Os órfãos de Nevinny Vol.2
18 Victor Walsh
O céu de Atelis está tingido por um cinza pálido, como naquelas tardes em que o sol parece pedir licença sem nunca chegar a aparecer. O trajeto até a rua dos Walsh foi feito em um silêncio absoluto; nem o rádio, nem os pensamentos ousavam quebrar a gravidade do momento. Depois de passar pelos espaços em gelo, pálidos de neve, parou diante do portão preto, o mesmo que atravessava tantas vezes correndo quando eram apenas crianças com joelhos ralados e segredos bobos e que, até anos atrás, era o cenário das tardes de jogos e risadas. Agora, ela parece de uma certa forma envolta em uma redoma de nostalgia e estática.
Logo depois subiu os degraus da varanda, sentindo o peso de cada passo, o ar parecendo mais denso, impregnado com a memória de um Victor que o mundo decidiu não proteger. Hesitou por um segundo, os dedos pairando sobre o botão de metal frio.
Respirou fundo, sentindo o nó na garganta que o sonho havia deixado como herança, e, retirando as mãos dos bolsos do seu longo casaco estende a mão, finalmente pressionando a campainha.
O som da campainha ecoou lá dentro, quebrando a quietude da rua. Foi um toque curto, mas que pareceu ressoar uma eternidade. Ficou ali, esperando, até ouvir o som de passos apressados aproximando-se da entrada. A fechadura girou com um clique seco, e a porta se abriu devagar. A porta revelou a senhora Walsh. Sempre muito solícita, faz questão de ser a pessoa que abre a porta para as visitas. Sempre foi assim. Seus cabelos presos em um coque frouxo estão deixando alguns de seus fios brancos escaparem ao redor do rosto marcado pelo tempo. Para hoje o seu figurino é um cardigan bege, cujas mangas cobrem metade das mãos e seu olhar, que antigamente era vívido quando lhe recebia com lanches de manhã e pela tarde, agora carrega uma névoa constante de quem vive em um eterno estado de espera.
— S/N? Mas que surpresa você estar aqui essa hora!
— Sou eu, senhora Walsh — você fala sorridente, porém com os lábios levemente trêmulos — Desculpa, vim sem avisar. Eu tô incomodando?
— Não, imagina! Pode entrar. Venha!
⌚️ 10:49 a.m.
— Ande, nos diga: o que ocasionou essa sua visita repentina, logo numa manhã de quarta-feira? Aconteceu alguma coisa? Joseph está bem? — ela pergunta já com expressão de preocupada.
O senhor Walsh, curioso, vem acompanhado de uma das funcionárias da casa segurando um copo de suco amarelo em passos cuidadosos, vestido no seu pijama azul, olhando para cada passo que dá como se preocupasse com algo à vista dos pés.
— O que aconteceu? — você pergunta para Beatrice analisando o caminhar.
Mas, antes mesmo dela responder o senhor Finn toma a frente respondendo a sua pergunta:
— Eu caí. Ainda tive que ficar escutando piadinhas sem graça dos meus amigos perguntando se “eu caí de maduro”. Isso é uma pouca vergonha e totalmente sem graça — ele reclama, claramente irritado.
Você imediatamente olha para a dona Beatrice com os olhos arregalados esperando por mais detalhes do conto.
— Não se preocupe. Ele está bem. Foi inventar de fazer arte. Deu uma de trocador de lâmpada e subiu na escadinha que tem no depósito. Só que em vez dele apoiar a escada em um pano ou um tecido mais potente pra deixar a escada fixa, colocou tipo uma flanelinha fina e pronto. Escorregou e caiu bonito, não é, senhor Walsh?
— Como isso foi acontecer? Não tinha ninguém por perto pra ver isso? — você pergunta.
