Os segredos de Eva

9 Só uma garota comum


— Como se atreve, sua velha bruxa! — Tom gritou, cheio de rancor, parado, diante de Amélia, com a expressão assustada. — As cinzas da sua filha ainda estão aqui e você já está negociando a venda dessa casa.

— O que você queria? Como acha que poderei manter esse lugar? Recebi uma oferta irrecusável de uma rede de hotel internacional — Amélia Ruiz retrucou com a voz firme, recuperando-se do susto, bem depressa.

— Você sequer sabe se a casa ficará para você — Ele manteve o tom de discórdia.

— Para quem mais ela a deixaria, sou sua a mãe dela, sangue do seu sangue, que cuidou dela a vida toda — falou, com desdém.

O homem bufou, passando a mão nos cabelos, pronto para rebater, quando Gustav interveio.

— O testamento ainda não foi aberto, não está certo, assim, não se deve tomar decisões precipitadas, por assuntos que ainda são desconhecidos. Então, antes que essa discussão prossiga, devemos nos acalmar e esperar.

Tom deu um olhar duro para Amélia e se saiu.

— Cansei desse circo! — Haikai se levantou e se foi, deixando Caroline sozinha.

Ao ver, Tom partir assim tão consternado, teve vontade de segui-lo, ficar com ele, mas não sabia como a receberia, mesmo assim resolveu arriscar, imaginando para onde poderia ter ido. Assim, seguiu pelo mesmo caminho íngreme da noite anterior e seu palpite estava certo, Tom estava na estufa que havia criado para Eva, com o semblante consternado, encarando o infinito através das grandes janelas de vidro. Por um breve instante, ele a fitou sobre o ombro, ao perceber a sua presença, depois, voltou seu olhar para o além.

— Eu descobri que Amélia está negociando a venda dessa casa, recebi um telefonema de um amigo me avisando, e as cinzas de Eve ainda estão aqui. Aquela velha bruxa, quer tirar proveito da filha até depois de morta.

— Mas, Gustav disse que não está nada certo ainda, que é preciso esperar o testamento.

— Eu não ligo para a casa, é só um monte de tijolos e vidro, mas me importo com a memória de Eve, porque ela amava esse lugar.

— Talvez, esse lugar fosse importante para Eva por sua causa. — Então, ele se voltou para ela, com uma expressão de surpresa. Caroline continuou: — Talvez, ela amasse esse lugar por você.

Tom refletiu por alguns segundos, lembrando-se como aquele foi projeto difícil, pois Eva sempre mudava de ideia a respeito de algo ou queria algum detalhe novo, fazendo-o quase enlouquecer, mas, eles, também, se aproximaram, ela sempre vinha ver o andamento da obra, queria saber de cada pormenor, telefonava todos os dias, quando não podia estar presente. E nas suas visitas, nunca esquecia de alguns mimos para os trabalhadores, como lanches especiais, pequenos presentes. Será que ele foi tão burro que não percebeu a real intenção dela? Sim, ele percebeu o flerte velado, as trocas de olhares, aquele jeito naturalmente sensual dela. Apesar de só começarem um verdadeiro romance após a morte do marido dela, Ortega.

Foi nessa casa que Tom viveu alguns dos melhores momentos da sua vida, ao lado de uma mulher linda e apaixonada. Memórias que estão impregnadas em cada pedacinho desse lugar, por isso, Eva desejava permanecer para sempre ali, que suas cinzas se misturassem a terra.

— Eu não posso permiti que Amélia faça isso. Essa mulher não pode ganhar outra vez.

— O que pretende fazer, Tom? Começar uma guerra contra Amélia?

— Se for preciso.

— Eva não gostaria nada disso.

Ele se voltou para ela, com os olhos em fogo.

— Como pode saber o que Eve gostaria, se você nem a conheceu?

— Você tem razão, eu não a conheci.

— Desculpe. Você está aqui, ouvindo minhas divagações. Não devia tratá-la desse modo.

— Tudo bem, eu imagino o que deve estar passando.

— Você é sempre assim tão cordata.

— Não, só que todos aqui são tão estranhos...

— Sim, somos um bando de loucos — Ele lhe deu um sorriso triste. — E devo confessar, que não gostei quando Gustav disse que traria uma secretária, achei que você poderia ser uma das suas amantes. Mas, agora, que está aqui, eu estou gostando que tenha vindo, porque parece ser a única pessoa sensata entre esse bando de insanos, alguém que eu posso conversar.

— Fico feliz por isso — Ela devolveu um pequeno sorriso. — Você devia amar muito Eva.

— Sim, eu amei, ela era encantadora, uma mulher inteligente, quente e envolvente, no entanto... Às vezes, eu achava que ela estava representando um papel, como se nunca pudesse alcançá-la.

— E nunca quiseram ter filhos?

— Esse foi um assunto delicado. Eve era dez anos mais velha do que eu e não podia ter filhos, devido complicações após um aborto. Sabia disso desde que nos conhecemos, ela nunca escondeu e eu aceitei, pois, o que me importava era estarmos juntos. Mesmo assim, eu sabia que isso a deixava arrasada, frustrada, ela desejava muito ser mãe. Talvez, fosse a razão da certa melancolia que a afligia.

A forma como Tom falava sobre Eva era tão intenso, que incomodou Caroline. Ela estaria com ciúmes da sua mãe morta? Não podia ser! Aquele homem era o marido de Eva, uma mulher poderosa, linda e sedutora, então, como ela, uma garota comum, sem nenhum atrativo especial, poderia se atrever a se sentir atraída por aquele homem.

— Mas, chega de falar sobre mim, Eva e esse circo. Fale-me sobre você, Caroline — Tom pediu de um jeito dissimuladamente animado, sentando-se em um dos bancos de madeira e ferro batido. Caroline sentou ao seu lado.

— Sobre mim?! Não tenho nada em especial, só sou uma garota comum, que não tem nada a ver com esse mundo que o cerca.

— Isso é bom, ser diferente de tudo isso, e é claro que deve ter algo de especial, senão não estaria trabalhando para Gustav?

— E só algo temporário — Ela sorriu e deu de ombros. — Estou na faculdade. Só sou uma garota suburbana comum.

— Eva também nasceu no subúrbio. Desculpe, estou fazendo de novo. O assunto aqui é você.

Então, ela se lembrou.

— E o cachorro? O que vai acontecer com ele?

— Chiffon? Eu não sei — Tom estava confuso com a pergunta.

— Não vão matá-lo, não é? Senão eu posso ficar com ele.

— Matá-lo? De onde você tirou essa ideia?

— É que Amélia disse...

— Amélia não destruirá mais nada de Eve. Eu prometo que cuidarei dele — Tom lhe deu um sorriso verdadeiro, como ele era realmente lindo. — Todos aqui preocupado com o dinheiro, mas você se preocupou com o cachorro.

— E o que que tem?

— Eu não sei, só estou impressionado — Ele a encarou de um modo tão quente, que um arrepio subiu pela sua espinha.

— Eu acho melhor voltar para casa, o doutor Lutz pode estar precisando de mim.

Sem esperar, Caroline se levantou e saiu apressada, para longe dele.