Os últimos dragões

12 Capítulo XII


Na grande sala do trono, Robert Baratheon sentava-se no imponente Trono de Ferro, o símbolo de seu poder, mas também um assento que ele secretamente desprezava. Ao seu lado, Joffrey mantinha uma expressão entediada, os olhos revirando-se de desgosto a cada súplica ou reclamação que chegava até os ouvidos reais. O jovem príncipe, com seu sorriso cruel e olhar arrogante, não se preocupava em esconder seu desprezo pelos súditos que vinham à presença do rei, buscando justiça ou misericórdia.

Robert, já cansado da monotonia e do burburinho constante das vozes que pediam por sua atenção, tentava se refugiar no único consolo que lhe restava: o vinho. Seu rosto, uma vez vibrante e cheio de vigor, estava agora marcado pelos anos de excessos e pela luta constante para manter um reino que parecia querer escapar de suas mãos. Ele ergueu a taça cheia, deixando o vinho rubro escorrer pela garganta, sentindo o líquido quente aquecer seu peito, abafando as preocupações e os incômodos.

Enquanto a multidão continuava a murmurar suas queixas, e Joffrey fazia comentários sarcásticos, Robert baixou a taça, pronto para enfrentar mais uma rodada de pedidos sem fim. Mas, ao olhar para a multidão, seu coração congelou. No meio do salão, entre os rostos comuns e desesperados, ele avistou algo que não deveria estar ali.

O gigante valiriano, o homem de seus sonhos, tão alto quanto Robert foi nos seus dias de glória, com cabelos prateados e olhos penetrantes, observava-o com um sorriso desdenhoso e divertido, uma expressão que fez o sangue de Robert ferver em suas veias. Ao lado dele, uma jovem de beleza etérea, os olhos lilases e o semblante enigmático, tão fria quanto as terras além da Muralha.

Robert piscou, incapaz de acreditar no que via. Seu coração martelava no peito, e por um instante, a sala do trono pareceu girar ao seu redor. Ele apertou o braço do trono, tentando se firmar, mas as figuras estavam lá, tão nítidas quanto qualquer um dos suplicantes à sua frente.

— Pai? Você está bem? — A voz de Joffrey soou ao seu lado, irritada e desdenhosa, mas Robert mal ouviu. Ele estava fixado nos valirianos, o sorriso zombeteiro do homem o atiçando, como uma chama que se recusava a ser apagada.

Mas quando Robert piscou novamente, as figuras haviam desaparecido. Em seu lugar, apenas o mesmo mar de rostos comuns, cheios de necessidade e medo. Seu coração ainda batia forte, mas ele sabia que ninguém mais parecia ter visto o que ele viu.

Robert deixou a taça cair sobre a mesa ao lado do trono, ignorando a preocupação que começava a se instalar no rosto dos conselheiros próximos. Joffrey continuava a falar algo, mas suas palavras eram apenas ruído distante.

Ele sabia que não podia mencionar o que acabara de ver, pois as palavras de Pycelle ecoavam em sua mente: "Paranoia é um veneno." No entanto, a visão dos valirianos não era algo que poderia ser ignorado facilmente. Ele sentia a presença deles como uma ameaça real, um lembrete de que as sombras do passado ainda pairavam sobre ele, espreitando, esperando o momento certo para atacar.

Com um último olhar furtivo para a multidão, onde as figuras haviam estado, Robert Baratheon apertou os punhos, sentindo o peso de uma coroa que parecia cada vez mais difícil de sustentar. Ele sabia que, de alguma forma, o passado ainda estava muito presente, e a batalha por seu trono estava longe de terminar.

♚♚♚

Na escuridão silenciosa da noite, os rugidos dos dragões ecoaram pela ilha, despertando Daemon e Rhaella de seu sono profundo. O som não era apenas um brado usual, mas carregava uma fúria primitiva, misturada com o bater frenético de asas contra o vento. Rhaella se levantou primeiro, seus olhos brilhando com preocupação, enquanto Daemon, já em alerta, alcançava suas roupas com rapidez.

Quando desceram apressadamente pelas escadas do castelo, os rugidos se intensificaram, acompanhados pelo calor opressor de chamas que iluminavam o céu noturno. O coração de Rhaella disparou, e ela trocou um olhar ansioso com Daemon. Algo estava terrivelmente errado.

Ao chegarem à base do castelo, depararam-se com uma cena caótica. Entre as pedras negras e antigas, Viserys estava encolhido, um pequeno vulto trêmulo, tentando desesperadamente se proteger das chamas que o cercavam. Seus gritos eram abafados pelo rugir das bestas que o atacavam sem misericórdia.

