Era terça-feira, segunda semana de aula do semestre na escola primária de Springfield.

Quando o ônibus chegou e eu me levantei, um par de gêmeas de cabelos roxos apontou pra mim debochando e rindo.

“Que garota estranha, quem é ela? Hihihi”

– Não ligue pra elas, são assim com todo mundo — disse uma mocinha de pele negra.

Sorri pra ela, mas quando estava prestes a descer do ônibus a vi rindo com as gêmeas.

O diretor da escola veio apressar as crianças dizendo que só faltavam 10 minutos pra aula começar, mas ninguém fez menção de entrar na escola. Eu entrei enquanto todos brincavam e conversavam.

Quando o sinal tocou e todos entraram, professora Krabapell me apresentou à turma:

– Turma, essa é Mary Silver, sua nova colega de classe, por favor, tentem não machucá-la, agora vamos à aula.

Sentei e o garoto da cadeira de trás – que posteriormente soube que se chamava Nelson – ficou me cutucando e jogando bolinhas de papel em mim a aula inteira.

No recreio Bart conversou um pouco comigo:

– Você não precisa aturar essas coisas que o Nelson faz. – disse ele emburrado.

–Vai me defender? – eu disse incrédula.

– Não, não! Só tô dando uma ideia, moça, fica fria aí. A professora não liga se você der uma lição nele no meio da aula. Sabe, a Krabapell já viu tanta coisa nessa escola que ela já nem liga pra... — Eu saí andando enquanto ele falava.

Peguei meu lanche e fui procurar uma mesa. Vi Lisa sentada sozinha ao longe, mas quando cheguei mais perto vi que a moça que tinha me confortado e depois rido de mim estava ao lado dela. Então elas eram amigas... Que chato.

Fui me sentar sozinha, comi e voltei pra classe. Nelson ia começar a jogar mais bolas de papel em mim quando a professora disse que estava passando mal e liberou a turma – que fez um estardalhaço imenso ao ouvir a notícia.

Depois de quase ser lançada porta afora, resolvi ignorar o ônibus escolar e ir caminhando pra casa já que tinha tempo livre. A questão é que eu não sabia o caminho e só fui me dar conta disso depois que o ônibus tinha passado por mim. Nelson também tinha resolvido voltar a pé.

“Oh não”, pensei.

Andei mais rápido, talvez ele estivesse apenas a fim de caminhar.

Eu realmente não acreditava ter tanta sorte...

Nelson me alcançou, achei que ele iria me perturbar, mas ele apenas disse “e aí?”.

Muito surpresa, respondi:

– Olá Nelson. Por que não pegou o ônibus?

Sério, mil coisas pra se dizer pro garoto que me perturbou a aulas inteira e eu começo um papo furado. O que há comigo?

– Ah, eu vi que você não pegou também.

– E?

– E o que?

– Nelson, você está com o intuito de me incomodar?

– Na verdade não... É que você parecia bem acostumada com cutuques e bolas de papel.

– Então quer me perguntar o que me incomoda?

– Sim, mas não assim. É que... Oras, mulheres... – Nelson se emburrou.

– Nelson, qual é o seu problema? Se quer me irritar já conseguiu, agora se não se importa-

– Moça! Você não me entendeu! Eu apenas queria saber se há algo errado com você. Eu disse algo estranho de novo... O que eu quero dizer é... Hum... Se os garotos virem isso vão rir de mim a semana inteira...

– Espere, eu entendi o que eu acho que entendi? Você quer me perguntar se estou triste ou algo assim?

– Bem... Sim.

– Nelson, você tem certeza de que é um valentão?

– Você está me dizendo que valentões não podem se preocupar com as pessoas?

– Bem... Você acaba de me deixar muito confusa...

– Apenas responda, está tudo bem com você?

Sem que eu me desse conta, havia caminhado com Nelson até a rua da minha casa. Intervenção divina? Eu não sei.

– Não sei se estou bem, até amanhã Nelson. – disse e entrei em casa.

– Ei, espera! Eu... – Mas eu já havia entrado e não ouvi uma palavra mais...