Os olhos de Annelise
1 Monstro.
Notas iniciais
Oh, olhos. Olhos que pouco viram, olhos que tudo fizeram. Olhos que testemunharam, olhos que presenciaram a morte de seu ente mais querido. Olhos que lágrimas soltaram, que tristeza refletiram.
O enterro definitivamente fora um dos eventos mais tristes que Annelise presenciara. Com seu vestido preto já antigo e os sapatos sujos de lama, caminhava em conjunto à multidão, que cortejava o caixão do falecido. O véu que usava, ensopado com as gotas de chuva que também davam seu adeus, colava ao redor de seu rosto.
Mesmo assim, tudo era tão claro. Tão sublime. Conseguia enxergar com precisão as expressões dos familiares do falecido, e ali via uma mistura tão singular quanto sua própria existência. O filho mais velho demonstrava incredulidade. Ora, o pai era conhecido pela força pétrea, pela personalidade de aço. Logo era de se estranhar que a morte lhe batesse às portas tão rápido e de maneira tão abrupta. Os comentários eram gerais, o homem que em seus quarenta anos caíra na cama e jamais se reerguera. Médicos de todo o estado vieram na tentativa vã de salvá-lo, loucos por um pouco do prestígio que o sobrenome daquele que jazia definhando representava.
A esposa, franzina e delicada, chorava copiosamente nos braços dos filhos. Parecia não aguentar o peso do próprio corpo e era carregada por um e outro que passava. O ser humano é estranho, isso Annelise sempre soubera. Prova disso era a expressão de alívio que vez ou outro escapava da matriarca. Ora, era de se imaginar que alguém que era conhecido justamente pelo humor difícil não fosse a melhor das flores em ambiente doméstico. Pelo contrário, provavelmente o homem era o espinho da casa. Aquele que aperta, sufoca, até retirar todo o sangue de quem lhe dirigisse um olhar torto.
O filho mais novo era a criatura mais ambígua que Annelise já vira. Andava em passos curtos, tentando ajudar a mãe mesmo com seu pouco tempo de vida. Quando não conseguia ver a calma nos olhos desta, se exasperava e corria ao irmão mais velho — que logo estava ao socorro da mulher. Aparentemente, seu tempo era todo para e com a mãe, pois não parecia nem ao mínimo intrigado com o fato do pai estar em um caixão selado a poucos metros.
Uma morte horrível, disseram. O estado do falecido era tão horrendo que foi de unanimidade que seu rosto não aparecesse, que ficasse escondido atrás de uma grossa camada de panos e madeira. Antes a face robusta e corada, hoje um cadáver que mesmo entre os mortos é monstruoso.
Montruoso como sua alma, Annelise presenciara. Pena que, dentre os terrores, era a pior. Com um sorriso triste, consolou a esposa e recebeu seu pagamento em uma bolsinha de cetim. Discreta, como o veneno que o vinho favorito do morto carregava.
Afinal, apenas um pesadelo pode destruir o outro.
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