Os órfãos de Nevinny Vol.2
20 Estação Nevinny
O despertador tocou com a suavidade tecnológica das manhãs em Atelis. Dessa vez, diferente, pois já havia um destino traçado pra ser percorrido logo após acordar.
As imagens da noite no píer, dos flamingos infláveis, do chocolate quente compartilhado e do eco da voz de Victor na gravação que ainda parecia flutuar nas sombras do seu pensamento rapidamente viraram lembranças de umas férias que nunca iriam acabar mas que foram super bem vindas em meio a todo o desespero.
Agora, a maresia e as luzes douradas eram apenas uma lembrança guardada no fundo da mala que você ainda nem tinha tido coragem de desmanchar por completo.
Você empurrou os lençóis e encarou o teto do quarto. Em questão de minutos a atmosfera já era outra. O ar aqui é diferente. Não tem o cheiro de pinheiros e opulência da mansão; cheira a café passado na hora, asfalto úmido pela chuva fina da madrugada e aquela velha e familiar monotonia cinzenta com cheiro de fumaça e poluição.
É o dia de volta às aulas.
O caminho até o Colégio Montreal foi um choque térmico para os sentidos. As calçadas rachadas, alguns muros cobertos por grafites desgastados pelo tempo e o fluxo constante de trabalhadores correndo para não perder o ônibus eram o oposto absoluto da calmaria exclusiva de Atelis. Vestindo o uniforme padrão — que parece três vezes mais sem graça depois de passar semanas usando, diariamente, roupas de inverno de alta qualidade — você cruzou os portões de ferro da escola, sentindo o estômago dar um leve nó.
O pátio está um caos. O som de armários batendo, risadas altas e fofocas sobre como cada um passou as férias preenche o ambiente.
— Olha só quem resolveu dar as caras no mundo dos mortais! — uma voz conhecida exclama atrás de você.
Antes que você pudesse se virar, um braço envolve seu pescoço em um mata-leão afetuoso. É Rebekah, ostentando o mesmo sorriso largo de sempre e uma jaqueta jeans desbotada — O pessoal ‘tava quase ligando pra polícia ou pro consulado de Atelis pra saber se você tinha sido raptadx por alguém e esquecido da gente — ela fala lhe soltando e dando um tapinha no seu ombro — E aí? Como foram as férias no lado rico do mapa?
— Intensas — você responde forçando um sorriso amigável, enquanto tenta ajustar a alça da mochila — Muito mais intensas do que eu esperava. E por aqui, como foi? Vocês se encontraram?
— Ah, o tédio de sempre. O máximo de adrenalina que tive foi ver o dono da mercearia correr atrás de um cachorro que roubou uma peça de salame — Rebekah responde — Brincadeira. Bom, eu aproveitei as férias. Gostaria de ter aproveitado mais. Nosso grupo se encontrou algumas vezes, mas na última tivemos uma surpresa. A Lavínia não poderia comparecer porque… ela estava em Atelis… com você.
— Er… me desculpa, Rebekah. Não foi por querer. Eu queria chamar vocês, mas não sei se aceitariam e eu precisava da permissão do meu pai. Você sabe como ele é: bem reservado. E também tinha todo aquele negócio acontecendo. E, na verdade, nem foi eu quem chamou a Lavínia, foi uma amiga minha de lá e…
— Calma, S/N. Não precisa se explicar tanto. Você não tem obrigação de nada. E eu sei da sua atenção. Tudo antes das nossas férias foi tudo tão… intenso.
— Nem me fale.
— Só ficamos preocupados. Eu soube que você não respondia as mensagens do pessoal. Lavínia e Allison te acharam bem estranhx, por sinal. Mas eu te entendo. Sair de férias daquele jeito não deve ter sido nada fácil — ela conclui.
— Verdade — você diz, olhando para os lados — Onde tá o restante do pessoal?
— Hum, adivinha. Allison está com Max em algum lugar da escola. Heitor e Felipe estão em algum lugar a caminho da escola, estão atrasados.
