Os póneis bonzinhos vão para o Inferno

19 Livro 2 Capítulo 8 - O Inferno vai abaixo


Sem nenhum objectivo na sua vida, Arenito ia passando os dias com uma ociosidade despreocupada. Trabalhava frequentemente com alquimia e praticava ocasionalmente alguma feitiçaria do tipo usado pelos unicórnios, mas fazia-o mais por vicio do que por necessidade ou vontade. Tinha passado maior parte da sua vida imortal focado num único propósito que nem sabia se seria atingível. Finalmente encontrava-se livre de qualquer meta ou objectivo, mas precisamente por causa disso a sua vida tinha caído numa terrível monotonia entrópica. Arenito não considerava o seu fado muito trágico, pois sabia que no outro lado do mundo uma parte de si prosseguia numa vida que ele almejava mas que a sua mente mal podia conceber.
E ele tinha a sua marca para o recordar disso. Durante anos ela permaneceu no seu flanco, surgindo e desvanecendo aleatoriamente. Quando Arenito se encontrava mais melancólico costumava olhar par ela e tentar imaginar como o outro 'ele' se estaria a sair. O que se revelava uma tarefa frustrante, para dizer o mínimo, visto que apesar dele ser inteligente o suficiente para saber que existia uma vida melhor do que a que ele tinha tido, não era um deus e por isso não podia especular algo do qual não possuía qualquer tipo de conhecimento ou compreensão. Somente sabia que estava rodeado de outros póneis. Póneis que eram melhores do que ele, que eram melhores do que todos os outros póneis que ele conhecera.
Um dia teve um choque que o abalou imenso. Sem explicação a sua marca voltou a ser uma marca normal. Deixou de piscar, tão simples como isso. Arenito sempre soube que o seu alter-ego mais novo era uma criatura mortal. Sempre soube que todos os milénios de esforços sobre-equestres somente serviriam para trazer um outro Arenito ao mundo por um breve período de tempo até a velhice reclamá-lo. Só não esperava que falecesse tão rapidamente. A sua longevidade sobrenatural trouxe-lhe uma noção do tempo errónea, e a altura em que tinha trazido à existência a sua versão bebé parecia-lhe que tinha acontecido à apenas alguns instantes atrás.
Apressou-se a construir uma garrafa localizadora, semelhante à que em tempos usara para descobrir a origem da magia que movia o Sol e a Lua à incontáveis séculos atrás. Porém, ao contrário do anterior, o novo óleo estava sintonizado com a sua força vital. Mal o acabou de fermentar, começou logo a emitir dois raios de luz. Um brilhava sempre na direcção do seu peito, como seria de esperar, mas o outro apontava firmemente para sul. Qualquer duvida que assolasse Arenito dissipou-se imediatamente. Se aquele artefacto conseguia detectar a força vital do seu outro 'eu' então só poderia significar que ele ainda estava vivo. A alteração da sua marca deveria ter outra explicação para além do falecimento da sua outra metade. Sem se preocupar com mais nada, Arenito abandonou a pequena garrafa numa prateleira do seu laboratório e prosseguiu com a sua vida do costume.
Mas aparentemente não era como o costume que a vida tinha planeado prosseguir. Apenas alguns dias depois, numa manhã que equivocadamente parecia normal, Arenito levantou-se preguiçosamente e mastigando uma cenoura dirigiu-se ao edifício onde se localizava o seu laboratório. Lá ficou olhando para as mesas cheias de frascos e potes contendo a sua enorme colecção de ingredientes, tanto mágicos como mundanos, tentando pensar nalguma coisa interessante com que se entreter. Quase todos os dias dos seus últimos anos tinham sido assim, uma interminável e infrutífera busca para tentar manter-se ocupado. Mas naquele dia a sua rotina iria mudar.
