela suspirou:
– Sim, Matthew. Não te preocupes comigo.
O rapaz decidiu não insistir mais embora não estivesse minimamente convencido e, em vez disso, focou-se no objectivo que tinha agora em mãos. A fechadura estava realmente a revelar-se difícil de destrancar, mas ele conseguiria fazê-lo se tivesse paciência.
Enquanto isso, na entrada, Teddy estava sentado em cima do balcão de pernas cruzadas, com Tyler e Elsa encostados ao mesmo de ambos os seus lados.
– Acham que devíamos ir ao hospital? – a professora perguntou aos seus dois alunos. Eles eram dos poucos que ainda estavam acordados e com quem ela podia ter uma conversa. – É verdade que o sítio é grande, mas se mandasse-mos um pequeno grupo… os medicamentos podem vir a fazer-nos falta e se houver comida… Bom, comida nunca será demais.
– Eu não sei – Teddy desenhava padrões aleatórios nas suas pernas. – Se calhar é demasiado arriscado.
– Mas vale a pena, se pensares nisso – Tyler não queria ter de concordar com John, mas a verdade é que uma visita ao hospital seria realmente útil.
– Amanhã de manhã podíamos mandar um grupo – disse Elsa, pensativa. Desencostou-se do balcão e olhou para o rapaz que estava sentado no mesmo. – Tu poderias ir, com a Silver e a Sam.
– Só nós os três? – o moreno fez que não com a cabeça. – Pelo menos cinco pessoas, stora.
– E porque é que tem de ser ele a ir? – inquiriu Tyler. – Eu posso ir também.
A mulher passou uma mão pelos cabelos pretos, suspirando. Realmente, não havia nenhuma razão especifica para que tivesse que ser ele a ir, mas tinha sido a primeira coisa que lhe ocorrera.
– Eu prefiro que seja assim – decidiu, ao fim de uns segundos de silêncio. – A Amber e a Tisha estão armadas agora, penso que podem ir convosco também.
– Okay – Teddy não se importava de ir com este grupo, sabendo que estaria bem protegido caso algo acontecesse. No entanto, o rapaz a seu lado estava menos de acordo.
– Se me dão licença, meninos – Elsa voltou a suspirar. – Estou extremamente cansada. Teddy, fazes-me o favor de avisar as raparigas?
O rapaz assentiu e ela ofereceu-lhe um sorriso em agradecimento, retirando-se para a sala que ficava no lado esquerdo da loja para puder descansar até de manhã. Tyler virou-se quando ela saiu, deixando que a sua mão direita se assentasse na dele, e fitando-o com olhos azuis preocupados.
– Tens a certeza de que queres ir? – perguntou. – Eu posso ir em vez de ti—
– Não, eu quero ir – garantiu o rapaz mais pequeno, acenando com a cabeça.
– Sabes que a cidade é maior e há muitos mais zombies do que na última, Teddy – continuou, como se não o tivesse ouvido. – Vai ser mais perigoso.
Teddy apertou-lhe a mão, calando-o, e voltou a acenar com a cabeça:
– Sim, eu sei, mas eu confio nelas, por isso não me importo de ir.
O outro rapaz não parecia mais apaziguado por essas palavras, mas percebeu que não o convenceria a ficar na loja amanhã. Ele colocou ambas as mãos nas dele, sugerindo que fossem dormir.
– Vou avisá-las primeiro – explicou Teddy, descendo do balcão. Tyler deu-lhe um beijo na testa e afastou-se.
– Então até já.
Na manhã que se seguiu a um dia cansativo e tenso, Silver foi a primeira pessoa a acordar. A claridade que entrava na sala pela janela era mínima, mas foi o suficiente para a despertar.
Começou a reunir no balcão as armas de cada pessoa e as duas mochilas que eles tinham, depois de procurar por mais sacos na loja toda e não encontrar mais nada.
As ruas não estavam vazias naquela manhã, pelo que a rapariga decidiu esperar mais um pouco antes de começar a acordar os outros para saírem. Se fossem cedo, voltariam cedo.