— Tinham os meus funcionários, mas pelo que eu estou vendo vou ter que repensar o meu quadro de pessoas aqui comigo e ver se vão continuar, pois vamos combinar, acho que estou achando essas meninas muito fraquinhas e desatentas pra continuarem no cargo que estão — ela fala quase sussurrando para você.
— S/N, que bom que está aqui. Como vão as coisas em sua casa, hãn? — o senhor Finn pergunta.
— Muitas coisas aconteceram. Joseph ainda está à beira da loucura tentando resolver os assuntos inacabados?
— Beatrice!
— Ah, não se preocupe, senhor Walsh, mas é basicamente a mesma coisa. Durante toda essa história acho que meu pai sempre tem alguma coisa pra resolver. Sempre é isso. Quase não vejo ele — você fala.
— Parece que esse assunto ainda mexe com você. Assuntos delicados é bom deixar pra conversar outra hora, não? — Beatrice fala dando um singelo sorriso.
— Não, tudo bem. Podemos falar sobre isso. Mas acho que não tem tanta novidade assim. A história que eu me envolvi na escola, que foi o que me trouxe de volta à cidade, teve o acidente com o táxi voador no réveillon onde a mãe de Meghan sofreu um acidente, tudo isso foi resolvido e só os pequenos detalhes estais acertando ainda…
— Realmente de uns tempos pra cá a trajetória da família Montenegro não tem sido fácil. Parece que as bolas de neve resolveram bolar toda de uma vez — o senhor Finn fala dando uma breve gargalhada.
— Que bom que tudo esteja caminhando. Nós estamos sempre aqui observando e sempre dispostos a ajudarem vocês no que for preciso. Claro, que dentro do nosso alcance — Beatrice diz.
— Obrigadx, Beatrice. Eu e meu pai sabemos do apoio que vocês nos deram em vários momentos. Mas não é sobre mim e o que tem acontecido que eu vim conversar com vocês — você fala.
— Ah, não? E sobre o que seria? — Finn pergunta.
— Senhora Walsh… — você inicia dando um respiro breve se preparando para a fala seguinte — eu sonhei com ele. Há alguns dias.
— Como assim? Com quem você sonhou? – ela pergunta franzindo levemente as sobrancelhas, mas ao tempo engolindo seco demonstrando já saber do que se trata.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O senhor Walsh pousou a xícara lentamente, e a Sra. Walsh sentou-se na beirada do sofá, prendendo a respiração.
— Ah, me desculpa. Eu não deveria ter falado nesse assunto — você fala meio sem jeito — Me desculpa. Acho que falei demais. Não era pra ter falado assim logo de uma vez.
— Oh, não, tudo bem. Por favor, S/N, podemos falar. É só que… — ela inicia olhando para o senhor Walsh — … é só que eu não esperava que você fosse falar assim logo de uma vez — ela para.
— A senhora se sente confortável sobre isso? Se não quiser eu posso conversar sobre qualquer outra coisa, ou então… posso ir embora se quiserem.
— Oh, não, S/N, não chegue ao extremo. Acredito que Beatrice esteja pronta pra falar. Na verdade, ela aprecia. E precisa — o senhor Walsh fala.
— É, eu preciso falar. Eu tenho que ficar falando sobre esse assunto, sobre Victor. Me ajuda a me sentir bem e me aliviar. Também me traz memórias felizes quando posso estar angustiada ou pensativa demais — Beatrice declara — Nosso filho Victor sempre será motivo de felicidade nessa casa.
Você dá um leve sorriso e sorriso breve ao ouvir tais palavras de Beatrice. Surtiu como um alívio devido ao medo dela refutar sua introdução ao assunto.
— Bom, você disse que… que sonhou com nosso filho Victor — o senhor Walsh pigarreia, em sequência toma um gole do seu suco e franze a testa antes de perguntar — E… e o que você sonhou? Pode nos contar?
— Foi um sonho estranho. Na verdade acho que essa é a terceira vez que sonho com ele — você inicia — Foi estranho, mas… ele estava bem. Estava feliz.
