Ossos de cristal
1 Capítulo I - Fraturas
Notas iniciais
A vista da cidade era linda daquela ampla janela. Tóquio era belíssima ao cair da noite.
Ele era provavelmente a única alma viva naquele andar. O prédio altíssimo da Uchiha Company era quase claustrofóbico após o expediente, mas ainda tinha muito trabalho a fazer. Ser o dono e CEO da maior companhia de informática do país exigia muito de seu tempo e de sua pouca paciência.
Estava preocupado mais uma vez, mas não era apenas com a empresa. A prioridade se encontrava a alguns quilômetros do centro da metrópole japonesa. Talvez, estivesse pensando nele naquele instante, exatamente como pensava nela agora.
Seus devaneios foram interrompidos pelo som estridente do telefone. Ele suspirou, não estava de bom humor para aguentar acionistas insatisfeitos com a última desvalorização, esses malditos ligavam a qualquer hora. Atendeu depois do terceiro toque.
— Uchiha-sama?— ouviu a voz feminina do outro lado da linha. Tinha um tom diferente. Aquilo o fez franzir o cenho.
— Sim.— respondeu sério, esperando que a mulher continuasse a falar.
— Desculpe ligar a esta hora, sei que o senhor está ocupado. – ela fez uma breve pausa e Sasuke não respondeu. – Mas é a sua filha Uchiha-sama! Sarada caiu no jardim e está sendo levada agora para o hospital.— o homem perdeu a cor do rosto, olhou fixo para a parede e apertou o telefone com toda a força antes de vociferar: — Qual hospital Shizune?— a babá se assustou e deu um gritinho baixo diante da fúria notável de seu chefe, mas respondeu rapidamente. – Konoha Hospital.
— Estou indo.— ele afirmou antes de desligar o telefone sem esperar por qualquer resposta da babá.
Pegou apenas as chaves do carro e passou rápido pelas portas do escritório, não se importando em fechá-las, foi até o elevador e apertou o botão que o levaria diretamente para a garagem. Acompanhou com olhos apertados os números que apareciam no visor. Será que esta coisa não poderia descer mais rápido? O pé esquerdo batendo no chão com impaciência. Ele não era um homem que saía do controle com facilidade. Sarada era sua exceção. Sua garotinha era seu ponto fraco. Ele sempre soube disso. Por ela saltaria do vigésimo andar e correria até o hospital se isso o fizesse chegar mais rápido até sua princesa.
Quando as portas de metal se abriram o Uchiha correu até a BMW estacionada em sua vaga exclusiva. Entrou no carro e a ligou as pressas, quase esqueceu-se do cinto de segurança. Deu ré e os pneus patinaram fazendo barulho no estacionamento. Ele fez a curva a toda velocidade e apertou o controle que abria o grande portão eletrônico da garagem do prédio. Continuou acelerando enquanto o portão abria, passou por ele quase tirando a tinta do teto do carro. Assim que saiu, viu o portão descer lentamente através do retrovisor. Entrou na rodovia e pisou fundo, ultrapassando os outros carros sem ligar para as buzinas que os motoristas assustados apertavam constantemente. Aquele hospital parecia tão longe. Diabos!
Seus olhos brilharam quando avistou a imensa fachada branca e as janelas espelhadas que caracterizavam o melhor hospital pediátrico de toda a região. Fez a curva para adentrar o estacionamento muito rápido e cantando pneus.
Parou na primeira vaga que encontrou e saiu do carro fechando a porta com força. Apertou o botão ligando o alarme e trancando o veiculo enquanto corria até a porta de entrada do prédio branco. Odiava hospitais desde a morte de seus pais, mas por Sarada ele até moraria dentro de um.
Gotas de chuva começavam a molhar o chão do estacionamento e seu terno caro. Ele correu mais rápido e entrou resfolegando pelas portas duplas de vidro do Konoha Hospital. Foi andando a passos rápidos e firmes em direção ao balcão da recepção. A moça jovem, de cabelos negros longos e olhos muito claros, quase brancos o atendeu com um sorriso meigo.
— Boa noite senhor, em que posso ajudá-lo? — ela observou o homem a sua frente que lhe parecia tão familiar.
— Vim ver Uchiha Sarada, onde ela está?— ele foi direto, sua voz em tom frio e seco mascarava a preocupação que o corroía por dentro.
A moça arregalou os olhos levemente e o sorriso sumiu de seu rosto alvo por um instante. “Uchiha? Meu deus é claro! Sabia que eu o conhecia, ele é o chefe do Naruto!”. Sasuke franziu o cenho e a encarou furioso esperando pela resposta.
