Pegue um lápis e parta-o ao meio. Foi desse tamanho que a Lança de Ferro ficou. Vicki não escondeu o alivio que era se livrar daquilo.

— Estava me sentindo o Ron Wesley carregando a horcrux no pescoço. Como se tivesse uma presença constante ao meu lado, sussurrando coisas e manipulando meus sonhos – confessou em voz baixa.

Bonnie que admirava a miniatura carregada de poder desviou a atenção para Vicki que olhava para a seta afiada como se o culpasse por todos os males do mundo.

— Que tipo de pesadelos você teve? E que tipo de sussurros escutava?

Vicki olhou para a porta, se aproximou mais de Bonnie e disse em tom de segredo.

— Essa coisa estava te chamando. Começou em Paris quando eu tentava entrar em contato com você, não sei explicar, mas foi como se a Lança tivesse escutado seu nome e acordado. Desde então, fiquei com a impressão de que quando o carrego por ai, ele te chama. Bonnie. Bonnie. Bonnie... É uma sensação angustiante. Depois vieram os sonhos estranhos, sonho que Mystic Falls queima. Por isso aceitei a ideia de Enzo em ficar aqui mais uns dias sem discutir, eu não quero levar essa coisa para casa.

— Nem eu – murmurou Bonnie colocando a pequena lança dentro da bolsa.

Ela tinha tirado a semana de luto que lhe era direito, mas como já tinha passado por aquilo uma vez e por uma consciência fria que lhe assustou, percebeu que havia coisas mais importantes para resolver que ficar se lamentando por algo que não estava sob seu controle. No dia seguinte ao funeral de Sheila, ela decidiu ir para Miami, convencer o pai que tinha que fazer aquilo foi mais fácil do que ela imaginou que seria talvez ele tivesse se convencido por que ela não deu detalhes do que ia fazer.

Vicki e Enzo, como ela suspeitou, estavam namorando. Formavam um casal estranho considerando que a humana estava parcialmente controlada pela bruxa. Bonnie ficou surpresa ao constatar que fizera uma excelente escolha ao salvar Vicki e apresenta-la á Enzo, se perguntou o que aconteceria se tirasse o feitiço de Vicki e ela tivesse a percepção da realidade como Matt o teria no futuro. Não que Bonnie tivesse alguma vaga intenção de libertar Vicki. Se não houvesse nenhuma interferência a garota Donovan permaneceria enfeitiçada “até que a morte a parasse”, sem anseios que a levavam á se drogar, sem perguntas sobre acontecimentos sobrenaturais, sem questionar ordens da bruxa, disposta á ajudar e seria uma irmã responsável. Ela estava quase preparada para lidar com sobrenaturais sem a ajuda de Enzo, estava mais ágil e forte tanto física quando emocionalmente.

— Agora me fale de Enzo – pediu a bruxa – Como ele está se saindo depois de tanto tempo aprisionado?

— Bem – a resposta saiu rápida e sincera, não podia mentir para Bonnie á menos que a bruxa ordenasse – Ele se adaptou ás novas tecnologias melhor que eu imaginei quando o vi tentando entender um celular pela primeira vez. Agora é quase um expert. Ele está curioso para saber sobre Mystic Falls, mas não digo muita coisa além do que se refere á mim.

Bonnie havia dito que ela não tinha permissão para contar nada sobre o último ano da cidade, então Vicki não podia falar sobre vampiros e bruxas e nada que fosse do real interesse de Enzo.

— Hum, será que eles estão bem? – indagou Vicki.

Bonnie resolveu que estava na hora de saírem do quarto, não tinha mais nenhum assunto para conversar sobre qual fosse preciso fazer segredo.

Damon olhava desconfiado para o vampiro á sua frente, tomando o uísque com olhos fixos nos seus, como se tentasse lhe sondar os pensamentos. Massageou o pescoço que fora quebrado um pouco mais cedo, recapitulando as últimas 36 horas.

Era o dia seguinte ao funeral de Sheila Bennett, e ele estava preocupado pelo modo estranho com que Bonnie reagiu a morte da avó, como se já tivesse acontecido tantas vezes que não lhe causava mais impacto algum. Pensava nela quando o celular tocou e viu o nome da jovem no identificador de chamadas. Atendeu incerto de como se sentir.