De acordo com o relógio de parede – que ainda funcionava – ela havia esperado quase uma hora, pelo que começou a incitar os outros a acordar. Samantha e Teddy foram surpreendentemente fáceis de acordar, mas o mesmo não podia ser dito das outras duas raparigas.
Amber era insistente em não largar o braço de Doug quando Silver a tentou puxar para longe e Tisha não reagia a nenhum barulho que os três fizessem.
– Sam, chega-me uma garrafa de água – pediu a adolescente. Esta encheu a tampa de plástico com água e despejou-a no ouvido de cada uma das raparigas, o que as acordou imediatamente.
– Bom dia – Teddy cumprimentou, mas nenhuma estava com bom humor, por isso deixaram-no sem resposta.
– Não quero – Amber queixou-se, encolhendo-se no chão.
– Temos de ir. As vossas coisas estão no balcão – Silver informou, tirando os óculos para os limpar na ponta da camisola. – Não devemos demorar muito tempo lá dentro, por isso quanto mais rápido se despacharem, mais rápido regressam.
Com isso dito, ambas se levantaram lentamente e foram buscar as respectivas armas. Amber conseguia segurar a katana desde que usasse ambas as mãos, pelo que a deixaram levá-la.
O caminho para o hospital foi feito em silêncio e embora tenham demorado algum tempo a manobrar-se pela cidade de modo a evitar os sítios com mais mortos, conseguiram chegar sem um ranhão.
As portas estavam abertas, pelo que ainda não poderiam baixar a guarda. Samantha matou a recepcionista com uma simples facada entre os olhos para puder chegar à parte de trás do balcão dela. Lá estava um mapa legendado do hospital.
– No segundo andar há uma sala onde guardam medicamentos e material médico – informou.
– Não há nenhuma no primeiro andar? – perguntou Amber, com uma sobrancelha arqueada.
– Espera, pois há – Sam abanou a cabeça. – É perto das escadas, não deve ser difícil de encontrar.
O grupo seguiu para as escadas, onde se separou apenas para olhar para dentro de cada sala e tentar descobrir qual delas tinha o que eles precisavam.
– Hey, eu encontrei—
Tisha parou de falar ao abrir a porta, deparando-se com cerca de três zombies dentro daquela sala. Ela gritou e o que reparou nela primeiro não perdeu tempo e logo lhe tinha saltado para cima, enquanto os outros dois tropeçaram um no outro para alcançá-la.
Dentes cravaram-se na sua mão direita, com força o suficiente para lhe arrancar pele e músculo, fazendo com que os gritos da rapariga apenas subissem no volume.
Amber estava mais próxima e cortou fora um terço do crânio do zombie, fazendo com que ele se contorcesse violentamente mas não morresse. Uma lâmina de machado cortou a cabeça pelo pescoço e Silver seguiu para o próximo zombie enquanto Samantha matava o terceiro.
Os gritos de Tisha não cessaram e de repente haviam caras desfiguradas a espreitar pelas janelas das portas, tentando sair desesperadamente. Um grupo de zombies ao fim do corredor caminhavam na direcção deles.
– Segundo andar, vão – Silver incitou-os para a frente, para as escadas, deixando-se ficar para último no caso de algum zombie os alcançar.
– Tisha, pára! – exclamou Amber, que seguia Samantha para encontrarem a estúpida sala.
Obviamente que ela não parou, mas os seus gritos começavam a ser abafados pelo seu choro.
Quando os cinco se encontraram numa encruzilhada Sam pareceu perdida por um momento, incerta da direcção onde ficava a sala, mas decidindo-se pela esquerda.
No momento em que viraram, o grupo deparou-se com outras cinco pessoas.
E elas não estavam mortas.
O grupo deles era constituído por duas raparigas que pareciam mais velhas que eles e três rapazes.
– Quem são vocês?! – um dos rapazes perguntou aos berros, com a arma erguida e a apontar directamente para eles.