— Estranho? Mas por que estranho? — Beatrice pergunta focada no que tem para dizer — Digo, o que tem de estranho nisso? — ela ri — Na verdade é curioso. Nós, que somos os pais, raríssimas vezes temos o feito de sonhar com Victor. Desde a morte dele eu sonhei apenas uma vez com o meu filho, já Finn não sonhou nenhuma, o que me deixa triste, pois gostaríamos de ter a oportunidade de ter a experiência de sonhar mais vezes, a experiência de vê-lo mesmo por meio de sonhos. Agora, vem você e me fala que sonhou com o nosso Victor três vezes?
— Isso é de fato muito curioso — Finn fala.
— Nossa, eu não sabia disso. De fato é curioso, já que vocês são os pais — você diz, pensativx.
— Não é?
— Acredito que deva ter algo de especial nisso, dele escolher você que era alguém bastante próximx desde a infância. Isso é até poético — o senhor Walsh fala.
— É, pode ser. Mas acho que não por eu ser especial. Na verdade, eu não tenho nada de especial. As coisas só conversam entre si pra chegarem até a mim de alguma maneira — você brinca.
— E como foi esse sonho? Ele disse algo para você? Eu imagino que sim, porque para escolher te visitar com tanta frequência deve ter algo que Victor deve ter lhe contado que preferiu não contar pra gente. Por favor, nos diga tudo com todos os detalhes — Beatrice solicita, empolgada para ouvir o que você tem para dizer.
Obedecendo-a, você decide contar resumidamente, conforme o que lembra sobre as três vezes que sonhou com seu amigo de infância nos máximos detalhes possíveis: o cenário, a roupa que usava e algumas falas que ele lhe passou durante as conversações, claro, exceto aquelas confusas que nem mesmo você pôde interpretar com certeza e clareza sobre o que ele queria dizer.
— E foi mais ou menos isso. É só o que eu consigo lembrar agora. Não é muita coisa pra se falar sobre essas vezes que ele apareceu nos meus sonhos, mas é o que eu lembro agora. Tudo parecia confuso, ou sei lá. Tiveram momentos que eu pensei que seria tudo criação minha porque ele falou especificamente sobre as coisas que aconteceram comigo. Ele veio me confortar sobre tudo, sobre o que aconteceu na minha escola, com o meu pai. E eu ficava me perguntando: “como ele poderia saber tanto?”
Dona Beatrice e o senhor Finn ficam em completo silêncio, porém nitidamente felizes ao ouvirem suas reconfortantes palavras. O sorriso e a satisfação que seguram em seus rostos não podem negar.
— Ele estava bem — você continua finalizando sua narrativa — Os sonhos, como eu falei, foram na praia, bem bonita e cheia de cores brilhantes que não são como aqui. E ele me pediu pra vir aqui. Ele quer que a gente saiba que de alguma maneira está por perto. Isso é bem doido, não é?
— Pode ser. Mas é uma das coisas mais lindas que eu já ouvi na minha vida. Sempre pensei que seria mentira pelo o que eu ouvi as pessoas falarem, mas… quando é com a gente que acontece tal coisa, certamente passamos a enxergar com outros olhos e acreditar — o senhor Walsh fala esfregando os olhos.
Beatrice abraça, com cuidado, o senhor Finn e logo se ajeita novamente na poltrona.
— Ele sempre amou o mar. Sempre dizia que as cores do mundo eram limitadas demais para o que ele sentia, mas que depois algumas delas já eram suficientes.
— Eu não posso imaginar o quanto vocês devem sentir falta dele. No início é difícil superar mesmo porque Victor era alguém que sempre esteve ali perto de mim desde pequeno. Perder uma pessoa assim é uma dor no início, mas passa com um tempo — você afirma, olhando para os pais de Victor que se entreolham por alguns segundos — Bom, er… isso é o que as pessoas dizem. Pra alguns é rápido superar, mas pra outros nem tão fácil assim. Essa perda ainda dói aqui dentro.
