Os vampiros que se mordam 2
3 Lá e de volta outra vez
Damon queria explicações, queria falar com Bonnie, mas as amigas a arrastaram para longe dele e tudo que lhe restou foi ouvi-las conversando. Quando resolveu ir naquele jantar de “amigos” tinha a intenção unicamente em perturbar Stefan, não esperava encontrar ali a dona dos olhos verdes que estivera em seus pensamentos e devaneios desde a última vez que viera a Mystic Falls. Deduziu que a responsável por sua falta de memoria era a avó de Bonnie, pois agora se recordava que a bruxa havia o atacado e quase assassinado se não fosse a intervenção da garota. Ignorou as perguntas de Stefan á respeito de conhecer a Bonnie, estava concentrado na tagarelice que vinha da cozinha, esperava que pelo menos uma daquelas duas fizesse uma pergunta inteligente e aparentemente Caroline tinha o dom da curiosidade, infelizmente ela respondia as próprias perguntas antes que Bonnie o fizesse.
De repente o tom de especulação das garotas deu vez á preocupação, algo acontecia com Bonnie e o grito estridente de dor que ela deu foi acompanhado por uma rajada de energia que quebrou alguns objetos, além de causar uma insuportável dor nos vampiros Salvatore. Damon se moveu tão rápido lhe era possível e entrou na cozinha ignorando o fato das humanas desconhecerem seu segredo sobrenatural, segurou Bonnie antes que ela batesse com a cabeça no canto da mesa enquanto caia. A bruxa se debateu violentamente e ficou imóvel.
— Bonnie! – ele chamou em voz baixa.
A repentina preocupação do irmão mais velho por alguém que não fosse ele mesmo surpreendeu Stefan que se questionou sobre até onde ia aquela aparente amizade entre a Bennett e o Salvatore.
— O que aconteceu? – questionou Damon levando Bonnie para o sofá.
— Ela começou a sangrar pelo nariz e apagou – explicou Caroline – Vou ligar para a emergência.
Damon ia dar seu sangue para a bruxa, depois mandaria Caroline esquecer e o irmão que lidasse com Elena, naquele momento algo irracional lhe impulsionava á socorrer Bonnie. Mas quando levou o pulso á boca, a adolescente abriu os olhos, ofegava como se tivesse sido resgatada de um afogamento.
— Isso dói – ela disse esfregando os olhos com os nós dos dedos.
Damon mal registrou o fato de ter sido empurrado e no instante seguinte uma cabeleira loira cobria o rosto da morena que ria divertida tentando se soltar do abraço apertado.
— Caroline, me solte. Está me sufocando.
— O que houve com você? Consegue ficar em pé? Vou te levar para o hospital. Damon a carregue até o carro, não acho que ela deva fazer esforços...
— Caroline... respire. Eu estou bem. Foi só um desmaio.
— Um desmaio? Bonbon você sangrou e teve convulsões, vamos visitar um médico ou conto para sua avó.
— De que você está... Ah!
Bonnie percebeu então que estava na casa de Elena, a casa que a mesma destruíra inconsequentemente depois de uma das mortes de Jeremy. Entendeu que ainda estava em algum momento do passado, ainda que se lembrasse de acontecimentos futuros. Olhou ao redor, qual ano era aquele? Qual momento? Caroline ainda era humana, mas Stefan e Damon já estavam em Mystic Falls... O jantar. A lembrança viera com tanta facilidade que ela se surpreendeu, todos os detalhes estavam vividos demais.
— Vovó – murmurou sentindo uma excêntrica combinação de esperança, medo, tristeza e felicidade.
Havia uma palavra engraçada para isso, a emoção de sentir tanto a falta de algo que fazia o coração doer e os olhos arderem com lágrimas ao lembrar momentos bobos, alegres ou não, uma palavra estranha para expressar nostalgia. Saudade. De um pulo, ela se colocou em pé ficando tonta com a rapidez com que se levantou. Damon a apoiou antes mesmo que ela notasse as pernas fraquejarem.
— Como fez isso? – Elena questionou, só então reparando o quão ligeiro seu cunhado era – Estava aqui e num piscar estava atrás da Bonnie.
Damon olhou para Stefan que se apressou em dizer que Damon fora atleta em sua época de estudante, por isso era rápido. É claro que não convenceu a Gilbert que contradisse a informação afirmando que ninguém era tão ridiculamente rápido daquela maneira, mas antes que pudessem criar uma contrainformação convincente, Caroline a mandou calar a boca e Damon levar Bonnie para o hospital.
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Por que aquilo estava acontecendo? Ela lembrava ainda do jantar, tinha nutrido alguma empatia por Stefan naquela noite e uma profunda antipatia por Damon. O que estava errado desta vez? Claro, ela tinha desmaiado e Caroline – ainda que influenciada por Damon – continuava sendo a Caroline de sempre e conseguia fazer uma tempestade em copo d’água. Felizmente ela conseguiu dissuadir a loira de ligar para Sheila Bennett e dizer o que estava acontecendo. O que ela estava estranhando ainda mais era Damon, não retinha lembranças dele se preocupando daquele modo, exceto por Elena e Stefan. Era isso, ainda não havia feito as pazes com o irmão tão pouco nutrido afeto suficiente pela namorada do mesmo, isso combinado com as recentes lembranças destravadas justificavam o comportamento incomum.
