Ouija - Não Saia Sem Pedir Permissão
1 Welcome to Mistiness City
A neblina cobria quase toda a minha visão enquanto eu e mais três amigas tentávamos achar o caminho para a casa que nos hospedaria por duas semanas. Através dos vidros embaçados do carro, tentávamos identificar uma placa que parecia informar: Mistiness City 27 km.
O rádio perdera toda a sintonia no instante que o carro deu uma parada súbita após – aparentemente, atingir alguma coisa.
– Droga, Giulia, que merda foi essa? – Clara gritou por impulso enquanto eu, assustada, me perguntava a mesma coisa.
Meu coração disparou e minha adrenalina subiu incontrolavelmente enquanto eu tentava recuperar minha consciência.
– Eu não sei, não parecia haver nada à nossa frente. – respondi checando Mary e Jô pelo retrovisor do meio do carro.
Seus olhos estavam assustados e suas peles gélidas, o que fez com que minhas mãos estremecessem ao puxar o freio de mão e colocar o câmbio em ponto morto. Liguei o pisca-alerta e destravei as portas e o cinto de segurança, abrindo lentamente a porta enquanto rezava involuntariamente para que eu não tivesse atingido algo vivo.
Ao colocar a perna esquerda para fora, senti um desconforto imenso e os pelos do meu corpo arrepiarem – chamei por Clara, que sentava no banco do passageiro ao meu lado, e imediatamente abriu a porta, vindo ao meu encontro.
– Nada? – Clara questionou, alarmada.
– Aparentemente não. – falei aliviada.
– Como isso pode ter acontecido? Digo, o carro não poderia morrer de repente engrenado na quarta marcha em alta velocidade.
– Eu sei que não poderia. – as palavras saíram da minha boca acompanhada de uma fumaça fria.
– Me-me-ninas, está tudo bem? – Mary, que sentava no banco de trás, do lado esquerdo, perguntou, com seus olhos azuis como águas límpidas, porém invadidos pelo aumento demasiado de sua pupila.
– Sim, Mary. Não atingimos nada. – olhei para o céu que estava repleto de nuvens pesadas e acinzentadas. – Parece que vai chover.
– É melhor irmos, então. – Clara ordenou.
– Sim, bom. Eu vou verificar mais a frente. – percebi o olhar de reprovação de Clara.
Sem dar muita atenção, segui sozinha alguns passos até que perdesse toda a visão de meu carro. E nada.
Quando virei de costas para voltar para as meninas, uma brisa de ar frio me tomou, seguida de um sussurro clamando pelo meu nome.
“Giulia...”
Rapidamente olhei em direção ás palavras, e avistei uma sombra pouco nítida.
– Quem está aí? – contatei.
Senti algo puxando meu braço e involuntariamente gritei.
– Giu, calma. Sou eu, Clara. – disse a voz, tentando me acalmar.
Tentei respirar lentamente para regular as batidas do meu coração.
– Merda, Clara. Como você chega por trás em silêncio desse jeito? Quer me matar de susto?
– Me desculpe, você ficou muito quieta e ficamos preocupadas.
– Tudo bem, vamos sair logo daqui.
Seguimos de volta para o carro, aonde encontrei com Mary e Jô tentando se acalmar mutuamente lá dentro.
– O que aconteceu? – Jô questionou com a voz trêmula.
– Nada, meninas. A Clara que me deu um baita susto. – deixei um riso escapar, pois sabia que isso iria acalmar as duas.
Abri a porta do motorista, sentei no banco colocando o cinto e liguei o carro. Coloquei na primeira marcha e acelerei até a quarta para continuarmos nossa viagem.
Em menos de meia hora avistamos a placa “Seja bem-vindo à Mistiness City”. Seguindo o caminho em meu GPS, dirigi mais uns 15 minutos até chegarmos à casa que passaríamos as férias.
– Caramba – Jô indagou. – É linda.
A casa pertencera à família de minha mãe, já falecida há alguns anos. Ela só se mudou de lá quando se casou com meu pai, que negou o pedido de continuarem morando lá. Meu pai alegava que a casa o dava arrepios, que era amaldiçoada. Eu achei que seria uma aventura interessante passar as férias lá com minhas melhores amigas.
O resto da família de minha mãe desvaneceu pelo mundo; Ninguém mais morava ou visitava a casa, além da governanta Lucia. Não a conhecia pessoalmente, mas já ouvi várias histórias a seu respeito. Foi ela quem cuidou da minha mãe desde que ela nasceu, quando minha avó gastava seu tempo com coisas triviais.
