Os segredos de Eva
16 É você?
Enfim, sozinha, na sala de exibição, Caroline se sentou em uma das confortáveis poltronas, de olhos fechados, imaginando como seria sua vida de agora em diante, que tipo de mudanças teria, havia ganho muito dinheiro ao mesmo tempo que perderia o homem por quem se apaixonou, mas não tinha escolha, seu destino não estava nas suas mãos.
Como qualquer criança pobre, por algumas vezes, fantasiou que era uma princesa raptada, que sua mãe verdadeira era uma rainha, que aquela vida de dificuldades e penúria não era a sua vida real, que logo seria resgatada, no entanto, ela cresceu e descobriu que aquela é de fato sua realidade, uma pobre plebeia, que teria que enfrentar a luta do cotidiano para sobreviver. Mas, a sua fantasia se tornou realidade, sabia exatamente quem ela era, e que sua vida real mudaria completamente, com tanto dinheiro. O bom disso tudo era que poderia dar uma vida melhor aos seus pais, ter seus sonhos realizados e muito mais, contudo, tinha medo do que esse futuro de bonança traria.
Um leve som a fez abrir os olhos se assustou ao ver Haikai, parado bem diante dela, com a face impassível.
Os dois se encararam por um breve instante.
— É você, não é? — ele disse, com a voz firme.
— O quê? — Sem entender, franziu a testa, em interrogação.
— Você é a filha perdida de Eva.
— Não! — Caroline ficou de pé em um impulso. — Sou apenas a secretária do doutor Lutz.
O esboço de um sorriso brincou nos lábios deles, seus olhos eram afiados como aço.
— Eu sei que é você, não precisa mentir mais, Caroline. Desde que chegou, fiquei imaginado qual a razão para estar aqui, já que não era amante de Gustav, pois não dormia juntos. E depois da exibição do vídeo, lembrei da conversa que tivemos quando me contou que também era adotada, então, foi fácil juntar tudo.
Por um segundo, Caroline considerou a possibilidade de manter a mentira, mas do que adiantaria, seria inútil, Haikai estava convicto. Assim, soltou o ar com força e mergulhou na poltrona atrás de si.
— Você foi bem esperto — admitiu.
— Não foi difícil juntar as peças, sou um bom observador e as pessoas pouco me notam. Mas, não se preocupe, porque não irei revelar o seu segredo.
— Obrigada. Eu não entendia o porquê de tanto mistério, até chegar aqui.
— Eu não sou um inimigo seu. Estou feliz com o que eu ganhei. Eva foi boa comigo, e ela devia sentir que tinha uma grande dívida com você.
— Culpa por me abandonar.
— Você pode não acreditar, depois de tudo que ouviu, Eva, sem dúvida nenhuma, era uma mulher muito inteligente, mas também muito gananciosa. Mesmo assim, nós dois tivemos longas e boas conversas. Ela falava que eu a ajudava a se instruir. Talvez, desejasse que fosse você aqui com ela. — O rapaz deu de ombros.
— Eu ainda não sei. Desde que soube de toda essa história, venho tentando descobrir a verdadeira Eva, não consegui, pois, sempre que formava uma opinião, alguém vinha e destruía toda a minha teoria.
— Suponho que sua tentativa seja em vão. Não há só uma Eva, mas várias, talvez, nem ela própria se conhecesse, mas continue tentando, quem sabe, chegue a sua própria conclusão. Eu vou deixar você, agora, para evitar especulações.
— Por favor, Haikai...
— Como eu disse, não se preocupe o seu segredo estará bem guardado comigo – Ele faz uma leve reverência e saiu.
Outra vez sozinha, Caroline não sabia o que fazer, como agir, com medo que mais alguém descobrisse o seu segredo.
Será que mais alguém suspeitaria dela? No entanto, não tinha jeito, precisava enfrentar os outros convidados, decidida, ficou de pé, mas, antes do primeiro passo, outra pessoa entrou na sala, a deixando desconcertada. Será que ele também desconfiou?
— Eu fiquei preocupado com você, quando não a vi com os outros — Tom disse com a voz suave e um olhar quente. Ou foi uma mera impressão? Um equívoco? Ela estaria apenas se iludindo.
— Estava com um pouco de dor de cabeça, por isso, preferi ficar aqui, um pouco sozinha.
— Então, eu vou deixar você descansar — Ele fez menção de sair.
— Não, por favor, fique — Ele voltou. — Como você está?
— Depois a surpresa de hoje à tarde? Como poderia estar? Desiludido.
— Mas, ela lhe deixou a casa que construiu.
— Eu já disse a você, que a casa não significa nada para mim, é só um monte de vidro e tijolos. Não sei se conseguirei voltar aqui, sem Eve. Ela era a alma desse lugar. A presença dela está por toda parte. — Então, ele olhou para ela e deu um sorrisinho torto. — Pelo menos, eu fiquei com o cachorro, já que ele está aqui.
Ela lhe devolveu o sorriso, ficando em silêncio, era engraçado como se sentia tão íntima daquele homem, mesmo que fosse só uma utopia, afinal, ele era o viúvo ainda apaixonado da sua mãe, uma mulher extraordinária, linda, sexy, empolgante, nunca poderia competir com ela, nem tentaria. Amanhã cedo, voltariam a vida normal, quem sabe, nunca mais o veria novamente.
— Essa história do vídeo foi uma loucura — Ela não sabia o que falar.
— Se você conhece Eve, não se espantaria, era bem o gênero dela, dramática e imprevisível. Mesmo assim, fiquei chocado com a história do bebê.
— Você nunca soube?
Tom sacudiu a cabeça.
— Não, ela me nunca revelou esse segredo.
— Talvez, tivesse vergonha ou algo assim — Caroline deu de ombros.
— Talvez... Mesmo assim, como pode abandonar uma filha a própria sorte, sem ter nenhuma ideia do futuro que essa criança teria — ele falou contrariado.
Por um breve instante, a resposta chegou na ponta da sua língua, mas não encontrou coragem para prosseguir, relevar a verdade, havia muito em jogo.
— Eva devia ter suas razões, possivelmente, ela era muito jovem, estava desesperada e com aquela mãe... Não podemos julgar, sem tentar entender — Caroline deu as mesmas desculpas que usou para si mesma, mas não tinha certeza se acreditava nelas.
— Eu ainda não sei, se posso aceitar algo assim. Caroline, pode parecer estranho, mas eu posso ligar para você? Sabe, para conversarmos de vez em quando, depois que sairmos daqui. Pois estar com você foi a melhor coisa que aconteceu comigo, nesses últimos tempos.
Ela abriu ligeiramente a boca e segurou o ar, pega de surpresa com tal pedido, até se lembrar de pisca e respira, outra vez.
— Por quê?
Não era a pergunta certa, mas foi a primeira que lhe veio à cabeça.
— Eu disse que gosto de conversar com você. Nesses últimos anos, minha vida girava em torno de Eve, eu era um coadjuvante, um mero satélite gravitando em torno de uma estrela brilhante, mas, agora que... Eu preciso recuperar a minha vida.
— E você quer que eu o ajude quanto a isso, a reconstruir sua vida?
— Será um bom começo.
— Eu não sei o que posso dar a você.
— Você já me deu muito, só por estar aqui conversando comigo — ele falou com a voz suave.
— Caroline! — Ao ouvir seu nome de uma forma tão imperiosa, ela deu um pulo e ambos olharam na direção da porta, para encontrar Gustav com uma expressão dura. — Caroline, depressa, arrume sua bagagem, pois partiremos ainda hoje. Tenho negócios urgentes me esperando no continente.
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