— Posso te pegar emprestado? – ela perguntou o deixando confuso.

— Quer me pegar? – retorquiu malicioso.

— Quero. NÃO! – ela gritou fazendo Damon rir – Eu quero sua companhia para uma viagem, preciso ir visitar a Vicki e prefiro você comigo á outra pessoa.

— Por quê?

— Só diga se quer vir comigo ou não, prometo que não será chato.

— Dois dias com você, onde?

Ele estivera inúmeras vezes em Miami, era um bom lugar para ir quando queria ficar sozinho sem realmente ficar só. Não dispensou o convite. Reparou no distanciamento de Bonnie que respondia suas perguntas sem se aprofundar em detalhes, ela estava estranha demais. A única coisa que ela deixou claro foi o fato de Vicki estar sendo treinada para se tornar caça-vampiros e que aquilo de clinica de reabilitação era só uma desculpa aceitável. Fora isso Damon não conseguiu tirar nenhuma informação útil de bruxa que apenas o observava quase que distraída. Quando chegaram ao hotel onde Vicki estava, foram levados para quartos separados, e depois se juntaram á Vicki no bar do hotel. A garota de cabelos castanhos presos em um coque perfeito, estava sentada lendo um livro de romance, com ela á mesa sentava um homem de costas para a entrada.

— Até que fim – reclamou Vicki fechando o livro enquanto eles ainda se aproximavam.

— Estava ficando entediado com a espera – informou o homem olhando por cima do ombro e pousando os olhos em Damon.

A surpresa genuína de ambos os vampiros ficou evidente. Então Enzo ficou sério, a surpresa dando lugar á raiva. E num movimento imperceptível, Damon era lançado contra uma parede se chocando com um quadro decorativo e caindo sobre uma mesa desocupada. Se pôs em pé colocando o braço deslocado no lugar e se alongando de modo que os ossos estalaram, Enzo que tinha improvisado uma estaca com a perna de uma cadeira foi em sua direção, Damon não saiu da frente, esperou pela aproximação do outro segurando seu braço contra as costas e o pressionando contra a parede, usou uma mão para imobilizar o vampiro que se mexia furioso tentando escapar, com a outra mão lhe tirou a estaca. Ia matar Enzo quando uma dor insuportável tomou conta de sua cabeça.

O mesmo acontecia com Enzo que, como ele, se dobrou segurando a cabeça entre as mãos e gritando, de dor. Bonnie se aproximou deles batendo a ponta do tênis no chão repetidamente os braços cruzados á altura do peito, ao seu lado Vicki olhava-os em um misto de curiosa e irritada. A dor minuiu o bastante para poderem encara-las, mas ainda estava ali, como uma ameaça velada.

— Por que fez isso? – questionou Enzo enfurecido se descobrindo incapaz de levantar – Me solta, bruxa.

— Assim que me explicarem o que foi isso – o tom de Bonnie era comedido, quase indiferente.

Ela puxou uma cadeira e sentou-se diante dos vampiros, ajoelhados e irritados. Não estava sendo sádica, Damon percebeu, ela só estava ligeiramente aborrecida com a situação. Vicki permaneceu em pé, atrás da cadeira de Bonnie olhando os dois com desaprovação. O orgulho de ambos os impedia de falar, um encarou o outro em silêncio pelo canto dos olhos, esperando para ver quem cederia diante da bruxa e contraria a história.

— Temos o dia todo – disse Bonnie – E pela calmaria, acho que as pessoas estão hipnotizadas, certo Vicki?

— Certo. Enzo os hipnotizou por que estava entediado.

— Veja se suas ordens são aceitas, se for mande que saiam.

Vicki assentiu e saiu lançando um olhar especulativo para Enzo que revirou os olhos. Ela retornou com dois funcionários do bar do hotel, ambos se colocando á arrumar a bagunça dos vampiros. Bonnie lançou um olhar questionador para a humana que deu de ombros.

— Fui garçonete por tempo suficiente para me incomodar com essa bagunça em local de trabalho, eles nem vão se lembrar de nada mesmo, depois. E então? Já falaram?

— Ainda não.

Vicki sorriu maliciosa.

