Em algum lugar da escola, você e seus colegas se reuniram para organizar as ideias e comentarem sobre os acontecimentos recentes que estão dando o que falar entre os estudantes. O último tópico ainda é sobre o seu confronto com Suzanne em frente à diretoria e a fofoca de Cynthia está ganhando cada vez mais força pelos corredores do Colégio Montreal. Principalmente por causa da ameaça que você fez na última vez que se encontraram. Além de seus colegas, outros alunos também viram a cena, o que resultou em múltiplas testemunhas, mesmo que não tenham visto com os próprios olhos, o que lhe causou um certo tipo de preocupação.



— “Contexto Legal (Artigo 147 do Código Penal). No âmbito jurídico brasileiro, a ameaça é considerada crime quando alguém promete causar um mal injusto (fora da lei) e grave, capaz de tirar a tranquilidade e a liberdade psicológica da vítima.”


— Por que você tá lendo isso. S/N? Isso já é paranoia — Lavínia comenta com estranheza.


— Eu preciso ter certeza se não cometi algum crime contra a Cynthia, porque do jeito que tá, daqui a pouco não pode acontecer nada na cidade que vai ser minha culpa — você explica, aborrecidx — Eu fiz uma ameaça, mas eu preciso saber se o que eu falei tá dentro da lei ou se eu peguei pesado porque as palavras podem se voltar contra mim.


— Relaxa, você não pegou nada pesado. Apenas respondeu à altura — Allison diz.


— Quem tinha que ser acusado de algum crime é ela que passa o ano inteiro tirando o psicológico das pessoas e agora tá tentando manchar a sua imagem pra Suzanne e o resto da escola — Rebekah fala.


— Você está de parabéns por ter enfrentado ela, S/N. Simplesmente arrasou! Foi muito inteligente ter feito apenas ameaça verbal, porque se fosse comigo não ia prestar. Isso não ia dar certo. Já ia partir pra violência e ia perder todas as razões. Olha, se quiser que eu faça alguma coisa pra dar uma incrementada no seu recado pode contar comigo que eu vou adorar acabar com ela de novo — Lavínia fala dando uma gargalhada em seguida fazendo um high five contra a sua mão.


— Você não vai fazer nada. Ou quer ser expulsa? — Rebekah pergunta.


— Eu não posso me dar esse luxo. Principalmente por causa da Cynthia.


— A Cynthia joga sujo e alguém precisa fazer alguma coisa pra parar ela. A gente tem que fazer alguma coisa pra fazer com que ela pare de nos perseguir e querendo me transformar no monstro da vez — você fala.


Allison se aproxima colocando uma das mãos no seu ombro com firmeza. Cris também se aproxima, ficando um pouco mais perto, porém não faz nada.


— Olha, S/N, o que você falou foi um aviso, não uma ameaça de morte — Allison diz — Você estabeleceu um limite. O que você falou deve ter funcionado o bastante pra dar uma afastada na Cynthia e fazer ela repensar antes de falar qualquer coisa da próxima vez. Ela está acostumada com todo mundo abaixando a cabeça e aceitando essas “brincadeirinhas” dela.


— É — Cris concorda se aproximando cada vez mais — Se você demonstrar fraqueza ou se for até ela pedir desculpas por qualquer coisa aí você entrega o jogo na mão dela.


— Eu só não quero que isso respingue em vocês — você diz olhando para longe — E também não quero que Suzanne e a escola mudem o conceito que tem de mim pra pior. Seja qual for o conceito que eles têm até agora.


— Calma. Isso tudo vai se normalizar. Tenha fé — Rebekah diz.


— Mas eu também não posso ficar paradx — você fala pegando seu celular.


— Espera. O que você vai fazer? — Cris pergunta.



Logo você localiza o contato de seu pai, Joseph no celular, discando imediatamente. Se a Cynthia quer usar o sistema e a pose de vítima para te encurralar, você precisa jogar com as cartas mais pesadas da mesa.


Discando para o número de Joseph, a linha chama três vezes antes da voz grave e imponente ecoar do outro lado.


— Alô, S/N? Aconteceu alguma coisa? — o tom dele é de estranheza já que vocês nunca se falam no horário escolar.