Distraidamente, Arenito andava de um lado para o outro, analizando inutilmente o seu material, enquanto a pequena garrafa mágica que tinha construído alguns dias antes mantinha um dos seus ponteiros luminosos a seguir-lo. Inicialmente, Arenito estava demasiado distraído para reparar em algo de anormal, mas quando ocasionalmente passou os olhos pela prateleira onde a garrafa se encontrava tornou-se demasiado óbvio para ele o ignorar. O raio de luz ainda apontava para ele, mas não foi aquele raio que o alertou de que algo estava errado, foi o outro, o que apontava na direcção do outro Arenito. Estava a apontar para sudeste ao invés de ser para sul, como era suposto, mas mais surpreendente do que isso, estava a mexer-se. O movimento era muito ténue e Arenito teve que o observar muito atentamente para conseguir aperceber-se dele. Aquele movimento só seria possível se o seu alvo se encontrasse muito próximo. Arenito ficou sem margens para duvidas, o outro 'ele' acabava de regressar à sua casa natal.
Sem querer desperdiçar mais tempo, Arenito saiu do seu laboratório e levantou voo na direcção que o artefacto mágico apontara. Se o outro Arenito andasse pela cidade de certeza que o poderia avistar com bastante facilidade. Mas alcançou a periferia de Inferno sem ter detectado qualquer sinal de viva-alma nas ruas. Decidiu então prosseguir sobre a floresta, o que acabou por ser bastante infrutífero. A copa das árvores era demasiado espessa para se conseguir avistar o solo. A única coisa que Arenito encontrou foi os restos de um pequeno acampamento na orla da floresta. Uma fogueira apagada, duas camas, uma grande caixa de madeira cheia de sacos e caixotes e uma grande lona de tecido verde e vermelho provavam que alguns póneis tinham passado a noite ali. Pelo menos ele sabia que o seu alter-ego tinha voltado acompanhado. Rumando de volta à cidade, foi novamente tentando avistar qualquer pónei que pudesse andar pela floresta, mas a tarefa revelou-se tão inútil como na primeira vez.
Arenito tinha-se arrependido de não se ter lembrado de ter trazido a garrafa localizadora. Teria sido tudo muito mais simples. Fazendo uma rápida visita ao laboratório, levitou a pequena garrafa à sua frente enquanto voava pelo céu. Quando o brilhante raio de luz apontou em direcção ao solo, Arenito soube que estava mesmo por baixo da sua outra metade. Porém, ele não teria precisado do seu artefacto para o avistar, pois encontrava-se perto da periferia de Inferno e havia poucas árvores naquela região. Lá em baixo, por entre as folhas e os ramos, três vultos caminhavam em direcção à cidade.
Sem saber o que fazer, Arenito limitou-se a sobrevoá-los enquanto os observava. Reconheceu quase imediatamente o pequeno potro que tinha deixado à alguns anos atrás, se bem que já não era assim tão pequeno. Tinha-se tornado num garanhão completamente adulto, apesar de ainda manter as mesmas feições que possuía na sua infância. Os outros dois póneis eram duas éguas. Uma delas era uma unicórnia, possuía pelo azul vivo e a sua crina era violeta. A outra era cor-de-rosa e tinha uma crina dourada e roxa.
Ele ficou fascinado com aquelas éguas. Elas acompanhavam alegremente o Arenito mais novo, tagarelando descontraidamente com ele. Arenito estava pasmado com a relação daqueles póneis. Do seu ponto de vista achava inacreditável que algum pónei quisesse atravessar as Montanhas de Cristal para apoiar o seu alter-ego. Além disso, fazia vários anos que ele não presenciava póneis a darem-se tão bem, sem falar que um deles era uma parte dele próprio, o que fazia de uma maneira bastante literal ser aquela a primeira vez na sua vida que Arenito via a ser-se tratado como um pónei normal. A maneira como se relacionavam era tão simples e espontâneo que chegava a parecer-lhe completamente alienígena, contudo, sem deixar de ser algo natural.
Observando-as atentamente, Arenito tentava compreender a relação daqueles três póneis. Interrogava-se se as éguas seriam parentes adoptivas do outro Arenito ou se seriam suas conjugues. No final não era importante. Era bastante óbvio que elas estavam ali para o ajudar e apoiar, e era a única coisa que ele precisava de saber.
Trotando despreocupadamente por Inferno dentro, o trio de póneis parecia estar a meio de um descontraído passeio, como se Inferno fosse um simples destino turístico. De repente, a pónei rosa caiu redonda no chão. Ao levantar-se parecia ter ficado presa em alguma coisa. Foi preciso o seu 'eu' mais novo meter-se por baixo dela para ela conseguir finalmente se soltar.
