Os órfãos de Nevinny Vol.2

13 Crianças na mesa de adultos


Poderia ser um dia em que do outro lado da porta você aguarda seus amigos pra recebê-los em uma festa, qualquer comemoração ou quando estivessem para saírem pra algum lugar badalado. Mas não, não é isso o que ocorre neste capítulo.


Nat começa a delirar de impaciência antes que tudo comece, Lavínia já quer disparar e voar no pescoço da garota do lado de fora. Meghan nem dá bola e continua lendo seu livro de receitas como se nada estivesse acontecendo.


Mas não dá. Interrompeu-se o silêncio. A calmaria da manhã gélida de inverno logo tornou-se um caos. Daqui a pouco os vizinhos poderiam ver o que ou quem está a gritar lá fora.


— Mas o que é que essa menina quer aqui a essa hora? Alguém esqueceu de me avisar que ela viria? — Nat pergunta.


— Não, com certeza ninguém ia ousar em receber essa garota — Meghan afirma.


— S/N, vai lá atender a porta. É sua casa — Lavínia ordena.


— Eu tô indo. Mas eu não tô esperando a Jennifer vir pra minha casa. Nem nos meus mais lúcidos sonhos — você diz.


— Mas parece que ela espera que você atenda. E depressa — Nat comenta enquanto olha para Meghan um pouco apreensivx.



Quando a porta finalmente foi aberta, Jennifer não pediu licença. Ela entrou com o seu perfume caro deixando um rastro de agressividade no hall de entrada.


— Nós vamos conversar sobre o Réveillon. Agora! — ela sentencia, virando-se para lhe encarar — E não me venha com essa cara de espanto idiota que você faz toda vez que me vê.


— Ei, ei! Pode parar por aqui! Você invade a minha casa e ainda vem me ofender na frente de todo mundo? Pode sair agora! — você ordena.


— Na frente ou com sem frente, eu tenho todo o direito do mundo de fazer isso e você sabe — ela para, olha para Lavínia e diz: — O que essa garota tá fazendo aqui?


— Essa garota tem nome. É Lavínia. Fico surpresa que minha presença te incomoda. Ou fico até satisfeita. Agora eu no seu lugar ficaria mais incomodada ainda. Você não tem vergonha de ser conhecida como a garota que apanhou feio na frente de todo mundo numa escola em Nevinny? — ela gargalha — Eu não teria coragem de ir a nenhum lugar sendo vista como fracassada.


— A única fracassada que eu to vendo aqui é você, suburbana. Aliás, você não lembra que aquela garota também apanhou de mim? Não lembra como eu agarrei nos cabelos dela, olhei bem nos olhos e dei uma surra daquelas? Patricinhas também sabem sair no tapa. Se quiser experimentar do que eu sou capaz…



Lavínia já ia feroz em direção à Jennifer quando é interrompida por Nat, na qual a mesma desiste no mesmo minuto.



— Como você é baixa, garota. Diz logo o que você quer e vai embora — Meghan ordena.


— Por que você barrou ela, Nat? Deixa ela vir pra cima de mim. Com o ódio que eu tô sentindo seria ótimo descontar isso em alguém — Jennifer provoca fazendo Lavínia se aprontar para o embate. Porém, agora, é barrada por você que está mais próximx de Jennifer. Meghan, por sua vez, pega Lavínia pelo braço indo para um lugar mais afastado.


— Diz logo o que você quer e vai embora — você fala.


— Meu pai tá muito bravo com a atitude de Joseph. Que ideia foi aquela de levar dois veículos que estão pra serem lançados no mercado esse ano pra fazer uma demonstração só pra agradar a família Svidetel?


— Eu não tô acreditando que você veio a essa hora da manhã pra invadir a minha casa pra falar disso — você fala, um tanto incomodadx, sentando-se no sofá — Por que você veio falar desse assunto? Eu não aguento mais.