Você respira fundo, adotando um tom de voz que mistura urgência e uma sutil vulnerabilidade.


​— Pai, eu preciso que você venha até a escola agora. Teve uma confusão feia aqui envolvendo eu e a Cynthia, a filha do futuro candidato a prefeito. A coordenação tá no meio e parece que a situação escalou a ponto de falarem em envolver a polícia por causa de supostas ameaças contra mim. Eles exigem um responsável aqui na diretoria imediatamente para a minha defesa.


​— O quê? A polícia outra vez?! Achei que isso já tivesse sido resolvido — Joseph muda a postura instantaneamente. Deu até pra ouvir o som dele se levantando da cadeira de seu escritório — Onde está a Lívia? Ela deveria resolver isso.


​— A Lívia não pode vir agora, ela tá ocupada com os compromissos dela — você mente, sem hesitar por um segundo. — Só sobrou você. Por favor, pai, eu preciso que você venha.


​— Estou saindo agora. Chego aí em vinte minutos. Não diga mais nada a ninguém até eu chegar.


Você desliga o telefone. Um sorriso frio, quase imperceptível, cruza os seus lábios.


— O que você fez? — Lavínia pergunta.


— Eu só tô me defendendo. Acho que vocês já devem saber que o pai da Cynthia tá pretendendo concorrer à candidatura da prefeitura de Nevinny, não é?


— Como não saber? E você acha que qual é um dos motivos que ela tem toda essa soberba? — Cris pergunta.


— Isso não pode acontecer. Esse homem não pode ganhar. Se isso acontecer, essa garota vai ser a intocável imaculada da escola. A gente não vai poder falar um pio pra ela e engolir qualquer tipo de provocação — Rebekah fala, preocupada.


— Bom, acho que agora vai depender mais dela do que do pai e do povo que poderia votar nele. Mas não se preocupem. Acho que a Cynthia vai aprender a se comportar mais agora. Pelo menos com a gente — você fala com um sorrisinho maléfico no rosto.


— Como assim? O que você tem na manga, S/N? — Allison pergunta.


— Eu fiquei sabendo que o meu pai e o pai da Cynthia têm o mesmo vínculo de negócios. Todos sabem que um futuro candidato à prefeito não pode se dar ao luxo de ter o nome da família envolvido com escândalos de qualquer espécie, principalmente com uma filha adolescente que faz bullying, intimidação e perseguição escolar. Não se pode ter nada disso no histórico da família. Seria terrível pra ele ganhar qualquer eleição pra qualquer cargo que ele for concorrer. Nossa, como eu não pensei nisso antes?


— Então você tá pensando em usar seu pai pra ameaçar a Cynthia? Eu não acho que isso seja uma boa ideia. Talvez ela possa piorar as coisas, S/N. Ela pode dizer que seu pai, um homem adulto maior de idade foi até à escola persegui-la e intimidá-la. Seu pai pode ate ser acusado de pe… bem você sabe — Rebekah explica, preocupada.


— Eu sei. Eu pensei nesse detalhe. Foi por isso que eu não falei o real motivo pra ele vir aqui. É só pra dar um susto e ela ver que eu não tô com medo — você afirma, convictx.


— Isso é genial. Você chamou o seu pai pra ameaçar o futuro político da família dela. Bem que podia ser pra valer pra gente não ter os Delano no comando da cidade e a gente ficar nas mãos deles — Cris fala.


— Nem os Delano nem ninguém da política vai ficar no comando. Quem fica no comando somos nós cidadãos. Fazendo protestos ou rebeliões somos nós quem decidimos como vai ficar nossa cidade — Allison comenta, assertivx.





Vinte minutos depois, você está bem na entrada da escola atrás das catracas. Joseph passa pelo portão principal de óculos escuros e vestindo um dos seus inúmeros ternos impecáveis exalando a aura de poder e autoridade de quem comanda grandes negócios e influência na cidade. Ao tirar os óculos, o olhar dele corre pelo corredor até encontrar você.


