Notas iniciais
He~he é nesse capítulo que as coisas esquentam para valer (apesar do anterior ser bem longo também)

Capítulo 6

Quem é o Instituto?

Mais tarde naquele dia.

Usamos um ostium, máquinas de teletransporte, para irmos até Porto Rico, o navio partiu de lá.

Nós mostramos os convites, parece que nossa reputação finalmente estava começando a nos alcançar, já que diferente do que temia, não fomos interrompidos, não foi necessário nenhuma explicação demasiada ou um plano mirabolante.

O navio zarpou, segundo os vários papeis iriamos passar pelo triângulo das bermudas, dando algumas voltas até chegarmos em Miami.

15:22, horário local.

Obviamente, a primeira coisa que fizemos depois do navio partir foi nos dividir, eu e a Une fomos para nossos quartos e cuidamos das malas, os outros estavam procurando pela pessoa que havia chamado nosso grupo, a que parecia usar as iniciais de “C.D.”

Após um tempo, tudo estava pronto e começamos a procurar eles.

Foi tarde demais para perceber o tamanho do navio, lendo de novo os papeis dizia claramente.

—Contando todo o espaço que podemos andar, incluindo áreas restritas... 55 quilômetros?! Une, como isso é possível?!

—Use os termos certos, são 55 quilômetros quadrados, com 4 deques poderia atingir isso com 100 metros de comprimento por pouco menos que 15 de largura, esse deque com certeza tem pelo menos 300 metros de comprimento e algo como 50 de largura, a maior parte do trabalho deles já foi feito.

—Eu chutei todas as respostas do último teste de matemática...

Tudo que estudei para o encontro serviu apenas para isso, depois que pulei da janela todo o conhecimento, prática e formulas aprendidas foi para o espaço... por quê...?

—Imaginei...

Depois de passar pelo primeiro deque inteiro, percebi que aquilo iria demorar muito, então puxei meu telefone e tentei fazer uma ligação.

Tentei.

—Além de lhe ensinar o que é uma área bidimensional, preciso também lembrar que não tem sinal no meio do mar, ainda mais no triângulo das bermudas?

—Droga...

—Vamos nos separar então, um para cada deque, assim cobrimos mais área, você pelo menos entende como isso funciona, sim?

—Não me despreze só porque esqueci algo que não estudamos a anos.

—Foi o que o professor deu na última aula...

—Imagino qual aula foi...

“Quando voltar para terra, eu preciso acertar as contas com ele...”

Fui para o deque logo acima, Une foi com o do topo, achei que seria melhor ela buscar em um deque menor.

Agora... procurar...

Não devia ter chamado isso de “procura” ou “caça” e se o fizesse, que um caçador-fantasma me assombre pelo resto da minha vida.

Ao subir as escadas, me separar de Une e virar um corredor, por instinto apenas, já que tinha ido em direção a um parapeito, portanto uma área aberta bem de frente ao sol, também por instinto entrei na direita, como já é de meu costume.

—Q... queen...?

A achei, no tempo de recorde de 00:01:31:57.

—Jack, para o que é esse cronometro na sua mão? Por que ele está parado em 1 minuto 31 segundos e 57 centésimos?

—Nada. Só estava testando-o, achei o vendedor suspeito e... pensei nisso agora.

Escondi o cronometro novamente, ele não era relevante.

—Onde você comprou? De onde veio o dinheiro?

—Err... minha memória fica bem vaga nessas partes... e... você não lembra de onde veio o dinheiro?

—Perdão!... Estava fazendo muitas perguntas de novo!...

—Estou acostumado, na verdade, sempre achei isso um pouco... digamos... não importa a palavra, eu gosto disso, é isso que quero dizer.

—Sério?... Digo, por... por...

—Não pense muito nisso, por favor... pensando bem, eu nem devia ter falado nada...

—...

“Talvez não seja bem a hora desses comentários, tinha algo mais, o motivo de ter procurado Franziska era outro”

—Pensando em algo mais simples, onde estão os outros? O Ritte e a Roi?

—Estão procurando nosso contato. Rien de spécial, digo... não encontramos nada de especial, então nos separamos.

Dei alguns passos à frente, pôs as mãos sobre o parapeito, olhei para o horizonte, isso me lembrou de onde havíamos chegado.

Apesar de ter acabado de me encontrar com a Franziska, minha mente já havia se perdido em pensamentos novamente, olhando para o horizonte...

Uma garrafa flutuando no Oceano Atlântico, vários quartos luxuosos e piscinas tiraram meu foco disso, porém eram esses os fatos, uma garrafa entre várias ilhas, tirados do resto do mundo.

Por agora o sol nos iluminava, sua presença me enfraquecia, mas por isso sabia que não tinha nada a temer, era uma força infinita e benevolente, sobre tudo, acima de todos, para sempre como um protetor.

Mas em breve seu posto seria deixado, uma mera sombra, melhor, sequer uma sombra, um oposto, ele tomaria seu posto nos céus.

O oceano agora refletia o céu azul, em breve ele seria apenas escuridão, me lembraria de todos os segredos sob as águas, a madeira do convés não pareceria prestes a entrar em brasas, ela esconderia, ocultaria tudo dentre suas falhas. Os corredores do navio serão frios, vento batera e rebatera pelas paredes, nos levando para onde crer ser adequado.

“Estou pensando demais nisso, até vai parecer que tenho medo do escuro”

—Queen, mais tarde vamos assistir ao pôr do sol?

—Estava... pensando em algo?

Minha sombra se movia sem mim, se misturando com a que Franziska projetava, isso me lembrou de uma história em quadrinhos antiga, por isso disse:

—Estamos mais próximos do que nos demos conta, isso é bem estranho, deveria ser assim?

Por segundos ela pensou, seus olhos estavam além dos meus, vendo mais, essa visão dela foi sempre o que admirei discretamente.

—Isso importa? Nous s... nós já somos felizes, sim?

Ela via as estrelas, mesmo as que o sol ofuscava, poderia apontar até constelações se quisesse.

Por mais que o sol me de segurança, ele me impede de ver o que ela vê e por isso, havia algo melhor para pedir.

—Mudando os planos, essa noite quero ver as estrelas, me mostre algumas constelações bonitas, por favor.

Assim, com a aprovação do sol, da lua e das estrelas, nós ficamos mais próximos.

Horas depois, 21:15. Quarto 77.

Comigo estavam Roi e Ritte, a Franziska e a Une estavam fora para descobrir como pedir serviço de quarto, não tínhamos humor para ir jantar no salão.

Pela sétima vez, repeti a pergunta a qual nos perturbava tanto.

—Depois de procurar por um dia inteiro, nenhum de nós achou o maldito contato?

—Avec regret, Jack... —Ritte se repetiu.

—Sim... —Roi já tinha se cansado de me responder.

—Ritte, já pensou em algo novo? Estou tentando, mas acho que lógica nunca foi meu ponto forte.

—Talvez o contato não chegou, pas encore? Isso explicaria tudo.

—Então o que faríamos? Nada?

—Nesse caso, sim, não haveria nada senão aproveitar o cruzeiro.

—Odeio esperar... vou morrer assim...

—Ambrose, tem outra possibilidade.

—Roy? Teve alguma ideia?

—Sim, ele pode estar aqui.

—Como? Qual foi sua lógica?

—Ele está...

Era por isso que temia uma pergunta dessas, Roi não parece o tipo de pessoa que elaboraria na lógica que fez.

—Sim, essa é sua teoria, mas por quê?

Ritte tentou novamente.

—É uma impressão.

Depois de aparentemente se perder por completo nas palavras da Roi, o Ritte se virou para mim, apesar de tudo, ele esperava que eu tivesse pensado em algo:

—Jack?

—Melhor deixar isso de lado, amanhã vamos agir sob o pretexto dele estar aqui, se amanhã também não acharmos nada, vamos desistir.

Esse foi o acordo.

