Os órfãos de Nevinny

100 Passado amigo do presente



Está uma linda noite e você está sentadx na areia roxa da praia enquanto observa a gigantesca lua que toca a água refletindo seu brilho prateado sobre ela clareando todo o espaço lhe fazendo sentir como se estivesse em transe presx num paraíso na qual jamais quer se ausentar.


O ambiente está muito tranquilo e essa noite as ondas do mar estão muito calmas, na verdade, inexistentes, podendo-se ouvir apenas o cantar dos grilhos que estão escondidos entre as plantas atrás das cabanas de descanso.


A paz do ambiente e o êxtase lhe deixam distante lhe fazendo refletir em eventos passados e também em futuros ao passo que admira toda a paisagem.


De repente, seu interior volta para si lhe fazendo despertar ao sentir um leve toque de uma mão em seu ombro direito e, sentando-se ao seu lado você encontra o rosto de alguém conhecido e amigável.


— Tá uma linda noite, não é?


— Oi Victor, boa noite — você diz — É, hoje a lua tá linda. Tudo bem com você?


— Sim, está tudo bem comigo. O que você faz aqui fora? Onde estão seus amigos?


— Eles estão dormindo na cabana. Ou maioria deles. Rebekah lutou um pouco pra conseguir dormir, mas ela parou de gritar, então acho que ela deve ter conseguido.


— Também depois do que ela viu, não seria surpresa ela ficar assim — Victor fala com uma expressão séria.


— Lavínia e Cris estão bem. São quem mais dão palavra de incentivo e força pra Rebekah, e também ajudam pro clima não pesar tanto. Sempre estão querendo fazer a gente sorrir e não pensar tanto.


— Entendo.


— Já Allison pensa demais. Confome as coisas vão acontecendo sempre pensa num possível próximo passo do que pode acontecer e sempre tentando ajudar a gente a se preparar. Isso acaba me levando a pensar também — você fala dando um breve suspiro.


— Eu sei, eu tô vendo. Mas é exatamente isso que não pode fazer: pensar demais. Eu conheço esse suspiro, é de alguém que tá com cansaço elevado mas que ainda tá tentando suportar. Já vi muitos casos.


— O que os outros fazem pra superar?


— Os outros são os outros, mas eu estou aqui pra cuidar de você. Eu vou te ajudar — Victor fala.


— Tem sido tudo tão intenso. A minha cabeça não para de pensar. Às vezes acho que tô enloquecendo. Escuto coisas na minha cabeça, tento não pensar em certas outras coisas. Foi tudo tão de repente e eu ainda vim pra essa cidade achando que ia melhorar, mas...


— S/N, S/N, calma. Vai devagar. Eu sei o que você tem passado, eu estive te observando. Confesso que vi certas coisas a seu respeito que não gostei, mas eu sei que pra tudo tem um motivo — ele fala.


— Será? Ou será que eu não sou apenas uma pessoa má e vingativa?


— Não. Essa pessoa de quem você fala não é aquelx S/N que eu conheço. Você só está confusx. Só isso.


— Será mesmo? Ou será que você só conheceu minha parte quando estava vivo? Agora que você não tá mais entre a gente tudo mudou. Mas não foi só isso. Você sabe, tem meu pai e...


— Eu sei, S/N. Todo mundo sabe. Assim como Megan, Nat. Inclusive, você tem falado com eles?


— Com Nat eu falei há algum tempo. Disse que ia fazer um intercâmbio ou era um estágio na NASA — você fala — Megan eu não sei se ainda gosta de mim. Pelo que eu soube não mais. Mas isso também não importa. Ela não sabe o que eu passei.


— Você tem que voltar à cidade de Atelis, S/N. Tem que rever seus antigos amigos e também visitar a minha família. Eles ainda sentem sua falta. Eu era seu melhor amigo!


— Como eles estão?


— Se quisesse saber mesmo já tinha ido atrás. Mas eles estão bem. Ainda recebem visitas de Nat e Megan. Mas você precisa ir também. Pelo menos em alguma temporada.


— Não precisa falar assim.


— Tá bom. Me desculpe. E sim, eles estão bem. Mas você precisa saber, S/N: eu não vim falar com você essa noite por acaso. Você tem que ter cuidado. Eu sei que o perigo pode rondar a todos e qualquer pessoa, mas tem algo envolvendo essa cidade na qual você não tem total conhecimento. Não pode ficar "moscando" e se metendo onde não deve.


— Mas como você sabe onde eu tô me metendo? Nem eu sei onde eu tô me metendo.


— O perigo tá sempre à espreita. Não é em qualquer pessoa que se pode confiar. Não tem como eu dizer quem são elas, pois é na sua companhia que eu posso me manter. Mas eu repito: não confie em qualquer um.


— Eu bem sei disso. Nem precisava avisar.