— Sério?
— É — ela diz — Cris eu não sei onde está e Lavínia…
— Vocês não vão acreditar no que aconteceu agora comigo ali fora. Tinham alunos me parando nos corredores perguntando que carro era aquele que eu tinha chegado. Eles viram, S/N, que eu cheguei com você. Então eu disse: é o carro do senhor Joseph, pai de S/N. Eles ficaram sem acreditar, tanto que arregalaram os olhos. Eu fiquei meio sentindo uma garota de cidade rica — Lavínia surge chamando-lhes a atenção.
Ela está com alguns acessórios que não são de seu comum uso e que você não os tinha visto desde quando voltaram para a cidade. Na gola da camisa há um broche de pérolas legítimas em formato de raio e no pulso uma pulseira de berloques de prata tilintando a cada movimento que ela faz.
— Mas que acessórios são esses? Onde você comprou? — Rebekah pergunta, encantada.
— É, quando você comprou isso? — você pergunta.
— A Meghan me deu. Ficaram ótimas em mim, não foi? — ela responde.
— Por que você não me disse que ela te deu esses acessórios? Nem ela me falou.
— Desde quando eu preciso falar quando ganho algum presente?
— Tem bom gosto essa sua amiga.
— Tem mesmo. Você precisa conhecer. Ela me deu passe livre pra visita em Atelis. Qualquer coisa eu posso te levar — Lavínia fala, animada.
— Eu vou adorar — Rebekah diz — E aí, Lavínia? O que a dona Martha achou de Atelis? Ela gostou de passar esses dias de rica da sociedade?
— Minha mãe adorou. A princípio ela não quis ir, mas acabei fazendo a cabeça da coroa. Ela ficou uns dias na casa da mãe da Meghan, mas era pra ter ficado mesmo na casa de S/N. Só que ela passava o dia fora, aproveitando.
— Por que ela não ficou na casa de S/N?
A conversa entre Lavínia e Rebekah vai ficando distante ao passo que sua atenção é voltada para o toque de seu celular indicando mensagem. Você o puxa rapidamente, vendo uma notificação de Meghan.
”Algumas horas sem vocês e eu já quero morrer.
Nat se recusa a responder meus áudios de cinco minutos.
S/N, por favor, me diz que a volta pro subúrbio tá sendo horrível pra eu me sentir melhor.”
Um riso soprado escapa dos seus lábios, chamando a atenção de Rebekah que espia a tela do celular por cima do seu ombro com uma expressão curiosa.
— Ah, entendi. Já está com saudades do fã-clube de Atelis? — ela pergunta, provocativa, mas com um fundo de genuíno interesse.
— É a Meghan. Ela já deve tá com saudades da gente. Disse que ia ficar sozinha lá na cidade. Meio que tivemos uma pequena discussão sobre isso, mas eu disse que ela vai ficar bem — você fala.
— E como tá por aqui? Agora é o segundo ano. Tudo continua igual? Mudaram os professores? Ou é tudo mesmo a coisa? — Lavínia pergunta.
— Ah, basicamente. É claro que vão ter novos professores, alunos estudando com a gente, mas é tudo igual. A única diferença é que nós não somos mais básicos — Rebekah diz.
— Isso já é ótimo — você fala.
— Bom, vamos conhecer as nossas salas. Ah, eu quase ia me esquecendo. Tem um detalhe.
— Que detalhe?
— É bem provável que nós não vamos ficar na mesma sala, tipo, o nosso grupo, o mesmo do ano passado — Rebekah fala.
— Como assim? Você tá brincando! — Lavínia exclama arregalando os olhos.
— Não. Antes vocês precisam ir ver a Meredith pra saber em que sala vão ficar. Você tem que se apresentar, assinar os papéis assim como ano passado e ela diz em que sala a gente fica. O mesmo esquema do ano passado. Eu fui, quando eu cheguei na minha sala tinha um cara na porta sentado na cadeira com uma ficha. Você dá o seu nome e ele faz a confirmação — Rebekah explica.