Viserys, com sua arrogância e sede de poder, havia cometido o erro fatal de tentar montar um dos dragões — a montaria de Rhaella. A criatura, sentindo-se insultada pela ousadia do príncipe, reagiu com uma fúria indomável, juntando-se ao outro dragão, ambos cuspindo fogo ao redor dele, suas caudas varrendo o solo com violência.

— Acalmem-se! — Daemon gritou, sua voz cortando o ar como um aço afiado, enquanto corria na direção dos dragões, sua própria presença trazendo uma autoridade que as bestas reconheciam. — Afastem-se agora!

Os dragões, embora ainda furiosos, recuaram ligeiramente ao comando de Daemon, seus olhos faiscando em desagrado, mas eles obedeciam ao seu mestre. O calor das chamas ainda era intenso, mas o fogo começou a diminuir à medida que Daemon avançava. Rhaella correu para Viserys, que estava encolhido, seu corpo tremendo e seus olhos arregalados de medo.

— O que você estava pensando? — ela sussurrou, a preocupação e a raiva misturando-se em sua voz, enquanto o ajudava a se levantar, suas mãos delicadas, mas firmes, segurando-o.

Viserys olhou para ela, seus olhos cheios de pavor e vergonha, incapaz de encontrar as palavras certas. Ele tentara provar seu valor, mostrar que era digno dos dragões, mas em vez disso, havia provocado sua ira.

Daemon aproximou-se, seus olhos frios fixos em Viserys, mas sua voz era mais suave ao falar com Rhaella.

— Eles o matariam se não tivéssemos chegado a tempo — ele segurou a mão de sua esposa, apertando-a levemente, como se quisesse tranquilizá-la.

— Ele precisa aprender que os dragões não são brinquedos — respondeu Rhaella, ainda olhando para Viserys, que continuava a tremer. — Eles são criaturas poderosas, não algo que ele pode controlar pela vontade.

Viserys engoliu em seco, a vergonha queimando ainda mais do que as chamas que quase o consumiram.

— Eu... eu só queria… — ele começou, mas as palavras morreram em sua garganta, o orgulho esmagado pelo terror que ainda sentia.

— Querer não é o bastante — Daemon o cortou, seu tom severo. — Aqui, os dragões respondem àqueles que os merecem, e você claramente não está à altura — Ele olhou para os dragões, que ainda estavam agitados, mas começavam a se acalmar sob a luz da lua. — Lembre-se disso, ou eles te lembrarão de uma maneira que você não vai sobreviver.

Viserys abaixou a cabeça, incapaz de olhar para Daemon ou Rhaella. Ele havia subestimado a força e a majestade dos dragões e pagara o preço. Mas, ao ser ajudado por Rhaella, ele sabia que essa lição nunca seria esquecida.

Os dragões, agora mais tranquilos, voaram de volta para seus postos, suas sombras enormes obscurecendo o solo antes de sumirem na escuridão. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo som da respiração pesada de Viserys e o vento suave que soprava do mar.

Daemon e Rhaella, de mãos dadas, guiaram Viserys de volta ao castelo, cientes de que o príncipe nunca mais ousaria desafiar os dragões de novo.

♚♚♚

A noite estava silenciosa e fresca, o cheiro da maresia invadindo o castelo de obsidiana, Viserys estava se preparando para dormir quando ouviu vozes elevadas no corredor. Ele saiu do quarto silenciosamente e seguiu o som até a sala onde Daemon discutia acaloradamente com o meistre. As palavras ecoavam pelas paredes, carregadas de tensão.

— É errado, meu senhor — o meistre insistia, sua voz exasperada. — A ilha precisa de um herdeiro. É o dever de sua esposa gerar uma nova geração para continuar sua linhagem.

— Rhaella não está pronta. Ela é jovem, ainda não está preparada para suportar as dores e os perigos do parto. Eu não arriscarei a vida dela por isso — respondeu Daemon, com uma fúria contida. O meistre fez uma pausa, claramente desconfortável, mas determinado a continuar.

— Com todo respeito, senhor — o homem continuou — , ela tem idade suficiente. E evitar a concepção não é natural. É seu dever e o dela.

— Eu decido o que é melhor para minha esposa! — Daemon cortou o assunto, sua voz grave e definitiva. — E eu não permitirei que você ou qualquer outro a coloque em risco.

Viserys observava a cena, absorvendo cada palavra. Assim que o meistre deixou o aposento, cabisbaixo e murmurando para si mesmo, Viserys decidiu se revelar.

