Prólogo

O silêncio tinha um peso diferente naquela noite.

Layla já conheceu muitos tipos de silêncio. O das salas de investigação, quando ninguém ousava dizer em voz alta o que todos haviam descoberto. O das madrugadas em que o sono simplesmente não vinha. O silêncio que precedia uma manifestação paranormal, carregado de uma expectativa quase palpável.

Mas aquele era diferente, não anunciava nada. Era o silêncio de alguma coisa que havia terminado.

Ela permaneceu imóvel por algum tempo, sem saber exatamente quanto. O mundo continuava existindo à sua volta com uma indiferença que lhe parecia quase ofensiva.

Tudo permanecia onde deveria estar. Exceto ele.

Layla fechou os olhos. Não adiantou.

Havia imagens que persistiam mesmo quando se tentava expulsá-las. Gestos interrompidos, palavras que adquiriam novos significados depois de pronunciadas, decisões que continuavam acontecendo dentro da memória muito depois de terem sido tomadas.

Ele fizera uma escolha. Era uma frase simples. Quase banal.

Pessoas faziam escolhas todos os dias. Algumas eram equivocadas, outras necessárias. Layla sabia disso. Conhecia suficientemente bem a natureza humana para compreender que afeto e lealdade nem sempre caminhavam na mesma direção.

Ainda assim, não conseguia afastar a pergunta. E eu?

Não a pronunciou. Talvez porque não soubesse a quem dirigi-la. Talvez porque temesse que, ao ouvir a própria voz, a pergunta adquirisse uma realidade que até então conseguiu manter à distância.

Seu primeiro impulso foi procurar uma explicação.

Era o que sempre fazia diante do desconhecido: observar, reunir informações, identificar padrões, estabelecer hipóteses. Tudo possuía uma origem, uma lógica, uma sequência de acontecimentos capaz de conduzir a alguma resposta.

Até o impossível obedecia a certas regras. Ela aprendeu isso da pior maneira, mas não havia investigação que pudesse modificar uma decisão já tomada.

Lúcifer partiu. E ela ficou.

A formulação lhe pareceu absurdamente injusta. Não porque esperasse que o mundo lhe devesse alguma coisa. Há muito deixou de alimentar expectativas tão ingênuas.

Mas porque, em algum momento, sem perceber exatamente quando, permitira-se acreditar que algumas pessoas permaneceriam.

Um erro de avaliação. Era assim que deveria chamar aquilo. Um erro.

Layla inspirou lentamente e abriu os olhos. Conhecia a dor de perder alguém. Conhecia a impotência de perceber que nenhum conhecimento, nenhuma habilidade, nenhuma preparação seria suficiente para impedir certas coisas.

O que ainda não sabia era como lidar com uma ausência que não foi imposta pelo acaso.

Ele estava vivo. Em algum lugar que ela não podia alcançar, e havia escolhido estar lá.

Por um instante, sentiu vontade de odiá-lo. Seria mais simples. A raiva oferecia direção, propósito, movimento. A raiva podia ser utilizada.

Mas aquilo que sentia não se deixava organizar com tanta facilidade.

Havia mágoa, certamente. Havia perguntas. E havia algo mais, algo que se recusava a examinar.

Layla passou a mão pelos cabelos ruivos, num gesto cansado, e obrigou-se a endireitar a postura. Não podia permanecer ali indefinidamente. Havia coisas a fazer. Sempre havia…

O mundo não deixaria de produzir horrores apenas porque o dela acabara de assumir uma forma diferente.

Ela sabia que, em algum momento, precisaria se levantar e continuar. Não porque estivesse pronta, mas porque continuar era uma das poucas coisas que aprendera a fazer sem precisar acreditar que tudo terminaria bem. Por enquanto, porém, permitiu-se alguns instantes de imobilidade.

E, pela primeira vez naquela noite, deixou que uma lembrança se aproximasse. Não a última. Uma muito mais antiga… De um tempo em que ainda não sabia quantas vezes seria obrigada a recomeçar.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.