— Sério isso? — você pergunta.
— Sim. Eu não ia brincar com uma coisa dessa. E com isso eu tive uma preocupação: depois que eu coloquei minhas coisas na carteira, eu esperei um pouco pra ver com quem eu ia estudar e… por enquanto, apenas vi o Felipe na mesma sala.
— E qual sala você tá? — Lavínia pergunta ainda com a mesma expressão.
— Eu tô na 2B. Se vocês quiserem saber logo com quem vão estudar, é melhor irem logo porque quando eu fui a fila estava imensa.
— Tá, então vamos logo.
No momento em que ia dar o primeiro passo pra seguir até à diretoria, em uma fração de segundo a atmosfera parece mudar de temperatura onde, do nada, Rebekah exclama: “Ai, lá vem ela!”
O barulho do corredor para em algumas conversas, elas são interrompidas como se uma presença de algo tomasse conta do ambiente.
Uma pequena parcela de alunos abrem caminho enquanto outros observam, como se um aviso invisível tivesse sido dado. Suzanne Meliz cruza o corredor.
Ela está impecável. Os olhos dela estão fixos para os seus. Não parece intimidada, vulnerável ou carregar a fragilidade de uma vítima.
Assim que ela passa ao seu lado, tudo parece estar acontecendo em câmera lenta. Aos poucos, seus lábios vão se curvando, até formar aquele famoso sorrisinho de canto de boca. Não parece um sorriso de pânico ou de agradecimento. É um sorrisinho sutil, uma certa forma enigmático.
Nenhuma linha em suas roupas ou em seu cabelo denuncia o horror que havia vivido no baile de inverno; a aura de "realeza escolar" permanece intacta, quase intocável. Ela não olha para as amigas que acenam e nem para os sussurros que inevitavelmente começam a circular assim que seus pés tocaram o setor.
Lavínia e Rebekah já iam dizer algo, porém, antes disso, Suzanne desvia o olhar com certa elegância continuando a caminhar deixando para trás um rastro de perfume caro e uma tensão que dá para cortar com uma faca.
— Ela está absolutamente impecável! Olha isso! Nem parece que sofreu o que sofreu no baile — Rebekah comenta.
— Parece que o tratamento psicológico dela deu certo. Eu não sei se teria coragem de voltar pra escola, no mesmo lugar onde eu quase fui assassinada — Lavínia diz.
— Nem me lembre dessa noite. É uma que eu quero esquecer pro resto da vida.
— Eu também — você diz — Será que o pessoal vai voltar a me acusar? Todos estão olhando pra mim agora mesmo.
E de fato, a maioria dos alunos presentes com aquele olhar que já viu antes anteriormente: aquele olhar de julgamento.
— Você quer que eu faça um escândalo? — Lavínia pergunta.
— Não, tá tudo bem. Eu só quero saber em que sala eu vou estudar. Tô com medo de ficar numa sala repleta de desconhecidos.
— Vamos. Eu levo vocês lá — Rebekah se prontifica.
— “S/N Montenegro, por favor comparecer à diretoria! S/N Montenegro, por favor comparecer à diretoria imediatamente!” — ordena Meredith nos alto-falantes.
— E lá vamos nós — Lavínia comenta.
— Você fez alguma coisa, S/N? — Rebekah pergunta.
— Como assim? O que eu poderia ter feito? Eu acabei de chegar — você diz.
— Quer que nós vamos com você?
— Não precisa. Mas com certeza é alguma coisa importante. Eu vou lá ver o que é. Depois eu volto.
— Volte mesmo — Lavínia fala.
Chegando na sala da diretoria, de primeira não é Meredith quem vos recebe. Suzanne está sentada na cadeira e os dois parecem estarem lá apenas à sua espera.
Mas não é só eles que estão lá.