— Interessante — ele começou, a voz carregada de uma ironia fria. — Dany tem a mesma idade que Rhaella, e ela está grávida de Khal Drogo. Ninguém a impediu de cumprir com seu dever…

Daemon virou-se para encará-lo, seu olhar sombrio.

—- A situação de sua irmã é diferente —- ele respondeu. — Ela foi dada em casamento a um bárbaro que não conhece gentileza ou paciência. Eu não permitirei que minha esposa sofra o mesmo destino

Viserys ergueu uma sobrancelha, um sorriso ligeiramente sarcástico brincando em seus lábios.

— Você fala como se ela fosse feita de vidro, como se fosse mais frágil do que realmente é. Talvez esteja subestimando sua força. As mulheres Targaryen sempre foram fortes, você deveria saber disso.

Daemon aproximou-se, o olhar de aço fixo no rosto de Viserys.

—- Não estou subestimando a força de Rhaella — ele disse, sua voz baixa e controlada. — Estou apenas fazendo o que é certo para ela. Diferente de você, que permitiu que sua irmã fosse vendida como mercadoria para um selvagem.

Viserys sentiu o sangue ferver, mas conteve sua raiva, sabendo que aquele confronto não o levaria a lugar algum.

— Veremos por quanto tempo conseguirá mantê-la sob suas asas, irmão. Nosso sangue exige um herdeiro, e cedo ou tarde, Rhaella precisará cumprir esse papel…

Daemon não respondeu. Em vez disso, voltou-se para a porta, encerrando a conversa.

— Você está em minha casa, Viserys. Aconselho a lembrar disso — ele saiu do aposento, deixando Viserys sozinho, com seus pensamentos e suas frustrações.

Daemon entrou no quarto, seus passos quase inaudíveis no silêncio pesado da noite. A única luz vinha da lareira, onde as chamas dançavam e iluminavam as paredes de pedra com um brilho alaranjado e cálido. Rhaella estava de pé diante do fogo, as mãos delicadas estendidas, brincando suavemente com as chamas, como se pudesse controlá-las com um simples toque.

Ele a observou por um momento, deixando-se envolver pela visão dela, tão etérea e misteriosa, havia algo que a deixava com uma aura que beirava o intocável. Aproximando-se, ele quebrou o silêncio com uma voz suave, carregada de carinho.

— O que você vê, minha rainha?

Rhaella não o olhou de imediato. Seus olhos continuaram fixos nas chamas, enquanto ela movia os dedos, como se desenhasse formas invisíveis no fogo.

— Vejo um veado fugindo — ela disse, sua voz baixa e enigmática, como se estivesse em um universo diferente —- , correndo por corredores de pedra…ele sente medo…raiva…

Daemon soltou uma risada suave, aproximando-se ainda mais, seus braços envolvendo-a por trás, sentindo o corpo dela se chocar com o dele.

— Eu sempre desejei entender completamente o que você vê, o que você sente — ele sussurrou contra seu pescoço, deixando um beijo leve na pele exposta. Rhaella mexeu mais um pouco as mãos nas chamas, seus olhos brilhando com uma intensidade que ele conhecia bem.

— Há um bebê… — ela continuou — ele ruge, Daemon, ruge tão forte quanto um dragão… — ela parou, piscando vagarosamente — Você acha que sou incapaz de gerar um filho?

Daemon a girou gentilmente, seus olhos encontrando os dela. Havia tanta delicadeza no rosto dela, tanta força escondida por trás daquela fragilidade aparente.

— Não, Rhaella — ele disse com firmeza, segurando o rosto dela entre suas mãos, obrigando-a a olhar para ele. — Eu nunca pensaria isso. Você é capaz de qualquer coisa. Mas... prefiro esperar. Quero que você esteja pronta, que seu corpo e seu espírito estejam em harmonia. Não quero que sofra — Daemon pressionou a testa contra a dela, seus olhos fechados, absorvendo a proximidade. — Vamos esperar pelo tempo que for necessário. Eu prefiro mil vezes esperar do que te perder.

Ela o puxou para um beijo suave, sentindo o calor que emanava de seu corpo, e naquele momento, decidiu confiar nele. Eles eram dois dragões, forjados pelo fogo e pela dor, e nada os destruiria, não enquanto estivessem juntos.