Mas o azar daquela égua ainda não tinha acabado. Num momento em que os outros dois póneis estavam distraídos, alguma da vegetação circundante ganhou vida própria e rastejou em direcção à égua rosada. A pobre coitada só se apercebeu do sucedido tarde demais, quando as plantas já se estavam a entrelaçar à volta das suas patas. O outro Arenito e a égua azul apressaram-se a ir socorrê-la.
Por sua vez, Arenito encontrava-se perplexo. Ele não fazia a mínima ideia do que se estava a passar. No final de contas, tinham-se passado literalmente vários séculos da ultima vez que ele testemunhara tal evento. Seria muito de espantar se ele não se tivesse esquecido completamente da sua obra épica. Mas enquanto observava o trio de amigos a lutar contra aquelas heras mágicas voltou-lhe tudo à memória. A imensa aura de agressão e hostilidade que ele tinha criado à milénios atrás para se vingar dos póneis de Inferno ainda se encontrava funcional. Arenito, em ambas as suas versões, era imune a ela, mas as duas éguas não.
Os póneis conseguiram livrar-se daquele emaranhado de trepadeiras com relativa facilidade, mas de forma nenhuma estavam fora de perigo. Era somente uma questão de tempo e de sorte até aquelas raparigas caírem numa armadilha de que não conseguiriam sair vivas. Ele nunca se tinha preocupado com quem entrava em Inferno. Na realidade, Arenito nunca se tinha preocupado com nenhum pónei, a não ser com a sua outra versão. Mas aquelas éguas eram importantes para o outro Arenito. Ele importava-se com elas, isso era óbvio, e elas reciprocamente importavam-se com ele.

Ele teria que expulsar aqueles póneis de Inferno o mais rapidamente possível, pois era uma questão de tempo até ele (Não o ele 'ele', mas o outro 'ele', que na realidade era o mesmo 'ele'.) ter a fatalidade de perder aquelas éguas. Com aquela preocupação a atormentar a sua mente, Arenito dirigiu-se ao pequeno grupo de póneis, planando em direcção ao solo. Eles aperceberam-se da sua aproximação e viraram-se na sua direcção. Ele parou no ar e ficou ali a olhar para baixo para aqueles póneis. Tinha-se lembrado de um pormenor importante. Ele não sabia falar.
Assaltado pela indecisão do que fazer a seguir, Arenito decidiu que seria perigoso perder tempo e tentou comunicar da única maneira de que se lembrou. Começou a gritar, esperando que os póneis se apercebessem que ele estava a tentar mantê-los afastados daquele lugar. Será inútil dizer que não funcionou de todo. Arenito não conseguia ler muito bem as reacções nos rostos deles, mas era óbvio que eles não faziam intenções de irem embora. A sua versão mais nova até se aproximou dele e começou a falar-lhe algo que, sem qualquer tipo de surpresas, foi-lhe completamente incompreensivo.
Arenito começou a ficar aflito. Ele tinha criado aquele feitiço para ser eficiente a atormentar póneis, não para matá-los rapidamente, mas isso não impedia em nada o risco que aqueles póneis estavam a correr. Decidiu então comunicar de uma forma mais directa e voou ameaçadoramente na direcção daqueles póneis e passando um par de vezes sobre eles, próximo o suficiente para, desejava ele, os intimidar a sair de Inferno.
De seguida voou em direcção ascendente e pôs-se a fazer círculos sobre aqueles póneis. Queria dar-lhes espaço para poderem fugir, mas verificou que as suas tentativas foram inúteis. Tanto a sua outra versão como as suas acompanhantes limitaram-se a ficar onde estavam. A única que parecia assustada era a unicórnio. Ela estava deitada no chão, e mesmo àquela altitude ele conseguia aperceber-se da expressão apavorada dela. Porém, nem mesmo ela parecia ter vontade de regressar de volta à floresta.