— Bom dia, S/N. Que bom que está de volta. Seja bem-vindx à volta às aulas — o diretor Pascualli fala, direto e sem rodeios.
— Oi, Suzanne. Como está? — você pergunta.
— Oi, S/N — ela responde, porém, desta vez, séria — Er, por favor, diretor Pascualli, pode nos dizer o motivo que o senhor nos chamou aqui?
— Bom dia. Eu sou o investigador Micah Gnust e esse é o meu parceiro de trabalho, o detetive Josh Farmiga.
— S/N, acredito que ainda lembra do investigador Gnust, não lembra? — Pascualli pergunta.
— Acho que sim. Do caso do atentado contra Allison, não é? — você diz.
— Exato. Creio que vocês já devem saber o porquê estamos aqui — Micah fala.
— Eu já faço ideia.
— Estamos falando sobre o dia 14 de dezembro. O dia do baile de inverno da escola. Ainda estamos atrás do suspeito ou suspeita de ter cometido o quase assassinato de Suzanne no dia do evento. O que eu vim propor pra vocês é muito simples. Como o assunto já foi conversado dias depois do atentado, onde a senhorita Suzanne afirma não saber quem foi a pessoa responsável por tal ato e S/N Montenegro ter sido descartadx como a principal suspeita…
— O que eu ainda acho muito precipitado — Suzanne dispara chamando a atenção de todos.
— Me desculpe, senhorita Meliz?
— É que eu acho muito precipitado essa acusação ter saído das costas de S/N tão facilmente. Quem poderia comprovar que isso de fato não aconteceu pelas próprias mãos delx? — ela insinua olhando diretamente para você.
— O quê?! Mas você mesmo afirmou pra polícia que eu não tinha nada a ver com isso e sim, uma pessoa mascarada e de capuz e capa preta — você exclama sem acreditar.
— Eu disse. E é justamente por esse fato que tudo fica suspeito. A pessoa que me atacou usava capa, eu não pude ver o rosto. Quem me garante que inocentar S/N disso não foi um erro? Por causa do pai rico que comprou a polícia pra mirar a suspeita em uma outra pessoa que não possa nem existir.
— Erro mesmo é você fazer uma acusação dessas envolvendo o nome da polícia, mocinha. Tenha cuidado — Josh adverte.
— Eu sinto muito, senhorita Suzanne. As suas acusações não fazem o menor sentido. De fato, teve a interferência de um advogado de S/N para protegê-lx das acusações e o afastamento da cidade de Nevinny, que é algo que normalmente vai contra os protocolos da polícia, pois quando uma pessoa está sendo acusadas de algo criminal, uma tentativa de assassinato no caso, ela fica proibida de sair da cidade ou do país — Micah diz.
— E foi exatamente isso que elx fez, não é? Eu soube que S/N saiu da cidade. Se uma pessoa foge assim e o pai acoberta é porque tem algo de errado, não é? — Suzanne insiste.
— Mas o quê?! Meu pai não me acobertou de nada. Eu não vou ficar aqui ouvindo essas acusações. Quero falar com meu advogado, então — você retruca.
— Não, não será necessário, S/N. Mesmo porque o que Suzanne diz não tem o menor embasamento e nem… lógica. A polícia fez uma investigação minuciosa na noite do ocorrido, em cada perímetro, em cada área da escola e na proximidade. Não foram encontrados máscara e nem um tipo de capuz e capa preta conforme descrito utilizado pelo autor do crime na noite do baile. Então, com a defesa do advogado e a falta de provas, S/N pode ficar despreocupadx em relação à isso.
— Ótimo — você fala fazendo questão de olhar para Suzanne que nem lhe olha de volta. Parece estar incomodada.
— Bem, doutor. Afinal, qual é a proposta que o senhor decidiu fazer para S/N e Suzanne. Por favor, conte à elxs — solicita o diretor Pascualli.