— Nossa, nem me fale. Já foram quase dois anos, mas parece que ainda é recente. Eu sinto admiração pras pessoas que superam a dor de um ente querido assim tão rápido. Elas mostram serem pessoas mais fortes, mais preparadas pra situações como essa — Beatrice diz.
— Ou são pessoas que não se importam, psicopatas e que não ligam para o sofrimento alheio — Finn fala saindo da poltrona sendo acompanhado pela funcionária que prontamente o ajuda.
— Finn! — exclama dona Beatrice — Ai, me desculpe pelos modos, S/N, mas você sabe como ele é. Finn está ficando mais velho, na verdade, nós estamos e com um tempo ficamos mais rabugentos e falamos mais coisas sem dosar as palavras — ela finaliza com um sorriso nervoso.
— Ué, mas não tem por que se desculpar. O que ele falou foi verdade — você afirma.
— S/N, se não se importar e também para aproveitar a sua visita oportuna e claro, se sentir confortável em fazê-lo… o quarto dele ainda está do mesmo jeito. Eu não consegui mexer em quase nada, praticamente pouco, apenas pra limpar os móveis e alguns objetos. Eu sinto que, se ele te enviou aqui, talvez haja algo lá que você precise ver. Ou que precise ser levado dali se tiver algo seu — ela ri — Enfim…
De imediato, você lembra das palavras de Victor no sonho: “Há uma caixa debaixo da minha cama que eles nunca tiveram coragem de abrir.”
— Eu quero subir — você aceita ouvindo a voz do subconsciente que Victor havia lhe confiado.
Ao subir as escadas, a porta do quarto de Victor encontra-se fechada. Dona Beatrice pega as chaves, destranca a porta e em seguida gira a maçaneta. O pôster da banda Christine and the Queens ainda está na parede, os cadernos de desenho ainda empilhados na escrivaninha. É como um santuário congelado ou artefatos que não são mais utilizados há muito mais tempo.
— Está tudo aqui. Tudo organizado do jeitinho que ele deixou. Me dá uma saudade tão grande quando eu olho para todas essas coisas, mas ao mesmo tempo me dá uma paz em saber que está tudo tão perto de mim — dona Beatrice fala dando um suspiro profundo.
— Por acaso, dona Beatrice, a senhora sabe se ao limpar o quarto do Victor a senhora ou alguém encontrou um livro preto em algum lugar aqui no quarto do Victor? Ele é meu e já faz algum tempo que eu procuro. Pensei em vir aqui antes pra procurar, mas a senhora sabe, né? Fiquei meio sem jeito.
— Um livro preto? Poderia ser mais específicx? Pois um livro desse pode ser qualquer coisa, não? Além do mais, pode ser que alguém possa ter visto mais de um? Ou será que só tinha esse? — ela pergunta, pensativa.
— Eu precisava muito encontrar ele. A senhora se importaria se eu procurasse?
— Não, de forma alguma, mas… só há um pedido que eu lhe peço e gostaria muito que você pudesse obedecer.
— Claro, o que é?
— Por favor, tente não alterar nada do lugar. Eu prezo muito por isso e como já havia prometido pra mim antes: eu hei de permanecer o quarto de Victor exatamente igual como ele deixou desde a última vez em que eu o vi. Você poderia fazer isso por mim, não é, S/N?
Antes da sua resposta você dá uma breve olhada para o quarto por todos os lados como se tirasse uma foto com sua mente onde estão posicionados todos os objetos. Poderia ser uma tarefa difícil, mas como Victor havia especificado exatamente onde a tal caixinha seria encontrada, certamente o pedido de dona Beatrice seria atendido facilmente.
