Os olhos de Vênus
Longas tranças escorridas que serpenteavam pelas costas dela — Emily. Corriam como tinta e coloriam sua pele branca com um milhão de nuances de amarelo e veja, não é um canário? Mas canário aprisionado dizem que não canta! Ao seu redor a poeira flutuava no ar — o sol entrava pelas janelas altas, claras, e tudo parecia ainda mais antigo, mofado. Emily amava aquele lugar. Emily havia dado mais que o sangue para estar ali, naquele museu: havia dado tudo.
Do outro lado da sala onde em sete horas, trinta e sete minutos e (ela para e olha o relógio na parede bege) vinte e cinco segundos aconteceria uma exposição de pinturas cubistas. Quase um ano de intensa preparação: receber, catalogar, analisar o estado, conservar! A profissão de uma museóloga nunca tinha fim, jamais! Enfim. Do outro lado da sala. Do outro lado da sala, Anya — a garota nova transferida direto de um dos museus de Moscou, naquela Rússia gelada, para Londres — observava, a cabeça inclinada e a expressão intrigada, a moldura vermelha de um quadro.
Emily repreende seu próprio coração que se torna absolutamente ingênuo, tolo, cada vez que seus olhos relanceiam para a figura de Anya, que inevitavelmente estará fazendo alguma coisa obscura? Quem sabe o que se passa naquela cabeça loira? O que se esconde atrás daqueles animados olhos violetas é um mistério. Um mistério total, completo e absoluto, e Emily se resigna.
Mas não realmente. Profundamente. Caminha, um decidido passo após um decidido passo, os olhos erguidos e a expressão segura. Ela é uma adulta. Para atrás de Anya e sorri.
— Anya, o que tanto olha numa moldura?
— É vermelha. — ela responde, indiferente, sem se mover. Emily não se importa.
— Eu vejo.
— Não combina com a pintura, não deveria ser vermelha, deveríamos mandar trocar.
— Não podemos mandar trocar, — Emily explica pacientemente, seus dedos se esgueirando e se aninhando junto ao cotovelo coberto por um casaco, duas blusas (cashmere?) de Anya — essa é a moldura desde que o autor pintou essa obra.
— Está me dizendo que será essa moldura e pronto e acabou. — não é uma pergunta.
— É exatamente o que estou dizendo.
— Isso é uma desgraça.
— Isso é trabalho, Anya, trabalho. — dois minutos de muda contemplação da moldura. — Você quer um café?
— Achei que você nunca fosse perguntar.
~
Anya está sentada. Seu braço direito encosta no braço esquerdo de Emily cada vez que ela se move, o que acontece muito, já que ela está limpando os detalhes de uma escultura particularmente complexa e delicada. O que também quer dizer que Emily não tem permissão de falar, Anya se estressa muito fácil quando está assim ocupada. Então ela apenas fica lá, tensa, segurando a respiração, sentindo os braços delas roçarem (tiraram os casacos, a sala está quente) e Anya simplesmente não dar a mínima para ela.
É quase reconfortante.
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É manhã e Emily está sentada no chão, as pernas cruzadas como uma bailarina, levando um copo de café lentamente aos lábios, devagar. O clima é ameno porque é outono. Anya odeia climas amenos, sendo russa até os ossos, então está, a expressão ranzinza e o olhar cheio de ódio, apoiada na parede, em pé ao lado de Emily, que tenta convencê-la como outono é maravilhoso — é tempo de renovações, afinal. Sobre isso, Anya é categórica, sua resposta é rápida e enfática: estou me fodendo. Logo depois, acrescenta: não quero renovar coisisíssima nenhuma. Emily suspira e desiste.
Se pergunta se com Anya não é uma sucessão, um ciclo vicioso de suspiros e desistências.
~
A primeira vez que Emily viu Anya fora do museu pareceu muito errado. Como agarrar a Mona Lisa e sair carregando ela para longe do Louvre soaria. Ela estava num bar, na parte de fora, um copo cheio de vodka numa mão e um cigarro de filtro preto na outra. Parecia triste e sozinha e, acima de tudo, parecia odiar Londres. Emily podia entender, ela também odiava Londres. Então, se aproximou e disse olá.
Anya só a encarou com aqueles grandes olhos violetas por longos instantes. Então disse que não ia dividir a vodka e foi embora.
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Anya é apaixonada por piano quase tanto quanto Emily ama ser museóloga. Ela inclusive já tentou trazer um concerto de piano para o museu mesmo, mas vetaram. Ela ainda não perdoou a administração pelo que ela chama de essa grave ofensa. Todas as quintas feiras ela pergunta você quer ir ao concerto comigo? Emily sempre fica tentada, tentadíssima, a dizer sim. Mas sempre diz não.
Porque aquele relacionamento, se é que existe um, é confinado à solidão daquelas paredes.
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Emily tossiu no meio daquela fumaça que lhe dava um ar étereo, de sonho. Estavam na fachada do prédio, do lado de fora ele já se entregava, já mostrava o que era, a que veio. Emily gostava disso. Se orgulhava. Museológa era tudo, tudo, tudo para ela. Qualquer coisa virava pó quando comparado à isso.
— Quando cheguei aqui achei que era um incêndio! — uma tosse seca, forçada, e Anya revira os olhos. Francamente.
