Os órfãos de Nevinny
102 Rastros
Subindo as escadas em passos apressados, mais uma vez você se encontra indo em direção da delegacia. Dessa vez não por se meter em encrenca ou por ser acusadx de algo que não cometeu, mas pela ânsia de buscar por esclarecimentos que solicitam por sua ação desde que palavras foram ditas por outrem quando esteve no velório de dona Leca Rosanini há alguns dias.
Com a delegacia estando praticamente vazia, certamente pelo avanço da neve na cidade, ficará mais fácil de encontrar com o delegado Zhylan pra tentar obter respostas da boca dele e também pra ver o que ele terá pra falar em base nas suas palavras.
O que te deixa hesitante é em saber se o que você disser poderá deixá-lo desconfortável e novamente lhe ameaçar outra vez caso não tenha certeza do que está dizendo, da mesma maneira como foi falar de Mirella naquela vez que esteve na delegacia acompanhadx de sua irmã Lívia e a recém falecida. Porém, ao mesmo tempo, você julga isso como algo que deve ser tratado com urgência, de alguma maneira.
Desse modo, não ligando pros seus pensamentos, decide de uma vez chegar no balcão, decididx.
— Por favor, eu quero falar com o delegado Zhylan. Ele tá aí?
— O delegado Zhylan se encontrar ocupado na sala dele. O que você tem pra falar com o delegado? — o recepcionista pergunta.
— É assunto pessoal. Na verdade eu tenho uma denúncia pra fazer.
— Ótimo, você pode fazer aqui comigo agora.
— Mas isso tem que ser uma conversa com ele, é um assunto que a gente já tinha conversado antes.
— Não é possível tratar um assunto diretamente com o delegado, ele é a maior autoridade aqui. Mesmo que seja um conhecido precisa ser registrado antes um agendamento.
— Mas ele me conhece, se você disser pra ele quem tá chamando e o assunto que eu quero falar ele vai concordar em falar comigo.
— Sinto muito. Você não tem o telefone dele já que diz que o conhece?
— Não, mas... eu conheço o oficial Padalecki — você diz.
— Quem é o oficial Padalecki?
— Jared Padalecki, pai de Allison que uma vez levou um tiro na parada de ônibus.
— O oficial Padalecki não trabalha nessa unidade. Ele é policial exclusivo de Miríade. Mas sim, eu conheço ele, mas isso não te dá acesso livre pra falar com o delegado Zhylan, só se for algo muito importante.
— Ora, ora, ande, Murilo. Eu tô vendo vocês na câmera lá da minha sala. Ta acontecendo alguma coisa por aqui? — o delegado Zhylan chega com uma expressão séria deixando o recepcionista um tanto nervoso — Ah, você... tá fazendo o quê aqui de novo? — ele lhe olha pondo a mão na cintura.
— Er... bom, pelo visto vocês se conhecem mesmo. Zhylan, elx quer falar com você, disse que te conhece. Pela insistência deve ser alguma coisa muito importante. Talvez mais importante do que estudar pra escola. Aliás, você não devia tá na escola uma hora dessa?
— Já é à tarde. Eu estudo de manhã — você dispara.
— Bom, sim, sim, eu conheço. Vem, ande, vamos até à minha sala. Se você quer tanto falar comigo então que seja importante, só espero não desperdiçar meu tempo. Murilo, obrigado pela recepção e continue vigilante aqui pela área.
— Sempre, chefe — Murilo diz.

Ao chegar na sala do delegado Zhylan, ele vai logo tirando o terno que usava jogando por cima da cadeira em que se senta.
— Já tem um tempo que você esteve aqui. A última vez que veio foi com sua irmã, não foi? Ela e aquela senhora que...
— A dona Leca. Ela 'tava com a gente da última vez que eu vim — você fala.
— Exato. Naquele caso que você foi acusadx de ter feito algo contra a dona Amelita, não é?
— É isso. Mas não foi sobre a dona Ami que eu vim falar. É sobre a dona Leca mesmo, a amiga de dona Ami
Você dá uma breve pausa e diz:
— Ela morreu. A dona Leca, a amiga. Você já deve saber disso, é recente.
— Uhum, eu sei. O que tem a morte de dona Leca? — Zhylan pergunta.
— Bom, eu não era tão próximx de dona Leca e também não conhecia ela tão bem, mas eu estive no velório dela que aconteceu. Fiquei sabendo do que tinha acontecido por dona Ami, mas eu fui mesmo não conhecendo ela há tanto tempo. Ela me defendeu dizendo que eu não era quem vocês estavam procurando naquela noite quando todos os outros só queriam me acusar — você fala.
— Sei. Continue.
— Acontece que no velório dela eu acabei ouvindo uma conversa que eu desconfiei e fiquei pensando sobre o quê 'tava sendo falado. Eu ouvi eles dois conversando baixo, mas deu pra escutar bem o que 'tavam falando.