— Eu não tô nem aí se você não aguenta mais. Na verdade, eu também não. O meu pai sai e entra de casa falando desse assunto. É praticamente o dia todo. Mas olhando por um lado ele está totalmente certo. O seu pai foi irresponsável em tomar essa atitude. E o que aconteceu com aquele táxi voador foi a cereja do bolo pra piorar as coisas. Os nossos pais são os investidores desse negócio, mas por que ele foi fazer isso pra agradar a família dos Svidetel? Por acaso ele esqueceu do transtorno que esse homem trouxe pra gente? Inclusive pra Joseph. S/N, seu pai sabe que Yuri não é um homem confiável. Ele entregou o seu pai pras autoridades e agora provavelmente deve ter feito mais alguma coisa pra finalizar tudo com bom estilo.


— Do que você tá falando? Eu também concordo que meu pai foi irresponsável. Ele disse que seria um presente pra família Svidetel como forma de “apaziguar” as coisas, mas o que você falou é uma incerteza. Não tem provas que foi o senhor Svidetel que entregou o meu pai pras autoridades. Apesar dele ter merecido. Isso é uma suposição. Aliás, por que ele convidaria o meu pai pro réveillon dele? Não tem sentido a não ser se o objetivo for isso mesmo que ele propôs.


— Como vocês têm alguém tão obtusx como amigx? Não é possível uma coisa dessa — ela pergunta rindo debochadamente.


— Tá bom. Já chega. Pode sair da minha casa. Se não for pra falar nada de útil e só veio aqui pra ofender a mim e meu pai, você já pode sair agora. Tudo está sendo encaminhado, meu pai tá arrependido da besteira que fez, ele está cheio de problemas, assim como o seu que tá bem preocupado como você mesma falou. Então deixa que eles se resolvam. Isso não tem nada a ver com os herdeiros dos negócios — você fala pegando Jennifer pelo braço levando-a à porta.


— Me solta. Não me pega assim — ela reclama.


— S/N, para. Jennifer pode estar tentando te falar alguma coisa. Talvez possa se interessar — Nat fala chamando sua atenção.


— E por acaso você sabe o que é? Porque se souber, era melhor ter dito logo sem precisar de todo esse espetáculo. O que a Jennifer tá querendo dizer?


— Ela nem precisa dizer, porque eu já disse antes e você não quis escutar. Dessa vez eu vou ter que concordar com a patricinha e te chamar de lesa, S/N. Você não tá vendo o que ela disse? Aquele russo não é confiável. Nenhum deles é. Eu tenho certeza que foi ele que armou pro seu pai, S/N. Essa aí acabou de confirmar só pelo que ela disse. Tem mais coisa que você quer dizer pra gente, patricinha? Pode falar. Você quer um biscoito, um chá? Eu mesmo te sirvo — Lavínia pergunta.


— Essa garota tá se achando a dona da casa, é isso mesmo? Obrigada, suburbana. Mas, não.


— Nat? Meghan? O que vocês acham? Nós já falamos sobre isso. Mas seria mesmo uma possibilidade? — você pergunta.



O silêncio fica no ar por dois segundos até Nat interrompê-lo.



— É… nós já falamos sobre isso, lembra? Não é uma hipótese pra se descartar. Sabemos que a família Svidetel tem seus mistérios e teorias. Sabendo que seu pai e o Yuri tiveram algumas desavenças no passado, então… por que não seria possível?




​Repentinamente sua cabeça lateja por uma fração de segundo. A confirmação de Nat sobre as desavenças passadas entre Joseph e Yuri traz um peso novo para o acidente. É uma questão que já havia sido conversada anteriormente, porém pouco importada. Se essa teoria estiver certa, então não será algo apenas sobre ego, mas quem sabe sobre até uma possível vingança de longo prazo.



— Tá, e se essa teoria que vocês estão falando for mesmo verdade? O que a gente pode fazer? Eu já disse que não somos nada diante disso. Já falei que é uma briga de cachorro grande e o melhor a se fazer é a gente ficar quieto deixando tudo se resolver. Aliás, aos olhos deles nós somos apenas crianças mimadas e o que a gente falar ou cogitar vão dizer que não entendemos nada e que é tudo criação da nossa cabeça. Já disse e repito: eu não vou me meter nessa história. Já tenho problemas demais pra lidar. Eu sei que meu pai está no furacão e o que eu puder ajudar eu vou ajudar, se ele estiver certo, mas… eu não posso lidar apenas com insinuações — você declara em alta e firme voz.