— Claro. Aham. — sopra mais uma baforada de fumaça, distraída. — Lembra daquela exposição de arte barroca…?
— Semestre passado? Pinturas e esculturas?
— Essa mesma.
— Tem uma garota, o nome dela é Natalya, Natyuska, alguma coisa assim, a conheci nessa exposição. Trocamos telefone e tudo o mais.
— Interessante. E? — Emily sorri, os olhos se enrugando. Interessada, divertida, os olhos brincando com uma nota de preocupação. Anya sente uma onda de amor lhe percorrer, e balança as mãos, como se dispensasse as palavras.
— E nada.
— Não aconteceu nada?
— Uns beijos.
— Isso sim é interessante.
— Não seja ridícula! — o som de algo (revista) se chocando com algo (braço de Emily). Risadas.
Risadas que se apagam no fundo.
~
— Odeio manhãs. Odeio pessoas matinais. — Emily se arrastou para a sala escura e abafada, mas fria, mesmo assim, fria, em que Anya analisava imperiosamente uma escultura com um ar surrealista.
— Não seja boba, Emily, pelo amor de deus. — ela resmungou, com descaso, se inclinando para deslisar o dedo indicador coberto por luva ao longo de um pequeno estrago no canto esquerdo. — Mhm.
— O que você achou aí?
— Nada demais, nada demais. Um estragadinho. Ação do tempo. Nada que possamos fazer, infelizmente… Há um limite de quantas restaurações uma obra de arte aguenta. E para algo pequeno assim!
— Odeio o clima de Londres.
— Quem é que não odeia?
— Você! Olhe você aí, — seu tom de voz estava cheio de um desprezo desdenhoso — imponente e imperiosa no seu sobretudo que te caí tão bem (onde você comprou esse sobretudo? Não é meio ilegal não parecer um marshmallow com pernas nessa época do ano?) analisando uma escultura recém-chegada como se não fossem indecentes 7h43 da manhã! 7h43!
— Você que vai ficar com a parte de ser guia hoje, Emily. Tá no painel.
— Viu! Hoje, ainda por cima, é o meu dia de ser guia! Odeio ser guia. Odeio turistas. Odeio não-turistas. Malditos. Que fiquem todos longe do meu museu.
— O museu tecnicamente é da prefeitura.
— Detalhes!
— Ontem foi o dia daquela estagiária egípcia, não foi? Jade, o nome dela?
— Sim, acho que foi, acho que foi… Amanhã é você, e é isso que me consola. Eu posso me foder hoje, e eu definitivamente vou me foder, mas o que é seu está guardado, Anya, você que aguarde.
— Meu deus! Como você está ranzinza! É por causa da neve?
— É a neve e o frio, meu deus como está frio. Você obviamente não notou, sua russa indecente, mas está beirando graus negativos!
— Normal. Na minha terra isso aqui é, sei lá, outono. E um bom outono.
— Isso tinha que ser proibido por lei.
— Pare de reclamar e me ajude aqui a girar essa estátua, no relatório do Museu de Idaho diz que está tudo perfeitamente em ordem, mas estadunidenses são idiotas.
— EI! Olá! Estadunidense aqui! Aliás, isso não tinha vindo do Museu N. de Montana?
— Sei lá, todos os estados daquele país obsoleto me soam iguais, mas você pode checar o relatório ali. — apontou com a unha manicurada para uma pasta em cima da mesa.
— Nah. Deixe-me te ajudar com essa escultura.
Vinte minutos de trabalho intenso e silencioso depois, a estátua recebia oficialmente a inscrição de perfeitas condições, com a exceção de pequenos desgastes pelo tempo no relatório do Museu de Londres, assinado pela museóloga russa — formada e mestrada pela Universidade de Moscou — Anya Braginski, com pequenas notas aqui e ali provenientes da museóloga estadunidense (formada em Yale) Emily Jones.
~
Do outro lado do salão a funcionária chinesa (Seoglian?) explicava sobre os conjuntos de chá de barro do século IX e sobre a importância de se fazer chá neles continuamente (o que ela estava fazendo) para que o barro não ressecasse e quebrasse. Ao lado de Emily, Anya esperava, imóvel, as mãos entrelaçadas em frente ao corpo. O braço direito de uma encostava no esquerdo da outra. Era profundamente reconfortante, a voz de Seoglian e as histórias de antigas vilas chinesas em suas cerimônias de chá. E a presença silenciosa de Anya. Sempre Anya.
— A gente podia ir naquele concerto de piano. Eles vão tocar composições de Rachmaninoff . — a voz dela soou vaga e baixa, os olhos perdidos na figura atlética da colega de trabalho chinesa.
— Vamos, então.
— Vamos? — os olhos dela se viraram surpresos em sua direção.
— Vamos. Vamos assistir esse concerto. — sorriu. — Vai ser legal.
Anya riu, se inclinou e beijou a bochecha de Emily, que corou, o cabelo loiro encaracolado como uma cortina que lhe escondia dos olhos violetas.
— Vamos logo. Vamos deixar Seoglian e seus bules.
(naquela noite, Emily pensou entender quando sua irmã dizia que quando a gente ama muito alguém, de verdade, ama tanto que pensa que poderia explodir. No concerto, os olhos violetas de Anya brilhantes, Emily notou: ela a amava tanto, tanto, que pensava que poderia explodir.)
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