Para seu espanto, o outro 'ele' começou a acenar-lhe. Arenito estava mesmo a sentir-se frustrado e irado. Não conseguia acreditar que aqueles póneis pudessem ser tão estúpidos ao ponto de ainda ficarem ali especados depois de tudo o que aconteceu. Tinha-se tornado óbvio que a vila do Inferno era perigosa. Para mais, ele próprio demonstrara explicitamente que não eram bem-vindos. Mas apesar de tudo, eles pareciam não ter quaisquer intenções de arredar o casco. O facto de um dos póneis ser ele próprio só servia para aquela situação o fazer sentir pior. Tantos séculos de trabalho somente para trazer à existência uma versão retardada de si próprio.
Arenito não sabia o que fazer. Com todo o seu poder em força bruta e proficiência mágica, não conseguia fazer algo tão simples como manter alguns póneis afastados de uma armadilha mortal de sua própria criação. Hesitantemente, ele decidiu afastar-se da vista daqueles póneis. Talvez assim eles perdessem o interesse e fossem embora. É claro que ele próprio não acreditava que iria resultar. Se o seu outro 'eu' ainda ali estava depois do que se tinha passado, de certeza que não mudaria de ideias tão facilmente. Mas que mais poderia ele fazer? Ficar ali a voar de um lado para o outro a olhar para aqueles póneis com cara de parvo e esperar que ganhassem juízo por simples espontaneidade?
Portanto Arenito virou-lhes as costas. Voou em direcção à parte norte de Inferno, e quando se distanciou o suficiente dos outros póneis pousou no meio da ramagem de um enorme e velho cedro. Esperava manter-se escondido lá, oculto das vistas dos seus visitantes inesperados. É claro que o encobrimento visual não impedia de nada o encobrimento auditivo. Um grito de pânico, capaz de causar arrepios até mesmo a ele, chegou às suas orelhas. Arenito não conseguiu resistir à curiosidade. De novo levantou voo e procurou os seus visitantes para descobrir o motivo de tamanho berro. Não demorou muito a encontrá-los. Uma antiga parede, últimos restos de uma das casas daquela aldeia, tinha capturado as éguas. Enrolado como o casulo duma borboleta, o muro formava um tubo do qual numa ponta ostentava a cabeça da égua rosa e da outra balançava uma cauda violeta. Quanto ao seu outro 'ele', fazia os possíveis por libertá-las.
Sentindo-se tentado a deixar aqueles póneis tontos morrer, manteve-se impassível por uns instantes. Tinha a absoluta certeza que o mundo ficaria melhor sem duas éguas estúpidas que saltaram para a boca do lobo do bosque e lá ficaram até morrer. Mas lá em baixo, lá ao pé delas, ele estava desesperado por as salvar, esgravatando freneticamente com os cascos aquela manopla de tijolos e cimento.
Arenito não tinha qualquer escolha. Parecia impossível que aqueles póneis fossem abandonar Inferno em breve. Ele também não desejava que o outro 'ele' perdesse póneis que pareciam ter um laço tão forte com ele. O seu berço, protegendo-o ao longo de incontáveis séculos, teria que perder o seu encantamento. Sem ele, Inferno não era mais do que uma vulgar área de terreno, deixando-se pisar por quem quisesse lá entrar. A forma mais rápida de conseguir isso seria destruir fisicamente os totemas que teciam a magia e a alimentavam.
Felizmente não se encontrava afastado da localização do totema que estava mais próximo de si. Era o que tinha escondido debaixo das águas do rio que atravessava o norte de Inferno. O rio à muitos séculos que tinha secado. O seu leito, rico em lama fértil, tinha-se tornado numa enorme vala que Arenito aproveitava para cultivar plantas que exigiam solos mais argilosos. Lá, meio enterrado entre papiros e lírios , resplandecia o totema. Era facilmente avistável do ar, mesmo se não fosse dotado de iluminação própria.
Arenito não estava com meias medidas. Não tinha tempo a perder, por isso arriscou carregar contra o seu artefacto mágico. Ganhando altitude, alcançou algum balanço extra que utilizou para se lançar lá do alto contra o seu alvo e, à maneira de um projéctil, chocou de patas estendidas contra a sua própria criação. O objecto de barro lamacento e âmbar falso era magicamente mais resistente do que o seu aspecto aparentava, mas não ofereceu qualquer resistência à força bruta do poderoso pónei. Desfez-se facilmente em pedaços debaixo dos seus cascos. Toda aquela energia libertada pelo impacto fez cacos, lodo e bocados de plantas saltaram caoticamente para todo o lado.