O dia estava prestes a terminar e a lua já havia tomado o posto do sol, os corredores do navio eram cobertos de sombras densas, não podíamos ver além de alguns metros a nossa frente.

Fomos pelos 5 quartos, cada um fazendo grande questão do número do próprio quarto, escoltei Une até o seu, o quarto 77, estava então prestes a sair.

—Um momento, major Jack.

—Qual o personagem dessa vez?

—Personagem? Não proclame estupidez em minha frente. Sou uma pessoa de ciência, meu interesse é apenas na verdade. Mentiras não são de uso algum para mim, entende por que?

—Sim, doutora Une, precisa da minha assistência então?

Eu respirei fundo, ajeitei minha postura, tentei entrar naquele personagem.

—Entre no laboratório, com cuidado, não ouse fumar aqui dentro, meus sistemas de defesa o farão uno com as cinzas do cigarro.

—Jamais faria algo tão rude.

Dizendo isso, pôs os meus pés no laboratório, ou melhor, eu dei alguns passos para frente e fiquei um pouco mais perto dela.

A dr. Une foi a minha frente, puxou várias bugigangas e maquinações, indescritíveis para mim, um mero soldado.

—Do que se trata isso? Seria o projeto Monteur?

—Corretíssimo, você sabe a razão desse ser o nome, major?

—Nenhuma ideia.

—Pois “Monteur” lembra o nome de outro projeto, “projeto Montauk”

—A semelhança... por que há essa relação?

Considerando o que sabia dela e essa obsessão por teorias da conspiração e juntar engrenagens, me perguntei se Monteur era seu nome realmente, ou ela pensou nisso desde o princípio? A conhecia como membro da mesma banda, e o que mais?

—Como sabe, para uma parte desse projeto, muito chamada de “experimento Filadélfia” um navio americano foi usado como laboratório para inúmeros experimentos, teleporte, invisibilidade, até um homem que vivia sem seu coração bater.

Não estava sequer acompanhando depois de certo ponto para ter certeza que foi isso que ela disse, alguma parte desse discurso soou fora do normal.

—Meus homens não gostariam dessa última parte, além de... como isso seria possível? Para um humano normal digo...

—As fontes são um pouco escassas nesses pontos, sabe como os americanos são bons em esconder seus esqueletos, isso só consegui pois o servir antes de perceber onde minha pesquisa realmente faria a diferença.

—Nunca me envolvi em projetos secretos, contudo... imagino que esteja certa, posso ter sido dispensado por eles, porém já havia outro posto para mim, não tenho arrependimentos.

—Portanto, agora que este experimento será num navio, resolvi o dar este nome, e major, lhe chamei, pois, esse invento será de grande utilidade a nossa causa.

—Estou ouvindo.

“Mesmo que não esteja entendo nada... como ela consegue falar tanta coisa desse jeito?! Minha cabeça já está doendo!”

Ela puxou vários fios e ferramentas, pôs luvas de plástico e ligou alguns pedaços entre si, juntou com uns mecanismos, durante todo o processo havia estalos e faíscas.

—Usando sinais de satélite os ligando a...

Levando em conta que já seria um desafio para mim compreender uma explicação real, logo uma explicação, com exageros de ficção cientifica e termos inventados misturados com a realidade, era incompreensível.

—E com isso, poderemos nos achar mesmo sem comunicação verbal ou sinais codificados.

—...

—Major?

—Sim, intrigante.

—Volte aos seus aposentos, irei continua a construção do protótipo.

—Até amanhã, doutora...

Prestei continência e me retirei.

A porta enfim se fechou após minha saída.

E, no entanto, fora escoltar a dr. Une, digo, Une, ainda tinha um dever...

Passei horas na minha suíte, mais ou menos até as onze da noite, assim, segundo o combinado, nós saímos, um por cada caminho, para nos encontrarmos apenas no deque principal.

Na cidade onde vivemos, vemos todas as estrelas, longe das metrópoles, temos um vislumbre da beleza do universo.

—Isso é...

O que vi era a mais bela visão, sei agora que toda minha jornada foi para esse momento.

Cada estrela reluzia, piscando em harmonia, não havia um ponto sem o cintilar daquelas belas musas celestiais. Seus feixes misturavam-se, suas cores se mostravam da maneira que sempre deveria ter sido.

Pois estamos longe de tudo, as luzes da cidade não podiam ferir o espetáculo que presenciei.

O chão estava sim escuro, sim era até difícil de ver o que havia no chão, mas não agora, agora as estrelas faziam-se de lâmpadas para nós.

Assim que deitamos no deque, Franziska contou sobre o mito de uma antiga civilização.

—Era pensado que as estrelas eram buracos no céu, por onde os deuses observavam os humanos, nós.

—Por isso estamos protegidos... os olhos do céu estão sempre lá, são protetores bem dedicados.

—E olhe lá, a constelação de peixes!

Mais uma vez, a noite passou, mas antes, vi as mais belas constelações. O quadro de arte do universo.

Dia 13 de maio.

O sol brilhava como se estivesse a metros de nós, refletia por todo o oceano. A madeira do convés parecia pronta para virar brasas, uma dúzia de grupos de famílias ricas e empresários estavam por ali, eram tantos, com o sol enfraquecendo minha visão nem podia fazer uma estimativa mais precisa que isso, apenas ver claramente que eram pessoas com uma aura extravagante.

—Estar num cruzeiro é muito extravagante, na verdade.

Nunca pensei na minha vida que estaria num desses, não tanto tempo atrás meus objetivos como adulto era apenas ter uma casa bonita e espaçosa, depois não conseguia pensar em nada para fazer.

Olhando para cima, mesmo agora não fazia ideia do que ia fazer com todo aquele dinheiro.

“Comprar um... helicóptero?”

Senti alguém me observando, talvez depois de estranhar algo que falei.

A banda toda tinha dado um tempo de procurar o contato e se reuniu na piscina do navio.

—Ei, Ritte, vamos apostar uma corrida, seria uma boa aproveitar a chance.

Havia o encontrado na piscina, só alguns passos de onde estava e já o vi sentado no chão, com seus pés na água.

—D'accord... se você diz, Jack, alguém mais?

Me virei apenas para achar nossa banda, ia perguntar se alguma delas ia querer entrar, mas enquanto fazia esse movimento, vi algo tão inusitado que não consegui terminar o movimento de uma vez, em vez disso me fixei em outro grupo de jovens.

Dentre eles havia uma garota de cabelos muito longos e ruivos que pareciam se juntar a água como tinta, se espalhando para todas as direções.

Ela estava nadando com um garoto um pouco mais velho...? Não pude ter certeza, ele tinha cabelos parcialmente brancos e a pele acinzentada, ele não me deu arrepios, mas quis manter distância, aliás, aquilo eram luvas pretas nas mãos dele?

Na borda da piscina, fora da água ainda estava um loiro de olhos azuis e alto, parecia ter minha idade.

Do lado dele uma asiática de cabelos castanho-claro não tão longos assim e tinha um senso estético bom, não sabia que um traje de banho com cores tão fracas como branco e rosa poderia ser tão bonito.

E por último era uma mulher de cabelos pretos em tranças soltas, ela estava com um moletom cinza cobrindo até os braços, pude ver algo parecido com vermelho, mas não tinha certeza de onde.

“Que grupo é esse?”

—Você percebeu também?

Enquanto os encarava, eu me aproximei dos meus colegas, quando vi...

—Sim! Franziska!

—Vamos tentar ouvir eles, estou sentindo algo esquisito vindo daquele grupo.

—E os outros?

—Aller! Vamos ouvir, deixe os outros, contamos depois.

Com aquela pressa, não tive escolha se não irmos em frente sem sequer explicar o motivo para eles, o Ritte ia precisar esperar mais...

Me posicionei a frente dela, boiando suavemente e focando em ouvir:

—Ei, Otsuka, você realmente sabe nadar? Meus olhos estão me enganando? Minha visão está me pregando uma peça?

A mulher de moletom disse isso, uma frase meio estranha, foi como se ela tivesse tentado refazer sua sentença.