— Claro, dona Beatrice. Deixa comigo. Eu vou fazer questão de deixar o quarto exatamente como está. A senhora não vai nem perceber que eu mexi aqui — você assegura tranquilizando Beatrice na qual de imediato arranca um sorriso aliviado dela.
— Ótimo. Agora, você vai me dar licença para você procurar o que quer que seja, um livro, ou outra coisa. Eu vou estar por perto, caso precisar, é só me chamar, sim?
— Tudo bem, dona Beatrice. Mas acho que não vai precisar de tanto. Acredito que vai ser super rápido.
— Ótimo. Me dê licença — Beatrice fala saindo no mesmo instante.
Demorou só alguns segundos até que a senhora Walsh saiu e você foi direto em direção à cama de Victor. Ajoelhando-se bem ao lado do móvel, estende as suas mãos para o espaço escuro debaixo da cama, porém não encontra nada. Pra ser mais ágil utiliza a lanterna do seu celular e após uma boa verificada nada encontra.
— Mas ele disse que ‘tava aqui — você fala consigo logo parando a procura.
A princípio até debocha de si mesmx, ao lembrar que está dando importância pra algo que havia escutado em um sonho, mas depois muda de ideia e insiste iniciando agora uma busca mais minuciosa.
— Encontrei — você comemora ao encontrar na extremidade da cama uma ponta peculiar — Um buraco falso debaixo da cama? Victor era mais esperto do que eu pensava. Se isso tá aqui tão bem guardado, é porque tem alguma coisa importante. Tem que ter.
Então, você puxa a caixa para a luz. Ela é pesada e está selada com uma fita adesiva de cor verde lunar. Primeiro pensa em puxá-la, mas uma voz invade a sua cabeça tentando lhe trazer a dúvida “se isso seria certo ou seria uma invasão, um sacrilégio contra a privacidade de alguém que não pode mais protestar.” Aliás, Victor havia falado a respeito de algo escondido, mas não havia falado se podia ser exposto.
— É, mas se ele me pediu pra pegar, é porque confia em mim, então eu posso — você afirma, impondo-se de imediato rompendo o lacre.
Dentro da caixa, não há apenas lembranças comuns. Sob alguns sketches antigos de paisagens neon que estranhamente se pareciam com a praia do seu sonho, encontra um papel mais ou menos tamanho A4, talvez um pouco maior onde no rodapé está escrito “O mapa das cidades invisíveis”.
Na infância, você e Victor costumavam desenhar alguns mapas de Atelis, uns com base com o que encontravam na internet e outros eram inventados, acrescidos de algumas coisas a mais, detalhes que não existem nos registrados oficialmente, substituindo nomes de lugares comuns por lugares com nomes mágicos. Porém, em um dos mapas há um detalhe curioso. De uma certa forma, esse último mostra uma mensagem um tanto subliminar, simbólica ou até mesmo auto explicativa se parar pra pensar. Nele mostra um Victor se sentindo, talvez, preocupado ou com medo. No verso desse mapa, há um desenho inacabado de vocês dois numa praia com a frase: “O único lugar seguro”.
Além desse mapa e desenho, há também um gravador digital antigo, o mesmo que vocês usavam para gravar “noticiários do futuro” quando crianças. Dentro dele há um disco preto que corresponde ao mesmo que uma fita K7, mas num modelo alternativo e mais atual. Apertando todos os botões tenta ligá-lo, mas sem resposta.
“Talvez tenha que carregar ele” — pensa consigo.
De qualquer forma tenta fazer funcioná-lo e até uns tapas no aparelho dá tentando fazê-lo ligar. Uma voz vindo do andar de baixo vai ficando mais presente enquanto ela chama por seu nome.
— S/N? Está tudo bem aí em cima? — a voz do senhor Walsh vem do corredor, fazendo-lhe saltar.
Rapidamente esconde o papel branco e o gravador dentro de seu casaco. A caixa você põe exatamente onde havia encontrado.
