Os segredos de Eva
7 Uma garota especial.
Sentados em torno da grande mesa da sala de jantar, fartamente servida, o grupo de convidados parecia mais compacto e discrepante. Com certeza, a maioria não devia entender a presença daquela jovem secretária ali, entre eles. Caroline estava sentada entre velho produtor Arthur e uma mulher de meia idade de cabelos curtos e loiros, que não havia sido apresentada, durante o almoço de hoje cedo.
— Você é a secretária de Gustav? — Ela foi direita, com sua voz rouca de fumante, analisando a garota com atenção.
— Sou — A garota ergueu as sobrancelhas, intrigada.
— Ele sempre gostou das novinhas — disse, com um jeito malicioso. — Nós ainda não nos conhecemos, sou Célia, fui agente de Eva por muito tempo.
— Muito prazer — Caroline respondeu, segurando a vontade de lhe dar uma outra resposta.
— Célia era uma verdadeira leoa, sempre conseguiu colocar Eva nos papéis de destaques nos filmes, conhecendo as pessoas certas. — Arthur comenta com uma mescla de inveja e respeito.
— Eva era uma garota esperta, sabia, exatamente, o que fazer com conseguir o seu objetivo, além de ter talento, é claro — Célia rebateu.
— Nossa pequena Eva era uma garota especial — Artur conclui, de um jeito meloso.
— Principalmente, depois, que aprendeu a controlar a Amélia, tudo ficou mais fácil, para ela — Célia completa, em voz baixa.
— Então, ela podia passar por cima de qualquer coisa? — Caroline quis saber, um tanto abismada com aquelas revelações.
— Se Eva queria algo, nada a fazia desistir até conseguir. Tom é um bom exemplo disso, ela teve que construir essa casa enorme só para tê-lo — Célia segredou, bem pertinho dela.
— Mas, ela não era casada com Ortega na época da construção? — Caroline perguntou no mesmo tom.
— Sim, mas, naquela época, Ortega já estava bastante doente e toda a magia do casamento já havia passado. Ele só ficava com ela para exibi-la para todos, mostrando o podia ter, assim como um belo quadro ou um carro esportivo. Mas, quando ela conheceu Tom... Bem, ela tinha que tê-lo.
— Célia, não encha tanto os ouvidos da menina, com suas fofocas! — Amélia falou do fim da mesa.
— Eu não estou enchendo, estamos só tendo uma boa conversa, não é mesmo, Catarine?
— Meu nome é Caroline.
— Que seja! — Célia deu de ombros.
Gustav se levantou, com um ar solene.
— Gostaria de lembrar a todos os presentes, que a cerimônia de despedidas de nossa querida Eva acontecerá às dez e meia, quando suas cinzas serão lançadas pelos seus locais favoritos dessa ilha. E após o almoço, haverá a leitura do testamento. Por favor, não se atrasem. Agora, desejo levantar um brinde a nossa querida, amada e adorável Eva. Que Deus a tenha!
— A Eva! — Todos se levantaram e ergueram o copo, dizendo em uníssono.
Após o jantar, enquanto tomavam café e chá servidos em uma sala anexa, Gustav abordou Caroline.
— Então, fez muitas descobertas sobre Eva?
— Eu ouvi muitas coisas sobre ela, mas tudo me deixou mais confusa, ainda não sei quem é realmente essa mulher.
— Ouça e analise, tire suas próprias conclusões. Mas, desde já, eu posso dizer a você, que poucos conheceram a verdadeira Eva.
— Eu estou cansada. O dia de hoje foi muito intenso, vou dormir, agora. Boa noite.
— Boa noite, Caroline.
Ela saiu da casa em direção ao anexo, já conhecia um pouco mais o caminho. Lá fora, o vento marinho sobrava mais forte, impregnando o ar de sal, prenunciando a iminente tempestade e dificultando os seus passos.
— Então, finalmente, se encontrou, Caroline? — Ela se voltou em direção da voz. E alguns passos dela, Tom Miller estava parado com as mãos nos bolsos do casaco, cabelos esvoaçando no meio da ventania, contudo, não parecia se importar.
— Sim, já conheço o caminho — ela falou, por cima do barulho do vento.
— Estou indo a um lugar, quer vir comigo?