Estacionei o carro rente ao meio fio e saímos, parando alguns segundos na frente da casa para admirá-la.
Coberta por pedras cinzentas e o teto com uma cor mais escura, parecia um pequeno castelo medieval, rodeado por um jardim extenso e bem cuidado.
– Por que alguém iria se mudar daqui mesmo? – Mary perguntou, rindo.
A cidade em geral, é um pouco estranha. Não há movimentos nas ruas, de pessoas ou barulhos altos. O que é uma benção para fugir da grande cidade que moramos.
Abrimos o porta-malas e cada uma pegou o que lhe pertencia. Seguimos em direção a um grande portão que abriu com a chave que meu pai me deu antes de virmos. Era enorme, como aquelas chaves de dois séculos atrás.
Caminhamos até a porta de madeira que parecia pesar uma tonelada, empurrando-a e infiltrando-nos no local.
A porta dava direto para uma vasta sala de estar, com direito a lareira, sofás grandes e abajures espalhados por todas as superfícies. Um longo tapete cobria a área central da sala, com uma estampa vermelha escura. Na parede, havia vários quadros espalhados por todo o cômodo e um piano branco debaixo da escada, que nos levava ao segundo andar – ou melhor dizendo: aos quartos.
O segundo andar era apenas um longo corredor em forma de “U” com meias paredes envolvidas por um grande corrimão, que, sobrepostas ao primeiro andar, permitia que víssemos o que estava lá em baixo. E, do ouro lado, tinham as portas que nos davam acesso aos quartos.
Ao todo, tinham seis deles. Três tinham banheiros integrados, dois eram de visitas e um era o que pertencia à minha vó: uma suíte enorme com closet. O que foi o meu escolhido.
Mary, Jô e Clara ficaram com os outros quartos com suíte, deixando dois vagos.
Depois que nos hospedamos, nos encontramos na sala de estar, olhei para o grande relógio que ficava na parede que indicava 19h00min.
– Estão com fome, meninas? – perguntei.
– Pra caramba – falou Clara enquanto se confortava no sofá.
– Duas. – Jô completou enquanto mexia no seu celular – Droga, aqui não tem sinal.
– Três. – Mary também respondeu. – Credo, Jô. Isso é um sinal do além para você deixar de ser viciada em celular.
– Engraçadinha. – Jô soltou uma risada enquanto desaprovava o comentário de Mary. – A governanta não devia estar aqui, Giu?
– Pra dizer a verdade, sim. Vou dar uma conferida na cozinha, mas não é possível que ela tenha ouvido a algazarra e nem se preocupado em manifestar sua presença. – brinquei.
Levantei do sofá do meio, e atravessei o portal – também no primeiro andar. Que me dava acesso à sala de jantar, e logo após, a cozinha.
Na bancada da cozinha avistei um papel, com uma faca substituindo o peso de papel. Aproximei-me e retirei a faca de cima, segurando o papel nas mãos que dizia:
“A casa está pronta para você e suas amigas, Srta Scalco; Sinto não poder acompanha-la nessas férias, mas espero lhe ver em breve; Lucia.”
Oras... – murmurei.
Abri a geladeira, retirando ingredientes para fazer quatro sanduíches. Abri todos os armários à procura de pão, e ao encontrar, coloquei tudo na bancada.
Da cozinha conseguia ouvir a risada das meninas que estavam na sala de estar.
☩
– Aqui é bem legal. – afirmou Mary.
– Claro, se por legal você queira dizer “bizarro”. – Jô respondeu.
– Olha só, nunca imaginei que a primeira que fosse ser frouxa seria você, Jô – Clara atacou.
– Escuta aqui, Clara. Eu não estou sendo frouxa. Na verdade você precisa muito mais do que uma casa antiga e lendas urbanas para me deixar com medo. Só quis dizer que eu me senti estranha quando cheguei à cidade, quer dizer, só eu notei que não tinha ninguém na rua?
– Definitivamente não foi só você. Mas isso é bom, certo? Viemos aqui para descansar a cabeça de uma vida estressante. Qual é, todas temos 21 anos, estamos encalhadas no fator relacionamento e adoramos terror. Qual programa seria melhor do que ir para uma casa “bizarra” nas férias? – Mary fez graça.
– Tem razão. – Jô apoiou. – Mas encalhadas são vocês. Eu estou solteira por opção. – brincou, arrancando risada das duas amigas.