— Está tudo bem, senhor Walsh! — você responde com a voz firme.
Antes dele chegar pega um retrato da parede de fotos em que está com Victor, para que eles vissem que pegou algo, uma lembrança inofensiva.
Ao descer as escadas, encontra os dois lhe esperando na sala. A senhora Walsh olha para as suas mãos e sorri.
— Vi que não encontrou o que procurava. O que é isso em suas mãos? — ela pergunta.
— É um retrato nosso no parque de diversões. Acho que foi nossa última foto — você fala.
— Isso foi…
— Uma semana antes dele… — você nem finaliza a frase ao ver as expressões de Beatrice e do senhor Finn, sorridentes e emocionados — Eu posso ficar com essa foto? É emprestado. Eu ainda não tenho ela revelada. Eu faço a cópia e devolvo pra vocês.
— Ah, não. Claro, claro! Seria ótimo — Beatrice fala.
— Obrigadx por me deixarem entrar. Ainda mais no quarto dele. Eu não consegui encontrar o que eu queria, mas foi muito bom voltar no quarto e rever todas as coisas que ele gostava.
— Você sabe que é bem-vindx aqui, S/N. Sua amizade foi deveras muito importante para o nosso filho. Ainda continua sendo. Agora pra nós — o senhor Finn fala.
— Como vocês já devem saber daqui a alguns dias eu tô voltando pra Nevinny, as minhas aulas vão retornar, então é bem provável que hoje possa ser a última vez que vejo vocês. Neste ano vai fazer dois anos que Victor se foi, e, como eu vou estar realizando meus estudos talvez eu não consiga comparecer no aniversário de morte dele caso façam alguma coisa.
— É, já imaginávamos isso. É uma pena que terá esse choque de interesses e disponibilidade. Na verdade, ainda estamos pensando no que fazer, não é, Finn?
— Exato. Estamos bolando algumas ideias, mas não temos nada concreto ainda. Decidiremos com um tempo — ele responde.
— Me digam, eu sei que vocês tinham parado de procurar certas respostas pra saber melhor o que aconteceu com Victor. Me desculpe, se estou sendo invasivx outra vez, mas não sei se lembram que eu estive nessa e não me conformo até hoje por não terem pego os responsáveis por grande parte dos comentários que o Victor recebeu na época.
— Não sei nem como dizer isso. Até fico envergonhada. Dois anos e nada de pegarem esses responsáveis sem coração que tiraram a vida do meu filho. Isso não tem perdão. Como pode alguém ser assim que nem conhece proferir palavras de ódio? Todos aqueles ataques homofóbicos que Vitinho recebeu… só porque ele estava abraçando e beijando no rosto o amiguinho — diz Beatrice demonstrando um certo desconforto.
— Isso é muito triste. As pessoas fazem e falam o que querem na internet sem pensar nas consequências, podendo afetar a vida de alguém, né? Como no caso aconteceu aqui — você declara.
— Soubemos que apenas uma pessoa foi pega por causa desses comentários — Finn fala — Esquecemos de te dizer. Se eu não me engano…
— Em setembro passado. Você ainda estava em Nevinny. Não sei se você soube por alguém.
— Não. Eu não soube disso.
— É. Uma das pessoas foi descuidada e não inteligente o suficiente. Comentou no vídeo que o Victor postou com o amiguinho, porém havia foto de perfil, localização de cidade e tudo mais. O restante eram pessoas com perfil falso, ‘faki’ como costumam chamar, não é?
— Fake — você corrige.
— Isso. Com perfis assim que não possuem nenhum tipo de informação fica bem mais complicado de encontrar o responsável ou a responsável por aqueles atos tão perversos.
— Mesmo tendo o IP dos aparelhos, a polícia não conseguiu encontrar nada?