– Não há tempo para isto, há zombies a vir! – Teddy gritou de volta, decidindo que o barulho que fizesse não importaria comparado com o barulho que a sua colega estava a fazer.
Uma das raparigas empurrou uma porta azul:
– Aqui dentro, depressa!
Todos entraram tão rápido quanto conseguiram, sendo que a última pessoa a entrar foi um rapaz de cabelos pintados de rosa, que trancou a porta assim que a fechou.
A sala tinha as paredes do fundo cobertas por armários, mas as prateleiras já não tinham muita coisa. Havia uma mesa com um par de cadeiras à direita e à esquerda estantes com materiais que deviam pertencer num bloco operatório.
– Quem são vocês? – voltaram a perguntar.
– Isso não interessa agora, Edward! O que é que lhe aconteceu? – a mesma muher que abrira a porta questionou, olhando para o estado em que se encontrava a mão de Tisha.
– Foi mordida – foi Teddy que lhe respondeu.
– O que é que fazemos agora? – Amber estava a ficar nervosa e o facto de que Tisha ainda estava a chorar alto não ajudava.
– Tisha, tira o casaco e pressiona-o contra a tua boca. Chora contra ele – pediu Silver, tentando pensar numa solução. – Podemos amputar-lhe o antebraço.
A rapariga de raça negra imediatamente gritou com ela:
– NÃO!
– Nós temos de impedir que isso se alastre, Tisha – explicou. – Ainda estás humana, o que significa que isso precisa de chegar a algum lado para te transformar. Estou disposta a apostar que será o cérebro ou o coração, pelo que temos que impedir que isso se espalhe até lá.
Embora Silver não estivesse completamente errada, ninguém aqui saberia como amputar um braço correctamente.
– Eu sou médica, eu posso fazer isso – a mesma mulher falou. Ela tinha cabelos ruivos e bochechas repletas de sardas. — Deixem-me ajudar-vos.
Tisha olhou nervosamente para todos os presentes, até mesmo os que não conhece, como se esperasse que alguém oferecesse uma solução diferente.
– Devem haver analgésicos nesses armários, procurem-nos – pediu e um rapaz de cabelos castanhos e despenteados pôs-se a fazer isso. A ruiva sentou Tisha numa das cadeiras e colocou-lhe o braço na mesa. – Alguém tem um cinto?
O rapaz de nome Edward levantou a camisa o suficiente para puder tirar o cinto e entrega-lo à mulher.
– Okay. Tisha, o meu nome é Sarah – disse, começando a apertar o cinto no antebraço da rapariga, perto do cotovelo. – E isto é capaz de doer.
O outro moreno regressou com uma caixa de comprimidos que entregou a Tisha. Ela engoliu uns quantos, encostando-se para trás.
Visto que ninguém poderia ser útil de momento, todos deram espaço a Sarah. Ela tirou o seu casaco e pousou-o na mesa, junto a uma faca e ligaduras que tirara de uma estante.
Quando garantiu que a adolescente não conseguia sentir o braço, pôs-se ao trabalho, arregaçando as mangas da camisola vermelha, olhando para o grupo de pessoas que lhe eram estranhos:
– Não a deixem adormecer, okay?
Silver aproximou-se e ficou ao lado da colega de turma com Samantha, estalando os dedos ou falando com Tisha se necessário.
Entretanto, Sarah tentou fazer o corte mais limpo possível com uma simples faca, usando o seu casaco para estancar o sangue. O processo demorou bastante tempo e houve várias alturas em que Tisha parecia ter perdido os sentidos, mas quando terminou a rapariga tinha um toco limpo – por enquanto — no lugar onde antes estivera a sua mão direita
A mulher ruiva levantou-se e limpou o sangue das suas mãos ao casaco já manchado, embrulhando o membro da rapariga no mesmo e colocando-o de lado.
– Obrigada – agradeceram as duas raparigas que haviam estado ali durante todo aquele tempo.