— Olha! — Victor fala olhando para cima apontando para umq posição certa fazendo com que você veja.


Ao olhar para a direção apontada no céu, nota uma pequena esfera que parece estar lentamente se aproximando.


— O que é aquilo? — você pergunta.


— Aquilo é a lua — Victor responde.


— O quê? — você ri — Vermelha? Como pode a lua estar vermelha se ela tá bem na minha frente?


— Isso é um sonho, S/N. Você precisa interpretar.


— Tá. Então por que ela tá assim? Por que ela tá descendo?


— Não tem muito mistério. Quer dizer, na verdade tem. Isso é sinal de alerta.


— Bom, se você tá querendo me deixar com medo precisa se esforçar mais.


— Não é hora de brincadeiras, S/N. As pessoas estão ficando cada vez mais malucas. Você já deve bem ter notado que algumas coisas não comuns estão acontecendo. Sua tentativa de encontrar respostas para o que precisa precisa ser melhor avaliado. Você pode estar se metendo em coisas perigosas. Talvez a sua frustração em não encontrar tudo de fato seria melhor pra te fazer desistir.


— Me fazer desistir? — você pergunta — Mas Allison e eu parece que estamos bem perto de saber o que a gente quer.


— Sua mente não raciocina direito. Qual parte dela te faz agir assim?


Você olha para cima para a lua que está um pouco mais baixa do que anteriormente.


— Isso é só o início. As coisas estão mudadas. Eu consigo sentir isso do meu lado — Victor diz pondo a cabeça em seu ombro.


— Você fala que é o início. Mas início do quê? — você pergunta.


— Algo sério está chegando sobre a cidade. É possível que algumas almas em breve estejam mortas.


— Mortas?! — você exclama assustando Victor que retira imediatamente a cabeça de seu ombro — Quem são essas almas? Eu achava que eram as pessoas que morriam.


— Exato. Você entende o que eu quero dizer. E entenda que eu quero que saiba que elas estão próximas.


— Próximas de mim? Espera, alguém que eu conheço vai morrer? — você imediatamente olha para as cabanas onde estão seus amigos.


— Calma, S/N. Calma. Você só precisa ficar vigilante. Não pode deixar isso acontecer. Independente de quem seja.


— Mas como? Onde? Como eu vou saber quem pode morrer? Se você pelo menos me ajudasse e dissesse quem pode ser seria muito mais fácil, né?


— Eu não posso dizer isso. Gostaria de poder ajudar, mas eu não posso.


— Ok, agora eu acho que você tá começando a me preocupar.


— Mantenha seus colegas por perto e proteja eles o máximo que puder. Eu sei que você se preocupa bastante apesar de não transparecer. Lembro quando você tentou comigo. Foi uma pena que eu não deixei — Victor fala.


— Eu ainda não me perdoo por isso.


— Você não tem que se perdoar por isso. Não foi culpa sua e sim minha. Eu guardei tudo pra mim.


— Ah, Victor, eu sei que eu não deveria perguntar já que eu não sabia o que se passava na sua cabeça. Mas por que você fez isso? Por que tirou a sua própria vida? Nós três podíamos te ajudar.


— Eu fui fraco e um imbecil. Quem aprontou comigo deve ter morrido de felicidade, né? Mas olha que engraçado: na verdade quem morreu fui eu.


Dito isso, Victor começa a gargalhar dando umas palmadinhas em seu ombro.


— Do que você tá rindo? Essa sua piada foi sem graça. Nunca vou me esquecer quando eu acordei atordoadx com a notícia. Você deixou a gente com traumas.


— Garanto que você nem chorou no meu enterro, não é?


— Você tá sempre observando as pessoas e não sabe a resposta? — você pergunta.


— Bom, conhecendo você do jeito que eu conheço é bem provável que não. Mas isso não importa. Melhor um sentimento verdadeiro do que lágrimas falsas.


— Você me conhece, então não deveria ficar supreso. Mesmo agora. Agora você me deixou preocupadx. Se o que você falou for mesmo verdade, o que eu vou poder fazer? Isso não tem sentido. Você tem certeza? Por que alguém ia querer perseguir e acabar com alguém próximo a mim?


— Eu já falei. Não sei ao certo, mas você precisa ficar atentx. A vida é como um trilho de trem antigo: às vezes reto e previsível, outras vezes sinuoso e cheio de mistérios. A lua vermelha tá descendo. Parece que você tá acordando, então eu acho que deve ser minha vez de se despedir.


— Se despedir? Mas você já vai embora?


— Eu preciso. Você já faz muitas perguntas. Seja forte, S/N. A jornada tá chegando a um momento crucial, onde o destino se encontra com o desconhecido. Não se esqueça da lua vermelha, S/N. Ela pode tocar o mar — Victor avisa.


— Mas, Victor... o que acontece se ela tocar o mar?