— Está tudo errado – enunciou balançando a cabeça levemente.
Não devia ser assim. Nada devia ser assim. Percebeu os olhares da amiga e do vampiro voltados para ela, ergueu os olhos e sorriu brevemente. O que ela ia fazer? O livro de feitiços mais poderosos do universo tinha desaparecido quando ela retornou no passado, não tinha ideia de como pular para o futuro. O medo de mudar tudo era uma pequena coceira que não incomodava, ela estava era com medo é de enfrentar tudo novamente. Perder a avó e o pai. Ver os amigos serem arrastados para o sobrenatural. Morrer uma, duas, três vezes. Maldita hora que ela conhecera aquela ruiva, fora por causa dos problemas dela que seu mundo ruiu e que ela voltou á uma época da qual... Seus olhos foram atraídos por um letreiro vermelho, o Mystic Grill, naquele instante saia dele uma pessoa cujo rosto ela tinha armazenado em um canto junto com tantos outros conhecidos e desconhecidos que tinha perdido para o sobrenatural.
— Vicki Donovan – disse em voz alta.
Caroline e Damon olharam para fora, mas já tinham passado do ponto onde o Grill podia ser visto. Bonnie de repente começou a rir com a ideia de que se mudasse uma coisa talvez tudo fosse diferente – ela simplesmente desconsiderou que voltar no tempo tinha sido uma grande trapaça e que ter mantido sua memória e a de Damon protegidas já mudava tudo, havia alterado sua linha do tempo e mudado o futuro de todos.
— Bonnie, rir feito uma psicopata só confirma minha teoria de que está sofrendo se surtos emocionais – comentou Caroline sentada no banco de trás do carro de Damon.
Depois de um exame superficial, o médico sugeriu que Bonnie repousasse, porque de algum modo ela tinha sofrido uma exaustão talvez causada por excesso de atividades e pouco descanso, fora a péssima alimentação que recentemente incluía pizza, frituras, salgadinhos e qualquer coisa que ela pudesse comer enquanto andava. Ela estava exausta sim, mas sua vida adolescente acelerada e comida calórica nada tinha haver com o desmaio, seu colapso se dera ao fato de toda memória ter voltado de uma vez só. E era muita informação para seu cérebro assimilar.
— Desculpe Care, só estou tentando me habituar á algumas... recordações. É como se eu tivesse sido hipnotizada, sabe? Quando eu contar até três vai se esquecer de mim.
— Que bobagem, essa coisa de hipnose é faz de conta, ensaios de ilusionistas para enganar o público.
Bonnie e Damon trocaram um olhar divertido no instante em que estacionavam diante da casa da família Forbes, antes que a loira descesse, o vampiro se virou para ela, mordendo o próprio pulso e oferecendo para que ela bebesse, olhou-a nos olhos e ordenou.
— Vai evitar toda e qualquer situação que possa te colocar em perigo nas próximas 24 horas. A partir de hoje seremos apenas conhecidos que tiveram momentos prazerosos juntos, e voltará a ser a Caroline que era antes de me conhecer. Certo?
Caroline assentiu lentamente e piscou com força, de repente sentia-se grogue. Sonolenta.
— Enfim, casa – suspirou pegando a bolsa e abrindo a porta – Bonnie eu te ligo em dez minutos para saber como está, e eu sei que vocês dois acabam de se reencontrar depois de sei lá quanto tempo, mas o médico disse que precisa descansar então deixem para trocar fofocas amanhã. Cuida-se Bonbon, qualquer coisa me ligue e Damon, boa noite.
Um gesto inconsciente fez Damon esperar até que ela entrasse e fechasse a porta de casa antes de ligar o carro e levar Bonnie embora. O trajeto era curto, mas o vampiro reduzira a velocidade o bastante para que um transeunte os ultrapassasse. O silencio dentro do carro não era constrangedor nem incomodo apenas vazio, como se não soubessem o que dizer. Melhor, sabiam o que dizer, apenas não sabia como começar, um estava esperando que o outro iniciasse aquilo que talvez fosse a conversa mais ansiada por ambos, ainda que não tivessem pleno conhecimento disso. O silêncio só ficou estranho quando chegara a casa da bruxa, se olharam por um minuto inteiro sem sequer abrirem a boca. Bonnie se lembrava de um vampiro que ainda não existia, um que se tornaria seu melhor amigo antes de se tornar seu amante. Damon se lembrava de uma menina na floresta desafiando os próprios medos só para não responder á uma pergunta boba e juvenil. Viam reflexos opostos, um do passado e outro de um futuro incerto. Quem se moveu primeiro ou quem tomou a iniciativa, eles não saberiam dizer mais tarde, mas naquele momento deixaram as lembranças de lado para criar outra menos confusa. O beijo lascivo e afoito foi se tornando casto e meigo. Já que não sabiam como iniciar a conversa, ocuparam os lábios com uma linguagem mais significativa.
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