— Me...me desculpe senhor Uchiha! Sua fi...filha está no segundo andar, pronto socorro, quarto 5.— ela disse sem sequer consultar o local no computador. Sabia onde a pequena estava, ajudara a levar a garotinha até lá.
O Uchiha não respondeu, nem agradeceu. Apenas foi até o elevador e apertou o botão chamando-o. Assim que as portas se abriram ele pressionou o 2 e fez as portas se fecharem na cara de uma enfermeira ruiva.
Saiu do elevador enquanto este ainda nem tinha aberto as portas totalmente. Desviou de uma maca e olhava por todos os lados até avistar uma placa vermelha que dizia pronto socorro. Seguiu a direção indicada e segurou um enfermeiro pelo braço enquanto este passava com um soro em mãos. O homem arregalou os olhos e estava pronto para ralhar com quem quer que fosse, mas a expressão no rosto do Uchiha o fez mudar de ideia no mesmo instante.
— Onde está o quarto 5?— o moreno vociferou. O enfermeiro deu um pulo de susto e apenas apontou com o dedo indicador a direção correta. Sasuke largou o rapaz e correu até a porta do quarto em que sua filha deveria estar. Escancarou-a sem pedir permissão a ninguém e viu Shizune apavorada sentada ao lado de uma cama com lençóis brancos e, deitada nesta, sua pequena princesa desacordada.
— Sarada!— ele se aproximou do leito e passou as mãos nos cabelos lisos e negros como os dele, agora esparramados pela cama.
— Shizune! O que aconteceu?— ele virou-se bruscamente para a babá, que assustou-se quando ele lhe dirigiu a palavra com tamanha fúria.
— Eu... Uchiha-sama, nós estávamos brincando e Sarada me pediu para buscar água. Ela ficou no jardim por alguns minutos e quando voltei ela estava chorando muito e gritava de dor quando alguém tocava seu pé. Nós a trouxemos para cá e...— ela se interrompeu, soluçando baixinho.
— Você não devia tê-la deixado sozinha! É o seu trabalho cuidar dela!— ele vociferou, fora de controle. Sua filhinha estava machucada e ninguém fez nada para protegê-la. O pior de tudo, ele não estava lá para protegê-la quando aconteceu.
— Me perdoe, Uchiha-sama, eu... — Shizune começou a soluçar novamente. Sasuke suspirou audivelmente, ele estava saindo do controle. Não era culpa dela. Foi um acidente.
— Esqueça Shizune. A culpa não foi sua. – ele apenas afirmou, voltando a observar sua filha desacordada.
— O que exatamente ela tem?— ele perguntou a babá, sem se virar. Apenas esperando a resposta. Shizune abriu a boca para dizer que não sabia, mas a resposta veio de outra pessoa.
— Sua filha tem uma fratura na articulação do tornozelo.
Sasuke virou-se quando ouviu a voz suave, porém firme responder sua pergunta. Seus olhos caíram sobre a figura feminina a sua frente. Pele alva, baixa estatura, jaleco branco delineando a cintura fina, saltos vermelhos e o mais intrigante de tudo, cabelos rosados. Ele franziu o cenho, como se perguntasse a mulher quem ela era.
— Sou a Dra. Haruno, estou cuidando de sua filha, Sr. Uchiha. – ela estendeu-lhe a mão, e Sasuke hesitou um pouco antes de apertá-la.
— Como aconteceu?— ele perguntou a mulher, observando ela levantar seus olhos extremamente verdes da ficha em suas mãos e olhá-lo com curiosidade.
— Eu realmente gostaria de saber. Acreditava que o senhor pudesse me responder. – ela pausou, arqueando uma sobrancelha rosa e bem feita para ele – Vejo que não.
Ele fez uma carranca diante do comentário da médica.
— O que exatamente vocês estão fazendo a respeito?— ele questionou, encarando a médica com sua expressão impassível costumeira.
Sakura riu um pouco pensando no quanto aquele homem era rude. Bem diferente da filha. – Bem, estamos fazendo exames para verificar qual o melhor tratamento. Estou indo agora buscar as radiografias e em breve vamos conversar novamente Sr. Uchiha.— ela pausou e sorriu para ele – Enquanto isso, talvez o senhor devesse se sentar e esperar e, por favor, não grite com sua babá. Isto aqui é um hospital. — a Haruno virou-se sem esperar pela resposta do homem que encarava suas costas com um olhar fulminante.
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