— Você tá sendo muito egoísta. Eu pensei que você daria o seu sangue pra proteger pelo menos o império da sua família custando o que custar. Mas pelo visto eu estava redondamente enganada. Você vai largar a mão do seu pai assim tão fácil e apenas não se importar? — Jennifer questiona, incrédula com a sua resposta.



Dito isso, um silêncio ensurdecedor atinge a sala e todos olham para a mesma direção. Em um ponto atrás da sala, a porta de um dos armários corre rapidamente e um tilintar é emitido. Joseph põe um whisky em sua taça tomando-o e vestido agora em uma roupa bem descontraída dirige-se ao centro da sala a ponto que todas as atenções sejam certificadas que estão voltadas para ele.



​— Vejo que a recepção está lotada — Joseph diz com a voz grave silenciando a discussão.


— Pai,eu… er… — você tenta iniciar a fala.


— Nem precisa dizer algo. Eu ouvi tudo. Vocês… “crianças”, como S/N disse, parecem se preocupar tanto com esse mundo. Fico feliz que de algum modo estão determinadxs a encontrar um culpado nessa história — ele suspira — Mas, eu quero que saibam que não precisam se preocupar, pois não há outro culpado nessa história a não ser… eu.


— Ah, finalmente uma coisa sensata de se dizer. Ainda bem que sabe que o senhor teve a ideia de levar aqueles veículos pro navio do senhor Svidetel, o que foi uma ideia idiota, me desculpe pela ofensa, mas meu pai e eu sabemos que foi uma coisa absurda, mas é da familia Svidetel que estamos falando. O senhor sabe como eles são perigosos, meu pai me disse o que houve no passado e pelo o que eu entendi ele não é de esquecer as coisas tão fácil.


— Jennifer, eu admiro sua preocupação e sua inteligência é impecável. Mas, você não acha que está levando esse lado duvidoso e investigativo um pouco a sério demais?


— Mas, senhor Joseph — Lavínia pigarrea em seguida fazendo uma reverência — Me desculpa interromper, peço toda a sua licença, mas a patricinha tá certa. Eu já falei isso prx lesadx dx S/N sobre essa história, mas não foi levado tão a sério. Tipo, isso faz mais sentido ainda parando pra pensar depois que essa mocinha falou isso tudo. O senhor não pensa assim? Não se preocupa que o russo lá pode estar armando pra cima do senhor e da sua família?


— Por favor, não insulte alguém da minha família numa ocasião dessa. Isso é muito importante.


— Me desculpa — ela fala.


— E não. Eu não tenho receio de que Yuri Svidetel possa fazer algo contra mim ou à minha família como você mesmo mencionou. As nossas questões já foram tratadas e a família Svidetel e eu estamos em momentos de paz.


— Como se pode ter paz tendo um doido russo por perto? Dentro de um daqueles táxis estava o filho mais velho dele. O primogênito. Caso acontecesse alguma coisa com ele… — Jennifer inicia sendo interrompida por Joseph a seguir.


— Caso tivesse acontecido alguma coisa com certeza alguém arcaria com as consequências, mas felizmente isso não aconteceu.


— É, eu acredito que as coisas estão se resolvendo da melhor maneira — você inicia — Eu e meu pai sabemos como anda tudo. Acontece que a Jennifer apenas veio dar seu show antes de qualquer coisa. Nós estamos cientes de tudo, meu pai está seguindo as etapas e lidando com as consequências do que ele fez. E eu vou fazer o que eu já disse que vou fazer e o que ele me pediu que é o mesmo que eu peço pra vocês. Vamos viver nossas vidas e deixar pra quem entende dos negócios cuidar do restante. E é isso.