— Eu não sei, é perigoso?
— Talvez, mas valerá a pena — ele disse com um sorrisinho maroto.
— Sim, eu irei. Sou uma garota muito curiosa e até um pouquinho corajosa.
Caminharam além do anexo, ele a guiou por uma pequena trilha no meio da vegetação baixa, subindo e subindo. Os sapatos, mesmo não sendo altos, eram inapropriados para caminhada daquele terreno íngreme e irregular, algumas vezes, ela escorregou nas pequenas pedras, mas Tom a aparou. Chegaram a uma outra construção envidraçada, mesmo com pouca luz, dava para distinguir o estilo francês antigo.
— Eve, fez questão desse lugar — Tom revelou, quando abria a porta, procurou um interruptor.
— Por que sempre a chama de Eve? — Caroline estava curiosa por essa peculiaridade.
— Era uma maneira de eu me distinguir dos outros, só eu a chamava assim.
Nesse momento, ele encontrou o interruptor e o lugar se iluminou.
—É lindo! — Caroline ficou encantada com o que viu, um delicado jardim coberto, samambaias, avencas, lírios d’água e orquídeas de vários tipos, até palmeiras-anãs estavam dispostas em pequenos canteiros e vasos, no meio da construção de teto alto, havia uma pequena fonte e um curso d’água, banco de madeira no estilo antigo e luminárias imitando lampiões completavam o lugar.
— É um orquidário. Eu disse a ela que não precisava de uma estufa em uma ilha tropical. Mas, com o tempo, enquanto construímos, eu percebi que esse lugar representava a essência de Eve. Uma mulher sonhadora e romântica.
Começaram a andar, lentamente, entre as estreitas áleas cercados de flores, pararam diante da pequena fonte e ficaram contemplando o movimento das águas.
—É estranho, pois a cada pessoa que converso, nessa casa, tenho uma imagem diferente de Eva.
— Como você deve saber, Eva era uma excelente atriz, ela podia representar vários papéis tanto na arte, como na vida.
— Sem querer parecer contestadora, mas como você saber que Eva estava sendo sincera com você, se não era mais uma das suas interpretações?
— Eu, simplesmente, sabia — ele falou com a voz firme, se voltando para ela com uma expressão dura.
— Porém, todos os outros pareciam saber, também.
— Eva não mentiu para mim. Eva me amava, de verdade — Tom falou com veemência.
— Não estou dizendo o contrário ou que mentiu para você. No entanto, é como se ela fosse várias pessoas, em uma só — Caroline respondeu em tom apaziguador, sem entender porque estavam tendo esse tipo de conversa com aquele homem.
Tom voltou a encaram a pequena fonte à sua frente.
— É engraçado, porque você chegou hoje, e logo já percebeu o que eu levei anos para entender. Tanto que nos últimos tempos, nosso casamento não ia muito bem.
— Eu lamento saber disso.
— Não era fácil conviver com Eva Montserrat-Ortega. — Ele soltou o ar com força e olhou Caroline, com um sorriso triste. — Acho que já a aborreci demais, com essa conversa chata. Você deve estar cansada, querendo dormir.
— Não, eu não me importo.
— Mas, por hoje, chega! Obrigado pela companhia, Caroline. Eu não vinha nesse lugar desde que Eve morreu.
— Mas, por que agradecer?
— Por me ouvir. Vamos, eu a levo até o anexo.
Ao saírem da estufa, notaram os primeiros pingos de chuva, o vento havia piorado, sacudindo a vegetação a sua volta, sem piedade.
— Vamos correr, antes que a chuva aumente! — Tom falou e saiu na frente, a deixando para trás, mas, parou, vendo que ela não conseguiria descer tão rápido, segurou-a pela mão e a puxou caminho abaixo, fazendo-a a ir mais depressa, bem a tempo, pois a intensa tempestade desabou, quando se aproximavam do anexo. — Sã e salva — disse, ao chegarem, com um leve sorriso de satisfação.
— Obrigada — Caroline respondeu, quase sem folego.
— Obrigado a você, pela companhia. Boa noite, Caroline.
— Boa noite, Tom.
Ele se virou e foi embora, Caroline o observou partir até desaparecer atrás de uma parede de bromélias.
Fale com o autor