Notas iniciais
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Shun acreditava que era a única criança do orfanato que tinha a mania de gravar os detalhes ao seu redor em sua mente, de apreciar as vistas que seus olhos lhe forneciam, sentir a textura das coisas como se quisesse implantar um pouco de seu próprio ser em tudo que tocasse. "Eu estive aqui. Eu vi isso. Isso é importante." Acreditava que as memórias ficariam consigo para sempre e algo como uma certa fragrância ou a sensação do vento fresco levantando seus cabelos conforme batia contra seu corpo trariam tudo aquilo de volta quando achasse que não se lembrava mais. Pensava que era a única coisa na qual podia se segurar no último dia que passaria naquele lugar.

Sua concentração foi quebrada ao sentir algo despencando ao seu lado, indo em direção ao gramado abaixo da árvore onde se encontrava.

- Ai!

Não demorou muito para que o menino olhasse para baixo, observando o irmão acariciando a própria cabeça com uma expressão de quem estava fazendo muito esforço para não chorar. Shun riu. Era típico de Ikki e, realmente, não havia como esperar outra reação do mais velho. Achava engraçado como certas coisas não mudavam não importa quanto tempo passasse, e isso era de certa forma tranquilizador. Talvez, se nada desse errado, mesmo depois de todo o tempo que ficariam separados, os sentimentos dos dois ali presentes nunca mudariam, então não precisava se preocupar. Era algo certo, uma crença inabalável. Ikki sempre seria Ikki, apesar de tudo, e Shun sempre seria Shun, pois não queria ser mais ninguém além de si mesmo. Não havia nada mais simples.

De qualquer forma, ainda não conseguia afastar o pavor que residia em algum lugar de sua mente. Independente de quantas paisagens bonitas visse, de quantos momentos felizes vivesse, essa sensação sempre aparecia de tempos em tempos para assolar qualquer instante de paz que tivesse. Não era algo simples de superar, Shun tinha medo do próprio tempo. Um dia, todas as flores que tocou iriam murchar, a árvore na qual sentava poderia simplesmente morrer, a grama talvez não seria tão verde quando voltasse àquele lugar após alguns anos. Todas aquelas coisas preciosas iriam sumir, como se nunca houvessem existido. Residiriam apenas em sua memória, mas isso não era suficiente. Nunca seria.

Seu irmão resmungava algo baixinho ao mesmo tempo em que subia na árvore, e Shun tirou sua atenção do garoto, focando os olhos no céu. O dia estava bonito em sua opinião, não havia sequer alguma nuvem, no entanto a brisa fresca soprava, batendo na árvore e fazendo as folhas farfalharem. Algo tão simples, mas ao mesmo tempo tão bom.

Um sorriso melancólico nunca saiu de seu rosto enquanto desejava que o tempo apenas parasse.

Notas finais
o que é isso
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!