— Eles quem? — Zhylan pergunta pondo a mão no queixo.
— Tinham dois homens no velório e a afilhada de dona Leca chorava bastante. Próximo ao caixão tinham dois homens que ficaram conversando baixinho. Um deles inclusive conhecia a afilhada de dona Leca, agora o outro eu já não sei quem era.
— Certo.
— Mas teve uma hora que me chamou atenção quando um deles mostrou um saquinho transparente que parecia um pozinho branco e entregou pro rapaz que conhecia a afilhada de dona Leca.
— Que pozinho?
— Eu não sei. Eu 'tava um pouco longe, mas quando eu vi o homem que mostrou o pozinho pro rapaz que conhecia a afilhada de dona Leca escondendo o saquinho bem rápido no bolso do paletó eu fiquei desconfiadx, então eu me aproximei quando vi que ele ficou olhando para os lados e começaram a falar baixinho — você declara.
— Hum, eu já sei onde você tá querendo chegar, mas eu vou te deixar finalizar — Zhylan fala dando um sorrisinho.
— Quando eu cheguei perto deles eu escutei coisas do tipo que aquele pozinho pode ter sido a causa da morte de dona Leca, onde todo mundo 'tava falando que ela morreu asfixiada. Eu não tô lembrando o nome agora, mas eu lembro o que o rapaz disse. Ele disse que era muito perigoso e que se usasse em grande quantidade podia causar asfixia em alguém bem rápido.
— Causar asfixia? — ele pergunta.
— É.
— Então você tá me dizendo que aquela senhorinha usou alguma substância indevida? É isso que tá me dizendo?
— De início eu pensei que era, até eu ouvir o restante da conversa — você fala — Dona Leca nunca teria necessidade de fazer isso, ainda mais na idade dela e também conhecendo ela pessoalmente.
— Mas isso não quer dizer nada. Às vezes pode se enganar em relação ao caráter das pessoas.
— Eu sei, mas não no caso dela. Eu ouvi quando o homem mais velho que guardou o pozinho no bolso disse que ela pode ter sido induzida a fazer o uso da substância. E ele também disse que tinha marcas de luta pelo corpo. Você não sabia disso? Pelo menos foi o que eu entendi.
Zhylan dá uma breve gargalhada, então diz:
— Como é possível? Você de novo se baseando em coisas que acha que ouviu. Eu já não te falei que isso é perigoso? Não pode sair falando coisas assim da qual não tem certeza.
— Mas eu tenho certeza. Eu sei o que eu ouvi. Eu não 'tava do lado deles pra ouvir tudo perfeitamente mas eu 'tava bem próximx e deu pra ouvir bem. Foi exatamente isso que os dois homens falaram.
— Mesmo assim — ele respira suavemente — Ok, eu sei que você tá querendo ajudar, mas você tá falando uma coisa bem séria. Como você não tem provas concretas eu vou ter que tratar isso apenas como suspeita.
— Eu não tenho provas, mas eu sei o que eu ouvi. Assim como minhas suspeitas eram verdadeiras na outra vez que eu vim. E eu também nem tinha provas — você fala.
— É, você realmente tinha certeza quando esteve aqui naquela noite.
— Então você vai investigar os dois rapazes? Vai fazer perguntas pra eles?
— Você nem os conhece — Zhylan diz.
— Não, mas eu sei que um deles conhece a afilhada de dona Leca. É só ir atrás dela que vocês encontram o rapaz. Vocês sabem fazer isso, eu já vi como vocês trabalham nos filmes e nas séries.
Zhylan gargalha mais uma vez.
— E você acredita mesmo que o nosso trabalho por aqui é exatamente do que é mostrado lá? Aquilo é apenas uma caricatura.
— Certo. Mas você vai investigar ou não vai?
— Não preciso. A equipe médica já tinha nos passado alguns detalhes e estamos ciente de tudo. Só estamos aguardando os resultados oficiais. Na verdade ele já está conosco, só precisa passar por uma última etapa de avaliação e outras coisas. Ou você achava mesmo que a gente já não sabia disso? Tudo o que você falou aqui foram só meras palavras. Mas vendo o seu jeito, eu acredito que você já tem certeza do que aconteceu e veio aqui pra saber a resposta de quem fez isso, não é?
Você fica sem palavras por alguns segundos e engole seco à medida que o ar parece ter parado de circular em seu organismo por um instante. Voltando à tona e retomando o fôlego gelado que parece passar diretamente pela sua boca, então você fala:
— Então... quer dizer que eu 'tava certx? Foi isso que aconteceu? A dona Leca...