—Não lembra que eu vivo perto da praia? Se não fosse nadar me sentiria culpado, por isso as vezes fui nadar —Quem respondeu foi o garoto do cabelo com duas cores.

—E sem esquecer da minha parte! Tive que ensinar você e as outras a nadar, não foi Suka-kun?! —Esse... é o nome dele? Por que ela entrou assim na conversa?

—Você tem aptidão para nadar, Yui? —Foi o loiro de olhos azuis quem perguntou.

—Sim, sim. Foi o quarto esporte que tentei.

—Quarto...

A conversa deles continuou sem parar, não tirei nada solido dela.

Mas... algo esquisito aconteceu.

—Mesmo com isso você continua pálido e fraco, não devia fazer algo sobre isso? —Foi novamente a mulher de moletom perguntando, ouvi ela ser chamada de “Kiu”, mas não tenho certeza.

—Ei... —Aquele garoto Otsuka fez um rosto estranho, me deu a impressão que ele sentiu-se perturbado com o que ela disse— Não fale como se não tivesse tentando! E mais, é você que está usando moletom aqui, vai ficar pálida assim também.

Então ele tentou fazer uma piada, mas não pareceu ter funcionado da maneira esperada.

A “Kiu” encarou ele, que então recuou e ficou ainda mais pálido que antes, parecia prestes a desmaiar.

Mais, quando percebi, também tinha me afastado dela e estava com a mão que me segurava na borda tremendo.

“Que é isso?... Isso é só uma aura? A aura dela fez isso? Como alguém consegue fazer isso com apenas uma aura?”

—Queen, vamos investigar isso?

—Investigar? Por que faríamos isso?

—Err... bem... você parecia... como posso pôr em palavras...

—Não!... Digo, vamos só perguntar o que eles estão fazendo aqui.

—É melhor de verdade, mas aquela Kiu parece perigosa, talvez tenha sido só uma impressão, mas melhor não irmos agora, talvez deixar todo mundo sabendo seja melhor.

—Oui, sim, chame mais alguém.

—Pode esperar? Apostei uma corrida com o Ritte, está valendo dois travesseiros para essa noite.

—Uh... que hora, mas pode ir, deve ser algo mais importante do que você faz parecer.

“Não realmente”

Quis fazer essa correção, mas senti que ela poderia ficar irritada se soubesse que estou a atrasando por causa de uma aposta besta.

—Obrigado Queen!

Foi o que decidi falar então.

Me joguei de costas à piscina e nadei assim até chegar no Ritte.

—Você já ouviu a história da lebre e a tartaruga? —Ritte me perguntou.

—Nem pense nisso, Ritte, vou avançar com energia total! Sou uma lebre determinada a dormir confortavelmente com mais dois travesseiros!

—E dormir não foi o que fez a lebre perder?

—Talvez... eu não lembro do que acontece na história...

Achamos um bom espaço da piscina que tinha pouco movimento, era perfeito para uma corrida.

Entramos em posição, imitando os nadadores das últimas olimpíadas, então...

—Quando começamos?

Ele percebeu o que faltava.

—Quando o sino bate meio-dia?

—Bien sûr que non, isso seria como um duelo de faroeste.

—1, 2, 3 e já?

—Quem conta?

—Eu, claro.

—Isso não vai te dar vantagem?

—Exatamente, está de meio-dia e estamos no meio do oceano, você sabe que eu fico mais fraco no sol.

—Então faça assim, 3, apena isso, sem o “já”.

—Se prepare.

Tivemos que volta a posição, havíamos esquecido de a manter com toda aquela conversa.

—1... 2... 3!

Minha visão afundou na água, pois dessa vez tinha um plano.

“Ele só poderia ganhar se tivesse uma crise no meio da corrida, por isso, vou ir o mais fundo que posso para enfraquecer o sol!”

Nunca fiz treino de natação algum, só deixei meu sangue ferver e usei energia em excesso para nadar o mais rápido que podia.

E com isso:

—Ganhei!

Após a corrida, nós dois sentamos na beira da piscina, um homem nos ofereceu uns sucos, eu peguei o de uva, enquanto explicava minha lógica para o Ritte.

—Jack, você está explicando tudo isso por que novamente?

—E por isso... você cortou meu raciocínio caramba, mas isso é... qual a palavra mesmo... treino, você precisa de mais treino.

—Treino nisso? Natação.

—Não! Claro que não seu maluco, é sobre... truques, você é bom em se livrar de problemas, mas não pode ficar ruim, ainda mais perder para mim.

—...ok. Vou tentar.

—Continuando...

Algum tempo passou até lembrar do que havia prometido logo antes da corrida.

Dei um adeus veloz e pulei na água, direto para onde as outras estavam.

O pior aconteceu, aquele grupo de esquisitões tinha sumido, Une e Franziska também não estavam mais lá.

—Roi! Onde elas foram?!!

—Procure.

Ela falou e me jogou um rádio velho cortado pela metade, com uma ponta de estrela?

“Deve ser o que a Une estava mexendo na última noite”

Apertei um botão qualquer do lado, isso fez a estrela piscar em amarelo.

O movi um pouco, aquele padrão e cor pareciam me dizer que algo estava errado.

Assim que apontei para o chão, o deque interior, a estrela brilhou em verde.

“Espero que sejam elas”

Corri para dentro do navio, talvez tivesse alguma regra contra entrar encharcado assim por lá, mas agora não posso ter certeza.

Desci, por lá cada corredor buscava meu guia e deixava a invenção da Une dizer para onde deveria ir.

“Espero que não seja uma piada desta vez!”

Senti, estava perto, muito perto. Talvez só precisasse virar mais um corredor.

Então...

Mantive a maior velocidade que conseguia manter, até sentir ter achado o que procurava.

“Franziska?”

Senti aquela aura. Por isso concentrei muita força no pé direito para me desviar.

—Wa!

“Espera, quem é essa pessoa? ”

Colidi com a parede, mas não foi tão ruim quanto a última vez na escola.

“A doutora Kutt não devia ter confiado em mim... já fui contra boa parte das ordens médicas que ela me passou”

—Está vivo?

“E como alguém pergunta isso?... Quem é essa pessoa se não a Franziska?”

Meus olhos abriram e... era a garota de antes, de traços asiáticos e cabelo castanho-claro.

Apenas de perto notei mais um detalhe, uma cicatriz em linha reta pela bochecha, parecia superficial, lembrando uma marca de tinta até, mas a cor indicava ser de fato uma cicatriz.

“Como?”

Não pude elaborar mais a minha própria pergunta.

—Estou bem, mas, err... o que era...?

—Procurando alguém...?

—Sim! Isso mesmo, são duas garotas, uma delas tem um cabelo esquisito meio mal-penteado, a outra é um pouco alta e tem cabelos loiros e olhos verdes, igual uma princesa, você as viu?

—Infelizmente não...

—Não é nada, só mais uma coisa... qual seu nome?

Perguntei aquilo como se fosse natural, achando que tinha feito uma boa decisão.

—Yui Sasaki, quer alguma ajuda para procura-las?

—Seria bom, mas você pode? Não estava com algum grupo?

—Estou, eles podem esperar, só estamos aqui para descansar um pouco, quase como férias.

—Se você diz, vamos então

Usei o invento da Une para checar a direção mais uma vez e o guardei comigo.

—Em frente.

Normalmente, deixar uma pessoa de um grupo suspeito e que você mal conhece lhe seguir assim, ao menos, não seria uma decisão esperta, contudo... naquele dia, foi a decisão que salvou minha vida.

—Disse meu nome já, mas e o seu?

—Jack, Jack Delsteen... falando em nomes...

—Diga... Delsteen-san.

“Delsteen-san...? Eu pensei que só samurais falavam assim”

—Com quem você veio? A sua família? A família Sasaki?

Tinha outra pergunta em mente, meus pensamentos não estavam claros, porém consegui pensar em algo de qualquer maneira.