— Pois bem — Micah inicia — Sabemos que já tem meses que o “incidente” ocorreu e que o assunto ficou meio morno nesse tempo de férias. Porém, com a volta às aulas há uma grande chance do assunto repercutir novamente. O diretor Pascualli, assim como a maior parte de funcionários da escola quer “abafar” o caso para manter as aparências e tentar evitar a desistência de mais alunos a continuarem estudando na escola.
— A desistência de mais alunos? — você questiona um pouco surpresx.
— Sim, er… com toda essa história, o Colégio Montreal perdeu uma quantidade considerável de alunos matriculados e o interesse de pais para novos alunos se matricularem caiu bastante — Pascualli explica.
— E é exatamente por isso que a partir de hoje estamos exigindo que vocês assinem um termo de confidencialidade ou, se preferirem, fiquem longe para evitarem fofocas. Não podem ter nenhum tipo de contato pra não criarem qualquer questão entre os outros — sugere Micah Gnust.
— Bom, isso é fácil. Nós não tínhamos nenhum vínculo antes. Agora, com tudo isso é que não vamos ter — Suzanne fala.
— Eu sugeriria outra coisa — você inicia — Se vocês querem que nós fiquemos longe pra não alimentar fofoca entre os estudantes, não seria melhor que fizéssemos o oposto e ficarmos mais próximxs? Assim o pessoal ia ver que não tem nada entre a gente e não ia ter nenhuma conspiração rolando, nem acusações.
— Eu não vou querer forçar nada. É melhor fazer como ele disse.
— Bom, se puderem assinar, aqui estão dois papéis, um pra cada — Josh entrega os papéis. Um para você e um para Suzanne, na qual ela assina na mesma hora.
— O que nós queremos é que vocês façam uma espécie de aliança e a ajuda de vocês vai ser muito importante para descobrirmos quem está por detrás do crime. Vocês não precisarão estar juntxs, serem melhores amigxs, mas precisam fazer uma tarefa simples e nos convocar assim que tiverem feito uma descoberta magnífica. Querem que fique de olho nos seus grupos de amigos, alunos não próximos e, se precisar, até prestarem bastante atenção nos professores se preciso — Micah fala olhando para o diretor Pascualli que fica bem incomodado com tais palavras.
— Mas o quê?! Por acaso o senhor está insinuando que um dos meus professores pode ter pelo menos uma única pequena probabilidade de ser um suspeito? Os meus professores são os melhores da cidade! Eles passam por teste psicológicos e tudo mais antes de fazerem parte do time de funcionários da escola. Nunca que eles fariam parte do grupo do Colégio Montreal caso tivessem alguma ponta sequer de psicopatia ou algo do tipo — Pascualli exclama, nervoso.
— Desculpa, senhor Pascualli, mas tanto os alunos quanto os professores precisam ser monitorados. Essa regra vale pra todos. Até pros envolvidos.
— Vocês falam tanto tudo no masculino, não é? Por que vocês falam assim? Pra vocês não pode ter a chance de ser a assassina também? — você pergunta.
— O que você quer dizer com isso, S/N? É apenas um jeito de falar — Pascualli afirma — Aliás o senhor Gnust até chegou a mencionar que poderia ter sido uma assassina que poderia ter cometido tal ato.
— Sim, é claro que pode. Uma das candidatas do baile seria uma boa pra gente começar a investigar. Nós sabemos que todas elas estavam na festa antes do crime acontecer, exceto a Suzanne. Isso já prova que nenhuma delas cometeu o crime. Não com as próprias mãos — você fala.
— Esse já é um bom começo. É uma boa estratégia começar a avaliar as outras candidatas — Micah diz.
— Não. Nenhuma das meninas faria isso. Se fizessem vocês já tinham descoberto. Por acaso, não investigaram elas? — Suzanne pergunta.
— Sim, de fato. Mas vocês, no caso, você, Suzanne, tem mais proximidade com elas. Sua ajuda seria de extrema importância por causa do seu olhar minucioso.
