Otimismo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
“(...) Este aqui é otimista
Este aqui foi ao mercado
Esse aqui acabou de sair do pântano
Esse aqui derrubou um carregamento
Forragem para os animais
Vivendo numa fazenda de animais (...)”
Cantarolava, sentado no banco de um ônibus, o destemido universitário branco, de cabelos loiros, olhos azuis vívidos, entretanto apesar de ser o que essa sociedade chama de “padrão”, o rapaz não era exatamente o que ela pregava como “bonito”. Rosto assimétrico por culpa de uma paralisia no olho esquerdo, piorada por uma cirurgia mal sucedida que quase lhe tirou a visão, magreza desproporcional a altura de 1,66m e ainda por cima, estava em um vilarejo do Japão, daqueles com menos de mil habitantes, para baratear o preço do intercâmbio na Universidade de Quioto, onde fazia graduação em Música com especialização em composições populares. Todos os dias os mesmos olhares de estranheza para o “gaijin”*, que somente terminavam quando descia na Niji Station para fazer baldeação para Tozai Line. O que era assustador no começo, depois virou rotina e em seguida, força motriz para aplicar seus conhecimentos em composição em prática, afinal a cada dia, uma novidade acrescentada na rotina do estudante.
Para o britânico Thom York, encarar trem bala, metrô e mais um ônibus para ir até a Universidade de Quioto, era mais um prazer do que um sacrifício. Ali, entre os bancos de trens, ônibus, que vinham suas ideias mais mirabolantes para composições, entretanto não era ali mesmo o seu lugar favorito para compor. O seu lugar favorito era no vilarejo, o local onde todo mundo olhava para ele como se fosse um ET, onde todos especulavam sobre ele, alguns perguntavam como era a terra natal do homem, a velha Inglaterra, o lugar onde sentia-se vigiado constantemente, onde qualquer “erro” significaria deportação, pois em vilarejos do interior do Japão estrangeiros aparecerem lá para morar era um evento que ocorria de tempos em tempos. O peculiar vilarejo com suas montanhas de trovão, fazendas, casas e templos antigos, parecendo que parou em algum tempo do Japão Feudal, mas híbrido com a tecnologia do Japão atual.
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Naquele dia, Thom estava de folga da universidade e do arubaito* como caixa em um supermercado próximo da universidade. Sentado às margens do Rio Ooi, no qual era parte fundamental da paisagem do ponto turístico mais famoso do vilarejo, a ponte Togetsukyo, rascunhando no bloco de notas do smartphone a continuação daquela composição no ônibus de semanas atrás. Precisava de um refrão forte para aquela composição, as palavras vinham, mas não simplesmente não combinavam. Resolveu seguir o ritual que sempre seguia quando esses momentos aconteciam: deixou a natureza e o destino fluírem para dar qualquer coisa que o inspirasse.
De repente, viu a água do rio subir e braços cortarem seu fluxo calmo, entretanto não era como se fosse uma luta, era como se a água deixasse os braços fundirem-se com ela e fizesse um movimento único. Após ela baixar, Thom viu um peculiar rosto e corpo de um homem, sem descendência japonesa, nadando com toda sua força. Era gracioso e belo demais.
“(...) Você pode tentar o melhor que puder
Se você tentar o melhor que puder
O melhor que você pode é bom o suficiente (...)”
Ainda mais repentinamente, o nadador foi em direção a Thom, saiu das águas e deu um inesperado beijo no estudante, que não pensou duas vezes em corresponder aquele ato tão intenso.
O que precisava para compor seu melhor refrão, a ode do otimismo.
“(...) Se você tentar o melhor que puder
Se você tentar o melhor que puder
O melhor que você pode é bom o suficiente (...)”
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