Perante isso, todos ficam em silêncio e, seu pai, Joseph, lhe olha com uma expressão parecendo felicidade ou orgulho contido. Jennifer, por sua vez, parece não aceitar muito bem suas palavras enquanto balança a cabeça em sinal de negação e, dando uma breve risada, ela põe-se a dizer:


— "Viver nossas vidas"? S/N, você fala como se estivéssemos em um subúrbio de classe média e não no epicentro de uma guerra de ativos. Esse homem é perigoso. Todos nós sabemos que ele não é confiável. Ficar esperando ele atacar de qualquer forma não é uma coisa inteligente.


— E ficar à beira de um ataque quase tendo um surto também não é. Você pode estar certa sobre o que falou, mas também pode não estar — Nat fala na tentativa de desviar de assunto.


— Incidentes diplomáticos não se resolvem com escândalos no conselho ou vazamentos de vídeo. Resolvem-se nos bastidores. Onde você, infelizmente, ainda não tem convite para sentar à mesa — Joseph afirma — Desculpe, senhorita Elliot, com todo respeito à você, seu pai e sua família e com todo respeito à mim também, eu desejo não continuar mais nessa conversa. Já foi muito ter que aguentar essa invasão repentina e os repetidos toques na minha campainha na minha casa nessa manhã, na qual foram bastantes e suficientes pra me tirarem do meu aconchego, agora ter que aguentar essa conversa por mais tempo, realmente, pra mim não dá mais. Eu, gentilmente, peço a licença de todos.


Joseph não esperou por nenhuma resposta. Com um aceno de cabeça imperceptível, mas carregado de uma autoridade que encerra qualquer possibilidade de réplica, ele girou sobre os calcanhares e, ainda segurando sua bebida caminha para a mesma direção em que veio.



Jennifer fica estática quase explodindo de raiva pronta pra falar algo, mas só se pronunciou quando Joseph sumiu do ambiente.


— Você ouviu ele, Jennifer. É melhor você ir. E da próxima, antes de fazer esse circo todo pelo menos avisa antes de chegar — Meghan diz com a voz baixa porém direta.


— Você e seu pai vão se arrepender em não querer me escutar. Joseph pode ser um mestre dos bastidores, mas o mundo lá fora é movido a óptica. E a óptica de vocês, neste momento, é de um castelo de cartas esperando o vento soprar — ela retruca logo indo em direção à porta e por seguida saindo.


Nat, Meghan e Lavínia lhe olham por alguns segundos um pouco incrédulxs e incomodadxs com o que acabaram de presenciar.


— Nada além de mais um dia normal em Atelis. Um dia sem Jennifer incomodando nossas vidas, não é um dia em Atelis — você fala.


— Tadinha da garota. Praticamente saiu escorraçada daqui e ela só veio tentar ajudar — Nat comenta.


— Tadinha nada. Ela foi inconveniente… — Meghan afirma — Mas também falou algo sério.


— E muito. Vocês deveriam dar moral pra patricinha. Ela ‘tava muito convencida. Até parecia que sabe de alguma coisa. Vocês não notaram? — Lavínia pergunta.


— Ela não sabe de nada. O meu pai é quem sabe. Aliás, é ele quem tá arcando com todas as consequências. Ele sabe muito bem o que fazer. Eu já disse, não se preocupem. Só vamos continuar o plano de não nos metermos. Logo mais teremos notícias sobre tudo isso e ele vai ser inocentado de vez — você assegura enquanto lê uma mensagem de Lívia no celular. A mensagem em questão é sobre Lívia saber do suposto vídeo fake do táxi voador explodindo em meio ao mar que circulou em algumas redes sociais por esses dias.


— Bom, e o que a gente faz agora? — Lavínia pergunta.


— Nada. Você não ouviu? A gente vai voltar pro que estávamos fazendo antes dessa doida aparecer.


— Exato — você reforça, guardando o celular no bolso com um movimento seco.

— O espetáculo já teve audiência demais por hoje.


​Lavínia solta um suspiro pesado, cruzando os braços enquanto olha para a tela apagada da televisão, onde antes passavam os plantões de notícias. O silêncio que se instala na sala é denso, carregado por aquela sensação incômoda de que, embora o plano fosse "não fazer nada", o mundo lá fora continua girando em uma velocidade perigosa.


​— Só espero que o seu pai saiba mesmo o que está fazendo.