— Bom, então assim faremos. Vamos ficar de olho em qualquer um. Até quem estiver beeem perto.
— Pra mim também. Qualquer coisa pra me tirar do foco de toda essa confusão — você concorda assinando o seu termo.
— Ótimo. Por hora é o que temos pra conversar com vocês. Suas ajudas vão ser crucial pra encontrarmos o assassino ou a assassina. Isso também vai ser de extrema importância para ajudar S/N a se livrar dessa má fama que adquiriu. Eu lhe desejo boa sorte, S/N — Micah fala.
— Obrigadx. Eu mas acho que não vou precisar. Estou com a consciência tranquila.
— Foi exatamente o que aquele empresário brasileiro falou quando matou aquele gari, não foi?
— Será que essa reunião já acabou? Eu já me cansei de ficar ouvindo essa mal agradecida que encontrei ela jogada no gramado do jardim da escola. Eu tenho mais o que fazer. Diretor, eu não sei onde fica minha sala. O senhor pode me dizer onde fica, por favor? — você solicita um pouco exaltadx.
— Ah, isso não é comigo, S/N. Meredith está lá fora com outros professores nessa tarefa. Fale com ela — Pascualli responde enquanto ajeita o paletó e sentando-se na cadeira.
— Obrigadx. Micah, será que eu posso ir agora? Já assinei o termo. Acho que não tenho mais nada a fazer aqui.
— Sim, certamente. Eu também já vou liberar a senhorita Meliz.
De imediato você sai da sala e logo encontra o grupo reunido. Estão Allison, Cris, Lavínia e Rebekah e também Max.
— Ah, quem é vivo sempre aparece. Olá, S/N — diz Cris dando um sorriso malicioso enquanto masca um chiclete.
— Oi, S/N — Allison fala.
— Oi. Vocês vieram aqui por causa do chamado da Meredith? — você pergunta.
— É claro. Viemos te ver antes que as aulas comecem. Nós só vamos conseguir nos ver na horário do intervalo agora.
— Como assim? Por que você tá falando isso?
— Ora, S/N, você não lembra o que eu falei? Que seria provável que alguns de nós não ficássemos na mesma sala? — Rebekah fala.
— E eles fizeram pior. Bem pior — Cris declara — Parece que o pessoal da escola não quer nós estudando na mesma sala. Fomos todos separados. Heitor e Felipe nem ficaram na mesma sala.
— Mas eu ainda nem sei em que sala eu vou ficar — você fala.
— É muito provável que você fique na 2A. Foi a única sala que restou até a letra H — Allison afirma.
No mesmo minuto Suzanne sai da sala sendo acompanhada pelo diretor Pascualli. Micah e Josh ainda ficaram lá dentro, parecem ainda terem mais coisas pra conversar.
— Ah, olha quem está reunido logo na porta da diretoria. O grupinho dx suspeitx. O que vocês estão pensando em fazer? Querem me pegar pra terminar o serviço aqui na escola? Achei que seriam assassinos mais inteligentes.
— O que foi Suzanne? Eu não tô entendendo por que você tá falando assim comigo. Você sabe que eu não fiz nada contigo — você retruca.
— A Cynthia tem me falado coisas. O que ela me falou faz bastante sentido de você ou alguém da sua trupe ter tentado fazer isso comigo.
— Essa patricinha mixuruca já quer arranjar confusão no primeiro dia de aula. E eu não quero ser suspensa outra vez — Lavínia dispara já alterada.
— O que a Cynthia te falou? — você questiona.
— Eu não tenho que falar nada. Deixa eu ir pra minha aula. Esqueceu que nós assinamos um termo? É melhor você ficar bem longe de mim — Suzanne diz lhe empurrando seguindo caminho.
Os seus colegas apenas observam a situação com surpresa e você fica sem reação após ouvir tais palavras.
A porta da diretoria é aberta e o senhor Pascualli sai furioso querendo saber o que se passa.