Privado de um dos seus pilares de estabilidade, o feitiço massivo que envolvia todo o Inferno enfraqueceu e momentaneamente entrou em colapso. O choque de ter-lhe sido arrancado um órgão vital percorreu-o como um arrepio à medida que se adaptava à falta de uma fonte de poder. E tal como uma onda marítima que oscila os barcos que encontra pelo caminho, também a onda de choque abalou fisicamente a matéria que controlava. Um rugido tectónico fez-se ouvir, e um pequeno tremor de terra fez-se sentir em todo o Inferno.
Levantando-se do meio da lama onde se encontrava metido, Arenito tomou um momento para aclarar as ideias. Sentia-se tonto. A força inaudíta com que se tinha lançado contra o solo era suficiente para ter enviado um pónei comum para o cemitério, ou pelo menos para umas longas férias no hospital. Felizmente Arenito não era nada como um pónei comum e somente tinha ficado um pouco atordoado com o embate.
Não demorou muito a aperceber-se do estado do seu feitiço. O seu corno era suficientemente sensível a emanações mágicas para conseguir sentir o estado do seu encantamento. Tinha perdido poder e estava momentaneamente inactivo, mas a sua compleição impedia-o de entrar em colapso permanente. Seria necessário destruir mais totemas para desligá-lo permanentemente. Pela primeira vez na sua vida Arenito lamentou ser um feiticeiro tão proficiente.
Voltou a erguer-se no ar e dirigiu-se para o totema mais próximo da sua posição. Era o totema que se encontrava precisamente no meio da vila de Inferno, o que Arenito colocara no fundo do poço que em tempos longíncos servia a população de póneis com água fresca. A orla do poço já à muito que tinha ruído mas o corpo principar do poço ainda se encontrava desimpedido, e a luz do totema avistava-se bem na escuridão das profundezas da terra. De qualquer das formas, o poço em si era bastante largo, mas não foi construído para a passagem de um colosso como o Arenito. Já tinha feito vários séculos desde a ultima vez que o tinha explorado. Entretanto tinha crescido imenso. Provavelmente Arenito não conseguiria voltar a descer, mas na altura estava tão fixado em proteger as companheiras da sua versão mais nova que isso não o preocupou tanto quanto seria aconselhado.
Como anteriormente tinha procedido, voltou a ganhar altitude e mergulhou para a boca do poço. Fechou as asas e encolheu as patas antes de entrar, mas não lhe serviu de muito. A largura do poço era mesmo à justa para qualquer outro pónei do tamanho de Arenito passar, mas os seus apêndices alados eram demasiado grandes e muito pouco ágeis para ele conseguir executar aquela acrobacia. Imediatamente depois de entrar no poço apercebeu-se instantaneamente do erro que tinha cometido. Sentindo o atrito dos tijolos e das pedras a esfolar-lhe as asas e a garupa, Arenito imobilizou-se a cerca de três metro de profundidade. A experiência tinha sido desconfortável e um pouco dolorosa, mas o pior de tudo era que tinha ficado completamente imobilizado.
Lá em baixo, a uma dúzia e meia de metros de profundidade, o totema brilhava no meio das águas escuras. Estava ali, mesmo à sua frente e ao mesmo tempo inacessível. Arenito esforçou-se por desceu até ao fundo do poço, mas foi completamente inútil. Esperneou, abanou-se, uivou, mas de nada mais lhe serviu do que conseguir avançar alguns centímetros. Frustrado com a sua situação, decidiu tentar quebrar o totema à distância. Primeiro lançou um raio de plasma, o feitiço de ataque mais poderoso que conhecia. Completamente inútil, visto que a natureza altamente mágica do totema funcionava como uma espécie de resistência à magia e só conseguiu chamuscá-lo um pouco. Experimentou então outro método. Usando um feitiço de telecinesia, arrancou um tijolo da parede do tunel e projectou-o contra o totema. Um grande 'splash' fêz-se ouvir quando falhou redondamente o alvo e acertou na água. Repetiu então a tentativa que acabou por ser mais eficaz. Uma pedrada bem certeira atingiu o alvo. Lamentavelmente não levava velocidade suficiente para provocar algo mais do que uma pequena rachadela.