☩
Depois de preparar os quatro sanduíches, fui lavar a faca suja de geleia de morango na pia. Antes de abrir a torneira, observei uma gota vermelha de uns 0,75 mm dentro da pia. Ouço barulho de outra gota e imediatamente coloco a mão no nariz, e quando tiro, percebo sangue na minha mão. Imediatamente tampo todo o nariz e fito um papel toalha no balcão. Arranco um pedaço e envolvo-o em meu nariz.
– Era só o que faltava.
Minutos depois, o sangramento se estabiliza e eu levo os pratos para a sala de jantar em duas viagens.
Conversamos assuntos aleatórios enquanto comíamos, até que eu resolvo contar sobre Lucia para as meninas.
– Nossa, que estranho. Só deixou um bilhete? Não podia ter ligado ou avisado antes? – Jô acusou.
Clara riu.
– Bem bizarro, Jô.
– Cale a boca. – Jô angustiou.
– Gente, está tudo bem. Provavelmente aconteceu alguma coisa; Emergência de família, eu não sei. Não vamos julgar sem saber a história toda.
– A história é bizarra, não é, Jô? – Mary também fez hora com a cara dela.
– Ah, vão pro inferno. – Jô se levantou imediatamente da mesa e foi para o quarto, batendo os pés violentamente a cada passo no chão de madeira.
– Eu perdi alguma coisa? – Questionei.
– Só o de sempre – Mary respondeu, rindo com Clara.
☩
Jô se trancou em seu quarto e ligou a TV. Deu uma cochilada e, quando acordou, já eram 22h47min. Levantou da cama, abriu a porta para tentar ouvir se suas amigas ainda estavam acordadas, e ouviu conversas vindas do quarto ao lado, que estava hospedando Clara.
Com raiva por não ter sido convidada, trancou a porta novamente e decidiu tomar banho. Entrou no banheiro e fechou a porta, para prender a fumaça que em breve se formaria. Estava muito frio e, antes da viagem, as amigas conferiram a temperatura que indicou que no final de semana poderia chegar à 11º Celsius.
Tirando sua roupa e colocando dentro de um balaio de roupa suja que encontrou, ligou o chuveiro e regulou-o para a temperatura mais quente que conseguiu alcançar. Imediatamente entrou debaixo d’água, deixando as gotas abrasadoras escorrer pela sua pele, dando-lhe um breve choque térmico que a ascendeu de prazer.
Soltou seu cabelo castanho e deixou que cada pedaço dele fosse molhado por aquela água que nunca parecera tão agradável antes. O Box de vidro estava extremamente embaçado, aglomerando todo o calor naquele cubículo.
Deixou a água escorrer por seu rosto, e, quando sentiu um sopro de ar cortante em sua espinha, rapidamente abriu seus olhos dando-lhe um enorme pânico ao ver duas garras do outro lado do vidro escorrendo lentamente até a parte inferior do Box. Gritar com toda sua força foi a única coisa que ela conseguiu fazer naquele momento.
☩
– Devo ir atrás dela? Ela pareceu bem nervosa, pra mim. – Questionei as meninas ao ver Jô se retirando na mesa com muita raiva.
– Não, deixa ela. Só está fazendo drama, como sempre – Mary disse e Clara concordou.
– Se vocês dizem. Vou lavar os pratos, então.
– Não, — indagou Clara. – Você fez os sanduiches, deixe que eu e Mary lavamos e guardamos, pode descansar. Dirigiu por horas, também.
– Tudo bem, obrigada. Vou subir e desfazer um pouco da minha mala, quer dizer, vocês viram o tamanho daquele closet? Está basicamente implorando que eu o use. – Brinquei, fazendo com que as meninas rissem no seu caminho para a cozinha.
Elas demoraram o que contei como meia hora para lavar malditos quatro pratos e quatro copos. Então as ouvi subindo a escada e indo para o quarto de Clara. Continuei desfazendo a mala.
Um tempo depois, Mary chega ao meu quarto, exaltada, me chamando para acompanha-la até o quarto de Clara. Então eu resolvo ir.
O quarto das meninas era grande como o meu, e também muito bem decorados. Fitei Clara na cama de costas mexendo em alguma coisa. Ao me aproximar, vejo que ela está com um tabuleiro Ouija, e recuo.
– Aonde vocês acharam isso?
– Eu sei... Não é incrível? – Mary fala, empolgada.
– Imagina quando a Jô ver isso? – Clara zomba.