—Não. Só... como posso dizer... são amigos antigos, um deles sugeriu e quase nos forçou a vir, agora diga você.

—Nós viemos... vai soar estranho, mas são alguns negócios, deveríamos encontrar uma pessoa e resolver um contrato, mas... ainda não o achamos.

—Veja com os trabalhadores do navio. São eles que podem saber onde essa pessoa está.

—Sim, vamos fazer isso depois, assim que encontrar a Franziska e a Mary.

A resposta foi imediata, bastou mencionar o nome das duas que a estrela no rádio brilhou em verde, senti que havia duas pessoas por perto, no próximo corredor.

“Franziska e Une”

Achei elas subindo as escadas.

Dei passos rápidos para ir na frente da garota asiática, então sussurrar para as duas:

—É ela. Eles parecem suspeitos, segurem ela enquanto vejo os outros.

—Não é perigosa?

A Franziska perguntou algo bem pertinente.

—Enquanto estiver sozinha? Não.

Algo naquele grupo me despertou muita curiosidade, mas talvez essa seja uma palavra muito branda, medo poderia servir, a vontade de ligar as luzes ao ouvir um barulho vindo do escuro, conflitante com o desejo de voltar a dormir e esperar que não haja nada lá.

E minha decisão não era tão irresponsável daquela vez, eu não tinha certeza que tipo de pessoa era aquela Yui, mas ela não parecia especialmente forte, nem nada do tipo, certamente não era nada comparada com aquela outra mulher da aura assustadora.

—Yui! Não vai voltar ainda, certo? Pode ajudar as duas a achar nosso contato? Vou buscar o resto do meu grupo.

—Seria um prazer.

—Ótimo, também queria apresentá-la a Queen... digo, Franziska, vocês parecem ter muito em comum.

Esse palpite e esse desejo pelo menos... ainda eram sinceros... algo claramente estava esquisito naquele dia, minha atitude e a forma com que via as duas...

A verdade sobre isso, eu também iria descobrir em breve, pois a conexão entre as duas ia além do tempo e do espaço...

Subi as escadas e voltei para a piscina, falar primeiro com o Ritte.

—Ritte! Siga esse... negócio, a Franziska precisa de ajuda, não há tempo de explicar.

—Je le ferai! Espero que seja urgente mesmo!

O joguei aquele invento, ele se levantou e logo começou a seguir a estrela brilhante.

Depois precisava chamar Roi.

—Roi, me siga, eu explico no caminho.

Ela se levantou num movimento leve e moderado, como se o tivesse feito e refeito centenas de vezes.

“Onde elas estão? Qual dos deques? Não adianta pensar, preciso correr”

Peguei o remédio da doutora Kutt e tomei uma dose dele, iria precisar.

Foi algo que nunca experimentei em minha vida, meus olhos estavam focados, as bordas sem foco, porém o centro de visão era nítido, cada detalhe perfeitamente notável, com meus ouvidos o barulho da água, o vento, as várias conversas em várias línguas, todas abafadas pelo canto das aves.

O cheiro dos peixes e o vento passando por cada parte exposta do meu corpo, junto de um perfeito senso de equilíbrio e a sensação de meu corpo ter a densidade de algodão, corri o mais rápido que jamais fiz.

“Roi ainda pode me acompanhar, não importando o ritmo, mesmo na velocidade máxima, e nela poderia vasculhar um deque inteiro em 1 ou 2 minutos, tem que ser assim”

Entrava na sala de jantar, passava por cada mesa e saia antes de poder recordar a cor da parede, nem ouvia meus passos.

“O que a doutora colocou nisso?! Me sinto como se não fosse nem mais um humano!”

Quando desviava de uma multidão, acabava deslizando no espaço entre elas, pulava por cima dos ombros e sem bater em paredes, dobrava meu corpo para chegar ao próximo ponto, não era a corrida atrapalhada que tinha me acostumado, era veloz, leve.

E em mais 2 minutos:

—Aqui!

Numa virada, grudei o pé no chão e joguei uma mão na parede e consegui parar de imediato.

Senti uma presença, do canto espiei o corredor, sentia a presença de... Roi?... Era ela que parecia estar pelo corredor.

—O que você está vendo?

Ao mesmo tempo, ela fez essa pergunta do mesmo canto que usava para espiar, ela estava atrás de mim, não no corredor.

—É uma presença muito familiar...

Não conseguia a identificar de imediato, mas parecia como a de alguém que conhecia, ainda assim, não podia apostar quem era.

—São só...

—Estamos procurando-os. Tome cuidado, vamos ouvir o que eles têm a dizer.

Os dois pareciam falar alto, porém a voz continuava um pouco sem tom, como se tivesse ouvido por algum método diferente, era até difícil diferenciar quem falava as vezes.

—Kiu, recebi uma mensagem, preciso que fique atenta agora... acho que é um perigo...

“Kiu... esse nome de novo, e é aquele garoto de cabelo branco falando, essa incerteza nas palavras é dele”

—Nunca ret... dei... nunca abaixei minha guarda, mesmo agora.

Mesmo podendo ter sido descoberto, só pensei que não era perigo, podia me defender, sob aquelas condições pensei:

“Eu sou invencível!”

—Sei... posso achar trazer as duas armas para o navio exagero ainda assim...

“Armas?! Foi o que ouvi?”

—Só estou com uma delas aqui porque você insistiu nessa idiotice de nadar na piscina...! Não tem como trazer mais nada.

—Você ia vir para um cruzeiro e ficar sem nadar?! Sem nem mostrar seu treino atlético?! Isso ia me matar de loucura!

—E isso importa!? Considerei a partir em duas para deixar mais confortável, só que isso iria diminuir a velocidade de saque e... grr...

—Aliás, como você conseguiu trazer isso para dentro do navio mesmo?

—...só vá logo para o seu quarto, pegue seu brinquedo e vá resolver o problema, disse que não seria problema ir sozinho, ainda acha isso?

—Com aquele de truque, acho que posso sair de qualquer situação...

—Espero qu... desej... sim, acredito nisso.

A conversa terminou e os dois continuaram descendo o corredor... provavelmente...

No fim... demos sorte e não fomos encontrados.

—Roi, vamos segui-los, só mais um pouco.

—Recebido.

Iriamos continuar os perseguindo, mas senti uma presença, duas presenças, muitas presenças...!?

O outro grupo, Ritte, Une, Queen e Yui.

“Agora não...!”

Me segurei ao chão com toda a força que tinha, qualquer movimento brusco iria me fazer perder o controle daquele estado de superação.

“Se perder o efeito... não posso! Tenho que continuar assim! Preciso correr!”

—Queen, o que...

Precisei parar, bem no meio da minha frase...

“Não consigo falar mais... Roi... me ajude...!”

—Finalmente, por fato, nos encontramos.

A Yui nos cumprimentou, logo, a Une a seguiu falando os resultados da busca:

—Os funcionários não viram ninguém como o nosso contato.

—Foi kisso*, digo, isso que nos contaram.

—Deve ter ocorrido alguma anormalidade. Devemos entrar o contatar logo.

A Roi dizia, enquanto encarava todos do grupo.

—Seria um prazer, major Roy, entretanto para a invenção estar completa, a assistência de um especialista em programação será requerida.

Ela disse com a mão fingindo ajustar os óculos, devia ser parte do personagem de cientista.

—Monteur-san? Especialista em programação você diz? Exatamente um especialista em programação? Isso conheço alguém assim, ela está nesse navio.

—Un...

Tentei falar, mesmo sabendo que já tinha atingido o limite, eu tentei. Recebi o esperado.

Elas estavam na minha frente, pulei de lá, pôs os pés na parede e me impulsionei de volta ao chão, lá havia caído algo, um papel pequeno, de cor amarela e com escritos em preto se dizia.

“Vá ao armazém. É muito importante. As nove horas da noite

—C.C.”

—Wa!

Li tudo aquilo antes da Yui ter tempo de gritar.