Para Arenito a situação estava parada, tanto no sentido figurativo como literalmente. Não conseguia avançar, não conseguia recuar, não conseguia destruir o totema. Infelizmente, ele encontrava-se completamente incapaz de fazer alguma coisa. Enquanto estava mergulhado na frustração da sua impotência, aconteceu o improvável. Outro totema tinha sido destruído. Arenito sentiu a desestabilização do manto mágico mesmo antes de um novo terramoto se manifestar. Para outro pónei teria sido bastante traumático estar preso debaixo da terra durante um terramoto, mas para Arenito foi uma bênção. Pedras, tijolos e torrões de terra caiam da parede do poço com a violência das vibrações e Arenito começou a sentir-se um pouco mais folgado. De qualquer das formas os seus pensamentos estavam mais virados para outro assunto. Um totema tinha sido destruído, disso não restava qualquer duvida, mas não tinha sido ele a fazê-lo. Também tinha a certeza que não tinha quebrado espontaneamente, caso contrário de certeza que já teria acontecido algo semelhante nos milénios que passaram desde que os tinha criado. Sem sombra de duvidas que tinha sido obra dos outros póneis. Arenito sentia-se impressionado por aqueles póneis serem suficientemente espertos para se aperceberem da sua aura e compreenderem como a desligar. Por outro lado um desses póneis era ele.
De qualquer das formas, Arenito decidiu tentar novamente chegar ao fundo do poço. De novo se tentou soltar. Contorcendo-se o melhor que pôde, conseguiu avançar para o fundo do poço. O terramoto anterior tinha derrubado e soltado muitos tijolos e apesar de não se deslocar muito depressa, ia permitindo-o descer aos poucos.
Prosseguindo na sua descida, tinha já conseguido percorrer um par de metros quando sentiu cair qualquer coisa no seu traseiro. Não o tinha preocupado muito, pois pensou que tinha sido uma pedra que tivesse desabado. Porém, quase imediatamente depois disso, sentiu outra coisa. Era relativamente grande, pesado e possuía quatro cascos. Arenito não queria acreditar. Estava um pónei em cima dele, a andar mesmo em cima do seu traseiro.
Uma corda preta e sedosa caiu entre a sua asa esquerda e o seu corpo e ficou pendurada, a balançar até às profundezas do poço. O pónei que tão audaciosamente tinha saltado para aquele poço com ele começou a enfiar-se pelo mesmo espaço por onde tinha lançado a corda. Sentiu-o a deslizar entre as suas costelas e as falanges da sua asa e não demorou muito até a cabeça dele surgir ao pé da sua. Era a égua cor-de-rosa. Tinha o seu cabelo colorido e encaracolado atado numa trança que balançava mesmo à frente do seu focinho. Durante uns instantes fixou os seus brilhantes olhos azuis nos dele enquanto o observava com curiosidade. Arenito não sabia o que pensar. Fazia milénios que ele não se encontrava tão próximo de outro pónei.
Aquela pónei tentou falar-lhe qualquer coisa que ele não compreendeu, mas depressa desistiu de comunicar com ele. Prosseguiu então a puxar o resto do seu corpo do aperto onde se encontrava e começou a descer para em direcção às profundezas do poço. Arenito observava-a atentamente, vendo-a a descer entrelaçada na corda, de cabeça para baixo e com a maior das naturalidades.
Mas é claro que pónei algum para além dele poderia caminhar por Inferno sem consequências. Tinha ela descido quase metade da distância que a separava do fundo quando uma nova manifestação do massivo feitiço tomou-a como alvo. Pequenas lâminas cresceram nos tijolos e pedras que compunham as paredes do poço e atacaram impiedosamente a audaciosa pónei rosa. Aflitivamente, começou a baloiçar e a empurrar-se para longe da parede, tentando manter-se afastada daquelas laminas que insistiam em a atacar. De nada lhe serviu. Algumas delas golpearam a corda que a sustentava e a pobre égua caiu pelo poço abaixo. Ela ainda se conseguiu agarrar a uma concavidade, mas o azar perseguia-a. Os tijolos em que ela se segurava desprenderam-se da parede. Arenito ainda tentou usar a sua telecinesia para apanhá-la, mas ela já estava para além do seu alcance. Nada a impediu de mergulhar de novo em direcção ao fundo do poço.
