Os segredos de Eva
24 A teia de mentira se desfaz
Por um breve instante, Caroline hesita em atender, não quer que nada atrapalhe aquele momento, não consegue desviar seus olhos dos olhos cristalinos de Tom. Mas, o som insistente não permite, a mágica se desfez, um tanto decepcionada, ela pega o aparelho e vê o uma ligação anônima, pensa em não aceitar, mas nos últimos meses, fatos estranhos estavam ocorrendo, sendo assim, atendeu.
— Caroline Ferrer? — a voz masculina desconhecida e rouca questiona.
— Sim.
— Eu sei quem você é.
— Quem está falando? Que brincadeira é essa? — rebate, exaltada.
— Eu sei que você é a filha desaparecida e, agora, achada de Eva Montserrat. A herdeira perdida — Seu tom era assustadoramente irônico, o sangue dela gelou.
— Quem é você? Está louco? Eu não sei do que está falando! — respondeu, em tom mais alto.
— Você acha que poderia ficar escondida por muito tempo, estava enganada, Caroline Montserrat, em breve saberá quem eu sou — Desligou.
Ela ficou encarando o aparelho na sua mão, abismada, sabendo que fim estava próximo, a sua máscara estava preste a cair.
— O que foi? Quem era? — Tom perguntou, franzindo a testa, preocupado.
— Eu não sei, só um trote idiota, eu acho — murmurou, ainda, desconcertada.
— Não ligue para isso. Só foi uma brincadeira boba — Ele lhe deu um sorriso tranquilizador se aproximou dela e a envolveu nos seus braços, ela se aconchegou no peito dele, por um segundo, esqueceu dos seus medos, ao sentir o cheiro e o calor do seu corpo, desejava que o mundo parasse naquele instante, e todos os problemas ficassem lá fora, mas sabia que isso não seria possível, pois, em pouco tempo, Tom a odiaria.
Os lábios dele escorregaram por seu pescoço e seu rosto se ergueu a procura do dele, suas bocas se grudaram na ânsia do desejo. Não queria pensar, a não ser no que estava acontecendo naquele instante, o futuro com suas incertezas ficaria para depois. Ali, nesse momento, eram inalcançáveis, o mundo se limitava apenas a eles, dois corpos se encontrando e fundindo, no anseio da paixão. Caroline sabia que seria um instante fugaz que, possivelmente, jamais se repetisse, assim desejava que fosse perfeito, para guardar para sempre na memória.
— O que está tão pensativa? — Tom a perguntou, quando ela permaneceu por um longo tempo em silêncio, aconchegados na cama dele.
— Como chegamos até aqui.
Ele riu alto, ela questionou com o olhar.
— Quando cheguei àquela ilha, esperei um verdadeiro martírio, no meio da tanta gente chata, então, eu encontrei vpcê, e tudo melhorou, me encheu de esperança.
— Eu não quero decepcioná-lo.
— Por que você me decepcionaria? Estamos aqui, juntos.
Ela se calou, não tinha mais nada a dizer.
Ao voltar para a casa, Caroline encontrou os pais jogando cartas, na copa, haviam convidado as irmãs da sua mãe para completar a mesa. Ao lado deles, copos de cerveja geladas e petiscos variados, sorriu ao assistir aquela cena tão familiar, a garota se lembrou quando a vida era mais simples, a felicidade estava em pequenas coisas e em momentos despreocupados como esse.
— Você demorou, minha filha! — Sua mãe observou, tirando os olhos das cartas na sua mão, enquanto ela cumprimentava as tias.
— Deixe a menina se divertir, Laurita — tia Maria se intromete, repreendendo a irmã mais jovem, com seus óculos na ponta do nariz, completa uma canastra. — Vamos, a sua vez, Manoel.
— Vou tomar um banho — Caroline anunciou, deixando continuar o jogo, mesmo não querendo tirar o cheiro de Tom do seu corpo, sem saber o que o dia seguinte reservava.
Na manhã de domingo, Tom ligou cedo, a convidando para um café da manhã.
— Café da manhã? Eu praticamente acabei de sai do seu apartamento, para dormir — respondeu com um jeito divertido.
— Porque quis, por mim, você poderia ter dormido aqui, assim não teria o trabalho de voltar.
— E o que eu diria para os meus pais?
— Diria que está muito bem acompanhada, completamente segura e feliz, que eu cuidaria muito bem de você.
— Não acho que meu pai gostaria muito dessa resposta. Mas, eu irei tomar café com você.
— Querer que eu vá aí, buscá-la?