— Que tal um pouco mais de dor? – sugeriu piscado – O quanto acha que vampiros podem resistir?

Bonnie olhou-os pensativa. Um movimento e os dois se levantaram sendo empurrados contra a parede, os pés tocando o chão só superficialmente. A dor que sentiam na cabeça desceu pelo corpo se concentrando nas mãos, os dedos se quebravam e tão rápido regenerava voltava a se quebrar. Não era da natureza de Damon, mas se Enzo aguentava a dor ele também aguentaria. Era pura pirraça, infantil e sem sentido. Bonnie não parecia estar gostando daquilo, olhava com apreensão de um para o outro, Damon podia sentir a tensão dela, como se á qualquer segundo fosse gritar para que contassem logo, implorar. E quando os verdes olhos dela se encontraram com os seus, ele focou nela. Ver até onde ela aguentava aquilo. Sentiu o sorriso se curvando, muito além da dor uma curiosidade excitante o preencheu. Devia estar enlouquecendo de vez, por que só pensava em beijar a bruxa assim que ela o libertasse.

Então um grito de dor profunda e sofrida ecoou, tirando a concentração de Bonnie que os largou. Damon cambaleou ligeiramente e se encostou á parede. Recuperando a sensibilidade nas mãos. Quem gritava era Vicki. Ela tirou algo do pescoço, uma bolsinha que queimava e quando o jogou para longe de si, um objeto de metal rolou para perto de Bonnie, algo que estava tão ridicularmente quente que brilhava vermelho-alaranjado, como brasa. Bonnie se afastou assustada com aquilo olhando de Vicki para o objeto e de volta para Vicki. A humana esfregava o peito, olhando fixamente para o pedaço de ferro quente. Se fosse uma bruxa, Damon pensou, aquele troço no chão teria explodido.

— O que é isso? – ele questionou se aproximando das duas.

— Um pedaço do inferno – disse Vicki com frieza.

Bonnie se agachou e o pegou, como que fascinada pela coisinha que esfumaçou ao seu toque até ficar no tom de chumbo que era.

— Interessante – disse analisando o objeto olhou para os vampiros – Preciso conversar com Vicki, tentem não se matar.

Sem nenhuma explicação se dirigiu á saída, acompanhada de Vicki que apontou para os dois.

— Comportem-se.

Damon se virou desconfiado para Enzo que seguia as duas com um olhar intrigado. E quando saíram disse em um tom debochado.

— Esquentadinha sua namorada – se referindo á Bonnie – Me pergunto se ela é assim na cama também, qual é mesmo a palavra? Uma Domme?

Damon sabia que era uma provocação, mas a reação foi instintiva ao ouvir Enzo falando naquele tom de Bonnie. Se aproximou preparado para estrangular Enzo, mas o outro parecia ter tido uma ideia semelhante, se deslocou mais rápido que o esperado quebrando o pescoço de Damon. Quando despertou estavam á mesa, Enzo bebendo uísque o observava, estendeu a mão para a garrafa na mesa e serviu o copo do outro, sem deixar de analisa-lo.

— Já faz muito tempo, amigo.

— Pensei que estivesse morto – disse naturalmente, sincero e sem desculpas.

— Não morri – Enzo se recostou na cadeira.

— Tem planos de vingança para mim? – perguntou direto, bebericando o uísque.

— Sempre tenho.

Ficaram quietos se olhando, medindo forças. Damon tinha consciência de como Enzo podia ser persistente, mas não se importava. Ele era pior. Manteve-se impassível diante do velho amigo que agora talvez ressurgisse como inimigo, Enzo perguntou sobre o que andou fazendo, no mesmo tom de quem discute banalidades, Damon contou o que fizera nos últimos tempos incluindo o fato de estar com a humanidade desligada quando o deixou para ser queimado. Não pareceu estranho ao vampiro ter aquela conversa, nem desagradável. Mas a sensação de estar sendo sondado só aumentava á medida que Enzo fazia perguntas encobertas, Damon esquivou-se com cautela deixando no ar muitas respostas e perguntas que não se encaixavam.