— A justiça como sempre é demorada. Me impressiona estarmos numa era tão avançada e existirem coisas que não dão prosseguimento ou que demoram uma era inteira pra serem concluídas — Finn reclama — A lentidão na coleta de provas ou a falta delas implicou muito no caso. A polícia ficou sabendo que tiveram alguns perfis que removeram certos comentários, o que não conta pra polícia como uma prova, pois ficou declarado como arrependimento do ato, então não poderia ser considerado.
— Mas isso é errado. Alguém comete um crime e depois apaga pra dizer que se arrependeu e não ser pego? É uma injustiça.
— Infelizmente é uma grande injustiça sim, S/N. Eu pensei que pelo fato de termos as condições que temos e morarmos numa cidade com bastante requinte poderíamos ter uma vantagem a mais nisso tudo. Mas vejo que estava errada — dona Beatrice lamenta pegando a foto de sua mão dando uma breve olhada.
— Olha, eu ainda lamento muito por toda essa tragédia e pelo fato que muitas pessoas já tiraram a vida por conta de comentários negativos que receberam na internet. Comentários homofóbicos ainda, torna tudo pior. Eu tenho certeza que um dia todos que fizeram isso com Victor vão pagar de alguma forma. Acreditem. Disso eu não posso duvidar — você afirma — Senhor e senhora Walsh, eu peço desculpas a vocês por vir essa hora e entrar no quarto de Victor, mas eu tentei encontrar o que eu procurava. E mais uma vez eu agradeço por me deixarem entrar.
— Nós que agradecemos pela visita, S/N — o senhor Finn fala.
Em seguida você dá um abraço apertado em cada um deles.
— Eu já peço desculpas por qualquer coisa e meus sentimentos mais uma vez. Talvez eu não tenha tempo de vir no aniversário de morte de Victor, tudo vai estar um caos, provavelmente, época de prova ou coisa assim. E sabe-se mais lá o que vai acontecer naquela cidade outra vez, mas eu espero estar bem longe de qualquer tipo de confusão.
— Ah, então esquece. Pelo o que eu andei sabendo você não parece uma pessoa que gosta muito ficar longe de confusões, não é mesmo? — Beatrice gargalha.
— Na juventude é assim mesmo. Chega uma hora que decidimos mudar e agarrar a personalidade rebelde escondida em algum lugar dentro da gente — diz o senhor Walsh.
— É, pode ser que foi isso que aconteceu comigo — você responde dando um pequeno sorriso breve — Bom, então acho que é isso. Acho que até mais, não é? Eu não sei se essa é a última vez que nos vemos, mas vocês podem ir lá em casa pra uma visitinha rápida, talvez. Sabem que sempre são super vindos.
— Sabemos disso, S/N. Vá em paz. Sei que anda com muitas coisas na cabeça assim como nós, então pegue esse tempo final de férias que ainda tem e descanse ainda o máximo que puder. Sempre tente manter a calma e não faça nada por impulso. Isso acaba cegando as pessoas — Beatrice avisa, dessa vez com uma expressão bem séria.
— Eu não vou. A senhora sabe que nunca fui impulsivx — você ri estranhando a fala de dona Beatrice, bem séria. Parece estar bem convicta, porém não dá muita bola pra tais palavras.
— Até breve, S/N. Espero não demorar pra nos revermos novamente — o senhor Finn fala lhe puxando cuidadosamente para mais um abraço.
Beatrice lhe leva até a porta e o senhor Finn fica sentado no sofá. Antes de sair, você olha brevemente para trás e vê a funcionária que acompanha o pai de Victor sorridente acenando para você, que responde devolvendo o sorriso.
Ao sair pela porta, na mesma hora o ar pesado e de culpa se sobressai. De alguma forma se sente como se tivesse feito algo errado, no momento em que disse para dona Beatrice que precisava do tal caderno preto. Porém, o que encontrou pode ser bem importante dependendo do que estiver gravado, claro, se primeiramente tiver algo gravado lá. Mas primeiro, como fazer para tocar o disco?

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