Os órfãos de Nevinny
86 Desabafo
Em certa hora da tarde, durante o intervalo, você está com sua amiga Christine no terraço da empresa conversando sobre a vida e principalmente sobre um assunto cujo tem nome na qual recém chegou de surpresa e agora parece ser a pauta da vez frequentemente.
— Eu tô cansada e ele chegou só há alguns dias, mas já foi o suficiente pra deixar daquele jeito. Esse homem mexe comigo mas de um jeito que não é legal — você diz pegando um cigarro e um isqueiro do bolso de sua calça.— Você vai fumar de novo, amiga? Você tinha dito que era só daquela vez? — Christine reclama tentando tirar o cigarro de suas mãos.— Me deixa, Christine. Eu fico nervosa toda vez que penso naquele homem. Eu prefiro fumar do que comer toda hora. Não quero engordar.— Mas você nem vai mais ser modelo — Christine diz dando de ombros.— Eu sei. Mas é melhor assim. S/N não vai ficar sabendo. Eu masco chiclete no lugar — você fala dando um suspiro — Mas tudo isso por causa daquele homem. Joseph. Nossa, me dá uma raiva!— Calma, também não precisa ficar assim. Não vai perder a paciência e ficar estressada por causa dele.— Eu não tô, eu não quero ficar assim. Você por acaso sabe o que ele fez outro dia? Ele teve a cara de pau de aparecer lá em casa sem avisar a gente. Eu não faço a mínima ideia de como ele conseguiu o nosso endereço, mas lá ele ficou. E ele quis passar um dia com a gente, você acredita? Além disso ele seguiu a gente até a escola, ficou com S/N. Eu tive que vir trabalhar. Isso foi naquele dia que eu cheguei super estressada e não dei bom dia pra ninguém.— Eu lembro. Você 'tava super estressada. Não falou com ninguém. Nem parecia a mesma — afirma Christine.— Pois bem, eu vim embora e ele ficou lá em frente à escola. S/N me falou que ele passou a manhã inteira, conversou com o diretor, conheceu a escola e até ficou entre os amigos de S/N. Aí agora S/N me mandou a mensagem de que vai chegar um pouco mais tarde em casa porque tá com os amigos. Eu não sei o porquê mas eu desconfio que tem alguma coisa a ver com o Joseph. Ele vai ficar no nosso pé até querer conquistar nossa confiança. Mas isso não vai acontecer — você diz, segura.— Você tá muito estressada. Olha, eu sei que o Joseph é seu pai e pai de S/N, que ele aprontou com você e que fez coisas que você não gosta, mas você não pode impedir que o Joseph veja S/N. Ele é pai. Acima de tudo ele tem esse direito.— E você acha que eu não sei? Eu só queria entender: esse homem foi solto muito rápido, pelo o que ele fez era pra no mínimo passar anos e anos na cadeia — você indaga.— Realmente. Pelo o que você falou a listagem dele é bem grave — Christine diz — Ele tem alguma coisa com os miridianos? Você sabe, aquela gente é muita estranha e, como a gente já sabe, tem até suspeita de moradores de lá estarem envolvidos com as últimas coisas que acontecem na cidade.— Eu não sei. Daquele homem eu não duvido de nada. Mas sabe que eu não sei? Ele morava em Atelis, aquela cidade cheia de gente rica e cheia daquelas coisas que só eles sabem e pronto? Fica por ali mesmo? Joseph é influente. Deve ter muitos amigos juízes, delegados e não sei mais o quê. Então escapar de ficar a vida toda na prisão não deve ter tido nenhuma dificuldade pra ele.— Eu sei amiga, é difícil mesmo. Mas olha, vamos ter calma. Vamo' largar esse cigarro e vamo' lanchar. Já, já a gente tem que voltar pro nosso expediente. A nossa modelo não pode ficar sem comer. Quer desmaiar no seu trabalho também?— Mas eu tô sem fome — você diz. — Mas você vai comigo nem que seja só para me acompanhar Christine diz já lhe pegando pelo braço. — Ai, tá bom. Você tá muito chata hojeNo refeitório da empresa...— Então, fala. Eu soube que os homens daquela empresa 'tavam aqui outro dia atrás de você e de novo com a proposta pra você representar a marca deles. Você não vai mesmo aceitar?— Mesmo sabendo que teve dedo do Joseph no investimento? Mas é claro que não. Eu não vou aceitar isso.— Amiga, para de ser orgulhosa. Essa carreira podia mudar sua vida. Você ia ficar famosa!— A fama é passageira. Pra que eu vou querer uma coisa que pode acabar do nada? — você fala revirando os olhos.— Eu não tô te reconhecendo mais. Você é muito inteligente. 'Tava toda empolgada pra isso. Deixa de besteira e agarra essa oportunidade enquanto ainda dá tempo. Seu pai é rico, mas você não. Bem que poderia ser se aceitasse a sua parte que tem por direito. Isso é outra coisa que você tá dando bobeira — Christine fala.— Eu não quero nada daquele homem, Christine. Eu só quero o que é meu por direito, mas quero construir tudo de forma certa, sem ter nada envolvido com coisas erradas. Se Joseph fosse um homem honesto, diferente e a fonte do que ele tem fosse pura, quem sabe eu não teria outra ideia na cabeça? Eu não posso aceitar isso, não tem como.— Bom, você que sabe, então. Se fosse eu faria de tudo pra me acertar com meu pai, deixar de lado as indiferenças e seguir adiante. O que é isso? Deixar tudo passar assim?
— É assim que eu prefiro e é assim que vai ser. Agora, vambora. Termina logo esse lanche que a gente tem vários relatórios pra passar. Pro assistente administrativo não falta função.— Ai, nem me fale. Tá bom, vai. Vou terminar aqui. Mas pensa no que eu te falei e pensa direito. E vê se não fica falando muito do Joseph na frente de S/N, pode ser que elx não goste. — Eu já pensei nisso. Às vezes eu acho que S/N perdoa ele de alguma forma. Às vezes fala em perdoar. Já me pediu isso algumas vezes. Eu fico querendo endoidar com esse assunto.— Mas não vale a pena. Parece que S/N tá mais crescidx que você.— Eu até admiro isso, sabe? Mas pra mim não dá. É como S/N tivesse apagado ou esquecido a confusão que deu quando o Joseph foi preso. Mas também, S/N passou muito mais tempo com aquele sujeito do que eu. Por isso fica mais fácil, se é que pode-se dizer assim — você diz.— Talvez você deveria seguir esse exemplo e tentar ser mais assim. Eu sei que é difícil, mas acho que seria bem mais fácil.
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