Vicki e Bonnie se juntaram á eles pouco tempo depois e simplesmente não questionaram sobre a desavença, como se não tivessem notado e fossem velhos e bons amigos. Vicki sentou ao lado de Enzo que deu um sorriso discreto beijando seu rosto quase respeitoso. Bonnie sentou ao lado de Damon um pouco distraída olhando para os lados, incomodada.

— Algo errado? – perguntou Damon.

— Mau pressentimento.

Damon olhou ao redor e não viu nada de mais, mas a inquietação da bruxa o afetou e bem cônscio do que fazia, segurou sua mão piscando e sorrindo para ela. E pela primeira vez, desde que saíram de Mystic Falls, o vampiro a sentiu relaxando. Damon não deixou passar o olhar atento de Enzo, estudando-os, também notou a imparcialidade de Vicki fazendo tudo em um gesto meio mecânico, diferente da Vicki que ele conhecera. Talvez fosse por ela não estar bêbada ou drogada que agia daquele modo, superficial.

— Estou com fome – declarou ela – Que tal sairmos daqui?

— Preciso ligar para casa – informou Bonnie.

— Vamos subir e nos encontramos lá fora em trinta minutos. Pode ser?

Bonnie o olhou, esperando sua opinião. Damon sorriu internamente ao notar que ela estava perguntando á ele antes de decidir. Concordou.

Não saberia dizer mais tarde o porquê da aflição repentina. Mas quando desligou o celular, após falar com o pai, ela se sentiu perdida, pequena, inofensiva e indefesa. A sensação era horrível, parou, olhando o quarto vazio e elegantemente decorado, Damon fizera questão de terem dois bons quartos por que ele queria e podia. Tentou afastar da cabeça a ideia de solidão que teimava em lhe rondar e foi tomar uma chuveirada. Quando saiu do quarto, Damon estava a sua espera do lado de fora. Sorriu estendendo a mão para ele e só percebeu isso quando ele segurou.

Estava errado. Aquilo não devia acontecer, ainda não. Contudo, não conseguiu largar a mão dele, nem quando se encontraram com os outros fora do hotel. Como não chegaram a uma conclusão de para onde ir – Damon e Enzo se contrariavam de propósito – foram comer hambúrguer e fritas. Era bem mais simples que morrer de fome esperando que entrassem em um acordo. Quando se sentaram comendo, Bonnie perguntou de onde se conheciam e por que da briga. Ela sabia a resposta, conhecia a história, mesmo assim prestou atenção enquanto eles recapitulavam o passado.

— E nunca pensou em saber se Enzo estava mesmo morto? – perguntou quando terminaram de contar.

— Eu tinha desligado a humanidade e quando religuei já tinha passado muito tempo e eu optei por não pensar no assunto – e emendou antes que alguém fizesse algum comentário – E você, Bonbon, como foi conhecer Enzo?

— Conheci no dia que fui o tirar do laboratório, antes disso ele era só um número em uma pasta.

— Como assim? – quis saber Enzo que nunca conseguiu uma resposta para aquela pergunta.

— A Sociedade Agustine é secreta demais, infelizmente nem todos seus membros são bons em esconder seus segredos – falou escolhendo as palavras – Eu conheci um médico que fazia um excelente trabalho no ramo de pesquisa com sangue de vampiro.

— Que médico?

Bonnie refletiu, não estava mentindo, o Dr. Gilbert realmente fizera pesquisas com sangue de vampiro, só que esse era um segredo á ser desvendado dali á alguns anos e não naquele momento.

— Não posso dizer, não tenho permissão.

— Conheceu um medico da Agustine e não pode nos dizer o nome? Por quê?

— Por que ele está morto Damon, e em teoria eu não sei absolutamente nada sobre a existência de tal sociedade. Lamento por terem sido cobaias nas experiências deles, mas prefiro não arriscar mais. Já me coloquei em perigo quando libertei Enzo.

— Se colocou em perigo? Sou eu quem viaja com ele por ai – protestou Vicki

— Felizmente para você sou eu quem conhece segredos que deveriam ser mantido dentro de um seleto grupo de estudiosos e financiadores.

Bonnie meneou a cabeça. Não podia dizer mais que aquilo por que podia se enrolar em alguma mentira sem volta. E não respondeu nenhuma outra pergunta a respeito, conseguindo com alguma dificuldade mudar de assunto.