♚♚♚

Jon acordou com um sobressalto, o som agudo e insistente de um choro de bebê cortando o silêncio gélido da Muralha. Ele piscou algumas vezes, tentando afastar o torpor do sono, mas o choro continuava, ecoando pelos corredores de pedra como um chamado impossível de ignorar. Sem pensar duas vezes, ele se levantou da cama, calçou as botas às pressas e saiu do quarto, seguindo o som perturbador.

Cada passo que dava parecia levá-lo para mais perto do impossível. O choro o conduziu até uma lareira acesa, uma das poucas fontes de calor naquele lugar sombrio. Ali, entre as lenhas crepitantes e as chamas dançantes, ele viu algo que fez seu coração parar por um instante.

Um bebê robusto estava deitado entre as chamas. Mas o que deveria ser uma visão terrível, com o fogo consumindo o menino, era na verdade uma cena de desconcertante surrealidade. O bebê não estava queimando. Pelo contrário, ele se mexia com uma energia inesperada, se soltando das mantas que o envolviam como se o fogo fosse uma coisa natural, algo que lhe pertencia, uma extensão de seu corpo e alma.

Jon ficou paralisado, incapaz de processar o que seus olhos estavam vendo. Um choro de criança nascida no meio do fogo, um bebê que não era consumido pelas chamas. Era como se as histórias antigas dos Targaryen estivessem se desenrolando diante dele, uma lenda viva.

Antes que ele pudesse reagir, sentiu a presença de alguém atrás de si. Virando-se lentamente, encontrou Sam, tremendo da cabeça aos pés, o rosto pálido como se tivesse visto um espectro.

— Você... você também está vendo isso? — Sam perguntou, a voz falhando enquanto apontava para o bebê na lareira, incapaz de acreditar no que seus olhos lhe mostravam.

Jon apenas assentiu, sem palavras. Eles ficaram ali, lado a lado, observando o impossível se desenrolar diante deles, enquanto o choro do bebê reverberava pelos corredores da Muralha, uma lembrança viva de que o Norte guardava segredos que nem mesmo eles, homens da Patrulha da Noite, poderiam compreender.

Jon estendeu as mãos, o calor da lareira aquecendo sua pele enquanto se aproximava do bebê. A ideia de tocar aquela pequena vida, resgatá-la das chamas que, de alguma forma, não a machucavam, parecia a única coisa sensata a fazer. Mas antes que pudesse agarrar o menino, o som de passos vacilantes no corredor chamou sua atenção.

Jon se virou e viu o meistre Aemon se aproximando, os olhos nublados pela idade, mas com um sorriso suave nos lábios. O meistre parecia alheio à estranheza da situação, como se o choro de um bebê nascido do fogo fosse algo que ele esperava encontrar.

— Baelon — Aemon murmurou, quase como se estivesse chamando por um velho amigo. Ele se aproximou da lareira com uma serenidade inquietante, estendendo uma mão trêmula na direção das chamas.

E então, como se o próprio meistre tivesse quebrado algum encanto, o choro cessou abruptamente. O bebê desapareceu, deixando apenas a lareira, de volta ao normal, ocupada apenas por lenha e chamas. O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo estalar do fogo e o som das respirações aceleradas de Jon e Sam.

Jon ficou ali, atônito, tentando entender o que acabara de testemunhar. O meistre Aemon, no entanto, não parecia perturbado. Ainda com um sorriso suave, ele virou-se lentamente e começou a se afastar, murmurando algo que Jon não conseguiu captar.

Quando o silêncio se tornou insuportável, Jon se afastou da lareira, voltando para seu quarto como em um transe. Ele se jogou na cama, mas o sono não veio fácil. A imagem do bebê nas chamas, os murmúrios do meistre Aemon, e a forma como tudo desapareceu tão abruptamente... Aquilo tudo era demais para sua mente aceitar. Será que estava perdendo o juízo? Será que a escuridão do Norte e os segredos da Muralha estavam começando a afetar sua sanidade?

Enquanto as horas passavam, Jon permaneceu acordado, os olhos fixos no teto, repetindo a cena em sua mente, tentando encontrar uma explicação racional para o que havia visto. Mas por mais que tentasse, a única coisa que conseguia era sentir o peso crescente da dúvida sobre sua própria lucidez.

♚♚♚

Boatos corriam pelas ruas de Porto Real como fogo selvagem, cada um mais fantástico e alarmante do que o outro. E, como sempre, as mais estranhas histórias acabavam nos ouvidos de Varys, o mestre dos sussurros. Enquanto caminhava pelos corredores da Fortaleza Vermelha, ele reunia fragmentos de informações, cada um mais nebuloso do que o anterior. Dragões nos céus de Valíria, cidades em ruínas ressuscitando de suas cinzas, e o mais preocupante de todos: o desaparecimento de Viserys Targaryen.