Aquilo era a pista que precisava, devia esperar até as nove sem estar sob efeito do remédio.

—Com licença.

Tinha disparado antes de terminar a frase.

Novamente, sequer podia notar o que estava ao meu redor, assim que uma pessoa, aparecia em minha frente, senti como ser nem a evitasse, enquanto meu corpo desafiava a extrema inércia e mudava de direção em ângulo absurdos, para mim, estava atravessando aquelas pessoas, assim como faria um espectro, mudando de posição antes de piscar, movendo sem sequer notar.

Tudo isso, para achar um refrigerante.

“Por que um refrigerante cancelaria o efeito afinal?”

Peguei uma lata de um balcão e a perfurei com o meu dedo, engoli tudo num gole só.

Meus sentidos voltaram ao normal instantaneamente, o vento não me trazia agonia ao bater na minha pele, não podia mais ouvir todas as conversas que aconteciam ao mesmo tempo, o sol brilhava menos, a visão periférica diminuiu e escureceu, os músculos voltaram a pesar, meu coração batia pela metade do ritmo de um instante atrás.

Quando percebi isso, percebi está correndo em direção a piscina.

Novamente, em um mergulho que levantou água a alguns metros ao ar, eu fui submergido, finalmente... com o efeito acabado e enquanto via aquele mundo pouco azulado... eu tinha certeza do meu próximo movimento.

Algumas horas passaram.

Já que Monteur estava interessada no especialista do outro grupo, todos nós iriamos nos encontrar durante o jantar, no grande salão de festas, onde ele será servido.

Essa era uma hora boa para entender qual era a desse outro grupo, porém alguns minutos antes, as nove da noite, haveria ainda outro encontro, um envolto em mistério.

Enquanto os outros faziam jogos para adivinhar onde nosso contato poderia estar, fiz uma busca pelo navio até encontrar exatamente o que o “armazém” seria, um quarto escuro, sem luzes fora uma abertura para o lado de fora, de dia a forte luz natural era mais que suficiente, porém não sabia como seria mais tarde.

Lá eu vi dezenas de pilhas de caixas, eu não conseguia adivinhar bem o que estava guardado nelas, o local também era apertado, era impossível dar dois passos em qualquer direção sem esbarrar em alguma coisa.

Depois de o encontrar, um sono leve me atingiu e resolvi deitar, me joguei na cama e fechei os olhos, não era do tipo de precisar dormir muito, na verdade o contrário, parecia que três horas todos os dias era suficiente para que pudesse aguentar um dia inteiro, porém ainda preferia dormir oito se possível, do contrário era um exercício mental muito desgastante.

Enfim, minhas pálpebras pesaram e apesar de tudo, eu cheguei a dormir...

“Aquela pílula deve ter feito algo de ruim comigo...”

Esse sonho não foi tão impressionante como os outros, nem algo que queira dar mais de uma página para descrever, na realidade, sequer quero dar meia-pagina para tal.

Estava andando, andando no mar... ao menos assim parecia.

Meus pés tocavam na água e não era exatamente como chão, mais parecia que as ondas me empurravam para cima, um campo de força, algo desse tipo.

E naquele mar não havia nada, a única coisa que meus olhos notavam era a lua cheia, sobrenaturalmente grande, brilhando no céu, uma luz revigorante, uma beleza impressionante.

Procurava por respostas naquele imenso oceano, porém de tanto procurar, já havia a tempo cansado do que fazia, sentia que aquela era uma busca sem ponto real, como procurar um tesouro que não existe.

Afinal, que respostas eram essas que procurava? Mesmo sendo meu sonho, não tinha ideia do que se tratava, queria saber, talvez então não houvesse tal coisa, ou, se havia, era tão vago que não podia por em palavras.

Depois de andar por tanto no mar, uma figura dançante se apresentou à distância, muito, muito longe, outra pessoa que parecia andar pelas águas como se não pudesse afundar...

Mesmo de tão longe via claramente, aquela silhueta tinha uma beleza inigualável, mas não era como nenhuma que já tivesse visto, não como uma obra de arte, nem uma escultura natural, como a própria lua o qual dava a nitidez da silhueta, e apesar de parecer uma mulher muito alta, de cabelos platina, não era nem mesmo a beleza que vê-se em outras pessoas.

Não era uma pessoa, melhor, não era um humano ali.

Aquela figura tinha tamanha graciosidade, uma pele que brilhava, orelhas pontudas, a própria altura não parecia pertencer a uma pessoa qualquer, como eu, como ninguém que já tivesse encontrado. Era muito mais.

Só de ver aquela silhueta, foi como se tivesse encontrado todas as respostas para todas as perguntas que tinham, não realmente, não sei que respostas eram aquelas, nem as perguntas, entretanto o que tinha visto era mais que suficiente, toda minha busca se mostrou tendo um objetivo afinal.

Dei passos rápidos, a água pulava conforme corria pelo mar, numa pressa incessante para me encontrar com aquela figura, perguntar seu nome, entender como poderia estar lá, lhe fazer todas as perguntas que me perturbavam e esperar as respostas as quais precisava.

No entanto, assim que percebi, não havia mais nada onde antes a figura estava.

Me ajoelhei ao mar, um vazio enorme se fez em minha alma, foi como se meu coração tivesse sido arrancado, o que tinha lá sequer bastaria para compor metade de uma pessoa, olhei para tudo novamente, o mar infinito e a lua.

Assim, para baixo, minhas mãos alcançaram aquele espaço, um espaço anormal, por onde podia atravessar, por onde meu corpo poderia mergulhar.

No próximo instante, fui totalmente submerso pela água.

E no seguinte, acordei.

—Não... ainda... o que?

Acordei. Sim, tinha acordado de verdade.

O teto em minha frente não era familiar, todos aqueles travesseiros também não, minhas pálpebras ainda pesavam muito, poderia ficar naquele pedaço do mundo por mais tempo.

Todas as emoções intensas que senti naquele sonho sumiram em um instante, como o que eram, coisas sentidas num sonho, sem legitimidade, um fruto da imaginação apenas.

Algo que foi inventado, algo que não é real, que não existe.

Olhei ao redor, pensei que tive um sonho estranho, porém voltei a dormir.

—Jack!

—Ahhh!... Sim? Roi?

—São 8:44. Vamos.

—Qual o problema de ser 8:44? Eu também acho estranho eles servirem o jantar as nove e meia, sinceramente prefiro jantar as oito para dormir as... entendi.

—...

Me levantei, pôs as meias e o sapato novamente e andei um pouco lentamente até a porta.

Iriamos fazer uma missão de espionagem, em resumo, não sabíamos do que aquilo as nove se trataria, portanto, teríamos que esperar e ver.

Não podia ir sozinho, como disse antes, aquele garoto não parece perigoso, mas ainda me dá nos nervos, por isso a única pessoa informada do papel estranho foi Roi, também quem me ajudou na busca e entenderia mais do que estava acontecendo.

E claro, porque ela era forte suficiente para se defender sozinha, nós dois fazíamos uma boa dupla nesse sentido, não precisávamos proteger o outro, ser protegido por outro.

—Roi, você sabe lutar? Não acho que vamos chegar a isso, mas lembrei de alguns filmes, alguns jogos antigos, você consegue fazer algo espetacular como um personagem daqueles?

—Não.

—Imaginei, bem, você é mais ou menos tão boa em lutar quanto eu, então deve estar tudo bem.

—Talvez.

—Como talvez? Eu posso até ter alguma força bruta, mas me falta... err... todo o resto...

Talvez não seja uma boa coisa, mas nunca contei a nenhum deles sobre minha condição, apenas parecia para eles que eu era muito desengonçado, que não me importava com alguns machucados, não era bem o caso.

E para Roi, se a dissesse, talvez essa confiança mutua, a ideia que nenhum de nós precisaria defender o outro, jamais iria desejar perder isso, é especial, ao menos para mim.

—Não é isso.