— NÃO QUERO CONFUSÃO EM MINHA PORTA! VÃO PARA SUAS SALAS IMEDIATAMENTE! — ele exclama todo exaltado.
Os olhares curiosos dos alunos se transformam em medo quando eles notam a alteração na voz do diretor. Dificilmente ele fala desse jeito já quem toma as rédeas da escola costuma ser a dona Meredith.
Passos apressados começam a ecoar em todas as direções à medida que o corredor esvazia. Logo é você e seus colegas que decidem agir. Como havia falado anteriormente, ainda falta você saber em que sala de fato vai ficar. Então, assim, de imediato, seguem para onde está Meredith.

⌚️ Um tempo depois…
Quase duas horas tinham passado desde que ficou sabendo em que sala tinha ficado. Ao ter sido avisadx pela senhorita Meredith que sua sala era a 2A, como Allison havia suspeitado, foi difícil assistir às intensas e quase infinitas aulas confortavelmente sabendo que nenhum de seus colegas estavam lá.
Mas por que razão isso tinha acontecido. Teria sido feito um sorteio ou algo proposital? Isso foi o que você e seu grupo conversaram durante o intervalo: as possíveis teorias, os motivos, já que ambos disseram que haviam alunos que já haviam estudado juntos no ano passado na mesma sala agora esse ano.
Foi estranho ficar numa sala onde parecia ser seu primeiro dia de aula, como no primeiro ano onde não conhecia ninguém com todo aquele incômodo das pessoas te olhando como se fosse intrusx. Foi exatamente a mesma sensação.
Outro assunto que conversaram, claro, foi sobre o que aprontaram nas férias, o motivo do por que você não atendia às ligações e mensagens que seus colegas mandaram e, claro, o assunto mais recente: sobre você e Suzanne na sala da diretoria. E o que mais intriga, não sendo uma grande surpresa, talvez, é do porquê Cynthia está colocando caraminholas na cabeça de Suzanne tentando lhe acusar de ter cometido o quase assassinato da candidata à rainha do baile do ano passado. O que ela quer tentando lhe colocar no centro da história a todo custo onde tudo está se encaminhando pra ser resolvido? Isso parece um pouco suspeito, não?
Enfim, essa é uma questão pra ser tratada e resolvida em uma próxima ocasião. Talvez amanhã na escola. O dia já acabou e a noite iniciou há quase uma hora e você já está em casa descansando após um dia cheio e cansativo, com emoções, aulas, reencontros.
Houve um que ainda não ocorreu que foi o seu e de sua irmã, Lívia. A última vez em que se viram foi na noite do baile de inverno na delegacia e depois disso, não mais. Depois que saiu de Atelis pela manhã foi direto para a escola e as suas malas seriam enviadas assim que chegasse no apartamento. Estão horas exatamente do mesmo jeito de quando chegaram.
O relógio na parede da sala parecia correr mais devagar a cada minuto que passava. O silêncio do apartamento era quebrado apenas pelo tique-taque monótono e pelo som abafado do trânsito lá fora, na rua que começava a se despedir de mais um dia longo.
Ela está prestes a chegar em casa do trabalho. A qualquer momento pode cruzar a porta. Passou a tarde inteira pensando em qual primeiro assunto conversaria com ela quando ela chegasse, pois há vários, inesquecíveis até. Porém, essa demora não ia perdurar por tanto.
De repente, o som metálico vindo do corredor acende seu cérebro.
O barulho familiar das chaves batendo contra a fechadura. Um giro. Dois giros. Em seguida a maçaneta se move lentamente, e a porta de entrada se abre revelando a silhueta cansada que você reconheceria em qualquer lugar do mundo.
Lívia entra de cabeça baixa, os ombros caídos sob o peso de uma bolsa de trabalho volumosa e o cansaço visível de um dia exaustivo. Ela tira os saltos altos dos pés se equilibrando na porta e, levantando a cabeça bem devagar, enfim, ela lhe olha fixamente dizendo:
— Oi, S/N!
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