— Mas é o concurso Miss Mystic Falls.

— Não dou à mínima.

— Bonniiiiiiiiie! É um caso de vida ou morte.

— Não extrapole no drama, Caroline. Eu não vou e pronto.

— Por favor, lembra o que foi o concurso do ano passado? Um desastre. Não estou te pedindo para erradicar os problemas sobrenaturais do mundo, só uma proteção para garantir.

— Hã... só isso? Nesse caso eu acho que... NÃO.

— Eu te imploro, por favor.

Bonnie desviou a atenção do que fazia e olhou com atenção para a amiga.

— Caroline Forbes implorando? Qual é o truque? O que está acontecendo?

— Aconteceu que estou desesperada por sua ajuda.

— Tente novamente e com mais convencimento.

Matt riu, ele estava servindo uma mesa ao lado e prestando atenção á conversa:

— Sem querer eu perguntei por qual catástrofe devíamos esperar, sempre que tem algum evento na cidade alguma coisa sobrenatural perigosa ocorre em paralelo. Acho que Caroline ficou um pouco receosa demais sobre isso.

— Um pouco receosa, Matt? Temos um evento para cada mês do ano e praticamente um incidente sobrenatural por semana. Precisamos de proteção além das oferecidas pelas autoridades, precisamos de uma bruxa.

— Agora me convenceu – disse a negra voltando para seu afazer – E ainda continua sendo não.

— Tenha dó. O que aconteceu com você? Não se importa com as pessoas?

— Mais do que você pensa, bebedora de sangue, e é por me importar que decidi não interferir no concurso e cuidar de coisas mais importantes. Não se aflija, vai dar tudo certo e ninguém vai estragar sua festa.

— Como pode ter certeza disso? E se acontecer uma emergência ou... ou... O que está fazendo?

Bonnie alcançou a bolsa de Caroline, encontrou o celular e começou a discar.

— Pedindo proteção... Olá.

“O que quer?”

— Saber se está disponível amanhã, para o Concurso Miss Mystc Falls.

“Pretende me convidar?”

— Sim, mas não para ser meu par. Eu estarei ocupada sendo normal para variar e pretendo ficar bem longe de adolescentes histéricas e seus vestidos.

“Você? Normal?” – a nota de zombaria fez a bruxa revirar os olhos.

— Aceita ser o par de Caroline Forbes?

Um breve silêncio e a resposta esperada:

“Eis ai um convite irrecusável”

— Isso é sim?

“Diga a doce Caroline que a buscarei em casa...”

Bonnie entregou o celular para uma Caroline pasma, de olhos arregalados e boca aberta. Se não fosse vampira, estaria bem vermelha. Hesitante, ela se afastou para falar com Klaus. Matt que observava tudo em segundo plano, passou e comentou com a negra:

— Caroline é namorada de meu melhor amigo.

— Eu pedi um favor, não planejei um casamento.

— Isso não vai dar certo – disse pessimista.

Bonnie concordaria se não tivesse outra coisa em mente, como por exemplo, o fato de Alaric ter substituído o lugar que Jeremy ocuparia no clube dos cinco, Damon estava tentando ajudar o amigo a lidar com aquela fase e ela queria manter a má influencia de Klaus longe de Alaric, pelo menos até ter certeza que Silas são seria libertado. Pensar na libertação de Silas a fez lembrar-se de Q’rey e um tremor percorreu seu corpo. Não, não havia a menor chance de conseguirem libertar o dragão. Sem chance. Só que... Aquela coisa que chamavam de sexto sentindo, sua intuição feminina, dizia o contrario.

Damon estava com Alaric na casa do lago, dos Gilbert, estavam tendo algum sucesso no “treinamento” do caçador que precisava aprender a controlar seus novos instintos. Bonnie disse que ia manter os curiosos ocupados e Stefan estava ajudando, como eles estavam mantendo os amigos longe daquilo era algo que Damon optou por não saber.

Alaric estava destruindo alguma coisa ou consertando, tanto faz, e o vampiro estava muito ocupado pensando o que ia fazer pelas próximas vinte e quatro horas para passar seu tempo, quando o celular tocou em algum lugar lá fora... dentro do carro. Em dois segundos ele retornava com o aparelho em mãos para o desconfortável sofá.

“Preciso da Bonnie” – disse Enzo numa mistura de desespero com raiva.

— Owu! Boa tarde para você também, amigo – Damon começou com um pouco de ironia – Ligou para a pessoa errada, não sou uma bruxa.

“Eu sei para quem ligo, mas aquela bruxa não atende e eu preciso dela agora”.

Notando uma fúria exagerada, Damon se colocou em alerta e com cautela questionou:

— Está tudo bem por ai?

“Não. Está tudo uma droga e a Bonnie tem que consertar as coisas”.

— Consertar o que? O que está acontecendo ai?

“Não sei. A Vicki sumiu”.