Arenito viu impotentemente a égua chocar de cabeça contra o seu totema. Ela ficou inconsciente e a boiar na água, se bem que com o brilho do totema a incidir directamente nos seus olhos, Arenito não conseguia aperceber-se se ela estava bem, morta ou a afogar-se. Aquele incidente relembrou-lhe o quanto era importante inutilizar depressa a aura mágica. Retomou novamente o esforço de tentar se deslocar até ao fim do poço.
Se bem que tivesse demorado um bocado, conseguiu finalmente chegar à câmara onde se encontrava o totema. Soltando-se da estreita passagem e caindo na pequena cisterna subterrânea, o seu primeiro impulso foi ver o estado da pónei. Ela estava bem, apesar de ainda estar completamente inconsciente e de possuir uma ferida um aspecto mesmo horrível no lado esquerdo da cabeça. Arenito empurrou-a para cima de uma rocha, onde não correria o risco de se afogar. Virou-se então o seu totema. Somente a ponta superior se encontrava acima da superfície da água, mas a luminescência que irradiava via-se bastante bem. Na realidade, a presença do totema tornava aquele lago subterrâneo mais bem iluminado do que a superfície debaixo do Sol do meio-dia.
Arenito empinou-se sobre as patas traseiras e deixou cair as dianteiras contra o totema com quanta força possuía. Mesmo com a água onde estava submerso a absorver parte do choque, o totema quebrou-se facilmente em dois. Os dois bocados rebolaram pelo fundo do lago enquanto a sua luminescência se desvanecia. Fez-se então escuridão quase completa. Somente a luz solar que entrava pelo tecto alumiava ainda aquela cisterna natural. Arenito sentia as pulsações que o seu imenso feitiço lançava ao tentar estabilizar-se, mas tinha perdido demasiados alicerces para se conseguir auto-sustentar. A magia começou a desfazer-se irremediavelmente.
Com o derradeiro colapso do imenso manto mágico de Inferno, a terra voltou a tremer. Porém, daquela vez foi muito mais violento e o poço começou a ruir. Apercebendo-se de que iriam ficar subterrados, Arenito sentiu realmente medo pela primeira vez em séculos. Porém, não receava pela sua vida, ele era demasiado velho e solitário para temer a morte. Horrorizava-o, isso sim, que o seu outro 'ele' perdesse um ente-querido. Uma égua que o adorava tanto que arriscou a sua vida para o seguir até aquele fim de mundo. Ele recusava-se a tolerar que o seu alter-ego perdesse o que ele nunca posssuíu. Sabendo que não teria muito tempo, Arenito usou a sua magia para levitar a pequena égua cor-de-rosa e projectou-a pelo poço acima.
Ainda mal a tinha visto desaparecer da sua vista, as paredes do poço começaram a rachar e uma chuva de pedras, terra e tijolos velhos precipitou-se sobre ele. Num saldo, Arenito afastou-se mesmo a tempo de evitar ser atingido por aquela torrente de entulho. Encostando-se a um canto, esperou que o tremor de terra passasse enquanto as paredes de rocha vibravam e rachavam violentamente. À sua volta ia ficando cada vez mais escuro à medida que os detritos iam bloqueando a luz solar.
Quando a terra parou de ranger, Arenito iluminou a área circundante com a magia do seu corno. O fundo do poço encontrava-se irreconhecível. A maior parte do tecto tinha ruído e um massivo monte de terra e pedras ocupava a maior parte do anteriormente espaço vazio e bloqueava completamente o poço. Tendo começado a escavar como podia um caminho até ao topo do poço, Arenito desistiu não muitos minutos depois. Remover aquela terra toda iria demorar uma eternidade, para não falar no risco de provocar uma derrocada e subterrar o pouco espaço livre que ainda lhe restava. Ele precisava de usar outra saída.