—Então é sobre minha energia infinita? Realmente me soa irritante lutar contra alguém que pode só aguentar tudo que você faz contra ele, mas que no fim não pode causar muito dano também, eu procuraria um ponto fraco.

—E você tem um?

—Sim... só não queria dizer, sabe, se um dia acabarmos numa briga, acho que seria bem legal, não vou estragar essa surpresa, na verdade, quem revelaria o próprio ponto fraco tão facilmente? Não conheço ninguém assim, não sou assim, nem consigo imaginar o tipo de pessoa que faria isso.

Nós tentamos não falar mais de besteiras no caminho, apenas seguimos até na virada do corredor, a porta estava em plena vista. A alguns metros ainda...

—Roi, será que eles já estão lá?

—Não.

Aquilo provavelmente não foi mais do que ela adivinhando, porém suficiente para não me preocupar com essa questão.

Nós dois esperando, como a minha sorte não me deixou na mão dessa vez, o caso foi como imaginamos, o garoto que vi mais cedo, aquele que vendo de perto, claramente tinha metade de suas mechas de cabelo em um branco forte e brilhante, menos do que platina, mais “puro” tal qual neve.

“Qual era o nome dele mesmo? Lembrei de ter ouvido algo como... Osuka? Isso não é uma cidade? Talvez fosse Otsuka? Isso não soa como um nome, mas acho que era isso afinal”

Ele entrou no armazém.

—Vamos.

Resolvi não perder tanto tempo assim, nós demos passos lentos até chegar à porta, olhei pela fechadura, Roi observou nossos arredores, então entramos.

Estava muito escuro, os cabelos dele agora eram a única cor discernível, o resto eram tons de cinza, ou meras silhuetas.

Nós dois nos encaixamos entre alguns sacos e liberamos a passagem para caso outro visitante viesse, não queríamos ser vistos.

Aquele cenário escuro, tudo parecia estar anormal, a lua não fazia tanta luz assim, as sombras pareciam solidas, aquele lugar inteiro tinha um ar perigoso.

O Otsuka olhou de um lado para o outro, não para trás, então, como se houvesse claramente alguém o escutando, ele disse:

—Isso é importante... imagino que não seja nada bom, mas podemos arranjar uma solução pacifica, não precisamos lutar, todos podem sair com vida.

—Você pensa muito em viver, eu apenas penso em matar.

E uma voz sinistra o respondeu, no próximo instante:

ARG!... —Parecia que tinha ouvido um grito, mas um tão breve e ainda assim tão alto, cheio de dor e desespero, aquilo não podia ter sido uma impressão, nenhum tipo de ilusão, foi real.

—Você não vai mais falar, suas palavras sempre, sempre me deixavam tão irritada, consegue entender o quanto? Ainda mais aquele seu truque... só de pensar em alguém saindo vivo de um ataque meu... me da vontade de matar...!

Quando vi, havia uma segunda cor que podia discernir facilmente naquele meio, além do branco, o vermelho de sangue se espalhando pela silhueta do Otsuka, que já havia caído ao chão.

A sua frente, uma figura se chapéu e sobretudo vermelhos, ela parecia se misturar com aquele sangue, visualmente não podia discernir as duas cores.

—Percebi... você não pode fazer nada se o ataque for rápido suficiente, se não for feito usando armas de fogo, ainda bem que minha especialidade sempre foram armas brancas, irá morrer lentamente no chão, é isso que você merece.

Ela ia deixar o Otsuka morrer, daquela forma cruel, as últimas palavras que lhe deixaria seria naquele tom sádico.

Não podia deixar uma injustiça assim passar, era impossível.

ESPERE!

Sai da minha cobertura, ela me viu na mesma hora.

O rosto estava coberto em sombras, não podia discernir detalhes algum do seu rosto, somente sentir o desdém em sua voz:

—Você não é um deles. Se quiser fugir, agora é sua chance.

“Não posso deixar isso acontecer”

O instinto que todos os humanos têm, aquilo que podemos compartilhar sem dúvidas, é o instinto de ajudar alguém em perigo, isso desde sempre fez parte da nossa natureza.

Dei mais um passo. Mais próximo do sangue, mais próximo do perigo, mais próximo de quem precisava ser salvo.

O brilho de uma lâmina iluminou aquele ambiente por um segundo, em um instante vi os olhos de quem a portava, neste instante ela falou.

—Se você for embora agora, ira morrer, como um covarde que não pode terminar o que começou, se ficar, irei lhe deixar ver este outro perdendo suas forças até a última gota, então, você vai morrer. E se der mais um passo, você verá que a mera força humana não é nada contra poder real, entendera por que sua raça não terá um futuro, como todos vocês serviram apenas como comida. Uma força insignificante, a prepotência de achar entender o mundo ao seu redor, as falácias e filosofias contraditórias. A dependência eterna que todos vocês compartilham. Vai ver por que tudo isso o torna tão fraco, mas eu não vou te matar, isso seria piedade, piedade, ou outra palavra para a incapacidade humana de ir até o fim com o que fazem, é algo que apenas vocês podem demonstrar.

Não podia mais fugir, a porta estava fechada.

Não havia outra saída.

Não podia fugir, não havia outra escolha.

Não tinha mais opções. Não tinha nada senão atacar.

Aquela corrida que fiz, toda a distância até lá era enorme, não em um segundo, em tantos, tantos momentos tive a chance de correr, mas cada passo deixaria isso mais difícil, mas nenhum deles me deixava mais perto.

Corri e corri até ser parado.

AHHHHHH!!!

De um lado ao outro do meu corpo um corte sangrento foi feito, não limpo e reto, o caminho ia de um lado ao outro, como os vários galhos de uma arvore se dividindo.

Todo aquele sangue tinha se perdido, todo aquele sangue era meu.

E ainda assim, fiz a única coisa que pude pensar e usei ambas as mãos para empurrar aquela não-humana para longe, de alguma forma, isso funcionou, ela se afastou de nós dois.

Segurei Otsuka por debaixo dos braços e empurrei meu corpo para trás, escorregando na quantidade imensa de sangue no chão.

“Qualquer outra pessoa teria morrido instantaneamente se perdesse todo aquele sangue” Foi a frase da doutora Kutt que lembrei.

Também veio a minha ajuda Roi, ela alcançou ambos de nós e rapidamente nos puxou para a porta, a qual cuidou de derrubar com um chute que poderia ressoar por todo o navio.

Para uma ação nada planejada, nós provavelmente fizemos um bom trabalho de sair de lá o mais rápido possível, porém, algo estava errado, mesmo sem poder ouvir nada direito, talvez algo tenha sido dito, direcionado a nós.

—Já é tarde demais.

Apenas alguns segundos depois. Nós tínhamos certeza que ficar lá ia só piorar nossa situação, nós corremos o quão rápido nossas pernas podiam levar.

E com a luz vimos o que houve, aquele Otsuka tomou um corte profundo na garganta, era um milagre ele não ter sido decepado.

Mas parecia estar havendo uma perca de sangue enorme, uma quantidade suficiente para matar alguém.

E o corte executado em mim foi tão profundo quanto, por pouco não fui dividido em dois, porém minha resistência era claramente muito maior, se tomasse um segundo desses com certeza morreria, mas apenas um não era o bastante para me derrubar.

“Me machucar tanto pelo menos me fez entender quais os limites do meu corpo”

Roi estava o levando como uma mochila, eu estava fazendo o possível para acompanhar aquele ritmo mesmo estando tão ferido, nós queríamos chegar até o salão, pedir ajuda.

E pela primeira vez, aquele som se reverberou ao meu redor.

“Já é tarde demais”

—Avancem!

Assim que conseguimos vista do lado de fora, nós vimos outro navio, uma construção impressionante, devia ter duas vezes o tamanho do navio em que estávamos, mas não era nada daquele tempo, daquele mundo.

Ele era feito de madeira, tinha três velas enormes, um grande símbolo em sua ponta de um esqueleto humano, com as proporções realistas, porém de tamanho absurdo, como um gigante.