Teddy e Amber estavam nauseados com a quantidade de sangue e o cheiro que ficara no ar depois de a ferida ter sido cauterizada, pelo que não se aproximaram mais.
– Agora podem dizer-nos quem são? – Edward repetiu a pergunta.
– Eu sou a Amber – esta apresentou-se e depois apontou para o rapaz a seu lado. – Este é o Teddy.
Ela ditou os nomes de todas as pessoas do seu grupo e depois quis saber os deles.
Parece que o rapaz de cabelos pintados se chamava James e o que tinha ido buscar os analgésicos era Julian, namorado de Sarah, ao passo que a rapariga loira se chamava Amy e era sua irmã.
Silver pôs a mochila vazia que trazia às costas na mesa, começando a revistar os armários para ver que tipo de medicamentos havia.
– O que é estão a fazer? – interrogou Edward quando Samantha se lhe juntou.
– O que viemos cá fazer em primeiro lugar – disse Silver, ponderando se comprimidos para constipação seriam úteis. Porque não? Colocou-os na mochila.
Samantha trouxe mais calmantes e analgésicos, colocando-os na mesma mala visto que não era preciso ocupar duas com apenas umas quantas caixas.
O rapaz finalmente falou de novo:
– E se nós também quisermos medicamentos?
– Ninguém vos está a impedir – Samantha encolheu os ombros e Teddy passou-lhe uma embalagem de compressas.
Por alguns momentos, ninguém dentro da sala falou. Tisha não parecia estar presente na sala, mas eles sabiam que ela ainda estava viva pelo subir e descer do seu peito que indicava que ela ainda respirava. Silver continuou a trazer o que quer que pudesse vir a ser útil para a mochila escura, até que o grupo achou que tinha o suficiente.
– Podemos ir embora? – Amber questionou, espreitando através da janela da porta e encontrando zero sinais de vida.
– Se o caminho estiver livre, sim – a rapariga de cabelos claros assentiu com a cabeça.
Julian deu um passo em frente, estendendo uma mão:
– Esperem, vocês simplesmente vão embora?
– Temos de ir agora, enquanto o caminho está livre – explicou Teddy, pegando no seu taco de baseball enquanto Silver e Samantha ajudavam Tisha a pôr-se em pé.
– Mais uma vez, muito obrigada Sarah – disse Silver, largando a colega de turma quando a achou estável. – Mas temos de ir agora.
– Esperem! – exclamou Julian, com uma sugestão em mente. – Porque não saímos daqui todos juntos?
O grupo de adolescentes entreolhou-se, não encontrando uma boa razão para a qual eles não poderiam sair do hospital com eles.
– Tudo bem – Silver encolheu os ombros ligeiramente, destrancando a porta azul e espreitando para ambos os lados do corredor para ter a certeza de que não tinham companhia, humana ou não. – Vamos.
E eles foram, descendo por escadas diferentes para não se voltarem a encontrar com os mesmos mortos-vivos e acabando por chegar a duas enormes portas cinzentas com uma alavanca vermelha.
Amber pressionou uma enquanto James abria a outra, revelando uma parte da cidade que nenhum dos grupos tinha ainda visto.
– Temos de dar a volta – notou a rapariga morena.
– Pois é, saímos pelas traseiras – Teddy não reparara nisso até agora. – Estás bem, Tisha?
A rapariga fez que sim com a cabeça, seguindo ao pé do rapaz a segurar o seu toco contra o peito. Começara a ficar um pouco manchado com sangue, mas não era nada de grave por agora.
Quando viraram a esquina da rua comprida, deram de caras com uma horda de zombies que provavelmente era o conjunto dos cadáveres que os jovens tinham encontrado ao chegar à cidade de Bridgeport. Os zombies estavam bastante dispersos, mas isso não diminuía o seu número, nem o facto de que todos pareciam ter aqueles olhos baços e vazios postos neles.
– Estamos fodidos – concluiu James, engolindo com força.
– Corram – Edward começou a andar para trás. – Simplesmente corram!
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