Arenito sabia que quase todos os poços de Inferno eram alimentados por um rio subterrâneo. Se bem que já não se lembrasse muito bem da sua configuração, tinha-o explorado um pouco à vários séculos atrás. Mergulhando nas águas lamacentas, procurou pelo pequeno túnel que ele esperava que não tivesse ficado atulhado com a derrocada. Mesmo com toda a luz que ele conseguia conjurar, Arenito estava quase cego no meio daquelas águas completamente turvas. Sondando o chão e as paredes com os seus cascos, demorou mais tempo do que ele calculara, mas eventualmente localizou a saída.
Arenito temia que o colapso da magia de Inferno tivesse bloqueado aquele túnel. Com a sua compleição sobrenatural, ele conseguiria ter fôlego mais que suficiente para atravessá-lo, mas se tivesse que voltar atrás ou perdesse tempo a remover escombros então arriscar-se-ia a ficar sem oxigénio nos pulmões antes de conseguir voltar à superfície. De qualquer das formas, ele não poderia ficar ali para sempre e sabia que o rio subterrâneo era a sua melhor opção de fuga. Inspirando vigorosamente o ar meio rarefeito, mergulhou na água e prosseguiu pela passagem subaquática nadando o melhor que pôde.
Aquela passagem era mais estreita do que ele se lembrava (Na realidade era ele que tinha crescido alguns centímetros. Afinal de contas tinham-se passado vários séculos desde a ultima vez que a percorreu.), mas Arenito estava com sorte. Exceptuando algumas partes que eram tão pequenas que quase o fizeram ficar preso, o túnel tinha-se mantido intacto e desimpedido, resiliente à acção dos terramotos.
Conseguiu alcançar o fim do túnel sem grandes problemas. Quando emergiu a sua cabeça das águas estava no fundo dum outro poço. Felizmente este estava em muito melhor estado do qual Arenito acabava de deixar para trás. A luz do Sol via-se claramente a entrar pela abertura no tecto, e iluminava bastante bem toda aquela concavidade. Lá, meio submerso na água, estava um dos restantes totemas. Ainda estava fisicamente intacto, mas com a destruição do manto mágico ao qual estava ligado, a sua magia esgotou-se e o totema tornou-se numa simples peça de arte abstracta.
Arenito rastejou para a margem daquele pequeno lago e deitou-se lá, recuperando o fôlego perdido durante a travessia. Continuou lá até muito depois da sua respiração ter acalmado, deixando-se ser vencido por alguns arranhões e ferimentos superficiais que noutra ocasião nem sequer se aperceberia que os tinha. Invadido por uma euforia tranquila, encontrava-se em paz com o mundo, algo que nunca tinha estado antes. Tinha perdido o seu santuário que tinha sido o seu lar durante incontáveis milénios. Mas isso não lhe importava, pois sabia que uma parte de si levava uma vida idílica. Eventualmente aquele estado abençoado de contentamento terminaria e ele voltaria ao seu habitual estado de melancolia e solidão, mas não naquele momento. Naquele momento Arenito sentia-se feliz e estava apostado em desfrutar de cada segundo dessa felicidade.

Notas finais
Isto deveria ter sido dito na introdução do primeiro capítulo, mas como arruinaria a história acho melhor dizer no final. Como eu disse previamente, comecei a escrever este conto a meio da quinta temporada. Até aí as referências sobre viagens no tempo que eu tinha foram o episódio vinte da segunda temporada, a banda desenhada Friendship Is Magic numero vinte e quatro e The Jornal Of The Two Sisters. Todos eles indicavam bastante explicitamente que era impossível mudar a história usando viagens no tempo. Quando deu o final da quinta temporada eu já tinha escrito cerca de um terço da história. Ademais eu já tinha a ideia da clonagem temporal (Se é assim que se pode chamar.) quase desde o principio. A última coisa que eu quereria fazer era mudar o meu conto, especialmente porque tudo gira à volta de Arenito, Efémero e Inferno. Se o passado pudesse ser mudado, mesmo que houvesse um paradigma que permitisse a Arenito e Efémero coexistirem, então Inferno deixaria de existir e o fio condutor de toda a história desapareceria.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!