— Não precisa, eu vou me encontrar com você.
Assim passaram um domingo perfeito, juntos, contudo ela tinha constantemente a sensação que a sua felicidade pendia por um fio, e como esperava, o dia seguinte foi cruel, começo pela manhã, bem cedo, quando saía da garagem do seu prédio, indo para a faculdade, parada na calçada, antes de alcançar a rua, um homem a abordou, batendo na janela do seu carro,
— Caroline Ferrer! — Ela se voltou, assustada, pensando que poderia ser um assalto, não respondeu. — Sou repórter da revista Em cena e gostaria de uma exclusiva.
— Não estou entendo — respondeu, através do vidro fechado.
— Você não é a filha abandonada de Eva Montserrat, que herdou toda a sua fortuna?
— Não sei do que você está falando! Tenho que ir— disse, com ênfase, e acelerou, quase batendo em um carro que passava, que precisou frear violentamente.
Está acontecendo! A teia de mentira se desfez, ela estava caiu em um abismo sem fundo, era inevitável, pensava quando tentava dirigir, mas suas mãos tremulas não permitiam. Estacionou, quando conseguiu, querendo acalmar seu coração, tentou respirar, soltar o ar preso no peito, então, encostou a testa no volante e chorou. Seus olhos ardiam quando levantou a cabeça e pegou seu telefone, tanto que mal conseguiu ver nome ao apertar a discagem direta.
— Caroline! Aconteceu alguma coisa? — Ele atendeu, aflito, ao ver o nome dele no seu telefone, àquela hora da manhã.
— Doutor Lutz, fui descoberta.
— Como?
— Um jornalista da revista Em cena estava diante do meu prédio, de tocaia, me esperando sair, para consegui uma exclusiva.
Ela ouvir a respiração forte do outro lado.
— E o que você disse?
— Eu não falei nada, mantive a mentira.
— Ótimo. Fique tranquila, vou averiguar. Retornarei quando tiver alguma novidade. Por enquanto, acalme-se. Volte para casa e espere por minha ligação.
Como uma ilusão, em um ato de desespero, achou que poderia falar com Tom, contar-lhe toda a verdade, antes que descobrisse da pior forma possível. Olhou para o seu telefone e verificou as horas, era muito cedo, mas não tinha tempo a perder, não podia se dar ao luxo de esperar um horário mais apropriado.
Ao atender, Tom estava ofegante, sua voz entre cortada.
— Caroline!
— Desculpe ligar a essa hora, mas tenho algo urgente para falar com você, posso ir até o seu apartamento, agora.
— Agora? Estou no meio da rua, correndo, mas eu posso voltar, devo estar lá em vinte minutos.
— Eu estarei lá.
Sem perder tempo, dirigiu direto para o apartamento de Tom, porém, infelizmente, o trânsito foi um grande inimigo, muito congestionado, no começo da manhã de segunda, demorando mais que esperava, conseguiu estacionar em uma vaga um pouco longe, caminhando apressada, estancou ao reconhecer à distância, Tom usando roupa de corrida, discutindo, com um homem, parecendo bastante irritado, deu um empurrão no desconhecido, que perdeu o equilíbrio, mas não caiu.
— Vai embora, me deixe em paz, antes que eu chame a polícia! — Escutou Tom gritar, com raiva, e entrar no seu prédio.
Ela ficou parada, no mesmo lugar, achando pouco prudente se aproximar, pois, o homem podia reconhecê-la, sem saber o que fazer, decidiu telefonar para Tom, que atendeu com uma voz soturna.
— Tom, eu estou aqui embaixo, vi você discutindo com um homem — ela explicou, sua intuição já avisava qual seria o motivo daquela discussão.
— Você viu? — Sua voz era fria e cortante como uma faca. Ele havia descoberto a verdade.
— Eu queria conversar com você, pessoalmente.
— Você sabe o que ele me perguntou? Como eu me sentia transando com a filha da minha falecida esposa? Se tínhamos um caso antes da morte da sua mãe?
— Tom, por favor, deixa eu explicar...
— Eu disse: Não sei nada dessa história, você é louco. Então ele me respondeu: Você não sabia que Caroline Ferrer é a filha rejeitada de Eva Montserrat?
— Tom...
— Eu não queria acreditar, não era possível, aí, eu me toquei: afinal, o que você estaria fazendo naquela ilha, durante a abertura do testamento? Secretária de Gustav? Era muito estranho.
— Tom, por favor, eu posso explicar...
— Você perdeu a sua chance, Caroline. Não temos mais nada a dizer. — Ele desligou.
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