Others of us
2 Um novo dia?
— Como?_ o questionei atordoada, sentindo cada músculo se contrair com suas palavras amargas, crescendo ainda mais a raiva que havia dentro de mim.
— Presumo que deixamos escapar algo. Mas, não temos tempo para isso. Acorde seu irmão... Eu chamarei os outros.
Quando todos receberam o sinal de que a “nossa casa” estava sendo invadida, não perdemos tempo. Muitos correram desesperados, com medo, enquanto pegavam as poucas coisas que queriam e se juntavam na sala.
Tudo estava um caos, e mesmo eu tentando parecer forte e destemida, como meu irmão e meu tio que organizam tudo, minha mente estava a milhão e meu coração em marteladas, enquanto vasculhava os últimos dormitórios em meio ao pouco tempo que tínhamos.
Logo depois que percebi não haver mais ninguém onde procurava, corri até o corredor, sentindo minha respiração entrecortada, dando de encontro com o meu tio que havia surgido de outro quarto, tão cansado quanto eu.
— VAMOS, ALISSON!_ disse ultrapassando a minha frente e parando ao ouvir um estrondo, que ecoou e balançou cada canto daquele lugar subterrâneo. O mesmo me olhou de relance e eu pude o quão preocupado estava, mas em seguida começando a correr novamente.
Aos poucos que nos aproximávamos de onde todos pareciam estar, eu via o estado de tudo aquilo, observando as luzes fracas pela fiação afetada e os fios caídos do teto; ouvindo ao longe o choro das crianças aterrorizadas e de novo o barulho, que até mesmo fez uma fumaça de poeira subir. Após chegarmos à sala, vagamos nossa visão em volta, avistando Ian e muitos ainda de nosso povo em outro cômodo, o qual ficava o escritório de Ben, atravessando todos pelo túnel, onde antes ficava tapete e madeira para cobrir.
— VAI, VAI!_ ele gritava constantemente para as crianças, jovens e alguns poucos mais velhos que desciam ao túnel secreto, sobrando apenas alguns que esperavam a vez.
Foi quando de repente, o teto perto de nós caiu e junto dele uma sorrateira granada que explodiu. Eu não havia conseguido evitar, sendo jogada contra uma parede e somente ouvido ao longe, Ian gritar.
— ALLI!!
Instantes depois que abri os meus olhos, estava caída ao chão, sentindo dor em minhas costas e um barulho irritante invadir minha audição, desnorteando-me em meu foco e bloqueando dolorosamente meus poderes. O que era aquilo? Perguntei-me colocando as mãos em meus ouvidos, tentando evitar, mas sendo impedida por uma mão que havia pegado em meu ombro e me arrastado para trás de uma parede que dava passagem à pequena cozinha, tirando-me do fogo cruzado, entre os poucos de nós que não haviam sido afetados pelo gás ou partido, e o imenso exército dos homens mascarados e armados.
Minha visão estava turva demais para saber quem era, mas ainda agachada me afastei, porém o mesmo se aproximou com cautela, pegando novamente em meu ombro e ficando agachado como eu.
— Acalme-se, acalme-se, Alisson._ a voz que soou, me fez relaxar levemente.- Aqueles cretinos..._ praguejou.
— Ben..._ pisquei varias vezes, na tentativa de recuperar meu foco.
— Isso... Agora, preste atenção._ pediu seriamente, falando o mais rápido que podia, mas ainda fazendo-me o compreender.- Quando eu der o sinal, tire todos que ainda estão aqui, inclusive Ian, e os leves daqui.
— IAN!_ exclamei de repente, me arrastando para o outro lado do balcão, tentando avistar o meu irmão. E, contudo, sendo tomada pela revolta ao ver que o mesmo estava na porta da saleta, impedindo a chegada dos tiros e protegendo junto aos outros, àqueles que já haviam sido feridos. Compreendendo de longe, o esforço dele com seus poucos poderes, para evitar que mais alguém não ficasse daquela zona guerra, do qual já havíamos passado á um tempo atrás.
Então, não agüentando mais, me impulsionei a partir para enfrentá-los corpo a corpo, mas impedida por meu tio Ben, que ao ver o meu avanço, segurou em meu braço e me forçou a ficar abaixada onde estava. Olhei para seus olhos sérios e cansados, o repreendendo por tal ato.
— Ele vai morrer..._ disse forte, sentindo minhas próprias palavras cortarem-me.
— NÃÃO!_ respondeu ríspido ainda olhando para mim, mas mudando completamente sua expressão ao virar sua visão na direção do meu irmão, caindo sua postura, para um profundo desespero. Entre a minha respiração descompensada, me virei até ele e suspirei com medo, sentindo meu coração acelerado, diante da cena, a qual Ian estava ao chão.
Tudo se passou em um piscar, quando com as pernas bambas, eu tentei me levantar, sentindo somente o impulso e a adrenalina me percorrer, forçando-me ir em direção dele, enquanto os que nos caçavam avançavam, já pegando alguns para levar e neutralizando os poucos de nós. Contudo, os armados disparavam, me fazendo esbarrar e esquivar, apenas para chegar ao meu irmão. E só não podendo perceber quando uma bala parou na minha direção, logo desencadeando um momento que tudo à minha volta parou.
Não consegui evitar olhar apavorada para a bala que havia parado no ar na direção do meu peito, observando também todos parados, incluindo o soldado com a arma apontada para mim, enquanto havia tentado me locomover até a saleta, que naquele momento já não estava tão distante. Toda aquela situação era estranha para mim, fazendo-me perguntar quem havia feito aquilo, obtendo logo a resposta ao ver que meu tio não estava perto do balcão na cozinha, mas sim olhando para mim próximo ao buraco do teto, de onde o exército tinha entrado.