Mais que isso, canhões, nada moderno, eram exatamente como num filme de piratas, parecia até que tínhamos batido de frente com um cenário daqueles filmes, porém... esse não era o caso...

Havia nevoa ao redor do nosso navio, a noite tinha ficado absolutamente escura, nem mesmo a luz da lua podia nos alcançar, um fenômeno extraordinário estava ocorrendo naquele momento.

Se ainda pudesse tentar racionalizar tudo aquilo por coincidências, os homens variando entre muito magros e fracos, até altos e com músculos arrebentando foram as bordas do navio gigantesco, portando armas de fogo inegavelmente arcaicas, eles jogavam munições em formato de bola, puxavam mecanismos em torno da arma e enfim puxavam o gatilho.

O barulho não era tão alto, mas ao redor deles, uma quantidade enorme de fumaça e fogo se formou, a nossa dica que deviríamos correr foi o seu alvo.

Uma pequena bola de metal atingiu o chão próximo de nós, ela se enterrou no navio, mas não o bastante para ir até o andar de baixo, ficou como se um meteoro tivesse acertado a terra, pensei que se cheguei perto de morrer por um corte, se fosse acertado, seria uma morte certa.

Roi! Vamos fugir!

Nós dois corremos para as partes mais cobertas do navio, ainda com o Otsuka desmaiado e dependendo de nós para não se tornar um alvo fácil para seja lá o que aqueles homens eram.

“Piratas? Nós não estamos no século 15! E mesmo se fosse, que porcaria era aquela?! Armas de um tiro só?! Canhões?!”

Assim que pensei neles, ouvi um barulho semelhante, porém dezenas de vezes mais alto do que o daquele tiro, um disparo.

—Cuidado!

Roi gritou para mim, não entendi o motivo, sequer reagi até ver em minha frente.

A parede em minha frente se quebrou e os pedaços voaram, com um impacto, perdi totalmente o equilíbrio, tropecei e cai no chão, quando olhei para cima notei uma bala de canhão que foi parada pelo navio, então caiu no mar.

—Vai logo Roi! Encontre eles!

Ela me atendeu e continuou correndo, sem olhar mais para trás.

Para mim, isso não iria muito mais longe, tinha acabado de me encontrar numa crise, no pior momento possível ainda.

“Droga doutora, vou ter que usar dois desses em um dia só”

Alcancei o remédio no meu bolso, o abri e tomei apenas uma pílula, quando então...

O fechei novamente, assim que o fiz, os efeitos já tinham se instaurado.

AHHHHHHHHH!!!

E esses sentidos aguçados não me deixaram esquecer da dor, estava a pouco num pico de adrenalina e não percebia, contudo, isso tinha acabado naquele instante.

—Não é possível... eu vou morrer com um corte desses, por que ainda estou vivo?!

Como se meu corpo respondesse a esses pensamentos, senti minha boca encher de sangue, minha garganta ainda mais, nem podia respirar.

Por outro lado, ouvi o som vago, em meio ao vento e água batendo entre os navios, entre gritos e passos, o som de um pavio ficando cada vez menor.

“Outro disparo?!”

Me forcei a olhar para a direção do salão, então comecei a correr até lá.

Não podia suportar uma dor como aquela, mas meu corpo estava num ápice de força, meus passos usavam cada reserva possível, não podia manter aquela velocidade sem tropeços e sem colidir com vasos em meio aos corredores ou nas paredes ao ir muito em uma só direção.

E ainda assim, aquela velocidade era extrema e logo cheguei ao salão, pela segunda vez ouvi das paredes ao meu redor, do vento, essa frase se repetiu

“Já é tarde demais”

Mais daqueles mesmos homens estavam no salão, eles atiravam com aquelas mesmas armas arcaicas e chegavam a apontar espadas na direção das pessoas do navio, que não podiam fazer mais do que fugir e se esconder.

“O que é isso?”

Mas do meio de várias pessoas se escondendo, um grupo estava ativamente indo de mesa em mesa, evitando serem vistos pelos piratas e indo em direção a saída.

“São eles! A Yui está com eles!”

Corri naquela direção, pensei que poderia ser rápido, mas os piratas me viram, apontaram suas armas.

Parei na hora, já tinha visto o poder das balas, essa enorme vantagem sobre mim me pôs como paralisado por um segundo.

Dois prepararam as armas, os dois atiraram.

Mas.

Um deles teve um projetil batendo bem contra sua arma arcaica, ela voou, caindo precisamente no caminho que a outra bala fazia para minha direção, em um milagre que eu mal consegui me dar conta, eu havia sido poupado de dois tiros que deveriam ter acabado comigo.

E vi, a autora de tudo isso era Kiu, ela tinha sacado uma arma e atirado contra o pirata.

O resto do grupo estava correndo de cabeça abaixada, como se soubessem que só ela poderia lidar com os piratas, como se ela pudesse os segurar pelo tempo necessário.

Finalmente entendi que precisava agir.

Disparei na direção do grupo, o homem que ia atirar, vi ele e o tornei meu alvo.

No meio da corrida pulei, ele era muito alto para o atacar efetivamente do chão.

E foi um pulo muito longo, parecia ter atravessado metade do salão naquele único pulo e o alcancei, minhas duas mãos seguraram a cabeça dele, com força.

Tentou, mas não adiantou tentar se fixar ao chão, caiu e deixou sua arma voar.

Kiu olhou para mim, prostado ao chão depois de executar minha proeza mal planejada e executada com força excessiva.

—Venha!

Ela disse isso, então se virou e seguiu o resto do grupo.

Meus arredores percebi que havia ainda mais piratas, mais deles sacaram armas e espadas e foram em minha direção.

—AH!

Fui em direção a saída sem conseguir me levantar, meus pés me impulsionavam pelo ar, as mãos tentavam manter o corpo acima do chão, quando caia os usava para me afastar do chão e me jogar para o mais perto possível da saída.

AH!

Os tiros erravam por pouco, no último segundo, porque meu impulso foi mais cedo do que antes, ou porque perdi o controle da minha direção, consegui desviar de todos os tiros.

AHHHHH!!

E quando um deles me interceptou, tentou usar uma espada para cortar pela direção que estava indo, meu corpo já estava no ar, ele iria fazer um corte no momento perfeito, aquilo com certeza iria acabar com o que restava de mim.

Um disparo, um disparo soou, este foi o que salvou minha vida.

Nem havia ouvido o pavio, estava distante, muito, a bala teve que fazer um arco num ângulo perfeito, mais um grau para cima ou dois para baixo e aquele tiro não teria ocorrido, pois ele chegou até o salão, estourou o grande vidro.

Esses estilhaços voaram em minha direção, mas também no pirata.

Desses, um se fincou perfeitamente na mão dele, o fazendo soltar a espada, sem outra força a segurei no ar e voei até ter atravessado o portal para a próxima seção do navio.

“O que foi isso...? Preciso... preciso correr! É só isso!”

Não importava para que lado estava olhando, tudo parecia coberto em neblina e sombras, não podia ver tantos metros a minha frente, por isso foi difícil saber em que direção estava indo, isso, até achar Roi novamente.

Ela não estava carregando mais ninguém.

—Aqui!

Roi disse no momento que me viu, puxou-me pelo braço e apontou a direção que precisávamos correr.

Não tive tempo de perguntar o que houve, estava com muitas coisas para pensar, ainda mais naquele estado de atividade extrema.

Ela me levou por vários caminhos, vi os piratas cortando os barcos salva-vidas, quando passamos por um corredor de quartos, além de ver o navio mais uma vez, muito perto e quase encostado na janela.

Não havia um pavio, porém, havia logo a nossa frente outro pirata, nós não podíamos só enfrentar ele, por isso nos escondemos atrás de vasos de plantas, o que vimos foi ele atirando várias vezes numa porta e pôr fim a derrubando, ele olhou lá por algum tempo, entrou.

—Nossa chance...!

Roi deu a ordem e nós dois corremos direto pelo quarto, havia apenas o pirata lá, portanto não havia um perigo imediato, ninguém na nossa frente para ser salvo.