Na sala do conselho, Varys fez seu relato de maneira cautelosa, como de costume, omitindo aquilo que não queria que caísse nos ouvidos do rei.

— Boatos — começou ele — , vieram até mim, falam de dragões avistados perto das ruínas de Valíria, mas o que me preocupa mais é o desaparecimento do Príncipe Viserys.

Sor Barristan Selmy, que estava em pé ao lado da mesa, cruzou os braços e soltou um grunhido desdenhoso, uma risada contida.

— Se aquele garoto tolo se aventurou onde não deveria, é cocô de dragão uma hora dessas.

Robert Baratheon, sentado em seu trono, ergueu uma sobrancelha e encarou Varys.

— E o que você acha, Varys? Há alguma verdade nesses boatos?

Varys inclinou a cabeça ligeiramente, o rosto cuidadosamente neutro.

— Boatos são apenas isso, meu rei: palavras ao vento, sem substância ou confirmação. Não posso afirmar nada com certeza.

Robert tomou um gole de vinho, os olhos semicerrados em direção ao eunuco.

— Mas você ouviu algo mais? Algo que valha a pena considerar?

— Meu rei — Varys continuou — , é verdade que muitos desses boatos falam de dragões e antigas magias, mas até que possamos verificar a veracidade dessas alegações, seria imprudente agir com base em meras especulações. Entretanto, o desaparecimento de Viserys é uma questão que deve ser tratada com cautela. Não sabemos se ele realmente está envolvido com essas histórias ou se é apenas outra peça do quebra-cabeça.

Robert bufou, descontente com a falta de respostas claras.

— Malditos Targaryen — murmurou ele —, sempre causando problemas, vivos ou mortos.

Enquanto a reunião continuava, Varys permanecia em silêncio, refletindo sobre os rumores que tinha coletado. Dragões? Valíria? Viserys desaparecido? Tudo aquilo parecia um pesadelo ressurgido das cinzas do passado, e Varys sabia que, boatos ou não, algo grande estava se movendo nas sombras.

♚♚♚

Ned caminhava pelos corredores da Fortaleza Vermelha em um sonho que parecia mais real do que qualquer outra lembrança. A noite lá fora brilhava com um tom azulado, quase espectral, e o silêncio que envolvia o castelo era pesado, opressor. Suas botas ecoavam nos pisos de pedra enquanto ele se aproximava da sala do trono, sentindo uma estranha ansiedade crescendo em seu peito.

Ao chegar às portas do salão, Ned parou abruptamente. No centro da sala do trono, banhado pela luz fraca da lua que filtrava pelas janelas altas, estava um homem valiriano. Alto e forte, seus traços eram nitidamente nobres, e sua presença dominava o espaço. A coroa de Maekar, que Ned reconhecia das antigas descrições, repousava sobre seus cabelos prateados, e em sua mão estava a lendária espada Irmã Sombria. O homem a usava como um bastão, como se fosse um objeto necessário para se manter de pé, o olhar fixo no Trono de Ferro como se ponderasse seus segredos.

Ned sentiu um calafrio na espinha ao encarar aquela figura. Algo estava terrivelmente errado. Ele deu um passo à frente, os músculos tão tensos que doíam.

— Quem é você? — sua voz soou mais fraca do que ele pretendia. — E o que está fazendo aqui?

O homem valiriano virou lentamente a cabeça, um sorriso desdenhoso brincando nos lábios. Seus olhos lilases brilharam com uma intensidade que Ned jamais havia visto. Ele não era Rhaegar, tampouco Viserys e de longe, com certeza, não era Aerys. Era alguém diferente, alguém muito mais ameaçador, um Targaryen de verdade.

— Eu sou o Dragão —- respondeu o homem, a voz grave ecoando pelas paredes da sala. — E vim trazer Fogo e Sangue.

Ned acordou de repente, ofegante, o peito subindo e descendo rapidamente. O quarto em Winterfell estava frio, mas o suor escorria por sua testa. Ele se sentou na cama, passando uma mão trêmula pelo rosto, tentando dissipar a imagem perturbadora daquele homem. As palavras ainda ressoavam em sua mente, causando um medo que ele não conseguia ignorar.

“Eu sou o Dragão e vim trazer Fogo e Sangue."

O sonho parecia um presságio, um aviso de que algo terrível estava para acontecer. E, no fundo, Ned Stark sabia que ele não podia ignorar essa sensação.