— S/N? O que está acontecendo? Eu tive que sair de uma…


— De uma reunião importante? Eu sei. Vem, me acompanha até à sala do rádio. O pessoal tá esperando a gente. A Cynthia, filha do senhor Delano tá lá. Parece bem preocupada, mais por causa do pai. Ela tem medo de qualquer coisa que surja envolvendo escândalo e polícia possa prejudicar a reputação do pai antes das eleições. Como o senhor conhece ele, o senhor poderia falar algumas coisas pra ela, tipo, pra ela não se preocupar com isso e que com toda certeza do mundo a candidatura do pai dela vai estar garantida e coisas assim. O senhor poderia fazer isso?


— Ah, tudo bem. Mas, na sala do rádio? É lá que vocês estão em reunião? — ele pergunta.


— É. Por enquanto só ela está lá agora. O diretor saiu rápido, mas eu precisava que o senhor falasse essas coisas pra ela. Acho que pode ajudar.


— O senhor Delano está aí?


— Não, ele não tá. Talvez ele venha — você responde.





Chegando na sala da rádio da escola, Cynthia está fazendo algumas anotações num caderno enquanto está com seu fone de ouvidos. Ela parece bem concentrada. Não demora muito e ela percebe a presença de vocês logo retirando o aparelho da cabeça. Antes que fale qualquer coisa, ela parece congelar na cadeira. A cor do seu rosto some no exato momento em que ela reconhece o homem à sua frente.


Você dá um passo à frente com calma e confiança contrastando com o aparente nervosismo de sua rival.


— Pai, essa é a Cynthia, filha do senhor Delano. Ela tem muito a dizer sobre essa história da Suzanne e tá preocupada com a candidatura do pai à prefeitura. Seria muito triste caso a eleição dele seja cancelada, não é, Cynthia?


​— Cynthia? Ah... você é a filha do Norberto, não é? — Joseph dá um passo na direção dela, mudando o tom para uma cordialidade polida.


​— S-sim... Sr. Joseph — Cynthia gagueja, levantando-se da cadeira num impulso automático de respeito misturado com puro pavor, o que te impressiona, já que nunca viu ela se comportar dessa maneira tão hesitante.


​— É um prazer encontrá-la por aqui, embora o contexto pareça confuso — Joseph comenta cruzando os braços.


​Você dá um passo à frente ficando lado a lado com Joseph e fixando seus olhos nos de Cynthia.


​— Pois é, pai... A Cynthia sabe de tudo o que acontece nessa escola. Acabou que ela acabou se envolvendo nessa história minha e de Suzanne e tá com medo de tudo e, principalmente se isso pode envolver o pai dela. Inclusive, Cynthia... como está o seu pai? Ele ainda quer a ajuda de Joseph com a campanha e a eleição pra prefeito? Sabe como é, o meu pai é um homem muito ocupado, mas ele sempre tem muito interesse em quem vai assumir a prefeitura... e em quem ele decide apoiar. Ou deixar de apoiar.


O silêncio no mesmo instante é ensurdecedor. Cynthia olhou de você para Joseph, entendendo perfeitamente o o seu recado. Uma palavra errada dela ali, uma reclamação mimada sobre uma briga de escola, e o financiamento, as alianças políticas e a estrutura da campanha do pai dela poderiam ruir antes mesmo de começarem.


Joseph, sem entender o pano de fundo, mas percebendo a tensão, apenas observa a situação enquanto olha seriamente para a sua rival.


​— De fato. A política é um terreno delicado, Cynthia. Pequenas coisas podem desencadear várias consequências. Esse escândalo sobre essa garota Suzanne está, ainda, sendo bem comentada. Você, em nenhum modo pode ter envolvimento nisso, já que o senhor Norberto quer entrar pra carreira política, correto?


Cynthia engole seco. Suas mãos estão visivelmente trêmulas e ela assente a cabeça em afirmação.


— Eu… eu preciso ir ao banheiro agora. Com licença — ela diz voltando a si logo saindo da sala.


Joseph se vira para você com expressão confusa e pergunta:


— Eu disse algo errado? ​— Onde ela vai? Ela não era a pessoa envolvida na sua confusão?


​Você dá um sorriso leve, ajeitando a postura, sentindo o peso da vitória estratégica.


​— Era pai. Mas acho que nós acabamos de resolver o mal-entendido. Na verdade, nem vai ser mais necessário falar com a Suzanne. Muito obrigadx por vir.