Depois de tanto correr, alcançamos uma porta diferente das outras, uma que Roi abriu sem pensar.

Lá, lá estava a fonte de tudo aquilo, um elemento que atrai o oculto para o seu redor.

O que é o instituto...? Eu devia perguntar, pois todos os seus membros estavam bem ali.

—Eles chegaram!

Kiu anunciou, Ritte, Une e Franziska vieram em minha direção, pelo o que vi

Dei um passo à frente e Roi fechou a porta outra vez.

—Vocês estão bem? Jack?

—Sem problemas, Ritte. E vocês?

—Zut! Eles... parecem... piratas, eles nos atacaram quando estávamos no salão, aquele grupo nos coordenou para virmos até aqui e então...!

—Franziska, esses 5? Ah! Espere um instante.

A empurrei um pelos ombros e corri. Eu estava agitado demais para maneirar meus modos.

O homem loiro estava abaixado e no chão, ao lado dele, Otsuka, foi ele quem resgatei a pouco.

—Ei, o que houve?! Quem era aquela... pessoa?

Eu tentei falar com o garoto que estava deitado e de olhos fechados, ainda entre a vida e a morte.

—Não creio que ele possa responder... vocês dois estavam lá, sim? O que houve?

Assim ele disse, com tamanha propriedade, como se estivesse esperando apenas essa informação para dar o veredito de viver ou não dele.

—Foi...

Com esse pensamento, hesitei um instante em dizer, pensar que minha fala iria decidir seu destino era muito, algo que nunca quis carregar.

—Ele foi atacado, uma sombra usou uma lâmina brilhante e o cortou em um segundo, nem consegui vê-la.

—Foi o que imaginei, quem diria... eles conseguiram nos pegar de jeito...

Mais uma vez, como se a verdade estivesse naquele ferimento ensanguentado, ele o encarou de novo.

—Ele devia ter morrido, essa lesão foi das mais violentas, mas parece que ainda está respirando. Annie! O Otsuka está por um triz! Não deixe rogue algum entrar.

“Rogue? Annie? Por que eles estão falando dessa forma?”

—O que é isso tudo? Quem são vocês?

Ele pareceu ter notado minha presença de novo, então, olhou para os outros, todas as outras pessoas naquela sala.

—Vocês cinco! Não fiquem perto da porta, nós vamos ter que levar esse navio para longe.

Não tinha como dizer muito, ele falava novamente, como se soubesse de tudo, como se pudesse resolver tudo, mas forcei palavras a saírem dos meus lábios.

—Longe?! O que vocês estão fazendo afinal?

—Perdão... nós não podemos fazer mais nada sobre os outros passageiros, mas vocês cinco vão vir conosco, sãos e salvos. Por favor.

—E... e... Quem são vocês?!

—Por agora, você só me chama de 03.

Dizendo isso, ele se levantou e olhou para os outros, dando ordens como se fosse um líder.

—02, mantenha seus olhos sobre 01. 07, monitore nossos arredores, irei supervisionar os sistemas de direção, nossa fuga depende disso.

Ele correu para a mesa no fim da sala, com o que ele falou era fácil de entender, era onde o capitão do navio devia estar.

Yui, quem ele chamou apenas de 02 veio para perto do Otsuka, 01, como ele disse.

07, a garota de longos cabelos ruivos estava com um computador no chão, apertando teclas sem parar.

05, Kiu, estava do canto observando a entrada da sala.

E por alguma razão, algo simultâneo veio em todos nós, um sentimento igual.

“Vamos agir!”

Ritte correu para o lado de 03, pegou analisou o equipamento e falou:

—Se precisamos ser rápidos, pas assez! Isso nem é suficiente!

Franziska rastejou para o lado da Yui, lhe contou:

—Eu sei o que pode ser feito, já vi muitas vezes como uma pessoa pode continuar a resistir, cependant, digo, apesar da gravidade...!

Une deslizou pelo chão até 07, carregando um novo dispositivo.

—Precisamos de mais energia!

Ela abriu o que parecia um cabo de energia acoplado a uma antena que deveria ser usada numa televisão muito antiga, ligou na tomada ao lado e acoplou ao computador. Eletricidade estática em excesso se fez, o sinal de sempre que o invento dela tinha funcionado.

Roi fez-se ficar do outro lado do corredor, também protegendo a saída.

Então notei.

“Ainda tenho energia, e de sobra”

—Vocês não podem fazer nada pelos outros passageiros, mas eu posso!

Pôs as duas mãos no chão, os pés em posição.

O tempo pareceu se distorcer, assim como tudo na minha visão, aquela adrenalina criada foi potencializada pelo químico milagroso que a doutora criou.

“Vou olhar todo o navio” era meu objetivo.

Quando 5 segundos tinham se passado, passei por um corredor inteiro, todas as portas estavam abertas, não havia ninguém, inocente ou não.

“Preciso ser mais veloz!”

Dobrei minha velocidade, vi que não era o suficiente e fui ainda mais rápido, nos próximos cinco segundos todo aquele deque foi explorado, não havia ninguém, inimigo ou não.

Por dez segundos explorei o deque de cima, mais cinco para o mais baixo.

Ninguém, ninguém, ninguém! Ninguém! Ninguém! Ninguém! Ninguém! Ninguém! Ninguém!

Aliado, inocente ou inimigo, o navio inteiro estava vazio.

No meio de toda essa ação, vi o grande esqueleto do canto, pela janela.

—O navio!

Já estava navegando para longe, parecia ter finalmente ido embora, talvez estivesse com muita esperança de que aquilo acabasse.

Mas ouvi o pavio, de trás do navio, vários canhões miraram em nossa direção.

“Droga!”

Com um instinto, disparei de volta para a sala do capitão, o navio iria afundar logo.

Passava pela escuridão como uma lâmina, a nevoa enfim não era tão forte, iria chegar a alguém instante lá.

—Os canhões! Eles vão atirar!

—Corra! Não deixe muita água entr-

O primeiro disparo, ouvi a bala vindo em nossa direção e vi que não tinha mais tempo para esperar.

Me virei e disparei para o último dos deques, lá onde estava o armazém. Da minúscula abertura vi o disparo naquela direção.

Alcancei a porta e preparei para fecha-la, mas.

“Onde ela está?... Aquela... sombra...?”

Acompanhado de um brilho no meio da escuridão, o disparo atingiu aquela seção do navio, o chão tremeu e tive que me segurar com força na porta, no próximo instante a água estava invadindo o navio.

Não tive tempo para pensar no que vi, fechei a porta, corri por todos os outros pontos vulneráveis.

Sentia que estávamos em perigo, iriamos afundar sim, porém ainda não podia fazer mais do que correr.

Cheguei ao outro extremo do navio, mais um armazém.

Outro disparo atingiu a embarcação, esse causando um balanço enorme, o maior de todos, suficiente para que não houvesse como manter o equilíbrio, eu cai e deixei algo que estava comigo voar também.

Aquela arma arcaica que tirei do corsário, ela voou para dentro do lugar que iria fechar a porta.

NÃO!

Caiu ao chão, esse impacto foi suficiente para acionar a arma, que então deu seu disparo.

Algo dentro de lá devia ser inflamável, o chão e as paredes foram destruídos de dentro para fora, senti um pouco de água pelo meu corpo.

Me rastejei e consegui alcançar a porta, a fechei com toda a minha força, mas o dano já havia sido feito, nossa embarcação estava cheia de buracos por onde a água poderia entrar.

Pensando que era meu fim, senti meus sentidos desligarem, minha visão escurecer e muito, muito sono. Como se toda a adrenalina tivesse acabado. E minha energia se esvaísse de uma hora para outra.

Quando nem meus braços, nem minhas pernas podiam me sustentar...

Meu corpo caiu ao chão pouco úmido, então certamente, lentamente, minha consciência se perdeu, até não haver mais o que ouvir, o que sentir.