Damon revirou os olhos, tudo isso por que a namorada tinha ido passear sozinha.

— Sei que passou muito tempo preso no laboratório, mas há um período de vinte e quatro horas para entrar em pânico quando alguém some.

“Não está entendendo, ela não fugiu. Ela sumiu, na minha frente”.

— Sumiu como? Tipo um feitiço?

“É por isso que eu quero a Bonnie aqui. Vicki estava conversando comigo quando simplesmente sumiu”.

— Quando foi isso?

“De manhã, muito cedo. Pensei que ela retornaria, mas estou começando a me preocupar”.

— Começando a se preocupar ou atingindo um novo nível de histeria?

“Cala a boca. E ache logo a Bonnie”.

Deviam ter ligado para os outros em busca de Bonnie, pelo menos era o que Damon faria em qualquer outra situação, mas Alaric preferiu manter aquilo entre eles pelo maior tempo possível para não estragar o concurso de miss.

— Caroline vai enlouquecer se estragarmos a cerimonia da entrega de título – argumentou o caçador.

Damon não dava a mínima para o concurso estupido de adolescente, mas teve que concordar que até saberem o que estava acontecendo era melhor não espalhar a noticia. Bonnie definitivamente não estava em nenhuma de suas casas – a da avó e a do pai – também não estava histérica se arrumando para o dia seguinte como grande maioria das mulheres da cidade, no grill também não.

— Onde diabos ela se meteu? – questionou o vampiro impaciente.

— Ali – Alaric apontou para a igreja de onde a bruxa e Matt, saíam.

Estupidamente Damon pensou numa cena de um filme que Elena assistiu quando morava em sua casa. Um casal saindo da igreja debaixo de uma chuva de arroz e aplausos. Por que ele pensou isso? Talvez por que Bonnie estava metida num vestido branco ou por que ela tinha o braço entrelaçado ao de Matt ou por que ela sorria enquanto ele dizia algo ou por que ele estava passando tempo demais com adolescentes para ver comédias românticas. Ele fez a volta e alcançou a dupla que ao vê-los começou a andar mais rápidos.

— Precisamos conversar – disse.

— Seja lá o que for não quero saber. Matt e eu estamos ocupados com assuntos que não lhes dizem respeito.

— Não quero saber o que vocês fazem... – ele começou zangado, mas foi interrompido por Alaric.

— É sobre a Vicki.

O andar foi interrompido bruscamente por Matt que parou se curvando para ver o professor melhor.

— O que aconteceu com minha irmã?

— Aparentemente desapareceu – informou Damon – Não sei os detalhes, Enzo estava á beira da histeria quando me ligou.

Bonnie pescou o celular no bolso da calça de Matt com a tranquilidade de quem tem intimidade para isso, Damon não gostou disso. Ela ligou para Vicki e enquanto esperava ser atendida, entrou no carro, pedindo que Damon a levasse para as ruínas. Durante o trajeto Enzo repetiu para ela o que aconteceu naquele dia com riqueza de detalhes, o vampiro ouviu a conversa com atenção. Enzo contou a bruxa que ainda estavam na cama, Vicki estava aborrecida por causa de uma vampira que tinham conhecido na noite anterior que tinha flertado descaradamente com Enzo, discutiam sobre o assunto quando Vicki começou a ficar transparente e desapareceu. O vampiro tentou encontra-la, mas não teve sucesso nenhum e como ela não reapareceu, decidiu recorrer á Bonnie.

— Vicki já tinha sumido antes? Ficado invisível ou alguma coisa parecida?

“Acha que eu estaria pedindo ajuda se isso fosse normal?” – gritou.

— Vou relevar o tom por que está nervoso. Ela teve algum sintoma estranho? Esquecimento, confusão, mudança de humor, desmaios?

“Não, tudo normal”.

— Alguma coisa incomum tem acontecido quando ela está por perto? Tipo luzes piscando ou objetos de movendo?

“Nada que eu tenha percebido ou que ela tenha me contado”.

— Acha que a Vicki tem o mesmo que você? – Damon interrompeu a conversa.

— Eu nunca sumi, quero dizer, sou uma bruxa e posso fazer isso quando necessário, mas Vicki não é sobrenatural e... Oh-oh.

— Oh-Oh? – Matt ao lado dela e Enzo, repetiram juntos.

— Eu retirei a proteção de Vicki.

— Que proteção – quis saber o irmão da desaparecida.

— O que impedia sua irmã de ser localizada, enfeitiçada ou controlada.

“Isso é bom, não é?” – Enzo soou esperançoso – “Quer dizer que você pode localizá-la”.

— É uma possibilidade, te ligo em meia hora para dar noticias – disse desligando o celular.

Damon franziu o cenho, observando Bonnie pelo retrovisor o tom que ela usou, é uma possibilidade, não lhe pareceu algo bom. Ele ia questionar sobre as outras possibilidades, mas com Matt ao lado dela, ele preferiu deixar para outro momento.