– Eu não sei, não me parece uma boa ideia. Não acredito em espíritos, mas também não acho certo brincar com isso. – percebo a cara das meninas fechando.
– Pode parar, Giu. Você nos prometeu uma viagem animada, com direito a uma casa mal assombrada, e olha o que achamos! Isso é o máximo. Você tem que entrar nessa, amiga. Por favor! – Mary pede.
– A menos que você esteja com medo, Giu. – Clara atiçou.
– Droga, tudo bem. Vamos jogar. Não devemos chamar a Jô?
Percebi o olhar cínico das meninas e retirei minha pergunta.
Acompanhado do tabuleiro, Clara me mostrou um papel que parecia ser muito antigo, nele estava escrito:
1) Cuidado com quem você invoca.
2) Não os deixe nervosos.
3) Nunca saia sem permissão.
4) Zele por sua vida.
– Que fofo. – Disse.
Sentamos no chão em um círculo, seguimos as instruções e rezamos em voz alta e em conjunto, de mãos dadas. Após a oração, colocamos a mão no ponteiro.
– Tem alguém aí? – Clara clamou.
Nada.
Ficamos alguns minutos olhando ao redor, e não posso negar a apreensão que eu estava.
– Tem alguém conosco? – Clara repetiu.
E nossos dedos foram deslizando com o ponteiro lentamente para a palavra “Yes” no canto esquerdo superior do tabuleiro.
– Puta que pariu. – Mary deixou escapar. – Quem fez isso?
Senti meu corpo estremecer e minha garganta se fechar em um nó. Enquanto Clara achava o máximo. “Você deve estar brincando” disse ela, rindo.
– Aparece pra gente. – Clara convidou.
Sem movimentos.
– Fala sério, vocês não acham realmente que tem algum espírito aqui com a gente, né? – Completou, dando gargalhadas.
– Eu não brincaria com isso, Clara. – Indaguei com meus dedos tremendo em cima do ponteiro.
Uma onda de calafrios percorreu minha espinha.
– Q- Qual o seu nome? – Mary perguntou, gaguejando.
– Gente, não tem ninguém aqui. Esse maldito espírito não existe e não está falando com a gente. – Clara zombava da nossa cara de preocupação.
Em questão de segundos, o ponteiro começa a mover-se lentamente, tirando um grito calado por todas nós.
– J... – Clara ditou.
– O... – Completou.
E o ponteiro se pôs no lugar de origem.
– J...ô? – Pela primeira vez eu vi o pavor nos olhos de clara, quando ela rapidamente tirou a mão do ponteiro. – Isso é ridículo.
Eu e Mary nos encaramos por alguns segundos; Reparei sua testa que era invadida por pingos de suor frio e sua boca seca que estremecia a cada vez que ela tentava falar alguma coisa.
– Clara, você não pode tirar a mão do ponteiro, é contra as regras. – Eu falava, lutando contra a minha glote, que parecia se fechar lentamente.
Enquanto minha mão e de Mary permaneciam no ponteiro, ele começou a se mover rápido e com uma força extrema fazendo dois círculos um do lado do outro, foi quando ouvimos um grito desesperador vindo do quarto de Jô.
Levantamos correndo em direção ao quarto, tentamos abrir a porta, mas está trancada. E o grito se cala como se tivesse sido sufocado.
As três tentando de tudo para derrubar a porta, mas sem sucesso. Ela nem se movia. Era como se fosse coberta por uma redoma indestrutível. Socos, chutes e gritos das três amigas, esses são os únicos barulhos que as acompanhavam.
– Jô! – gritávamos com toda a força que ainda havia em nossas cordas vocais, quando no silêncio, a porta se abre lentamente, rangendo de uma forma que arrepiou todos os pelos do meu braço.
Sem perder tempo, invadimos o quarto correndo em direção ao Box, quando vemos Jô caída no chão com os olhos abertos e travados em alguma coisa que parecia estar à sua frente. Por um segundo entrei em choque. Nunca tinha visto alguém desmaiar com os olhos abertos. Abrimos a porta e tiramos seu corpo parcialmente desacordado da água e arrastamos a.
Chamávamos pelo seu nome, e Mary dava algumas batidas em seu rosto para que Jô saísse do estado vegetativo, quando um barulho vindo de dentro do banheiro tira toda nossa atenção. Seguimos o barulho com os olhos até que vimos o espelho embaçado começando a ranger, e as letras escritas nele formavam a frase:
Nunca saia sem pedir permissão.
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