— Ben, o quê..._ tentei perguntar, encabulada com tudo, mesmo ainda não me esquecendo de Ian. Naquele instante em que ficamos nos olhando, lembrei-me levemente da vez em que o mesmo havia me dito não haver dons, mas que mesmo na situação em que se encontrava, protegeria eu e meu irmão a qualquer custo. Mas eu não fazia idéia, de que além de seu jeito sério e fechado de ser, ele era como nós ou até bem mais do isso.
— É uma longa história..._ respondeu tentando ser sereno, porém deixando inevitavelmente dor transparecer em seus olhos esverdeados, mas não se destacando tanto quanto o sangue fresco que havia escorrido de seu nariz.- Agora, dê o fora..._ disse fazendo todos soldados caírem, como desmaiados ao chão, deixando somente nosso povo em pé, novamente “em ação”.
— E você?
— Eles precisavam de você, o seu irmão precisa._ tentei novamente dizer algo, mas ele assentiu.- Eu vou ficar bem._ meu instinto dizia que não, apertando o meu coração em mágoas, mas o ouvindo e chamando todos, e indo até Ian.
— Ian..._ sussurrei ao me aproximar, vendo Ed, um rapaz mais velho, pressionando um pano sobre a ferida, na tentativa de estancar o sangue que muito escorria.
— Temos que levá-lo!
— Eu sei..._ disse quase com a voz embargada, chegando perto dele e olhando o estado do meu irmão, enquanto respirava descompensadamente, tentando manter-se calmo mesmo evidentemente com dor.
Os outros se aproximavam desnorteados, confuso com toda situação, levantando-se do chão e avistando o feito de Ben, provavelmente surpreendidos, assim como eu. Além disso, ninguém sabia.
— ANDEM LOGO!_ Ben gritou da onde estava.
Compreendendo que aquilo era um aviso, os que ainda estavam la, rapidamente se encaminhavam para o túnel, alguns levando consigo algumas das pessoas que estavam machucadas e passando por Ian, com olhares preocupados. Nada menos, para o cara que era como um segundo “líder” por Ben. Em seguida, sobrando apenas eu e Ed, colocando Ian apoiado aos nossos ombros e encaminhando para a nossa saída.
Quando já estávamos no túnel, sobre as águas paradas daquele lugar semi-iluminado, olhei atordoada para cima, vendo Ben apoiado na entrada. Entendendo que aquele instante poderia ser um Adeus, deixei que Ed segurasse Ian e seguisse em frente junto aos outros.
— Não demore._ Ed disse ao se afastar.
— Alisson, você tem que ir._ Ben disse.
— Eu não posso abandoná-lo, Tio._ disse contendo minhas lágrimas, na tentativa de me manter firme mesmo que os outros já estivessem razoavelmente longe.
— Você não está me abandonando. Eu preciso fazer isso, eles estão vindos.
— Isso não faz sentindo, você pode vir conosco!_ rebati nervosa, aumentando minha voz.
— Eu tenho que atrasá-los._ um barulho ecoou, crescendo meu desespero perante àquela cena, na qual mais alguém que eu amava, ficava para trás.- VAI!_ gritou de repente assustado.
Como não tínhamos mais tempo, ele imediatamente fechou a entrada, fazendo com que eu seguisse sem olhar para trás, sendo mais difícil do que imaginei. Correndo para alcançar os outros, não consegui conter a decepção por não ter feito algo a mais, além de tudo, Ben não era qualquer um, o mesmo era quase um pai, e acreditava ser não só para mim, portanto, quando cheguei ofegante até os outros, eles notaram a ausência dele.
— Cadê o Ben?_ Len, um dos adolescentes de cabelo escuro perguntou, causando comoção a sua volta. Diante daqueles olhares vazios, tentei responder firme, na tentativa de mantê-los calmos, mesmo que eu soubesse não ser possível.
— Ele ficou._ respondi tensa. Estávamos todos parados um pouco já distantes da onde havíamos saído, não era tão seguro, mas não achavam que poderiam seguir sem o líder, porém desapontando-se com realidade que os cercavam, iniciando burburinhos e várias perguntas, ainda mais porque o segundo na liderança estava desmaiado. Com todos aqueles questionamentos diante de umas vinte e poucas pessoas, tentei procurar palavras para dizer que naquele momento estávamos sozinhos e sem um lugar para ir, mas se aborrecendo mais, ao perceber que aquilo não era para mim. Eu não estava preparada, ainda mais decepcionada com o rumo em que as coisas estavam indo.
— G-Gente!_ Chamei-os querendo atenção, logo obtendo silêncio, mas sendo interrompida por Ed que provavelmente percebeu o meu estado.
— CALEM BOCA E CONTINUEM ANDANDO!
— Desde quando devemos obedecê-lo?_ uma voz feminina surgiu ao fundo, mas ficando quietos ao ouvirem um novo estrondo.
Ao ver que aquela não era a hora e nem o momento, seguimos nosso caminho em passadas rápidas, na tentativa de sair dali logo, encharcados até nossos joelhos e desesperados por um lugar que fosse seguro. Andávamos rapidamente, alguns ajudando os que estavam feridos e trazendo consigo o peso daquele longo trajeto. Escondendo-nos mais uma vez sem lutar verdadeiramente, impedidos por estratégias mais pensadas de nossos inimigos e a mágoa em relação às pessoas que haviam sido pegas, sobrando somente à dor da esperança de que algum dia, por mais distante que estivesse, seriamos livres. E enquanto vagávamos, pude ver o quanto já havíamos perdido.
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