— Se ela foi assassinada? Sim, essa é sua resposta. As evidências são óbvias. O uso de cianeto em alta quantidade, as marcas de luta. Nossa, isso foi tão fácil pros médicos identificarem. Agora a família acha que foi apenas uma toxicacão por alergia, ou parada cardíaca por causa da idade. As marcas de luta pode ter sido qualquer coisa. Ela não ficou tão machucada. Dona Leca era uma senhorinha que morava só, pode ter caído ou tropeçado alguma vez em casa. Enfim, qualquer coisa pode ter acontecido — Zhylan diz se aconchegando na cadeira pondo os braços em volta dela.
— Tá, mas se foi isso, por que alguém iria fazer uma coisa dessa com ela? Ela era apenas uma senhorinha — você diz não querendo acreditar.
— Bom, o motivo e a identidade de quem fez isso vai ficar pra uma outra hora. Em breve pode ser que todos possam saber ou também pode ser que não. Não é assim que funciona a mídia? Esse é um caso pequeno, talvez as pessoas nunca saibam.
— E quanto à família? Vocês falaram alguma coisa dessa pra ela?
— Sim, no momento eles já estão sabendo. Mas decidimos não falar sobre o assassinato. Isso só deixaria a família mais triste e além disso poderia manchar um pouco a reputação da cidade.
— Mas isso não é errado? — você pergunta.
— Eu só estou seguindo ordens. Não é tudo que eu possa fazer. Mas nós estamos buscando quem possa ter sido responsável. Não sei quanto tempo isso pode demorar.
Dito isso você começa a pensar em um certo alguém que já não tem mais notícias há alguns dias. Como Zhylan é delegado de polícia certamente ele deverá saber de notícias atuais a respeito dela.
— Er... delegado, eu sei que eu não deveria perguntar isso, talvez o senhor não queria nem responder, mas... como está a Mirella? Já tem um tempo desde que ela foi presa pelas acusações contra ela, mas depois disso eu não ouvi mais ninguém falar nada. Você tem notícias de como ela está?
— Livre.
— O quê?!
— Eu disse que a senhorita Mirella está livre — Zhylan afirma.
— Mas o quê?! Como isso é possível? Ela não tinha sido acusado e presa por causa dos crimes que ela cometeu e agora ela tá livre? — você questiona, exclamando, sem querer acreditar no que acabara de ouvir.
— Exato. Você já disse tudo. Ela foi acusada de cometer tais crimes, inclusive você a acusou, na verdade você foi quem a acusou primeirx. Depois veio a dona Leca e também a senhorita Ami que foi a vítima da história naquela noite em que ela foi encontrada amarrada no armário na companhia de uma, acredito que é prima distante, na qual veio fazer a queixa.
— A dona Leca e a prima da dona Ami vieram denunciar a Mirella?
— Sim, elas vieram. E foi por causa disso que nós decidimos começar a investigá-la até chegar no momento de sua prisão.
— E por que vocês soltaram ela? — você pergunta.
— Falta de provas. Alguém pagou a fiança pra que ela saísse da cadeia, mas não encontramos provas concretas pra que nós da polícia mantivéssemos ela lá.
— Eu não acredito nisso. E quem foi que pagou a fiança dela?
— Isso é restrito, infelizmente não posso fornecer informações a respeito de transações de pagamento de fiança dos ex-presos.
— Mas você tá me falando tudo agora. Por que não pode me falar? — você questiona.
— Eu apenas posso falar o básico já que foi você que começou essa história — ele diz.
— Eu comecei a história? Que história?
— A história de Mirella. Quando estávamos naquela sala na noite em que vieram você, a velhinha falecida e sua irmã, Lívia, tinham policiais escutando o que conversávamos do outro lado da parede. Acontece que eles ficaram intrigados com as suas acusações e também da velhinha falecida e foi aí que decidiram entre eles que nós tínhamos que investigar.
— Tá, e isso não é bom?
— Se é bom? Claro que é. Mas eu não iria fazer da maneira que eles disseram e sim da minha forma.
— E qual seria essa forma?
Zhylan nada diz e lhe olha por alguns segundos cerrando levemente os olhos. Após um respiro profundo ele olha para os lados parecendo insatisfeito com algo.
— Bom, acredito que você acabou o que veio fazer, não é? Tem mais alguma coisa pra acrescentar?
— Não — você responde brevemente.
— Certo. Suas informações vão ser avaliadas, agora é só esperar por respostas. Se não for incômodo eu preciso resolver algumas coisas urgentes. Hoje o dia tá cheio de registros de ocorrências.
— Acho que falei tudo o que sabia. Você promete que vai olhar com cuidado? Se tiver mesmo um assassino, ele não pode ficar solto.
— Tá, tudo bem. Prometo que vou verificar. Agora, por favor, eu preciso ir. Até mais.
— Tá bom. Tchau.
Assim que você passa pela porta que foi rudemente batida, logo começa a pensar nas palavras ditas pelo delegado Zhylan. Porém, sabendo que uma delegacia de polícia não é um local que quer estar no momento decide levar consigo os seus pensamentos para refletir o mais rápido e longe possível.
Fale com o autor