— Por que retirou a proteção de Vicki – Matt não disfarçou o tom acusatório.

— Por que ela estava tendo os mesmos pesadelos que eu tive um tempo atrás. Aqueles sonhos recorrentes estavam a deixando maluca, assim como eu, Vicki estava evitando dormir o máximo possível.

— Pelo ponto de vista de um caçador, ter a mente sã é tão necessário quanto ter sempre uma arma á mão. – Alaric concluiu a discussão.

No antigo cemitério, Bonnie seguiu direto para o mausoléu dos Salvatore sendo seguida somente por Damon que aproveitou para questioná-la:

— E se não puder localizar a Vicki – sussurrou, olhando por sobre o ombro.

— Eu vou encontrá-la – foi tudo o que a bruxa disse ao pegar uma pedrinha esverdeada num canto e riscar o chão em sua volta, dizer algo impronunciável e das chamas produzidas pelo feitiço surgir um livro dourado.

— Impressionante – disse realmente impressionado – Guardou seu livro de feitiços no mausoléu da minha família.

— Não – respondeu Bonnie sorrindo – Eu escondi algo que não me pertence em um lugar que ninguém procuraria.

Por mais que Bonnie se esforçasse, localizar Vicki era impossível. Ela estava inatingível onde quer que fosse, não sob proteção de algum feitiço ou do outro lado do planeta, Vicki não estava em lugar nenhum, como se não existisse.

— Plano B – disse ela desistindo de rastrear a garota.

— Que seria? – Damon perguntou.

— Ir até onde ela sumiu e tentar achar alguma pista – enquanto falava folheava as páginas escuras do livro pesado.

— Claro, vou com você.

— Não vai não, desculpe Damon, mas preciso ser rápida então vou usar um atalho.

— Que tipo de atalho? – Matt quis saber.

— Usando o termo de J.K Rowling, eu vou desaparatar.

— Aquele lance de sumir e aparecer noutro lugar? – replicou o vampiro – Dá para fazer isso em dupla... Eu li os livros.

— Acontece que eu só fiz isso uma vez á muito e muito tempo, prefiro não correr riscos desnecessários. Achei.

Ela se colocou a ler o feitiço em rápidos murmúrios incompreensíveis. Então parou repentinamente, os olhando com um V entre as sobrancelhas.

— Estou quebrando meia-dúzia de regras lendo este livro, então possivelmente uma ruiva muito irritada vai aparecer por aqui querendo devorar minha alma. Por favor, não tente enfrenta-la – disse para todos ainda que olhasse só para Damon – Não a irrite, ela não hesitará em arrancar seu coração de coloca-lo fora do meu alcance.

Damon ia fazer uma piada, mas a expressão de Bonnie não era das melhores, ele se lembrou de quando ela explicou sobre a Linhagem dos vampiros e seus motivos para não querer que matassem Klaus. Compreendeu que ela não estava apenas querendo evitar um confronto entre ele e a bruxa-ruiva, sua bruxinha estava com medo de perdê-lo. Anuiu ligeiramente, ele evitaria confrontar aquela estranha se era isso que Bonnie queria. Um sorriso se espalhou pelo rosto da bruxa, um sorriso triste.

— Eu só volto para casa com Vicki – garantiu para Matt antes de sumir no ar como fumaça.

Ok. Talvez achar Vicki fosse mais complexo do que o esperado. Bonnie testou todos os feitiços de localização conhecidos, em companhia de Enzo vasculharam o submundo sobrenatural de São Francisco perguntando para cada bruxa, vampiro, lobisomem, caçador, charlatão, maluco e conspirador que encontraram. Mas ninguém sabia sobre a jovem caçadora. Após dois dias inúteis de busca Bonnie já começava a ficar sem ideias do que fazer, até a polícia já tinham recorrido e aos hospitais aos necrotérios aos hospícios e igrejas. Vicki Donovan tinha virado história.

— Consequências... não... nem pensar... não mesmo... nenhuma chance de ser isso... não.

— O que? – Enzo se virou para ela.

Ele tinha passado pelas quatro fases rápido demais. Negação. Raiva. Medo. Aceitação. Agora ele parecia nem se importar com aquilo, como se Vicki tivesse apenas terminado a relação e voltado para casa. Sem sumiço inexplicável, sem surto.

— Nada, uma idéia desesperada que me passou, nada que seja importante.

Nada. Ela só tinha pensado nas linhas do tempo se alinhando, os nós sendo desfeitos e tudo voltando ao que devia ter sido antes dela mudar o passado. Vicki morreu. Foi isso que ela pensou. Então começou a pensar de um jeito mórbido em tudo voltando aos eixos. Elena e Damon. Silas libertado. Viajantes... Alguém bateu na porta e Enzo mandou entrar, para a surpresa da bruxa era Damon.

— Ainda não a achamos – disse voltando a olhar no computador.