Os segredos de Eva
13 Se ele descobrisse a verdade...
— Fugir contigo?! Você deve estar brincando?— Caroline riu..
— Eu não estou brincando, só quero sair um pouco dessa casa.
— Estamos em uma ilha, para onde pensa que vai?
— Se o mar não tive batendo, poderíamos sair de barco, mas, infelizmente, não vai dar. Acho que vai ser mesmo difícil sair dessa casa. Mas, podemos ficar longe de tudo isso. Por algum tempo. Venha comigo!
Eles deixaram o quarto de Eva para trás, seguiram pelo corredor, depois de uma curva encontraram uma escada, que descia em espiral.
— Para onde estamos indo?
— Apenas, siga-me — ele continuou descendo até chegarem a uma sala, um grande espaço aberto, a parede detrás era toda de vidro, deixando ver uma pedra enorme e a vegetação selvagem.
Mesas e pranchetas de desenho, prateleiras com livros e projetos demonstravam que aquele era um ambiente de trabalho, o estúdio de Tom. Em um canto, um sofá com lençóis e travesseiro dava entender que era ali que ele dormia, ultimamente.
— É aqui que passo a maior parte do dia, me escondendo. — De um pequeno frigobar, tirou uma cerveja — Quer uma?
— Não, obrigada
— Vamos, sente-se.
Ela escolheu um banco alto e ele fez o mesmo, abriu a garrafa e tomou um longo gole, direto no gargalo.
— Por que você se esconde? Afinal, essa casa é sua.
— Não, essa casa é de Eve, eu apenas a construí, como ela quis.
— Eu nem imagino como é que ter tanto dinheiro, já que, minha família sempre viveu com muito pouco, o dinheiro era contado, não temos luxo.
— Não posso dizer que entendo o que você está falando, nunca fui pobre, mas, também não tínhamos tanto dinheiro.
— Como conheceu Eva?
— Eu trabalhava na empresa do meu pai, Eve havia visto alguns projetos nossos e estava pretendo construir essa casa. Lembro muito bem, quando a vi pela primeira vez, nunca conheci uma mulher tão bonita, em toda a minha vida. — Olhos dele brilharam, um sorriso luminoso se abriu com a lembrança e algo se contorceu dentro dela, uma sensação ruim. Ciúmes de sua mãe morta. — Nunca imaginei que Eva Montserrat olharia para um garoto como eu.
— Você está brincando, Tom! Quem não olharia para você? — Carolina falou em um impulso, ele a fitou, espantado, ela sentiu seu rosto queimar.
— Pois bem, o nosso projeto ganhou a concorrência e você sabe o resto. — Ele tomou mais um gole, ele continuou com um tom soturno: — No começo, tudo foi maravilhoso, Eve era perfeita em todos os sentidos, foi mágico, ela me ensinou tanto, sobre amor, sexo, o mundo, cultura, abriu minha mente, e eu só queria amá-la. Mas, depois de um tempo, lentamente, a magia se desfez, então, pequenos detalhes começaram a pesar. Todos os pequenos segredos guardados, machucava a falta de confiança. Eu a queria por inteiro, no entanto ela não podia se dar dessa forma. — Ele soltou o ar com força e bebeu mais um gole da cerveja. — Eu não sei por que estou contando tudo isso a você, a aborrecendo com as minhas confissões?
— Não, por favor, você não está me aborrecendo em absoluto.
— Por que uma garota legal como você, está trabalhando para um cretino com Gustav?
— Necessidade. Mas, por que você não gosta dele?
— Não tenho uma razão específica, só que pressinto algo de ruim. Nos últimos tempos, ele e Eve ficavam de segredos, quando eu perguntava ela sempre mudava de assunto, dizendo que eu estava ficando paranoico, então, parava para evitar mais uma briga. Mas, agora, acabou.
Caroline se sentiu mal, seria ela esse segredo? Poderia esclarecer agora, no entanto, tinha medo. E se ele soubesse, como reagiria diante da filha desconhecida da sua mulher? Talvez, ele se afastasse e ela o perdesse de vez, mesmo que não tivesse nenhuma esperança.
— Eu não sei o que dizer.
— Não precisa, já é bom você está aqui comigo.
A noite começou a cair, encontrando os dois sentados, no sofá, ainda conversando, ao lado deles, algumas garrafas de cerveja vazias.
— Acho que ficamos tempo demais, aqui — Caroline observou, sem vontade que acabasse, queria continuar ali, ao lado dele.
— Deixa estar, estamos bem aqui. Não precisamos dele — Tom falou, preguiçoso, relaxado, com a cabeça jogada no encosto do sofá. — Amanhã, estará tudo terminado.
— E o que fará da sua vida? — Caroline estava realmente interessada, mesmo que jamais cogitasse em fazer parte dela.
— Voltar para ela, continuar a viver, como se esses últimos cinco anos não tivesse existidos, apenas um sonho daqueles bem realistas.
— Mas, com certeza, você será um homem rico.
— Eu não sei o que está naquele testamento. Ninguém sabia de verdade, o que se passava pela cabeça de Eva.
— Pelo que parece, ser imprevisível pode ser uma forma de controle, nunca saber como uma pessoa pensa ou o que vai fazer, deixar todo mundo em expectativa.
— Eu nunca havia pensado nisso antes, e acho que está certa. Você é muito esperta!
— Sim, eu sou. Tenho que ir — ela disse, já se levantando.
— Por favor, não vá! Fique um pouco mais! — Ele estendeu o braço e a segurou pela mão, perdendo o equilíbrio e caindo bem próximo a ele, tanto que podia sentir sua respiração e o calor do seu corpo, o que a deixou paralisada.
— Realmente, preciso ir — ela falou, sério, afundando seus olhos nos deles, suas bocas a poucos centímetros.
— Sim, é melhor que vá, agora — murmurou, junto a sua boca.
Então, ela se levantou, o deixando lá sentado, e não olhou para trás. Com o coração querendo escapar do seu peito, se afastou, apesar que cada passo para longe dele ficar mais e mais difícil. A cerveja a deixou um tanto tonta, não queria acreditar que estivesse se apaixonando, não podia estar acontecendo, não dessa maneira.
Passou direto pela sala de jantar, não desejava encontrar-se com os outros, só pretendia se esconder no seu quarto, dormir e esquecer, no entanto, seu caminho foi interrompido, antes de chegar o seu objetivo.
— Onde estava, Caroline? — Gustav a interrogou de modo duro.
— Por aí — ela deu de ombros fingindo indiferença, contudo, sentia-se bem incomodada pela pergunta. O que ele tinha a ver com isso?
— Espero que saiba o que está fazendo?
— Eu não estou fazendo nada — Ela ergueu o queixo, desafiadora.
— Você entende a sua posição delicada nessa casa? Ninguém deve desconfiar quem realmente é você.
— Por quê? Para preservar o bom nome de Eva? Mas, não existe bom nome aqui, eu ouvi coisas terríveis sobre ela.
— Nem tudo é verdade, ela não está aqui para se defender.
— Não está, não é mesmo? Para mim, Eva é apenas um nome, uma memória de outras pessoas, no entanto, não significa nada.
— Eu lamento muito em ouvir isso — Ele parecia mesmo estar falando a verdade.
— Desculpe, mas eu só quero dormir, agora. Boa noite.
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